O Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI) acelerou de 0,06% em agosto para 1,50% em setembro, pressionado principalmente pelo encarecimento de commodities agrícolas, combustíveis, energia elétrica residencial e alimentos in natura. Com o resultado divulgado nesta quarta-feira, 7 de outubro, pela Fundação Getulio Vargas, o indicador acumula alta de 3,72% em 2026 e de 3,80% nos últimos 12 meses.
A aceleração mensal foi de 1,44 ponto percentual e ficou concentrada sobretudo nos preços ao produtor e ao consumidor. O Índice de Preços ao Produtor Amplo, componente de maior peso do IGP-DI, saltou de 0,10% em agosto para 1,95% em setembro. No varejo, o IPC-DI passou de uma queda de 0,37% para alta de 0,67%.
O resultado geral ficou ligeiramente abaixo da mediana de 1,53% das projeções reunidas pelo mercado, dentro de um intervalo que ia de 1,35% a 1,82%.
A comparação com setembro de 2025 também mostra uma inflação mais forte. Há um ano, o IGP-DI havia avançado 0,36% no mês e acumulava 2,31% em 12 meses. Agora, a taxa acumulada anual está em 3,80%, diferença de 1,49 ponto percentual.
Apesar da forte aceleração do índice cheio, os componentes não caminharam todos na mesma direção. Enquanto atacado e preços ao consumidor ganharam força, os custos da construção desaceleraram de 0,66% em agosto para 0,22% em setembro.
Atacado concentra maior pressão
A principal contribuição veio do IPA-DI, que mede a evolução dos preços ao produtor.
O indicador subiu 1,95% em setembro, quase vinte vezes a variação de 0,10% registrada em agosto. A alta foi disseminada pelos diferentes estágios de processamento, com destaque para matérias-primas brutas.
Esse grupo acelerou de 1,43% para 2,94%, refletindo principalmente o aumento dos preços de commodities agrícolas.
Entre os produtos destacados pela FGV estão soja, farelo de soja e milho. O reajuste da gasolina automotiva também contribuiu para pressionar o componente atacadista.
Os bens finais passaram de alta de apenas 0,07% em agosto para avanço de 1,53% em setembro. Mesmo excluindo alimentos in natura e combustíveis para consumo, a taxa aumentou de 0,61% para 0,78%.
Nos bens intermediários, a mudança foi ainda mais clara. Depois de uma queda de 1,66% em agosto, os preços avançaram 1,00% em setembro.
Quando combustíveis e lubrificantes destinados à produção são retirados do cálculo, o índice de bens intermediários passou de queda de 0,09% para alta de 0,87%.
O comportamento desses grupos mostra que a aceleração do IGP-DI não ficou restrita a um único produto ou estágio da cadeia produtiva.
IPC vira de queda para alta de 0,67%
Os preços ao consumidor também mudaram significativamente de direção.
O IPC-DI avançou 0,67% em setembro, depois de ter caído 0,37% em agosto. Cinco das oito classes de despesas pesquisadas apresentaram aumento em suas taxas.
Habitação teve a maior mudança, passando de queda de 1,21% para alta de 1,99%.
Segundo a FGV, o movimento reflete principalmente a tarifa de eletricidade residencial, que voltou a pressionar o orçamento das famílias após o término dos efeitos dos descontos associados ao Bônus de Itaipu.
Alimentação também teve forte inversão. O grupo saiu de queda de 0,47% em agosto para alta de 1,00% em setembro.
Entre os alimentos, tomate e batata-inglesa estiveram entre os itens que contribuíram para a aceleração dos preços.
Vestuário passou de queda de 0,58% para alta de 0,30%, enquanto Educação, Leitura e Recreação reduziu a deflação de 1,44% para 0,23%. Comunicação também continuou em queda, mas passou de -2,19% para apenas -0,02%.
Na direção contrária, Despesas Diversas desacelerou de 3,38% para 0,08%. Transportes passaram de alta de 0,08% para queda de 0,04%, e Saúde e Cuidados Pessoais reduziram a variação de 0,27% para 0,17%.
Alta de preços ficou mais disseminada
Outro sinal de pressão veio do Índice de Difusão, que mede a parcela dos itens pesquisados que apresentaram aumento de preços.
O indicador subiu de 55,16% em agosto para 59,68% em setembro.
A diferença é de 4,52 pontos percentuais. Isso significa que quase seis em cada dez itens pesquisados pelo IPC-DI ficaram mais caros durante o mês.
A ampliação da difusão merece atenção porque mostra que a aceleração não ocorreu apenas em poucos componentes de peso elevado.
Ao mesmo tempo, o núcleo do IPC-DI apresentou comportamento mais moderado.
A medida, que retira algumas das maiores altas e quedas do mês para identificar a tendência subjacente da inflação ao consumidor, desacelerou de 0,27% em agosto para 0,25% em setembro.
No acumulado de 2026, o núcleo registra alta de 3,22%. Em 12 meses, a variação é de 4,20%.
Dos 85 itens que compõem o IPC, 40 foram retirados do cálculo do núcleo em setembro. Dezessete apresentaram variações abaixo do limite inferior de -0,15%, enquanto 23 ficaram acima do corte superior de 0,44%.
A combinação entre núcleo relativamente estável e maior difusão indica que os choques mais fortes do mês elevaram o índice cheio, mas sem produzir, até agora, uma aceleração equivalente da medida que busca capturar a tendência mais persistente dos preços.
Construção desacelera para 0,22%
O comportamento do setor de construção foi diferente.
O Índice Nacional de Custo da Construção – DI avançou 0,22% em setembro, abaixo dos 0,66% registrados em agosto.
Todos os três grandes componentes desaceleraram.
Materiais e Equipamentos passaram de alta de 0,33% para 0,14%. Serviços diminuíram de 0,18% para 0,15%. O movimento mais expressivo ocorreu em Mão de Obra, cuja taxa caiu de 1,12% em agosto para 0,32% em setembro.
Segundo a FGV, esse arrefecimento dos custos de mão de obra foi um dos principais responsáveis pela desaceleração do INCC-DI.
O componente da construção, portanto, funcionou como um contraponto dentro do índice geral, embora não tenha sido suficiente para evitar a aceleração do IGP-DI devido à pressão muito mais intensa no atacado e no consumo.
IGP-DI acumula 3,80% em 12 meses
Com a alta de setembro, o IGP-DI chegou a 3,72% no acumulado dos nove primeiros meses de 2026 e a 3,80% em 12 meses.
A taxa anual ainda está distante de alguns dos níveis elevados observados em ciclos anteriores de inflação, mas a aceleração mensal chama atenção porque veio depois de um agosto praticamente estável.
A passagem de 0,06% para 1,50% representa uma mudança de 1,44 ponto percentual em apenas um mês.
O comportamento foi semelhante ao observado em outros índices gerais da própria FGV durante setembro. O IGP-M, por exemplo, também apresentou forte aceleração no período, refletindo pressões semelhantes nos preços agrícolas, na energia e nos preços ao consumidor.
Os índices, no entanto, possuem períodos de coleta diferentes e não devem ser tratados como medidas idênticas.
O IGP-DI considera preços coletados entre o primeiro e o último dia do mês de referência e combina preços no atacado, ao consumidor e na construção civil.
Por sua composição, tende a ser mais sensível às commodities e às oscilações do câmbio do que índices estritamente voltados ao consumidor.
Commodities voltam ao centro da inflação
A leitura de setembro mostra justamente essa característica.
Soja, milho e farelo de soja tiveram influência relevante no atacado, ao mesmo tempo em que gasolina, eletricidade residencial e determinados alimentos pressionaram outros componentes.
Esse tipo de movimento pode se transmitir ao consumidor com diferentes intensidades e prazos.
Uma alta nos preços agrícolas no atacado, por exemplo, não necessariamente aparece integralmente no varejo no mesmo mês. Parte pode ser absorvida pelas margens das empresas, enquanto outra parcela pode chegar aos supermercados posteriormente.
O mesmo vale para combustíveis, que influenciam tanto diretamente o orçamento das famílias quanto indiretamente os custos de transporte e logística.
Por isso, a trajetória dos próximos meses será relevante para identificar se setembro representou um choque mais concentrado ou o começo de uma pressão persistente nos índices gerais.
A evolução das commodities agrícolas, dos preços do petróleo, do câmbio e da energia terá peso nesse processo.
Resultado acrescenta cautela à leitura da inflação
O IGP-DI não é o índice oficial utilizado pelo Banco Central para perseguir a meta de inflação — essa função pertence ao IPCA —, mas é acompanhado pelo mercado porque antecipa pressões existentes em diferentes etapas da economia.
A aceleração para 1,50% chega em um momento em que as taxas de juros de mercado passaram por forte queda após o primeiro turno das eleições presidenciais e os investidores discutem até onde pode avançar a redução do prêmio de risco brasileiro.
Uma inflação mais persistente pode limitar a velocidade de eventual queda dos juros. Ao mesmo tempo, um único resultado mensal do IGP-DI não é suficiente para determinar a trajetória da política monetária.
O Banco Central acompanha principalmente o comportamento e as expectativas para o IPCA, além da inflação de serviços, atividade econômica, mercado de trabalho, câmbio e cenário fiscal.
O dado da FGV acrescenta, porém, uma informação relevante: depois da estabilidade de agosto, a pressão de preços voltou com força em setembro, concentrada inicialmente no atacado, mas já acompanhada por aceleração no custo de vida das famílias.
A próxima leitura permitirá avaliar se a alta de commodities, alimentos e energia continuará se espalhando ou se parte do movimento será revertida.
Fonte
FGV IBRE








