A inflação ganhou velocidade em setembro nas principais economias da zona do euro, reforçando a dificuldade do Banco Central Europeu (BCE) para reconduzir os preços à meta de 2% em meio ao choque de energia provocado pelo conflito no Oriente Médio. Os índices harmonizados de França, Itália e Espanha avançaram de forma significativa, enquanto a Alemanha também registrou aceleração, ampliando a distância entre a inflação corrente e o objetivo da autoridade monetária.
Na França, a inflação harmonizada passou de 2,6% em agosto para 3,4% em setembro, de acordo com a estimativa preliminar do instituto de estatística francês. Na Itália, o índice harmonizado subiu de 3,2% para 4,1%, enquanto a taxa nacional chegou a 4,2%. Na Espanha, o índice harmonizado atingiu 5,0%, contra 4,6% em agosto. Na Alemanha, a inflação anual subiu de 2,9% para 3,3%. Os dados nacionais foram divulgados antes da estimativa preliminar da inflação agregada da zona do euro, prevista para 2 de outubro.
A comparação com a meta do BCE mostra a extensão do movimento. Considerando as taxas harmonizadas divulgadas para os quatro países, a inflação está 1,4 ponto percentual acima da meta na França, 2,1 pontos acima na Itália e 3 pontos acima na Espanha. Na Alemanha, a taxa de 3,3% representa 1,3 ponto percentual além do objetivo. O movimento, portanto, não está concentrado em uma única economia ou em um único componente dos preços.
Energia amplia o choque e começa a atingir outros preços
A principal origem da aceleração está nos custos de energia. Na Itália, por exemplo, os preços dos produtos energéticos regulados avançaram 25,9% em 12 meses em setembro, ante 18,6% em agosto. Nos itens não regulados, a alta passou de 17,0% para 22,2%. Os alimentos não processados também aceleraram, de 3,8% para 5,5%.
A magnitude do choque aparece ainda no resultado mensal italiano. O índice nacional subiu 0,7% em setembro, com os preços da energia regulada aumentando 5,9% no mês e os da energia não regulada avançando 4,4%. A inflação de núcleo, que exclui energia e alimentos não processados, passou de 1,5% para 1,7%. O dado mostra que o choque ainda é fortemente concentrado em componentes mais voláteis, mas já há sinais de transmissão para outras partes da cesta.
Na Alemanha, a estatística oficial já havia mostrado em agosto a dimensão da pressão dos combustíveis. Os preços dos produtos energéticos eram 10,5% maiores que um ano antes, enquanto os combustíveis para veículos acumulavam alta de 27,7%. A inflação de núcleo, excluindo alimentos e energia, permanecia em 2,4%. A aceleração de setembro para 3,3% ocorreu, portanto, sobre uma base na qual a energia já vinha produzindo um impacto relevante sobre o índice.
Na Espanha, a inflação cheia medida pelo índice de preços ao consumidor chegou a 4,9%, seis décimos acima de agosto, enquanto o indicador harmonizado atingiu 5,0%. A inflação subjacente aumentou de 2,9% para 3,1%, sinalizando uma disseminação maior do movimento de preços para além da energia.
A França também registrou aceleração superior à esperada pelo mercado. Segundo a estimativa preliminar do instituto de estatística francês, a alta harmonizada para 3,4% foi determinada principalmente pelo encarecimento da energia, especialmente de derivados de petróleo e gás.
O conjunto dos dados altera a composição do problema enfrentado pelo BCE. Um choque restrito à energia pode perder força quando os preços das commodities recuam ou quando os efeitos de comparação deixam de pressionar a taxa anual. Quando a inflação passa a aparecer também em alimentos, bens e serviços, porém, a reversão tende a depender de um processo mais amplo de acomodação dos preços.
BCE já elevou juros duas vezes em 2026
A autoridade monetária iniciou o segundo semestre respondendo diretamente ao choque energético. Em 11 de junho, o Conselho do BCE elevou as três principais taxas em 25 pontos-base. Com isso, a taxa de depósito passou para 2,25%, a taxa das operações principais de refinanciamento para 2,40% e a taxa de empréstimo marginal para 2,65%.
Em 10 de setembro, houve novo aumento de 25 pontos-base. Desde 16 de setembro, a taxa de depósito está em 2,50%, a de refinanciamento em 2,65% e a marginal em 2,90%. Em julho, entre as duas altas, o BCE havia mantido os juros inalterados.
O segundo aumento ocorreu apesar do risco de enfraquecimento da atividade econômica. Na decisão de setembro, o BCE afirmou que o conflito no Oriente Médio continuava gerando pressões inflacionárias e que a inflação deveria permanecer acima da meta por um período prolongado. A instituição manteve, porém, a estratégia de decidir reunião a reunião, sem estabelecer antecipadamente uma trajetória para os juros.
A presidente do BCE, Christine Lagarde, reforçou esse posicionamento em audiência no Parlamento Europeu em 28 de setembro. Segundo ela, os preços de energia devem manter a inflação mais elevada do que o previsto anteriormente, mas ainda não havia evidência de que o choque estivesse incorporado de forma relevante aos salários. A avaliação apresentada foi de que uma resposta monetária medida continua adequada, enquanto a autoridade acompanha a propagação do choque para preços e remunerações.
Esse ponto é central para a próxima fase da política monetária. O BCE não reage mecanicamente a cada aumento de petróleo, gás ou combustíveis. A preocupação passa a ser maior quando o choque de oferta começa a produzir efeitos persistentes em preços de serviços, bens e salários. Nesse estágio, a política monetária precisa avaliar se a inflação temporária está se transformando em uma dinâmica mais duradoura.
Projeções apontam inflação maior no fim de 2026
As projeções econômicas publicadas pelo BCE em setembro já incorporavam um quadro de inflação mais elevado. A instituição projetou inflação média de 3,0% para 2026, 2,5% para 2027 e 2,1% para 2028. A inflação sem energia e alimentos foi projetada em 2,5% neste ano e 2,6% no próximo.
Mais importante para os próximos meses, o BCE estimou que a inflação cheia pode alcançar 3,6% no quarto trimestre de 2026, considerando as premissas de mercado para petróleo, gás e outras commodities energéticas. A projeção também indica que os efeitos indiretos dos custos mais altos de energia devem aparecer gradualmente nos componentes não energéticos.
O cenário de referência ainda pressupõe desaceleração posterior. A inflação projetada para 2027 cai para 2,5% na média, enquanto a taxa excluindo energia chega a 2,6%. A diferença entre esses números mostra que a instituição espera que parte relevante do choque de 2026 seja temporária, embora com alguma transmissão para a inflação subjacente.
O problema é que os dados efetivamente divulgados nesta semana já colocam algumas das maiores economias do bloco em níveis superiores aos considerados compatíveis com a estabilidade de preços. A Itália está com inflação harmonizada de 4,1%; a Espanha, em 5,0%; a França, em 3,4%; e a Alemanha, em 3,3%. Em todos os casos, o desvio em relação à meta é positivo e, em três deles, supera 1,5 ponto percentual.
Próxima leitura será a inflação agregada do bloco
A próxima referência decisiva será a divulgação da inflação preliminar de toda a zona do euro pelo Eurostat, em 2 de outubro. Economistas consultados pela Reuters projetam avanço da taxa anual para 3,6% em setembro, ante 3,2% em agosto. Essa estimativa coincide com a taxa que o próprio BCE projetou para o quarto trimestre, embora sejam métricas de naturezas diferentes: a projeção é uma média baseada em premissas econômicas, enquanto o dado do Eurostat medirá a inflação efetivamente observada no mês.
A composição desse resultado será tão importante quanto a taxa cheia. A experiência da Itália mostra que a energia continua concentrando boa parte do choque, mas a alta da inflação subjacente para 1,7% indica alguma transmissão adicional. Na Espanha, o núcleo de 3,1% revela uma pressão mais abrangente. Na Alemanha, a inflação subjacente permaneceu em 2,4% em agosto, enquanto a taxa cheia avançou posteriormente para 3,3%, reforçando a diferença entre o choque energético e os componentes mais persistentes.
Há ainda um efeito sobre a atividade econômica. As projeções de setembro do BCE apontam crescimento real de 0,9% em 2026, 1,4% em 2027 e 1,5% em 2028. A combinação de inflação elevada e custos de energia mais altos impõe uma restrição adicional ao consumo e aos custos empresariais, ao mesmo tempo em que juros maiores elevam o custo do crédito.
O cenário aumenta a importância dos próximos dados sobre inflação subjacente, salários, preços de energia e expectativas. Caso a pressão permaneça concentrada em componentes energéticos, parte do choque poderá perder força com a reversão das cotações e os efeitos de base. Se a aceleração continuar se espalhando por bens e serviços e alcançar os salários, o processo de desinflação ficará mais complexo e a decisão sobre a trajetória dos juros ganhará peso ainda maior.
Fontes:
Eurostat – histórico recente da inflação harmonizada da zona do euro e calendário de divulgação dos indicadores de preços
Banco Central Europeu – projeções macroeconômicas de setembro de 2026, trajetória da inflação e cenários relacionados ao choque de energia
Banco Central Europeu – decisões de política monetária de junho e setembro de 2026 e níveis das principais taxas de juros
Banco Central Europeu – audiência de Christine Lagarde no Parlamento Europeu em 28 de setembro de 2026
Istat – estimativa preliminar dos preços ao consumidor da Itália em setembro de 2026
Instituto Nacional de Estatística da Espanha – estimativa preliminar do CPI e do HICP de setembro de 2026
Destatis – inflação alemã, evolução dos preços de energia e inflação subjacente em 2026
INSEE – estimativa preliminar da inflação harmonizada francesa em setembro de 2026
Reuters – levantamento das estimativas para a inflação da zona do euro e repercussão dos dados nacionais de setembro









