A classificação de risco passou a ocupar posição mais relevante na estratégia de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) que pretendem ampliar a captação junto a investidores institucionais. Em um mercado que reúne estruturas cada vez maiores e mais sofisticadas, a obtenção de ratings elevados funciona como uma das ferramentas utilizadas por gestores para reduzir a assimetria de informação sobre a qualidade dos recebíveis, os mecanismos de proteção e a capacidade de pagamento das diferentes classes de cotas.
A mudança ocorre em paralelo ao amadurecimento regulatório da indústria. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mantém bases atualizadas de informes mensais dos FIDCs e, desde a entrada em vigor do regime específico da Resolução CVM 175, o segmento passou a operar dentro de uma estrutura normativa mais detalhada. Em março, a autarquia publicou a Resolução CVM 240, que alterou regras para direitos creditórios cedidos por empresas em recuperação judicial ou extrajudicial.
O movimento também coincide com uma atuação mais intensa da CVM sobre riscos operacionais e de governança. Em 11 de setembro, a área técnica da autarquia publicou orientação específica sobre a remuneração de consultores especializados em FIDCs e afirmou que a taxa de performance do fundo não pode ser destinada, ainda que parcialmente, a esses consultores.
Nesse ambiente, o rating deixa de ser apenas uma referência complementar de crédito e ganha peso na estruturação de operações destinadas a investidores com mandatos mais restritivos.
Rating ajuda a transformar risco de crédito em parâmetro comparável
FIDCs são veículos que adquirem direitos creditórios, como recebíveis de empresas, parcelas de empréstimos, créditos consignados e outros fluxos financeiros. A estrutura permite que esses ativos sejam agrupados e distribuídos entre diferentes classes de cotas, com níveis distintos de prioridade no recebimento e exposição a perdas.
Nas cotas seniores, a existência de mecanismos de subordinação pode criar uma camada de proteção para o investidor. As cotas subordinadas absorvem perdas antes das seniores, de acordo com as regras de cada estrutura. É justamente essa arquitetura, somada à qualidade dos ativos, aos critérios de elegibilidade, à concentração da carteira e aos mecanismos de liquidez, que entra na análise das agências de classificação.
O rating, portanto, não representa simplesmente uma avaliação da rentabilidade esperada. Ele procura traduzir a capacidade de determinada estrutura de cumprir suas obrigações financeiras, considerando os riscos específicos da carteira e os mecanismos criados para absorver eventuais perdas.
A Austin Rating, por exemplo, mantém atualmente uma sequência de classificações atribuídas a diferentes séries de FIDCs. Entre as operações divulgadas em 2026 estão ratings que vão de categorias elevadas, como brAAA(sf), até classificações significativamente mais baixas. A própria agência registra também casos de rebaixamento, mostrando que a classificação não é um selo permanente e pode mudar conforme a percepção de risco da estrutura.
Essa característica é especialmente relevante para investidores institucionais, que precisam comparar ativos de crédito privado submetidos a diferentes estruturas jurídicas e operacionais.
Crescimento dos fundos aumenta importância da diligência
A expansão do universo de FIDCs também torna mais complexa a seleção dos ativos. A CVM mantém dados específicos sobre o segmento e atualiza periodicamente os informes mensais dos fundos. O conjunto mais recente disponível inclui informações referentes a agosto de 2026, além de histórico atualizado de períodos anteriores.
A base de dados da autarquia permite observar não apenas a existência dos fundos, mas informações relacionadas às suas carteiras e estruturas. A CVM também disponibiliza dados de patrimônio líquido e número de cotistas de fundos estruturados, incluindo FIDCs, com histórico desde 2017.
Esse universo heterogêneo explica por que a análise institucional não pode se resumir à nota atribuída por uma agência. Fundos podem ter carteiras concentradas, diferentes níveis de subordinação, perfis de sacados distintos, prazos variados e mecanismos próprios de liquidez.
Na prática, o rating funciona como uma camada adicional de análise. Ele pode facilitar a triagem inicial de operações, mas não elimina a necessidade de avaliação própria por gestores, fundos de pensão, seguradoras, family offices e demais investidores profissionais.
A própria existência de classificações diferentes dentro da indústria evidencia esse ponto. Em uma mesma temporada de avaliações, as agências podem atribuir notas altas a determinadas cotas seniores e, ao mesmo tempo, rebaixar outras estruturas quando identificam deterioração de crédito ou mudanças nos fundamentos.
Governança passa a pesar junto com a qualidade dos recebíveis
A evolução regulatória é outro fator que reforça a procura por estruturas mais transparentes. Em seu plano emergencial de fiscalização de 2026, a CVM indicou como prioridades de supervisão FIDCs com características como concentração elevada em poucos direitos creditórios, participação de instituições financeiras ou fintechs como cotistas, cedentes ou coobrigados, aquisição de recebíveis de ações judiciais ou precatórios, valorização significativa das cotas em curto período e demonstrações financeiras com opinião modificada dos auditores.
A autarquia também apontou preocupação com possíveis insuficiências de provisão para perdas de crédito e informou que pretende cruzar informações declaradas por administradores e gestores com dados do Sistema de Informações de Crédito do Banco Central (SCR), registros de entidades registradoras e outras bases públicas, quando aplicável.
O desenho da fiscalização mostra que a avaliação do risco está se tornando mais abrangente. Não basta que o recebível tenha uma aparência de qualidade no momento da aquisição. A consistência dos controles, a documentação da carteira, a capacidade de monitoramento e a confiabilidade das informações fornecidas aos investidores também entram no radar.
Esse processo tende a beneficiar estruturas capazes de demonstrar com maior clareza a origem dos créditos, os critérios de seleção dos sacados, os mecanismos de cobrança e a forma de constituição das garantias.
Novas operações mostram diversidade de perfis
A movimentação recente das agências de rating evidencia a diversidade do mercado. Em julho, a Austin atribuiu classificação brAA+ para as cotas seniores de um FIDC ligado a crédito consignado e, no mesmo período, atribuiu notas distintas para diferentes classes de outras estruturas. Também houve operações relacionadas a infraestrutura, crédito corporativo e outros segmentos.
No caso do Pátria Infra Crédito FIDC, por exemplo, a estrutura tinha patrimônio de aproximadamente R$ 396,5 milhões na data analisada em junho de 2026 e exposição predominante a debêntures incentivadas e outros ativos relacionados à infraestrutura. A S&P Global Ratings manteve classificação BBBf(bra) para a operação.
Outro exemplo de segmentação é o Galapagos Sea Lion, fundo destinado a investidores institucionais e concentrado em ativos classificados como high grade. Os dados disponíveis indicavam patrimônio líquido de cerca de R$ 53,4 milhões em setembro de 2024 e rating brAA atribuído pela Austin em abril de 2026.
Os exemplos mostram que o rating pode ser utilizado em diferentes estratégias: desde operações voltadas a crédito corporativo e infraestrutura até estruturas direcionadas a determinados nichos de recebíveis.
Investidor institucional exige mais do que rentabilidade
A busca por ratings também está relacionada à necessidade de compatibilizar os FIDCs com políticas internas de investimento. Instituições de maior porte normalmente trabalham com limites de risco, critérios de elegibilidade, concentração por emissor ou ativo e requisitos mínimos de qualidade de crédito.
Por isso, uma classificação elevada pode ampliar o conjunto de investidores potencialmente habilitados a analisar determinada operação. Isso não significa que o rating garanta demanda ou captação, mas reduz uma das barreiras existentes na etapa de seleção.
A diferença é relevante em um ambiente no qual o investidor precisa escolher entre diferentes alternativas de crédito privado. Uma operação sem classificação pode exigir maior esforço de análise interna, enquanto uma estrutura avaliada por uma agência fornece uma referência padronizada sobre determinados riscos.
A classificação, contudo, não deve ser confundida com recomendação de investimento. A nota representa a opinião da agência segundo sua metodologia e pode ser alterada caso ocorram mudanças na carteira, no comportamento dos créditos, na estrutura de proteção ou nas condições financeiras dos envolvidos.
O histórico recente da própria Austin ilustra essa possibilidade. Em julho, a agência rebaixou determinadas classes do FIDC Sinai Consig para brCC(sf) e brC(sf), com perspectiva negativa. O episódio demonstra que o rating pode funcionar também como instrumento de alerta sobre deterioração de risco, e não apenas como mecanismo para facilitar novas captações.
Regulação aumenta exigência sobre administradores e gestores
A procura por maior transparência ocorre ao mesmo tempo em que a CVM intensifica a regulamentação do segmento. Em setembro, a área técnica da autarquia esclareceu que a taxa de performance dos FIDCs é destinada exclusivamente ao gestor e que sua vinculação, total ou parcial, à remuneração de consultores especializados pode caracterizar atividade de gestão de carteira sem autorização.
A orientação é relevante porque delimita responsabilidades dentro das estruturas. O crescimento do mercado aumenta a necessidade de separar as funções de administrador, gestor, custodiante, consultor e demais prestadores de serviço.
Em março, outra alteração regulatória da CVM tratou dos direitos creditórios cedidos por empresas em recuperação judicial ou extrajudicial. A mudança buscou remover obstáculos à utilização dos FIDCs como fonte de financiamento para empresas em processo de recuperação, ampliando potencialmente o universo de créditos elegíveis às estruturas.
Para investidores institucionais, esse avanço regulatório cria simultaneamente oportunidades e necessidade de diligência adicional. A ampliação do universo de ativos disponíveis aumenta as possibilidades de retorno, mas também exige avaliação mais detalhada da origem dos recebíveis e dos mecanismos de proteção.
Nesse contexto, o rating tende a permanecer como uma das peças da arquitetura de análise do crédito estruturado. A nota pode facilitar a comparação entre operações, apoiar processos internos de seleção e ampliar a interlocução com investidores de maior porte. A decisão final, porém, continua dependente da análise da carteira, da estrutura jurídica, da governança e da capacidade de os mecanismos de proteção funcionarem quando os créditos se deterioram.
Fontes:
CVM – dados abertos dos informes mensais de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios
CVM – plano emergencial de reestruturação da atividade fiscalizatória de 2026 e critérios de supervisão de FIDCs
CVM – Resolução CVM 240 e alterações no Anexo Normativo II da Resolução CVM 175
CVM – Ofício Circular CVM/SSE 3/2026 sobre taxa de performance e consultoria especializada em FIDCs
Austin Rating – classificações de risco e ações recentes sobre cotas de FIDCs em 2026
S&P Global Ratings – classificação do Pátria Infra Crédito FIDC
ANBIMA Data – informações periódicas e estruturas de fundos de investimento em direitos creditórios









