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Lagoinha fecha unidade de Fabiano Zettel em BH dias após segunda prisão do cunhado de Vorcaro

Templo no Belvedere encerrou cultos neste domingo, 15; instituição não explica motivo; Zettel é investigado pela PF como operador financeiro de suposto esquema bilionário no Banco Master

por Carlos Menezes
18/03/2026 às 23h37
em Política
Lagoinha Fecha Igreja De Zettel Em Bh Após 2ª Prisão Do Cunhado De Vorcaro Gazeta Mercantil

A Igreja Batista da Lagoinha fechou neste domingo, 15 de março, a unidade que mantinha no bairro Belvedere, em Belo Horizonte. O templo era pastoreado por Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e alvo de duas prisões decretadas pela Polícia Federal (PF) em menos de um ano. A instituição confirmou o encerramento das atividades, mas não apresentou justificativa pública para a decisão.

O fechamento acontece 11 dias após a segunda prisão de Zettel, em 4 de março. A operação da PF que o deteve investiga suspeita de crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, ameaça e invasão de dispositivos informáticos, supostamente cometidos no âmbito de organização criminosa ligada ao Banco Master.

Leia também: Polícia recaptura fugitivos de Mossoró após 50 dias de busca.


PF: Zettel era operador financeiro direto de Vorcaro

Nas investigações federais, Fabiano Zettel não é tratado como figura secundária. A Polícia Federal o identifica como operador financeiro central no suposto esquema de desvios bilionários do Banco Master — o banco que Daniel Vorcaro presidiu até o colapso público de sua estrutura de comando.

A primeira prisão de Zettel ocorreu em 2025. A segunda, em março deste ano, aprofundou o enquadramento das autoridades: desta vez, as investigações apontam para crimes que extrapolam o campo estritamente financeiro e alcançam a esfera do crime organizado.

O afastamento formal de Zettel da liderança da Lagoinha Belvedere havia sido anunciado pela própria instituição em novembro de 2025, “assim que surgiram as primeiras informações públicas relacionadas ao caso investigado”. Ainda assim, o templo continuou funcionando por mais quatro meses — e só encerrou as atividades após a segunda prisão.


Templo inaugurado com pompa em 2024 fecha sem explicação em 2026

A Lagoinha Belvedere foi inaugurada em setembro de 2024 com uma cerimônia de grande porte. O templo atendia uma congregação de perfil socioeconômico elevado e representava a expansão da denominação para um dos bairros mais nobres de Belo Horizonte.

Natalia Vorcaro, irmã de Daniel Vorcaro e esposa de Fabiano Zettel, também exercia o pastoreio na unidade. A assessoria da Lagoinha chegou a indicá-la como responsável atual pelo templo ao ser procurada para comentar o fechamento. Ela não respondeu até o fechamento desta edição.

O CNPJ da Lagoinha Belvedere, registrado em setembro de 2024, permanece formalmente ativo. Fabiano Zettel ainda consta nos registros como presidente da entidade jurídica — mesmo preso e afastado das funções pastorais.


Lagoinha distancia-se institucionalmente, mas conexões com Vorcaro eram públicas

Diante das investigações, a Igreja Batista da Lagoinha adotou uma postura de distanciamento formal. Em comunicado anterior ao fechamento, a instituição afirmou que o pastoreio de Zettel na unidade Belvedere era voluntário e restrito àquela filial. Reforçou que a Lagoinha Global é composta por igrejas locais com liderança própria, “responsável pelas decisões administrativas e jurídicas” de cada templo.

A estratégia de separação jurídica, porém, contrasta com a extensão pública dos laços entre a família Vorcaro e a cúpula da Lagoinha. Daniel Vorcaro mantinha relação próxima com os Valadão, família que comanda a denominação em suas principais instâncias. A filha do ex-banqueiro dançou valsa de 15 anos com o primogênito do pastor André Valadão. O casamento entre Fabiano Zettel e Natalia Vorcaro foi celebrado pelo próprio André Valadão — um dos mais influentes líderes evangélicos do Brasil.

Essas conexões eram amplamente conhecidas nos círculos religiosos e sociais de Belo Horizonte e São Paulo, o que torna o argumento do distanciamento institucional de difícil sustentação perante o público que acompanha o caso.


Vídeo de pastor pedindo perdão é associado por fiéis ao escândalo do Master

No mesmo fim de semana em que a Lagoinha Belvedere encerrava suas atividades, um vídeo do pastor Luciano Barreto circulou extensamente nas redes sociais. Gravado na unidade de Alphaville, em São Paulo, o vídeo mostrava Barreto — um dos principais líderes da denominação — pedindo perdão publicamente por uma série de falhas institucionais.

Entre os motivos listados pelo pastor, um foi imediatamente associado por fiéis às suspeitas de envolvimento da Lagoinha com o escândalo do Banco Master: a afirmação de que a Igreja pediu perdão “pelas vezes onde o dinheiro não foi administrado com sabedoria para investir no reino de Deus”.

A Lagoinha não comentou se a declaração tinha relação direta com o caso Vorcaro. O silêncio, para muitos membros da congregação, foi interpretado como uma resposta em si mesma.


Banco Master: investigações avançam em múltiplas frentes

O fechamento da Lagoinha Belvedere ocorre num momento em que as investigações sobre o Banco Master continuam se expandindo. Um juiz reconheceu indícios de desvios bilionários na instituição e determinou a suspensão de transferências de bens ligados ao caso. O Supremo Tribunal Federal (STF) prorrogou por 60 dias, a pedido da PF, o inquérito que envolve o Master e o BRB.

Na CPI do Crime Organizado, instalada no Senado Federal, o caso Banco Master tornou-se um dos focos centrais das investigações parlamentares em 2026. A comissão aprovou a convocação da ex-noiva de Vorcaro e segue ampliando a lista de pessoas ouvidas sobre a estrutura do banco e os supostos esquemas que teriam operado dentro dele.

Segundo interlocutores próximos ao ex-banqueiro, Daniel Vorcaro avalia a possibilidade de firmar acordo de colaboração premiada com as autoridades. A informação é de que ele não pretende envolver magistrados do STF em suas declarações — pelo menos não de forma voluntária.


O que a PF investiga: corrupção, lavagem e organização criminosa

Para dimensionar o peso das investigações que cercam Fabiano Zettel e, por extensão, a Lagoinha Belvedere, é necessário compreender o escopo das apurações federais em curso.

A operação que resultou na segunda prisão de Zettel em março de 2026 não se limita a irregularidades contábeis ou financeiras. A PF apura um conjunto de crimes que inclui ameaça, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos — tudo isso no contexto de organização criminosa. Esse enquadramento jurídico é significativamente mais grave do que uma investigação administrativa convencional e aponta para a tese de que o suposto esquema teria contado com mecanismos ativos de coerção e ocultação de provas.

A suspeita central das autoridades é a de que Zettel não era apenas um pastor bem-relacionado com o mercado financeiro. Ele teria sido, segundo a PF, a pessoa que operacionalizava as movimentações financeiras de Vorcaro — fazendo a ponte entre as decisões do ex-banqueiro e a execução de operações que as investigações classificam como fraudulentas.


Cronologia do caso: de setembro de 2024 a março de 2026

Para acompanhar a velocidade com que os eventos se sucederam, é útil reconstituir a linha do tempo:

Setembro de 2024 — A Lagoinha Belvedere é inaugurada formalmente, com Zettel na liderança e Natalia Vorcaro como co-pastora. O templo passa a operar num dos bairros mais valorizados de Belo Horizonte.

2025 (primeiro semestre) — Fabiano Zettel é preso pela Polícia Federal pela primeira vez, no contexto das investigações sobre o Banco Master.

Novembro de 2025 — A Lagoinha anuncia o afastamento de Zettel do pastoreio da unidade Belvedere, mas mantém o templo em funcionamento.

Leia também: Governador de Tocantins afastado pela PF em operação sobre desvio de emendas parlamentares

4 de março de 2026 — Zettel é preso pela segunda vez. A operação da PF expande o escopo das investigações e reforça o enquadramento de organização criminosa.

15 de março de 2026 — A Lagoinha Belvedere realiza seu último culto e encerra as atividades, sem comunicado público sobre os motivos.

18 de março de 2026 — A assessoria da Lagoinha confirma o fechamento. Natalia Vorcaro não se manifesta. O CNPJ do templo segue ativo, com Zettel como presidente da entidade jurídica.


Próximos passos: delação, CPI e o destino da Lagoinha Belvedere

As semanas que se seguem ao fechamento da Lagoinha Belvedere devem ser decisivas para o andamento das investigações que cercam o caso Banco Master.

Se Daniel Vorcaro confirmar a intenção de firmar acordo de colaboração premiada, as informações que ele pode fornecer às autoridades têm o potencial de mudar substancialmente o mapa do caso — tanto em relação aos nomes envolvidos quanto em relação à extensão dos supostos crimes. A decisão de Vorcaro sobre a delação é acompanhada com atenção por todos os envolvidos, direta e indiretamente, no escândalo.

Na CPI do Crime Organizado, as oitivas continuam. Novos convocados devem ampliar o alcance das investigações parlamentares sobre o Banco Master e sobre as estruturas que, segundo as apurações, teriam viabilizado o suposto esquema de desvios.

Quanto à Lagoinha Belvedere, o CNPJ segue ativo e Zettel permanece como presidente da entidade jurídica no papel. Mas as portas do templo estão fechadas — e enquanto o seu pastor continua preso e investigado por crimes graves, não há indicação de quando ou se elas voltarão a se abrir.


Da inauguração com pompa ao silêncio do fechamento: o que resta da Lagoinha Belvedere

Em pouco mais de 18 meses, a Lagoinha Belvedere percorreu um arco que dificilmente poderia ser previsto quando suas portas foram abertas com celebração em setembro de 2024. De templo de elite no coração de um dos bairros mais nobres de Belo Horizonte a unidade fechada sem explicação, associada ao maior escândalo financeiro investigado no Brasil em 2025 e 2026.

A história da Lagoinha Belvedere é, em miniatura, a história do colapso de uma rede de poder que conectava finanças, religião, família e política num arranjo que, por algum tempo, pareceu sólido o suficiente para se sustentar. Quando as investigações começaram a expor as fundações desse arranjo, o edifício — literal e metaforicamente — não resistiu.

O que resta, agora, são um CNPJ ativo, um presidente preso, uma pastora em silêncio e uma congregação que frequentava o templo sem saber que estava, sem querer, no centro de um dos casos mais complexos da história recente do sistema financeiro e da segurança pública brasileira.

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