O Itaú Unibanco (ITUB4) firmou um acordo para adquirir 35% da Prisma Capital, gestora brasileira de investimentos alternativos responsável por aproximadamente R$ 28 bilhões em ativos. A operação, anunciada em 14 de outubro e detalhada nesta quinta-feira (15), será realizada por meio de um aumento de capital inteiramente primário, com a entrada de novos recursos diretamente no caixa da gestora. Os atuais acionistas permanecerão com os outros 65% do capital e preservarão o controle da empresa.
A aquisição amplia a atuação do maior banco privado brasileiro em segmentos como crédito estruturado, participações em empresas, financiamento de operações complexas e investimentos em ativos de menor liquidez. A estratégia prevê que os recursos aportados pelo Itaú sejam utilizados tanto para ampliar a participação financeira da Prisma nos fundos administrados quanto para desenvolver e adquirir plataformas especializadas na originação de novos negócios. O valor do investimento não foi divulgado pelas empresas.
A conclusão da transação ainda depende de autorizações regulatórias, incluindo o aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e do Banco Central. Até o cumprimento dessas condições, o acordo representa um compromisso de investimento, e não uma transferência societária concluÃda. A estrutura anunciada permite ao Itaú adquirir participação econômica relevante sem assumir o comando das decisões de investimento da Prisma.
Aporte do Itaú reforçará capital da gestora sem transferência de controle
O formato escolhido para a operação é um dos principais aspectos da negociação. Em vez de comprar ações diretamente dos atuais acionistas, o Itaú subscreverá novas ações preferenciais emitidas pela Prisma, permitindo que a totalidade do investimento seja direcionada à própria empresa. Assim, os recursos poderão financiar a expansão operacional, sem representar uma venda de participações pelos fundadores.
A diferença é relevante para compreender os efeitos financeiros da transação. Em uma aquisição secundária, o pagamento é realizado aos acionistas vendedores. No aumento de capital primário anunciado, o dinheiro ingressa na companhia e aumenta sua capacidade de financiar projetos, assumir compromissos de investimento e desenvolver novas atividades.
Com a operação, o banco ficará com 35% do capital econômico, enquanto os sócios atuais conservarão os 65% restantes, uma diferença de 30 pontos percentuais. As ações preferenciais destinadas ao Itaú não terão direito a voto, preservando com os fundadores o poder de decisão sobre a administração e a alocação de recursos.
A manutenção da autonomia operacional foi apresentada como condição importante para a parceria. A Prisma continuará conduzindo sua estratégia de investimentos, enquanto o Itaú ampliará sua exposição ao mercado de ativos alternativos por meio de uma participação societária de longo prazo.
Carlos Fernando Rossi Constantini, diretor de Wealth Management & Services do Itaú, afirmou no comunicado da operação que o investimento fortalece a atuação do banco no segmento de alternativos. A avaliação apresentada pelo executivo é de que esse mercado oferece oportunidades de crescimento no Brasil, especialmente pela demanda de empresas por estruturas de financiamento diferentes das linhas bancárias tradicionais.
Prisma administra R$ 28 bilhões e realizou 120 operações desde 2017
Fundada em março de 2017 por Marcelo Hallack, João Mendes e Lucas Canhoto, a Prisma Capital construiu uma plataforma de investimentos voltada a operações que exigem análise especializada e estruturas de capital adaptadas às necessidades de cada empresa. Entre suas atividades estão crédito privado, participações societárias, ativos imobiliários, créditos inadimplidos, recuperação de empresas e financiamento de disputas judiciais.
A gestora informa ter investido mais de R$ 14 bilhões em aproximadamente 120 transações desde sua fundação. Considerando o valor mÃnimo divulgado, o volume acumulado representa uma média superior a R$ 116,7 milhões por operação. Trata-se de uma média aritmética, que não indica necessariamente o tamanho de cada investimento, já que os valores individuais podem variar significativamente.
O montante de R$ 14 bilhões corresponde ao capital historicamente investido nas transações, enquanto os R$ 28 bilhões sob gestão representam a dimensão atual dos ativos administrados pelo grupo. Os indicadores medem aspectos diferentes da atividade e não devem ser somados nem interpretados como receita ou lucro da empresa.
A leitura dos documentos regulatórios permite dimensionar melhor a estrutura da gestora. No Formulário de Referência de 2026, elaborado com dados de dezembro de 2025, a Prisma Capital Ltda. declarou aproximadamente R$ 5 bilhões sob administração, distribuÃdos entre fundos destinados a investidores qualificados.
Esse número não equivale ao total de R$ 28 bilhões informado pelo grupo na ocasião do anúncio da sociedade com o Itaú. A estrutura empresarial reúne outras gestoras e veÃculos especializados, com diferentes mandatos de investimento. Por isso, os dois valores possuem abrangências distintas e não permitem calcular diretamente uma taxa de crescimento patrimonial.
O documento também registra 205 investidores qualificados na estrutura da Prisma Capital Ltda., sem investidores não qualificados naquela data. O perfil reforça a concentração dessa atividade em clientes com maior capacidade financeira ou enquadramento regulatório especÃfico, em vez de uma operação voltada predominantemente ao varejo tradicional.
Crédito estruturado e fundos de participações concentram investimentos
Uma análise dos dados apresentados pela Prisma ao regulador mostra a importância dos fundos estruturados em seu modelo de negócios. Ao fim de 2025, a gestora registrava aproximadamente R$ 2,33 bilhões aplicados em cotas de fundos de investimento em direitos creditórios e R$ 2,22 bilhões em cotas de fundos de investimento em participações.
Somadas, essas duas categorias representavam cerca de R$ 4,55 bilhões, equivalentes a aproximadamente 91% dos recursos sob administração declarados pela Prisma Capital Ltda. O cálculo evidencia a predominância de estratégias ligadas ao financiamento de empresas e à aquisição de participações dentro daquela estrutura especÃfica da gestora.
Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) permitem reunir recursos de investidores para adquirir recebÃveis, como parcelas de contratos, créditos comerciais e determinados direitos de cobrança. Já os Fundos de Investimento em Participações (FIPs) são utilizados para investir no capital de companhias e participar de projetos empresariais, com horizontes de investimento normalmente mais longos.
Esses instrumentos desempenham funções distintas das linhas convencionais de empréstimo bancário. Dependendo da operação, a gestora pode estruturar financiamentos respaldados por recebÃveis, participar da reorganização financeira de empresas ou assumir exposição a determinados ativos em condições negociadas individualmente.
O investimento do Itaú permitirá ampliar a capacidade da Prisma de aplicar recursos próprios ao lado dos cotistas de seus fundos, mecanismo conhecido como coinvestimento. Nessa estrutura, a gestora participa financeiramente de determinadas operações, compartilhando parte dos riscos e dos resultados com os demais investidores.
A ampliação dessa capacidade depende do valor efetivamente aportado pelo banco, ainda não informado. Portanto, embora a entrada de um novo acionista fortaleça a base de capital, não é possÃvel calcular quantas operações adicionais poderão ser realizadas ou o impacto financeiro sobre os ativos administrados.
Itaú pretende avançar na originação de crédito e operações especiais
Além de ampliar a capacidade de investimento, os recursos da transação serão utilizados para desenvolver plataformas proprietárias de originação de ativos. Essas estruturas são responsáveis por identificar oportunidades, selecionar operações, avaliar riscos e organizar ativos que posteriormente poderão integrar as carteiras dos fundos geridos pela Prisma.
A originação é uma etapa importante da cadeia de investimentos em crédito privado. Em vez de depender exclusivamente de operações apresentadas por instituições financeiras ou intermediários externos, uma gestora com plataformas próprias pode desenvolver canais especializados para identificar empresas e clientes que necessitam de financiamento.
A Prisma já atua em segmentos como crédito estruturado, direitos creditórios e operações relacionadas a processos judiciais. A possibilidade de ampliar essas atividades mediante aquisições de empresas especializadas representa uma das aplicações previstas para o capital do Itaú.
O grupo também desenvolveu unidades dedicadas a estratégias especÃficas. Seu formulário regulatório identifica sociedades voltadas a crédito privado, mercado de capitais, investimentos em empresas, petróleo e gás, previdência e gestão de passivos e créditos judiciais.
Essa organização indica que a expansão anunciada ocorre sobre uma estrutura empresarial já diversificada. O novo capital poderá financiar iniciativas existentes ou permitir a entrada em atividades complementares, mas as empresas ainda não divulgaram alvos de aquisição nem cronogramas para novos investimentos.
Marcelo Hallack, um dos fundadores da Prisma, classificou o acordo como a operação societária mais importante da trajetória da gestora. Segundo declaração divulgada no comunicado, a entrada do Itaú cria uma base de capital mais robusta e reforça a governança, preservando as caracterÃsticas que orientaram o desenvolvimento da empresa.
Participação minoritária preserva decisões de investimento da Prisma
A estrutura de governança será determinante para o funcionamento da sociedade entre uma instituição financeira de grande porte e uma gestora especializada em ativos alternativos. Embora o Itaú passe a deter participação econômica de 35%, os fundadores continuarão responsáveis pelo controle acionário e pelas decisões estratégicas da Prisma.
O modelo permite que a instituição bancária participe dos resultados econômicos da gestora sem necessariamente integrar suas estruturas decisórias. Ao mesmo tempo, preserva o funcionamento de uma plataforma de investimentos que pode manter relações comerciais com outros bancos, fundos e investidores institucionais.
O Formulário de Referência da Prisma também apresenta mecanismos internos destinados ao acompanhamento de riscos, ao cumprimento de regras regulatórias e à prevenção de conflitos de interesses. Entre eles estão a atuação de diretor responsável por compliance e gestão de riscos e a existência de comitê especializado na avaliação de operações consideradas de maior risco.
A entrada do Itaú não elimina a necessidade desses controles. Pelo contrário, a participação de uma instituição financeira que também atua na concessão de crédito, administração de fundos e distribuição de produtos exige atenção à segregação de atividades e à identificação de eventuais interesses comerciais coincidentes.
Não foram divulgados detalhes completos sobre eventuais acordos de acionistas, direitos econômicos adicionais ou mecanismos especÃficos de proteção do investimento. Esses elementos poderão ser relevantes para compreender integralmente o relacionamento entre o banco e os controladores da Prisma após a conclusão da operação.
Mercado de crédito privado ganha espaço no financiamento empresarial
A aquisição está inserida em uma transformação mais ampla das formas de financiamento das empresas brasileiras. Além do crédito bancário tradicional, companhias podem captar recursos por meio de debêntures, fundos estruturados, securitizações e operações privadas de investimento, conforme suas necessidades e condições de acesso ao mercado.
O crescimento dessas alternativas está associado à busca de fontes diversificadas de capital, principalmente em operações que exigem prazos mais longos, estruturas personalizadas ou avaliação especializada de garantias. Os fundos de crédito privado e de participações também permitem que investidores institucionais assumam exposições que não correspondem necessariamente às prioridades de concessão de empréstimos dos bancos comerciais.
Nesse ambiente, instituições financeiras podem atuar simultaneamente como financiadoras, distribuidoras de produtos e investidoras em plataformas independentes de gestão. A participação do Itaú na Prisma amplia sua presença em uma dessas frentes, sem exigir que todas as operações sejam realizadas diretamente pelo balanço do banco.
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) também vem atualizando as regras aplicáveis aos fundos estruturados. Em março de 2026, a autarquia publicou a Resolução nº 240, que alterou dispositivos relacionados aos FIDCs para facilitar a cessão de determinados direitos creditórios por empresas em recuperação judicial ou extrajudicial.
A mudança regulatória é relevante para o segmento de operações especiais porque amplia as possibilidades de utilização de fundos como instrumentos de financiamento empresarial. Isso não significa, contudo, que os investimentos da Prisma estejam automaticamente vinculados às novas disposições ou que a operação com o Itaú tenha sido motivada especificamente por essa alteração.
Aprovações do Cade e do Banco Central ainda são necessárias
A conclusão da compra dependerá do cumprimento das condições contratuais e das autorizações regulatórias previstas. O Cade examinará os efeitos concorrenciais da operação, considerando aspectos como a atuação das empresas nos mercados envolvidos e eventuais relações entre suas atividades.
O controle prévio de atos de concentração está previsto na Lei nº 12.529, de 2011. Conforme as caracterÃsticas da transação, o órgão pode aprová-la sem restrições, impor condições para sua realização ou rejeitá-la quando identificar problemas concorrenciais que não possam ser solucionados.
O Banco Central também deverá avaliar a operação no âmbito de suas competências regulatórias. As empresas não divulgaram uma data para a conclusão da análise nem um prazo definitivo para o fechamento da transação.
A existência de um acordo assinado, portanto, não significa que a participação societária já tenha sido transferida. Até o encerramento das etapas necessárias, a Prisma continuará operando sob sua estrutura acionária atual.
Para o Itaú, a negociação acrescenta uma participação relevante em uma plataforma especializada em crédito estruturado e ativos alternativos. Para a Prisma, representa a possibilidade de financiar uma nova etapa de expansão sem abrir mão do controle de seus fundadores.
O impacto efetivo dependerá do volume de capital aportado, das autorizações regulatórias, da execução dos investimentos e da capacidade de ampliar a carteira de operações. Esses fatores determinarão se a sociedade conseguirá transformar o reforço financeiro anunciado em crescimento dos recursos administrados e dos resultados da gestora.
Fontes:
Prisma Capital – informações institucionais sobre fundação, modelo de negócios e estratégias de investimentos alternativos
Prisma Capital – Formulário de Referência de 2026, atualizado em março, com dados de dezembro de 2025 sobre ativos administrados, perfil de investidores, estrutura societária e governança
Conselho Administrativo de Defesa Econômica – orientações oficiais sobre análise concorrencial, aprovação e controle prévio de atos de concentração econômica
Comissão de Valores Mobiliários – Resolução nº 175 e normas relativas à constituição e ao funcionamento dos fundos de investimento
Comissão de Valores Mobiliários – Resolução nº 240 de março de 2026, referente à aquisição de direitos creditórios de empresas em recuperação judicial ou extrajudicial








