A trajetória das Pernambucanas, uma das marcas mais tradicionais do varejo brasileiro, voltou ao centro das atenções com a repercussão da série documental O Testamento, da Globoplay, que trata das disputas em torno da sucessão de Anita Harley, herdeira e controladora do Grupo Pernambucanas.
Anita, que por décadas esteve associada à imagem da companhia, sofreu um AVC há cerca de dez anos e vive desde 2016 no hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, sem comunicação pública. A situação abriu uma disputa em torno de sua curatela e, por consequência, sobre o destino de um patrimônio bilionário e do controle de uma rede varejista com mais de um século de história.
A Pernambucanas, hoje estruturada sob o Grupo Pernambucanas e com atuação também em serviços financeiros por meio da Pefisa, chegou a 2026 com 470 lojas próprias, 11 mil funcionários e presença em 15 estados, além do Distrito Federal. Embora ainda mantenha forte reconhecimento de marca, especialmente no interior do país, a companhia está distante da potência econômica que foi nas décadas de 1940 e 1950.
A história da empresa mistura pioneirismo industrial, expansão agressiva no varejo, criação de vilas operárias, disputas familiares, acusações políticas e tentativas recentes de modernização em um setor altamente competitivo.
Origem sueca e início dos negócios no Brasil
A origem das Pernambucanas remonta ao sueco Herman Theodor Lundgren, que chegou ao Brasil em 1855, aos 20 anos, sem falar português. Filho de uma família de comerciantes, Lundgren saiu de uma Suécia ainda majoritariamente agrícola, em um período marcado por forte emigração e transformações sociais.
Após passagens pelo Rio de Janeiro e por Salvador, ele se estabeleceu em Recife. Sua fluência em sueco, inglês e alemão abriu espaço para atuar como intérprete de comerciantes estrangeiros que chegavam ao porto da capital pernambucana.
A posição estratégica no ambiente portuário levou Lundgren a se tornar despachante aduaneiro, representante consular da Suécia e, posteriormente, empresário. Naturalizado brasileiro, ele passou a formar sociedades voltadas à exportação de produtos nordestinos, como sal, cera de carnaúba e couro.
O primeiro grande salto empresarial veio com a pólvora. Em 1866, diante da demanda elevada no Brasil, especialmente no contexto da Guerra do Paraguai, Herman estruturou a Sociedade Anônima Pernambuco Powder Factory. A produção local de pólvora ajudou a formar a base da fortuna que mais tarde financiaria a entrada da família no setor têxtil.
Da indústria têxtil ao varejo
Embora o negócio de pólvora tenha sido decisivo para a ascensão econômica dos Lundgren, foi no setor têxtil que a família construiu seu principal legado empresarial.
Em 1904, Herman Lundgren comprou uma fábrica de tecidos em Paulista, então distrito de Olinda, no Grande Recife. A unidade estava em situação difícil, mas foi reerguida com recursos acumulados nos negócios anteriores. Nascia a Companhia de Tecidos Paulista.
A fábrica transformou a economia local e colocou a família Lundgren no centro da vida social e econômica da região. A produção têxtil ganhou impulso também por fatores externos. Em 1905, o governo Rodrigues Alves elevou a tarifa de importação de tecidos de 15% para 50%, medida que favoreceu fabricantes nacionais.
Com a morte de Herman, em 1907, os filhos Frederico e Arthur Lundgren assumiram a condução dos negócios. No ano seguinte, em 1908, fundaram no Recife a primeira loja própria para vender os tecidos produzidos pela família. A unidade, inicialmente chamada Lojas Paulista, é considerada o embrião das Casas Pernambucanas.
Integração entre fábrica e loja virou vantagem competitiva
A criação das lojas próprias representou uma mudança importante no modelo de negócios da família. Em vez de depender de intermediários, os Lundgren passaram a controlar produção e venda ao consumidor final.
A estratégia permitia reduzir custos, padronizar preços e ampliar margens. Também rompia com a lógica do atacado de tecidos, então fortemente dominado por comerciantes estabelecidos no Nordeste.
Sob a liderança de Arthur Lundgren, a empresa adotou práticas inovadoras para o varejo brasileiro da época. Entre elas estavam a política de preços fixos, sem barganha, e a criação de uma marca associada à qualidade dos tecidos.
A expansão foi rápida. Em 1920, a família já operava cerca de 200 lojas espalhadas pelo Nordeste, vendendo tanto produtos fabricados pelos Lundgren quanto mercadorias de outras indústrias.
A chegada ao Sudeste marcou nova etapa. A primeira loja em São Paulo foi aberta ainda na década de 1910, na Praça da Sé, região central da cidade. A partir do crescimento nacional, a rede passou a adotar o nome Casas Pernambucanas.
Pernambucanas se tornou gigante do varejo
Nas décadas seguintes, a Pernambucanas consolidou uma presença capilarizada pelo país. A rede investia em pontos comerciais bem localizados, especialmente em ruas de grande circulação, e em manuais internos de padronização para orientar o funcionamento das lojas.
A empresa também valorizava publicidade e atendimento ao consumidor, princípios que ajudaram a construir uma marca de forte apelo popular. Em sua fase de maior projeção, nas décadas de 1940 e 1950, a companhia chegou a ser considerada a maior rede varejista do Brasil, com mais de 400 lojas.
A marca atravessou gerações ligada ao comércio de tecidos, cama, mesa, banho, vestuário e itens para o lar. Com o tempo, também incorporou o crediário como instrumento relevante de consumo, especialmente entre famílias de renda média e baixa.
Vilas operárias e controle social
A expansão industrial dos Lundgren também teve um lado controverso. Em 1924, os herdeiros de Herman adquiriram uma segunda fábrica têxtil em Rio Tinto, na Paraíba, onde implantaram a Companhia de Tecidos Rio Tinto.
Assim como ocorreu em Paulista, a instalação industrial veio acompanhada da construção de vilas operárias. O modelo garantia moradia e infraestrutura a trabalhadores, mas também criava forte dependência em relação à empresa.
Pesquisadores apontam que essas cidades-fábrica organizavam a vida dos operários de forma rígida, com controle sobre moradia, circulação, trabalho e lazer. A lógica era manter a força de trabalho próxima à fábrica e reduzir interferências externas consideradas indesejáveis pela administração.
Esse modelo gerou tensões sociais e disputas trabalhistas ao longo do tempo. Em Rio Tinto, parte das moradias continuou ligada à Companhia de Tecidos Rio Tinto e a descendentes da família por décadas. Em 2022, o governo da Paraíba desapropriou cerca de 700 casas que ainda pertenciam à empresa e a seus herdeiros.
Acusações no contexto da Segunda Guerra
Outra controvérsia histórica envolvendo os Lundgren remonta ao período da Segunda Guerra Mundial. Arthur Lundgren, que conduziu a Pernambucanas por cerca de seis décadas, também exerceu influência política. Foi deputado e chegou a ser prefeito de Rio Tinto.
Durante a Era Vargas, enfrentou oposição do interventor e depois governador de Pernambuco, Agamenon Magalhães. Após a entrada do Brasil ao lado dos Aliados na Segunda Guerra, em 1942, adversários políticos tentaram associar Arthur a simpatias ou ligações com o nazismo.
Pesquisas acadêmicas indicam que a propaganda nazista circulou no Brasil por meio de consulados alemães e de redes de empresas parceiras. Há registros de que áreas industriais ligadas aos Lundgren, especialmente em Rio Tinto, eram vistas por autoridades da época como locais com presença relevante de alemães.
A acusação, porém, é contestada por historiadores. Especialistas apontam que não há documentação conclusiva que comprove ligação direta da família Lundgren com o Partido Nazista. Uma das interpretações é que as acusações também faziam parte de uma disputa política no contexto de centralização de poder durante o governo Vargas.
A Pernambucanas afirma que não possui qualquer vínculo com interpretações relacionadas a trajetórias familiares que não digam respeito à sua atuação empresarial. A companhia também declara repudiar discriminação, intolerância e antissemitismo, além de defender princípios de ética, transparência, diversidade e inclusão.
Disputas familiares afetaram expansão
As disputas internas entre ramos da família Lundgren acompanharam a história da companhia e tiveram impacto direto nos negócios. Como em outras empresas familiares brasileiras, conflitos sucessórios e divergências de gestão dificultaram decisões estratégicas e reduziram a velocidade de adaptação.
Parte das operações foi dividida entre diferentes herdeiros, em uma lógica comparada por especialistas a “capitanias hereditárias”. Lojas no Rio de Janeiro, no Ceará e em Pernambuco ficaram sob responsabilidade de ramos distintos da família e acabaram sendo encerradas em meio a problemas de gestão.
A Pernambucanas deixou o Nordeste na década de 1990, inclusive o estado onde nasceu. O retorno a Pernambuco só ocorreu em 2021, em um movimento simbólico para uma marca que carrega o nome da região em sua identidade.
A falta de governança mais clara também contribuiu para a demora da empresa em responder a mudanças estruturais do varejo, como a abertura econômica dos anos 1990, a chegada de concorrentes internacionais, o crescimento do e-commerce e a transformação digital.
Anita Harley e a sucessão no grupo
Anita Harley assumiu protagonismo no grupo após a morte de sua mãe, Helena Lundgren, em 1990. Ao longo das décadas seguintes, tornou-se uma das principais figuras associadas à marca, tanto pela participação no controle quanto pela presença simbólica na empresa.
Sua trajetória passou a ser comparada, em termos de imagem empresarial, à de nomes como Luiza Trajano, do Magalu, e Abílio Diniz, do Grupo Pão de Açúcar. Anita era vista como herdeira de uma tradição familiar e guardiã de uma marca histórica.
O AVC sofrido por ela há cerca de dez anos abriu uma disputa complexa em torno de sua curatela. O tema ganhou visibilidade nacional com a série documental O Testamento, da Globoplay, que aborda conflitos envolvendo familiares, administradores e interesses econômicos ligados ao patrimônio pessoal de Anita e ao controle do Grupo Pernambucanas.
As disputas reacenderam o debate sobre a fragilidade de governança em empresas familiares de capital fechado, especialmente quando decisões estratégicas dependem de estruturas societárias concentradas e de sucessões mal resolvidas.
Situação atual das Pernambucanas
Apesar do peso histórico, a Pernambucanas ocupa hoje uma posição mais modesta no varejo brasileiro. No ranking de 2024 das 300 maiores empresas do setor, elaborado pelo Instituto Retail Think Tank, a companhia apareceu em 45º lugar em faturamento, duas posições abaixo do ano anterior.
A receita de 2024 foi de R$ 6,1 bilhões. O número coloca a empresa entre grandes varejistas nacionais, mas distante de concorrentes de maior escala, como o Magalu, que registrou faturamento várias vezes superior.
A rentabilidade também preocupa. A margem Ebitda da Pernambucanas foi de 1,8% em 2024, abaixo dos 9,9% registrados em 2023. O resultado indica pressão operacional em um ambiente de custos elevados, competição intensa e necessidade de modernização.
Em 2025, a companhia classificou o ano como economicamente desafiador. Entre os movimentos citados no período estão a criação de uma operação logística própria, iniciativas para reduzir dívida, aumento de tíquete médio e maior participação do vestuário na receita.
A empresa também criou a nova marca corporativa Grupo Pernambucanas, reunindo a varejista e a Pefisa, braço de soluções financeiras.
Modernização e troca de comando
Após o afastamento de Anita, executivos sem relação sanguínea com a família fundadora passaram a ocupar posições de liderança. Sergio Borriello, ex-diretor financeiro da companhia, assumiu como CEO e comandou um plano de expansão com abertura de mais de 100 lojas.
A gestão também avançou em tecnologia, ponto considerado essencial para competir no varejo atual, marcado pela integração entre lojas físicas, comércio eletrônico, aplicativos, crédito e logística.
Depois de Borriello, a empresa passou por novas trocas no comando. Marcelo Labuto ficou cerca de dez meses na função e deixou o cargo em 2024. O posto foi assumido por Ricardo Doebeli, executivo com passagem pela consultoria McKinsey e pela Galeazzi & Associados, empresa conhecida por projetos de reestruturação.
Sob a nova gestão, a Pernambucanas criou uma diretoria de Transformação, voltada a iniciativas de inovação interna e propostas de melhoria vindas dos próprios funcionários.
Marca forte, mas com desafios estruturais
Especialistas em varejo apontam que a Pernambucanas ainda possui ativos relevantes: marca conhecida, presença no interior, base de clientes, operação de crédito e capilaridade física. Esses pontos ajudam a explicar a resiliência da empresa, mesmo após décadas de disputas familiares e perda de protagonismo.
O desafio é transformar esse legado em crescimento sustentável. O varejo brasileiro exige velocidade de decisão, escala operacional, tecnologia, eficiência logística e capacidade de adaptação ao comportamento do consumidor.
Nesse cenário, estruturas decisórias confusas ou excessivamente dependentes de conflitos familiares tendem a dificultar a execução de estratégias de longo prazo. A companhia também precisa competir com grandes redes digitalizadas, marketplaces, varejistas regionais e empresas especializadas em moda, casa e crédito.
A Pernambucanas sobreviveu a diferentes ciclos econômicos, ao colapso de concorrentes tradicionais como Mappin e Mesbla, à abertura do mercado nos anos 1990 e ao avanço do comércio digital. A questão agora é se conseguirá converter sua memória de marca em relevância econômica no varejo contemporâneo.
Legado empresarial segue em disputa
A história das Pernambucanas é marcada por uma combinação rara de pioneirismo e controvérsia. A família Lundgren ajudou a impulsionar a industrialização têxtil no Nordeste, criou uma das maiores redes varejistas do Brasil e consolidou práticas comerciais inovadoras para sua época.
Ao mesmo tempo, sua trajetória envolve disputas familiares prolongadas, modelos de controle social em vilas operárias, acusações políticas no período da Segunda Guerra e desafios persistentes de governança.
Com a repercussão de O Testamento, a figura de Anita Harley recolocou a empresa no debate público. A série expôs uma dimensão privada da sucessão, mas também reacendeu uma discussão mais ampla sobre empresas familiares, concentração patrimonial e o futuro de marcas históricas em mercados cada vez mais competitivos.
A Pernambucanas chega a 2026 tentando equilibrar tradição e transformação. Seu futuro dependerá menos da força nostálgica da marca e mais da capacidade de resolver entraves societários, acelerar decisões, preservar rentabilidade e modernizar a relação com consumidores em um varejo que já não permite respostas lentas.










