O avião utilizado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para deixar a Argentina e chegar aos Estados Unidos nesta quarta-feira (28) é operado pela Baires Fly, empresa de aviação executiva associada a movimentações financeiras investigadas pela Justiça argentina em um caso de suspeita de corrupção na antiga Agência Nacional de Deficiência (Andis). A ligação da companhia com o episódio foi confirmada pela Direção Nacional de Migrações da Argentina, que identificou oficialmente a operadora do voo contratado pelo parlamentar e sua família.
O caso argentino investiga um suposto sistema de direcionamento de contratos públicos, superfaturamento de medicamentos e insumos médicos e circulação irregular de recursos entre fornecedores e intermediários. Entre os empresários citados nas apurações está Sergio Daniel Mastropietro, vinculado à Baires Fly e mencionado em documentos parlamentares relacionados às investigações sobre a Andis.
A coincidência entre a companhia utilizada pelo senador brasileiro e a empresa mencionada na investigação argentina acrescenta uma nova dimensão ao episódio ocorrido após a derrota de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial de domingo (25). Entretanto, não há evidência, nas informações oficiais consultadas, de que o parlamentar brasileiro tenha participado das irregularidades investigadas na Argentina ou de que o fretamento tenha sido financiado com recursos provenientes do suposto esquema.
A viagem ocorreu depois de uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para que Flávio entregasse seus passaportes à Polícia Federal e não deixasse o território brasileiro. A medida foi adotada no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro. O senador nega as irregularidades investigadas.
Governo argentino confirmou embarque de Flávio em aeronave da Baires Fly
A Direção Nacional de Migrações da Argentina informou que Flávio Bolsonaro atravessou a fronteira brasileira às 22h50 de terça-feira (27), pela Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu, no Paraná, a Puerto Iguazú, na província argentina de Misiones. O senador estava acompanhado da mulher, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, e das duas filhas do casal.
Segundo o comunicado oficial, os quatro apresentaram documentos válidos para ingresso na Argentina, sem impedimentos registrados pelas autoridades migratórias daquele país. Às 23h30, a família embarcou em uma aeronave privada operada pela Baires Fly S.A., com destino declarado à cidade de Guayaquil, no Equador.
O intervalo entre a passagem pela fronteira e o embarque informado pelo governo argentino foi de apenas 40 minutos. Os registros de rastreamento aeronáutico mostram que o avião deixou Puerto Iguazú às 0h22 de quarta-feira, horário local, o que representa aproximadamente 52 minutos depois do horário de embarque comunicado pelas autoridades.
A aeronave é um Gulfstream G400, de matrícula argentina LV-JQW. Os registros históricos da plataforma FlightAware identificam uma viagem de Buenos Aires a Puerto Iguazú na noite de segunda-feira (26), seguida do deslocamento ao Equador e de uma segunda etapa até o Aeroporto Executivo de Miami-Opa Locka, na Flórida, na manhã de quarta-feira.
A presença do senador na Argentina, confirmada pelo próprio governo do país, contrasta com as informações iniciais divulgadas na terça-feira, quando autoridades argentinas ainda não registravam oficialmente sua entrada. O comunicado posterior esclareceu os horários da travessia e identificou a empresa responsável pelo voo.
Baires Fly aparece em investigação sobre movimentações financeiras de fornecedores da Andis
A Baires Fly opera no mercado argentino de transporte aéreo privado há décadas. A companhia possui autorização formal da Administração Nacional de Aviação Civil da Argentina para explorar serviços não regulares nacionais e internacionais de transporte de passageiros, conforme a Resolução 632-E/2017, publicada no Boletim Oficial argentino.
A presença da empresa na investigação sobre a Andis decorre de operações financeiras que, segundo elementos reunidos pela Justiça argentina, envolvem pagamentos de fornecedores do setor médico e a emissão de documentos comerciais relacionados a serviços aeronáuticos.
Um dos nomes associados às operações é Sergio Daniel Mastropietro, empresário do setor de aviação investigado por seu possível papel na movimentação de valores provenientes das contratações públicas sob suspeita. A apuração examina suas relações comerciais e financeiras com Miguel Ángel Calvete, apontado pelo Ministério Público argentino como um dos intermediários de um sistema de direcionamento de compras e pagamentos indevidos.
Entre os movimentos financeiros examinados judicialmente estão transferências efetuadas por fornecedores da Andis para contas da Baires Fly, acompanhadas da emissão de faturas relativas à aquisição de créditos de utilização de aeronaves, descritos comercialmente como quilômetros de voo.
A suspeita investigada é que determinadas operações comerciais tenham servido para justificar a transferência e a circulação de valores de origem irregular. A existência de transferências e documentos fiscais, isoladamente, não comprova lavagem de dinheiro. A responsabilidade criminal dos envolvidos depende da análise das provas e das decisões judiciais.
Uma das operações descritas nas informações judiciais disponíveis envolve transferências de 95,06 milhões de pesos argentinos realizadas em setembro de 2025 por duas fornecedoras de equipamentos médicos. Esse montante se refere a uma movimentação específica examinada na investigação, não ao valor do fretamento realizado por Flávio Bolsonaro.
Investigação argentina aponta irregularidades bilionárias nas compras públicas
O processo que envolve a antiga Andis ganhou dimensão nacional depois de denúncias sobre o funcionamento do programa Incluir Salud, responsável pelo fornecimento de medicamentos e equipamentos médicos a pessoas com deficiência e outros beneficiários em situação de vulnerabilidade.
A investigação conduzida pelo Ministério Público Fiscal argentino identificou indícios de manipulação de processos de compra, circulação privilegiada de informações entre fornecedores e funcionários públicos e mecanismos de direcionamento de contratos.
Diego Spagnuolo, ex-dirigente da agência, está entre os principais investigados. A Justiça argentina determinou seu processamento, além de adotar medidas contra outros suspeitos. Na legislação processual argentina, o processamento representa uma decisão judicial intermediária, baseada em elementos considerados suficientes para o prosseguimento da acusação, e não equivale a uma condenação definitiva.
Em outubro de 2026, o juiz federal Ariel Lijo ampliou decisões de processamento relacionadas à compra de insumos médicos e ortopédicos. Segundo o Ministério Público Fiscal, a investigação identificou procedimentos suspeitos em segmentos como aparelhos auditivos, materiais cardiovasculares, próteses, cadeiras de rodas e equipamentos de traumatologia.
O avanço mais recente da apuração incluiu um pedido dos procuradores Franco Picardi e Sergio Rodríguez para ouvir outros 36 envolvidos, além de ampliar depoimentos de sete pessoas. O requerimento também examina a atuação de fornecedores de medicamentos de alto custo.
De acordo com o Ministério Público argentino, a empresa Suizo Argentina recebeu aproximadamente 137,12 bilhões de pesos argentinos em encomendas da Andis entre maio de 2024 e agosto de 2025, montante equivalente a 29,54% do valor adjudicado pelo órgão no período analisado. Os investigadores sustentam que parte dessas contratações teria ocorrido sob condições irregulares.
Esses valores dimensionam o alcance da investigação sobre as compras governamentais. Eles não correspondem, porém, a recursos comprovadamente transferidos à Baires Fly, nem podem ser atribuídos ao financiamento da viagem do senador brasileiro.
Deputado argentino já havia solicitado esclarecimentos sobre Mastropietro
A relação de Sergio Mastropietro com as investigações sobre a Andis também motivou iniciativas no Congresso argentino antes da viagem de Flávio Bolsonaro.
Em 28 de novembro de 2025, o deputado nacional Esteban Paulón apresentou o projeto de resolução 6761-D-2025, solicitando esclarecimentos à área de Segurança do governo argentino sobre possíveis falhas da Polícia de Segurança Aeroportuária e das autoridades migratórias durante a entrada de Mastropietro no país.
O requerimento parlamentar aborda um episódio ocorrido em 15 de novembro daquele ano, quando o empresário chegou à Argentina em um voo privado procedente de Miami. A proposta solicita explicações sobre a execução de medidas judiciais relacionadas à obtenção de dispositivos eletrônicos que poderiam conter informações relevantes para a investigação.
O documento também questiona os procedimentos adotados pelas autoridades responsáveis pelo controle de passageiros de aeronaves privadas, incluindo a comunicação entre órgãos públicos, eventuais falhas de fiscalização e a preservação de provas.
A existência do pedido parlamentar demonstra que a atuação de Mastropietro já havia provocado questionamentos institucionais no Congresso argentino. Entretanto, o requerimento não constitui uma decisão condenatória nem comprova que as irregularidades descritas tenham efetivamente ocorrido.
A investigação sobre a Andis também gerou acusações públicas relacionadas ao entorno político do presidente Javier Milei. Sua irmã, Karina Milei, secretária-geral da Presidência argentina, foi mencionada em denúncias e controvérsias sobre o caso. A existência dessas alegações não comprova que ela tenha recebido recursos indevidos, e os documentos oficiais examinados não permitem afirmar sua participação no esquema investigado.
Viagem ocorreu após decisão do STF que proibia saída do Brasil
No Brasil, o deslocamento de Flávio Bolsonaro ocorreu em meio ao descumprimento de uma determinação judicial relacionada à entrega de seus passaportes e à proibição de deixar o país.
A ordem foi expedida pelo ministro Alexandre de Moraes na segunda-feira (26), no contexto de um inquérito envolvendo o senador e o advogado Willer Tomaz. O processo examina suspeitas de lavagem de dinheiro, que são contestadas pelos investigados.
A Polícia Federal cancelou os passaportes brasileiros do parlamentar depois que o prazo estabelecido para a entrega dos documentos terminou sem cumprimento. Flávio havia divulgado uma manifestação pública na qual criticava a medida judicial e afirmava que permaneceria no Brasil para organizar a oposição política.
A confirmação de sua saída, dois dias depois, introduziu uma questão adicional sobre o cumprimento das medidas cautelares impostas pelo STF. O registro de entrada na Argentina demonstra que o senador passou pelo controle migratório argentino, mas não esclarece, por si só, como ocorreu o cumprimento dos procedimentos brasileiros de saída do território nacional.
O descumprimento de uma medida cautelar pode levar o magistrado responsável a reavaliar as restrições impostas ao investigado. Eventuais consequências, incluindo a adoção de medidas mais severas, dependem de decisão judicial fundamentada. A viagem ao exterior não implica automaticamente a existência de mandado de prisão.
Contratante do voo e eventual participação de autoridades ainda precisam ser esclarecidos
A identificação oficial da Baires Fly como operadora da aeronave não permite determinar quem contratou o serviço, qual foi o custo da viagem ou de onde vieram os recursos utilizados para pagá-la.
Também não estabelece participação direta de autoridades do governo argentino na contratação. A presença de integrantes do governo de Javier Milei em eventuais articulações relacionadas ao deslocamento precisa ser examinada separadamente dos registros migratórios e aeronáuticos já conhecidos.
A autorização de operação da Baires Fly, a investigação sobre movimentações financeiras envolvendo a companhia e o voo utilizado por Flávio Bolsonaro são fatos de naturezas distintas. A eventual existência de irregularidades nas operações comerciais investigadas não significa que todos os serviços prestados pela empresa sejam ilícitos.
Para esclarecer o episódio, seriam relevantes o contrato de fretamento, os documentos de faturamento, a identificação do pagador, os registros completos de passageiros e eventuais comunicações oficiais entre os responsáveis pela operação e autoridades públicas.
Até o momento, os elementos disponíveis permitem confirmar a utilização de uma empresa mencionada em investigação judicial argentina e a realização da viagem depois de uma ordem do STF que restringia a saída do senador do Brasil. Não permitem estabelecer ligação financeira entre a viagem e os recursos sob investigação na Andis.
Fontes:
Direção Nacional de Migrações da Argentina — comunicado oficial de 28 de outubro de 2026 sobre a entrada de Flávio Bolsonaro e familiares na Argentina e o embarque em voo operado pela Baires Fly.
Ministério Público Fiscal da Argentina — comunicados sobre a investigação de irregularidades nas compras da Andis, os processamentos judiciais e os requerimentos de novas declarações.
Câmara dos Deputados da Argentina — projeto de resolução 6761-D-2025, apresentado por Esteban Paulón, com pedido de esclarecimentos sobre procedimentos envolvendo Sergio Mastropietro.
Administração Nacional de Aviação Civil da Argentina — Resolução 632-E/2017, sobre a autorização operacional da Baires Fly S.A.
FlightAware — registros históricos da aeronave LV-JQW referentes aos deslocamentos de 26 a 28 de outubro de 2026.
Supremo Tribunal Federal — registro público do Inquérito 5045, relacionado a Flávio Bolsonaro, e informações públicas sobre as medidas cautelares determinadas em outubro de 2026.
Polícia Federal — informações institucionais sobre a determinação de entrega e o cancelamento dos passaportes do senador.










