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IA no varejo já aumenta produtividade e vira aposta para proteger margens

Tecnologia deixou de ser tendência e passou a orientar decisões sobre estoques, preços, atendimento, marketing e gestão financeira

por Ana Luiza Farias
22/05/2026 às 21h46
em Negócios
Ia No Varejo Já Aumenta Produtividade E Vira Aposta Para Proteger Margens - Gazeta Mercantil

A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante e passou a ocupar posição estratégica no varejo brasileiro, com impacto direto sobre produtividade, eficiência operacional, experiência do consumidor e proteção de margens. Em um setor pressionado por juros elevados, consumo mais seletivo e custos crescentes, a IA passou a ser usada como ferramenta para antecipar demanda, ajustar preços, reduzir perdas, personalizar ofertas e acelerar decisões de gestão.

A mudança já aparece nos números. No Brasil, 59% das empresas do varejo utilizam inteligência artificial em suas operações, enquanto 90% pretendem ampliar os investimentos nos próximos meses, segundo levantamento da Zucchetti. O avanço mostra que a discussão deixou de ser sobre a adoção da tecnologia e passou a girar em torno de como extrair valor real dela.

Leia também: Senior Inteligência Tributária apoia empresas na gestão fiscal

Leia também: Tarifaço dos EUA: Alckmin Afirma que Decisão Aumenta Competitividade do Brasil.

O impacto também é mensurável. De acordo com a pesquisa, 87% das empresas que usam IA relatam ganho de produtividade. O dado reforça que a tecnologia já influencia a competitividade do setor, especialmente em operações que precisam lidar com alto volume de dados, pressão por eficiência e margens apertadas.

IA deixa de ser aposta e entra na rotina do varejo

O varejo sempre foi um setor orientado por informação. Dados de venda, estoque, comportamento do consumidor, sazonalidade, preço e margem fazem parte da gestão diária das empresas. A diferença é que a inteligência artificial elevou esse processo a outro patamar.

Com algoritmos mais sofisticados, varejistas conseguem analisar grandes volumes de dados em tempo quase real e transformar informações dispersas em decisões operacionais. A tecnologia permite prever demanda, sugerir reposição de produtos, identificar risco de ruptura, ajustar campanhas e apontar gargalos de rentabilidade.

Na prática, a IA ajuda a responder perguntas centrais para qualquer operação varejista: quais produtos terão maior procura, onde há excesso de estoque, quais lojas precisam de reposição, quais clientes têm maior chance de compra e quais promoções podem gerar melhor retorno.

Essa capacidade de antecipação é decisiva em um mercado no qual erros de planejamento têm custo elevado. Estoque parado compromete capital de giro. Falta de produto reduz vendas. Preço mal definido derruba margem ou afasta consumidores.

Consumidor brasileiro já usa IA para comprar

A inteligência artificial também mudou a jornada do consumidor. Segundo o Relatório do Varejo 2025 da Adyen, 52% dos brasileiros já utilizaram IA para auxiliar decisões de compra. Entre eles, 74% afirmam que a tecnologia influencia suas escolhas.

O dado mostra que a compra está cada vez mais mediada por recomendações inteligentes, assistentes virtuais, mecanismos de busca com IA, comparadores de preço, chatbots e plataformas personalizadas. Para o varejista, isso significa que a disputa pelo consumidor começa antes mesmo da entrada no site, aplicativo ou loja física.

A Bain & Company aponta que 62% dos consumidores brasileiros já utilizam IA em algum nível no dia a dia, principalmente pela busca por praticidade. Esse comportamento aumenta a exigência por experiências mais rápidas, personalizadas e integradas.

O consumidor espera atendimento ágil, ofertas coerentes com seu perfil, recomendações relevantes e menos fricção na compra. Empresas que não conseguem entregar essa experiência tendem a perder espaço para concorrentes mais eficientes no uso de dados.

Marketing e atendimento lideram adoção inicial

Apesar do avanço, a adoção da IA no varejo ainda se concentra em áreas de implementação mais rápida. Pesquisa da Zucchetti em parceria com a Central do Varejo mostra que 57% das empresas usam a tecnologia em marketing e 54% em atendimento ao cliente.

Essas frentes têm impacto importante. No marketing, a IA ajuda a segmentar públicos, automatizar campanhas, personalizar ofertas e melhorar o retorno de investimentos em mídia. No atendimento, permite reduzir filas, responder dúvidas frequentes, organizar demandas e ampliar disponibilidade de suporte.

O problema é que esse uso ainda é limitado diante do potencial da tecnologia. O maior ganho tende a aparecer quando a IA passa a ser integrada a áreas mais estruturais, como gestão financeira, cadeia de suprimentos, estoque, precificação, compras e análise de rentabilidade.

Quando usada apenas na comunicação com o cliente, a IA melhora a interface da empresa com o consumidor. Quando conectada à operação e ao financeiro, passa a influenciar diretamente margem, caixa e crescimento.

Leia também: BRF e Marfrig concluem criação da Sadia Halal e preparam IPO na Bolsa de Riade

Dados fragmentados limitam avanço das empresas

Um dos principais entraves para o uso mais sofisticado da inteligência artificial é a fragmentação dos dados. Muitas empresas ainda operam com informações espalhadas entre ERP, PDV, e-commerce, CRM, sistemas financeiros, plataformas de atendimento e ferramentas de logística.

Essa separação dificulta a criação de uma visão completa do negócio. Sem integração, a empresa consegue enxergar partes isoladas da operação, mas não transforma dados em inteligência acionável.

A IA depende de bases organizadas, confiáveis e atualizadas. Quando as informações são inconsistentes, duplicadas ou desconectadas, as recomendações geradas pela tecnologia perdem precisão.

Por isso, a adoção de IA exige mais do que contratar uma ferramenta. É preciso revisar processos, integrar sistemas, padronizar indicadores, treinar equipes e criar uma cultura de decisão baseada em dados.

Margens apertadas tornam IA mais importante

O avanço da inteligência artificial ocorre em um momento desafiador para o varejo. Juros altos encarecem crédito, reduzem consumo parcelado e elevam o custo financeiro das empresas. Ao mesmo tempo, famílias mais endividadas e consumidores mais seletivos tornam a disputa por preço e conveniência ainda mais intensa.

Nesse ambiente, o varejo perdeu espaço para ineficiência. Erros de estoque, campanhas pouco eficientes, desperdício logístico, rupturas e baixa previsibilidade de caixa passaram a pesar mais nos resultados.

A IA ganha importância justamente porque ajuda a reduzir essas perdas. Quando integrada à gestão operacional e financeira, a tecnologia permite antecipar rupturas, reduzir excesso de produtos, identificar categorias com baixa rentabilidade, prever pressão sobre fluxo de caixa e acelerar decisões críticas.

O ganho não está apenas na automação. A principal vantagem é transformar dados dispersos em decisões melhores, mais rápidas e mais conectadas ao resultado financeiro.

Supermercados mostram avanço da tecnologia

O uso da IA também avança em segmentos específicos. No varejo alimentar paulista, 80% dos supermercados já utilizam inteligência artificial em suas operações, com aplicações em CRM, segmentação de clientes, automação de campanhas e análise em tempo real.

O setor supermercadista é um exemplo relevante porque trabalha com margens estreitas, alto volume de produtos, perecibilidade, grande circulação de consumidores e forte concorrência por preço.

Nesse tipo de operação, a IA pode ajudar a prever demanda por loja, ajustar sortimento, reduzir perdas de perecíveis, melhorar promoções e identificar padrões de compra por região, horário e perfil de cliente.

O avanço nos supermercados mostra que a tecnologia não está restrita a grandes marketplaces ou empresas digitais. A IA começa a chegar a negócios de diferentes portes e nichos, desde que exista clareza sobre o problema a ser resolvido e capacidade mínima de organizar dados.

Reforma tributária aumenta pressão por modernização

A reforma tributária também deve acelerar a busca por ferramentas de automação, inteligência de dados e gestão financeira mais integrada. As mudanças no sistema de impostos exigirão revisão de processos fiscais, precificação, apuração de margens e planejamento financeiro.

Para o varejo, a transição pode aumentar a complexidade operacional no curto prazo. Empresas terão de atualizar sistemas, treinar equipes, rever regras de preço e acompanhar impactos sobre custos e rentabilidade.

Nesse cenário, a IA pode apoiar simulações, projeções de impacto tributário, análise de margens e identificação de produtos ou categorias mais sensíveis às mudanças.

A tecnologia, no entanto, só será útil se estiver conectada a dados financeiros confiáveis. Sem integração entre fiscal, estoque, vendas e caixa, a empresa terá dificuldade para transformar a IA em vantagem competitiva.

Futuro do varejo será orientado por dados

O varejo entra em uma nova fase de competição por eficiência. Empresas que conseguirem integrar informações financeiras, operação, estoque e comportamento do consumidor terão mais previsibilidade para crescer e tomar decisões estratégicas.

Esse movimento vale para redes tradicionais, e-commerce, supermercados, food service, farmácias, moda, franquias e serviços. A digitalização deixou de ser apenas um canal de venda e passou a ser base da gestão.

A IA será cada vez mais relevante para automatizar processos, reduzir gargalos, melhorar atendimento, proteger margens e antecipar mudanças de consumo. Mas a tecnologia, sozinha, não resolve problemas estruturais.

O diferencial estará na execução. Empresas que formarem equipes preparadas, integrarem sistemas e construírem uma cultura orientada por dados terão mais condições de transformar inteligência artificial em crescimento real.

A IA passou de tendência para motor de crescimento porque deixou de atuar apenas como ferramenta experimental e passou a influenciar decisões centrais do negócio. Para o varejo brasileiro, o próximo passo será sair do uso pontual e construir operações integradas, capazes de transformar informação em produtividade, margem e competitividade.

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