O governo federal anunciou nesta sexta-feira (9) a eliminação temporária dos tributos federais incidentes sobre a gasolina e a ampliação dos incentivos ao etanol e ao diesel importado, em um pacote estimado em R$ 5,2 bilhões. A decisão terá validade inicial de 30 dias e amplia de R$ 0,63 para R$ 0,89 por litro a desoneração da gasolina, zerando a cobrança de PIS/Pasep, Cofins e Cide sobre o combustível. As medidas foram apresentadas pelos ministérios da Fazenda, do Planejamento e Orçamento e de Minas e Energia como resposta à manutenção dos preços internacionais do petróleo acima de US$ 100 por barril, patamar que continua pressionando os custos de abastecimento no Brasil.
A iniciativa substitui parte das medidas emergenciais anunciadas em setembro, cuja vigência terminaria nesta sexta-feira, e acrescenta novos recursos para impedir que a elevação dos custos internacionais comprometa o fornecimento de combustíveis ao mercado brasileiro. Além da isenção tributária sobre a gasolina, o Executivo prorrogou a desoneração do etanol hidratado, aumentou a subvenção destinada aos produtores desse biocombustível e autorizou um benefício adicional de R$ 1,40 por litro para os importadores de diesel rodoviário. Com isso, o apoio federal destinado a esses importadores poderá alcançar R$ 3,52 por litro, considerando os mecanismos já existentes.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou durante a apresentação das medidas que a decisão faz parte da resposta do governo aos efeitos econômicos da guerra no Oriente Médio. Segundo a equipe econômica, a continuidade dos incentivos tornou-se necessária porque a situação internacional não apresentou melhora suficiente desde o anúncio anterior, em 9 de setembro. O governo espera que a redução tributária e os subsídios sejam transmitidos aos preços praticados no mercado interno, embora o resultado para os consumidores dependa também do comportamento das refinarias, importadores, distribuidoras e postos de combustíveis.
Gasolina terá desoneração ampliada de R$ 0,63 para R$ 0,89 por litro
A principal alteração anunciada envolve a tributação federal da gasolina. Em setembro, o governo havia reduzido em R$ 0,63 por litro a cobrança de PIS/Pasep e Cofins, mantendo uma parcela residual dessas contribuições. O novo decreto amplia a desoneração para R$ 0,89 por litro, incluindo a eliminação da cobrança federal remanescente e da Cide. A diferença em relação ao benefício anterior é de R$ 0,26 por litro, equivalente a um aumento de aproximadamente 41,3% no valor da desoneração.
A medida não significa, entretanto, que o preço da gasolina vendido nos postos cairá automaticamente R$ 0,89 por litro. A tributação federal incide em etapas anteriores à revenda, enquanto o valor final pago pelo motorista incorpora o custo do combustível, a mistura obrigatória de etanol anidro, os tributos estaduais, as despesas logísticas e as margens comerciais. O repasse da redução tributária poderá ocorrer de maneira gradual e variar entre regiões e estabelecimentos, dependendo das condições de aquisição e da política comercial dos agentes envolvidos.
Outro elemento importante é a composição da gasolina comercializada no país. Desde agosto, a mistura obrigatória passou a conter 32% de etanol anidro, após decisão do Conselho Nacional de Política Energética. Isso significa que o combustível adquirido pelo consumidor não corresponde integralmente à gasolina pura sobre a qual recaem determinados componentes tributários. A distinção é relevante para avaliar o efeito da medida sobre o preço final e evita a interpretação de que o valor anunciado pelo governo representa necessariamente uma redução equivalente em cada litro abastecido.
A desoneração também não alcança o ICMS, cuja cobrança permanece sujeita à legislação estadual e às regras nacionais aplicáveis ao imposto. Dessa forma, a eliminação dos tributos federais não representa a retirada de toda a carga tributária incidente sobre a gasolina. O efeito efetivo dependerá da combinação entre o novo tratamento fiscal, a evolução do custo do produto nas refinarias e os preços praticados pelas distribuidoras. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) continuará acompanhando as condições de comercialização por meio de seus levantamentos periódicos.
Etanol recebe subsídio maior e diesel importado terá apoio de R$ 3,52 por litro
O etanol hidratado, comercializado diretamente aos consumidores como alternativa à gasolina, continuará beneficiado pela retirada de PIS/Pasep e Cofins, equivalente a R$ 0,19 por litro. A novidade está na ampliação da subvenção econômica destinada aos produtores e às cooperativas produtoras, que passa de R$ 0,25 para R$ 0,43 por litro. O reajuste representa um acréscimo de R$ 0,18, ou 72% sobre o benefício anterior, e busca preservar a competitividade do combustível renovável diante das mudanças na tributação da gasolina.
A preocupação envolve a relação de preços entre os dois combustíveis. Uma desoneração mais intensa da gasolina, sem medidas correspondentes para o etanol, poderia reduzir a atratividade econômica do biocombustível para parte dos consumidores. O governo procura evitar esse desequilíbrio ao combinar a manutenção da isenção tributária com uma subvenção maior à produção. O resultado dependerá das condições de oferta, dos custos agrícolas e industriais e das margens praticadas ao longo da cadeia, já que o incentivo concedido ao produtor não determina isoladamente o preço cobrado nas bombas.
No mercado de diesel, a estratégia é diferente. O governo decidiu ampliar diretamente o apoio aos importadores, segmento considerado importante para complementar o abastecimento nacional. A nova subvenção de R$ 1,40 por litro será acrescentada ao benefício de R$ 2,12 já existente, elevando o valor combinado para R$ 3,52 por litro durante o período de vigência anunciado. Em termos proporcionais, o reforço representa um aumento de aproximadamente 66% sobre o montante anterior, uma elevação expressiva para um mecanismo destinado a compensar parte da diferença entre os custos internacionais e as condições de comercialização no Brasil.
A dependência brasileira de diesel importado ajuda a explicar a prioridade atribuída a esse combustível. Dados divulgados pelo Ministério da Fazenda em setembro indicavam que mais de um quarto do diesel consumido no país tinha origem externa. Quando as cotações internacionais sobem de maneira acentuada, a importação pode perder atratividade caso o preço praticado internamente não acompanhe os custos de aquisição no exterior. A subvenção procura reduzir essa diferença e manter economicamente viável a entrada do produto, especialmente em um mercado no qual o diesel é essencial para o transporte de cargas, a produção agropecuária e o funcionamento de diferentes atividades industriais.
O benefício adicional não corresponde a um desconto direto de R$ 3,52 por litro para caminhoneiros ou empresas transportadoras. O mecanismo é direcionado a agentes habilitados, sujeitos às regras de comprovação e acompanhamento estabelecidas pelo governo e pela ANP. A lógica consiste em reduzir o custo líquido de comercialização para permitir condições mais favoráveis de abastecimento. A efetiva transmissão do incentivo depende do funcionamento da cadeia de fornecimento e da observância das exigências regulatórias aplicáveis às empresas participantes.
Pacote de R$ 5,2 bilhões concentra recursos na desoneração tributária
O custo estimado das novas medidas está distribuído entre três frentes. A maior parcela, de R$ 2,8 bilhões, corresponde à desoneração tributária da gasolina e do etanol. Outros R$ 800 milhões serão destinados à ampliação da subvenção ao etanol, enquanto R$ 1,6 bilhão financiará o incentivo adicional ao diesel importado. Somados, os valores alcançam R$ 5,2 bilhões, conforme a estimativa apresentada pela equipe econômica.
A distribuição mostra que aproximadamente 53,8% do impacto financeiro está associado à renúncia de receitas tributárias sobre gasolina e etanol. A ampliação do apoio aos produtores de etanol representa 15,4% do total, enquanto o reforço destinado à importação de diesel responde pelos 30,8% restantes. O cálculo evidencia que, embora a redução dos impostos sobre a gasolina seja a medida de maior visibilidade para os consumidores, uma parcela relevante dos recursos será utilizada para sustentar a oferta de combustíveis e preservar as condições de operação de setores específicos.
O Ministério da Fazenda informou que a compensação das medidas contará com receitas extraordinárias relacionadas ao petróleo, favorecidas pela elevação das cotações internacionais. A mesma alta que pressiona os preços domésticos também pode ampliar a arrecadação federal vinculada à exploração e à exportação de petróleo. Essa relação, contudo, depende dos volumes comercializados, dos preços efetivamente realizados e das regras de recolhimento das receitas públicas. O custo anunciado constitui uma estimativa fiscal, sujeita ao comportamento do mercado e à execução dos mecanismos de incentivo.
A decisão também precisa ser analisada em relação ao caráter temporário das medidas. A desoneração e as subvenções foram apresentadas com duração inicial de um mês, podendo ser reavaliadas conforme as condições de oferta, os preços internacionais e a disponibilidade orçamentária. Isso significa que o pacote não estabelece uma redução permanente da tributação dos combustíveis. Ao final do prazo, o governo precisará decidir se mantém os benefícios, altera seus valores ou permite o restabelecimento das cobranças e condições anteriores.
Petróleo acima de US$ 100 mantém pressão sobre os combustíveis
A justificativa econômica apresentada pelo Executivo está diretamente relacionada ao encarecimento do petróleo desde o agravamento da guerra no Oriente Médio. Antes do conflito, o barril do Brent era negociado em torno de US$ 70. Com a intensificação das tensões geopolíticas, a cotação ultrapassou US$ 100, acumulando uma valorização superior a 40% em relação àquele patamar. Essa diferença afeta o custo de referência dos derivados e amplia as dificuldades enfrentadas por países que dependem de importações para atender parte de seu consumo.
O aumento do petróleo não se transmite integralmente nem de forma imediata aos preços da gasolina e do diesel. O custo dos combustíveis também depende das margens internacionais de refino, das condições de transporte, da taxa de câmbio e da estratégia comercial dos fornecedores. Ainda assim, a combinação entre petróleo mais caro e restrições de oferta tende a elevar o custo de reposição dos derivados. Para o diesel, especialmente, a diferença entre o preço internacional e as condições domésticas de comercialização pode influenciar diretamente a decisão das empresas de importar novos carregamentos.
No Brasil, esse movimento tem consequências que ultrapassam o abastecimento dos veículos particulares. O diesel representa um custo importante para o transporte rodoviário de mercadorias, o funcionamento de máquinas agrícolas e a distribuição de produtos entre regiões. Uma alta persistente pode pressionar os gastos operacionais de transportadoras, produtores e empresas de logística, com possíveis repercussões sobre o custo de alimentos e outros bens. A manutenção do abastecimento em condições economicamente viáveis tornou-se, por isso, uma das prioridades declaradas pelo governo na formulação dos incentivos.
A decisão foi anunciada 16 dias antes do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro. Questionado sobre a proximidade entre o pacote e o calendário eleitoral, Dario Durigan rejeitou a existência de motivação eleitoral e sustentou que o Executivo vem adotando medidas relacionadas aos combustíveis desde o início do conflito internacional. O anúncio de outubro dá continuidade a iniciativas anteriores, mas amplia os valores envolvidos justamente no momento em que o governo enfrenta pressões simultâneas sobre o custo de vida e as contas públicas.
Governo amplia fiscalização para acompanhar preços nos postos
A execução do pacote será acompanhada por ações de fiscalização do mercado de combustíveis. Segundo os dados apresentados pelo governo, a mobilização nacional coordenada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, por meio da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), começou em 9 de março e já alcançou milhares de estabelecimentos. Entre março e maio, o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor fiscalizou 11.140 postos e 463 distribuidoras. Uma segunda etapa, iniciada em 22 de setembro, acumulava 676 ações até o anúncio desta sexta-feira.
O acompanhamento dos preços terá importância especial nas próximas semanas porque a redução tributária não elimina a liberdade de formação dos valores praticados no mercado. A ANP informa que, desde 2002, os preços dos combustíveis são livres nas diferentes etapas da cadeia, sem tabelamento geral ou necessidade de autorização prévia para reajustes. A atuação dos órgãos fiscalizadores, portanto, envolve a verificação do cumprimento das regras comerciais, tributárias e de defesa do consumidor, além da investigação de eventuais práticas abusivas, e não a imposição de um preço único nacional.
Para medir o resultado das medidas, um dos principais indicadores será a evolução dos preços médios de revenda divulgados semanalmente pela ANP. A comparação entre os valores anteriores à nova desoneração e aqueles observados ao longo de outubro poderá mostrar quanto da redução tributária chegou efetivamente ao consumidor. Também será necessário acompanhar as diferenças regionais, porque custos logísticos, condições de concorrência e estratégias comerciais podem produzir trajetórias distintas mesmo sob uma mesma regra tributária federal.
A duração limitada dos incentivos coloca outra questão para o mercado: a possibilidade de recomposição dos custos quando o benefício terminar. Caso o petróleo permaneça acima de US$ 100 e o governo decida não prorrogar o pacote, distribuidoras e postos poderão enfrentar uma nova alteração dos valores de aquisição. Se houver recuo consistente das cotações internacionais, a necessidade de apoio fiscal poderá diminuir. Por enquanto, o Executivo optou por ampliar a intervenção temporária sobre tributos e custos de fornecimento, com a expectativa de preservar o abastecimento e limitar a transmissão da alta internacional aos consumidores brasileiros.
Fontes:
Ministério da Fazenda — anúncio de setembro de 2026 sobre a redução de tributos da gasolina e do etanol e a instituição de subvenção ao diesel.
Ministério do Planejamento e Orçamento — informações oficiais sobre as medidas emergenciais adotadas em setembro e o contexto de alta internacional dos combustíveis.
Ministério de Minas e Energia — Resolução do Conselho Nacional de Política Energética sobre a elevação temporária da mistura de etanol anidro para 32%.
Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis — informações regulatórias sobre subvenções, monitoramento de preços, liberdade de comercialização e levantamento semanal de preços dos combustíveis.









