As taxas dos contratos de juros futuros de longo prazo voltaram a subir nesta quarta-feira, 7 de outubro, depois da forte queda provocada nos dois primeiros pregões após o primeiro turno da eleição presidencial. O DI com vencimento em janeiro de 2035 encerrou a sessão em torno de 12,79% ao ano, avanço de aproximadamente 6 pontos-base sobre o ajuste da véspera, enquanto os vencimentos mais curtos ficaram próximos da estabilidade.
O movimento interrompeu parcialmente a compressão de prêmios observada desde segunda-feira. Na sexta-feira anterior à eleição, o ajuste do DI para janeiro de 2035 estava em 14,131%. Comparado aos 12,79% desta quarta, a taxa ainda acumula queda de aproximadamente 134 pontos-base em apenas três pregões, mesmo depois da correção positiva registrada na sessão.
Na parte mais curta da curva, o contrato para janeiro de 2028 terminou próximo de 12,60%, praticamente estável em relação ao ajuste de 12,613% da terça-feira. A diferença entre as taxas de 2035 e 2028 ficou, assim, em aproximadamente 19 pontos-base, ante cerca de 12 pontos-base na sessão anterior, mostrando uma reabertura da inclinação entre os dois vencimentos.
A combinação revela uma mudança importante em relação às sessões imediatamente posteriores à eleição. O mercado ainda mantém boa parte da redução do prêmio fiscal realizada após o resultado das urnas, mas fatores externos voltaram a limitar o fechamento das taxas mais longas.
Eleição retirou mais de 130 pontos-base do DI de 2035
A alteração mais expressiva na curva ocorreu após o primeiro turno da eleição de 4 de outubro. Flávio Bolsonaro (PL) terminou na liderança com 47,03% dos votos válidos, ante 45,16% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo a Justiça Eleitoral.
A diferença foi de 1,87 ponto percentual e aproximadamente 2,23 milhões de votos. Como nenhum candidato alcançou a maioria absoluta dos votos válidos, os dois disputarão o segundo turno em 25 de outubro.
A reação inicial dos ativos brasileiros foi intensa. Na segunda-feira, o DI para janeiro de 2035 caiu de um ajuste de 14,131% para aproximadamente 12,80%, movimento de mais de 130 pontos-base em uma única sessão. A taxa recuou novamente na terça e chegou a um ajuste próximo de 12,732%.
Parte dos investidores passou a incorporar aos preços uma percepção de maior probabilidade de mudança na condução da política econômica a partir de 2027. Esse movimento afetou sobretudo os vencimentos mais longos, que carregam maior exposição às expectativas sobre dívida pública, resultado fiscal e trajetória futura da taxa de juros.
Essa interpretação, porém, continua sujeita a elevada incerteza. O resultado do primeiro turno definiu apenas os dois candidatos que seguem na disputa. A composição de uma eventual equipe econômica, as medidas fiscais e a capacidade de aprovação de mudanças no Congresso ainda dependerão do resultado do segundo turno e das decisões posteriores do próximo governo.
Por isso, a queda das taxas não pode ser interpretada como confirmação de um ajuste fiscal futuro. Ela representa, neste momento, uma mudança de preço e de percepção de risco dos participantes do mercado.
Curva ainda está muito abaixo do nível anterior à eleição
Mesmo com a alta registrada nesta quarta-feira, a magnitude do movimento acumulado permanece elevada.
Tomando como referência o ajuste de 14,131% da sexta-feira e a taxa próxima de 12,79% no encerramento desta quarta, o DI de janeiro de 2035 recuou cerca de 1,34 ponto percentual. Isso equivale a aproximadamente 134 pontos-base.
A recuperação desta quarta-feira devolveu, portanto, apenas uma pequena parcela da queda ocorrida desde o resultado eleitoral.
No vencimento de janeiro de 2028, o comportamento também foi de queda, mas com intensidade menor. Isso mostra que a reprecificação foi especialmente forte no trecho longo, justamente onde os contratos refletem com maior intensidade expectativas sobre política fiscal, dívida pública, inflação e taxa de juros de equilíbrio ao longo dos próximos anos.
O movimento também altera a estrutura da curva. Quando os juros longos caem mais rapidamente que os curtos, a diferença entre os vencimentos diminui. Nesta quarta-feira ocorreu uma correção parcial dessa dinâmica, com a ponta longa subindo enquanto o trecho mais curto permaneceu praticamente estável.
Treasuries e petróleo pressionam vencimentos longos
A correção dos juros brasileiros coincidiu com uma sessão de pressão sobre os títulos do Tesouro dos Estados Unidos. O rendimento do Treasury de dez anos chegou a superar 5,3% durante o dia, em um ambiente de preocupação com inflação, oferta de títulos públicos e política monetária norte-americana.
Os dados oficiais do Tesouro norte-americano mostram que o rendimento de referência de dez anos vinha de 5,27% na terça-feira, nível já elevado em comparação com meses anteriores.
Juros mais altos nos Estados Unidos tendem a aumentar a remuneração exigida pelos investidores para manter recursos em mercados emergentes. Isso pode pressionar as curvas de juros domésticas, especialmente nos vencimentos mais longos, ainda que fatores locais estejam apontando na direção oposta.
O petróleo acrescentou pressão ao longo da sessão. O Brent voltou a operar próximo ou acima de US$ 100 por barril durante parte do dia em meio às tensões geopolíticas no Oriente Médio. A alta da energia reforça o risco inflacionário global e pode dificultar a redução dos juros pelas principais autoridades monetárias.
No decorrer da tarde, tanto o petróleo quanto os rendimentos dos Treasuries perderam parte da força. Ainda assim, a curva brasileira de longo prazo encerrou o pregão com taxas acima das registradas na terça-feira.
Ata do Fed confirma divisão sobre inflação
Outro ponto de atenção veio dos Estados Unidos. O Federal Reserve divulgou nesta quarta-feira a ata da reunião de 15 e 16 de setembro, quando elevou a faixa dos juros básicos em 0,25 ponto percentual, para 3,75% a 4% ao ano.
O documento mostra que os integrantes do Comitê Federal de Mercado Aberto avaliaram diferentes razões para a necessidade de maior restrição monetária.
Parte dos participantes demonstrou preocupação com a possibilidade de choques de energia e outros aumentos de preços contaminarem a inflação. Outros enfatizaram riscos associados à própria demanda da economia.
A discussão importa para o Brasil porque uma permanência prolongada dos juros norte-americanos em patamares elevados mantém a competição internacional por capital e pode reduzir o espaço para quedas mais agressivas das taxas de mercado em economias emergentes.
Na reunião de setembro, a decisão de elevar os juros norte-americanos foi unânime. A próxima reunião do Federal Reserve está marcada para 27 e 28 de outubro.
Selic está em 13,75% e mercado discute novos cortes
No Brasil, o Comitê de Política Monetária reduziu em setembro a Selic para 13,75% ao ano. A decisão deu continuidade ao processo de flexibilização monetária, mas o Banco Central reforçou a necessidade de cautela diante das incertezas e dos riscos para a inflação.
A taxa do DI para janeiro de 2028, perto de 12,60%, está aproximadamente 1,15 ponto percentual abaixo da Selic atual. A comparação não representa uma previsão direta da taxa básica para aquele período, já que o contrato incorpora expectativas para todo o intervalo até o vencimento, além de prêmios de risco, mas evidencia a expectativa de juros menores à frente.
As Opções de Copom negociadas na B3 também passaram a refletir maior probabilidade de novos cortes da Selic nas próximas reuniões. A intensidade desse processo, entretanto, continuará dependente da inflação, das expectativas, da atividade econômica, do câmbio e do quadro fiscal.
A próxima reunião do Copom ganha importância adicional porque ocorrerá durante o período de transição política definido pelas eleições.
Segundo turno mantém componente fiscal no centro dos preços
A forte queda dos juros desde segunda-feira mostra a dimensão do componente político que foi incorporado aos preços. Mas o comportamento desta quarta também evidencia que a eleição não é a única variável relevante para a curva.
Entre sexta-feira e o encerramento desta sessão, a taxa de janeiro de 2035 permaneceu cerca de 134 pontos-base mais baixa. Ao mesmo tempo, a alta dos Treasuries e do petróleo foi suficiente para provocar uma correção na ponta longa mesmo com a manutenção do cenário eleitoral que havia produzido o fechamento inicial.
Até 25 de outubro, a divulgação de propostas econômicas dos dois candidatos tende a permanecer no centro da avaliação dos investidores. O foco estará especialmente na política fiscal, no tratamento da dívida pública e na trajetória projetada para receitas e despesas.
A curva de juros, portanto, entra no período entre os dois turnos em nível muito diferente daquele observado antes da votação, mas ainda sem uma definição sobre quanto da redução recente dos prêmios poderá ser sustentada. O resultado dependerá tanto das sinalizações domésticas quanto da trajetória dos juros e da inflação no exterior.
Fontes:
B3 — contratos futuros de DI, metodologia dos preços de ajuste e dados de negociação do mercado de juros
Banco Central do Brasil — decisão e ata da reunião do Copom que reduziu a taxa Selic para 13,75% ao ano
Tribunal Superior Eleitoral — resultado oficial do primeiro turno da eleição presidencial de 2026
Federal Reserve — ata da reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto de 15 e 16 de setembro de 2026
Departamento do Tesouro dos Estados Unidos — curva oficial de rendimentos dos títulos do Tesouro norte-americano







