O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) retomou na Marcha para Jesus, em São Paulo, uma estratégia discursiva já usada por Jair Bolsonaro na campanha presidencial de 2022: apresentar a disputa política como uma “guerra espiritual” entre o “bem” e o “mal”. A fala ocorreu nesta quinta-feira, 4, durante a 34ª edição do evento evangélico, que reuniu milhares de fiéis e contou com a presença de autoridades dos três Poderes.
No trio elétrico, ao lado do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), Flávio afirmou que o Brasil vive uma guerra espiritual e fez uma referência indireta ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“Vamos orar pelo nosso Brasil. Essa guerra é espiritual e hoje é a maior resposta que nós podemos dar ao mundo do mal que vai ser expulso do governo desse Brasil esse ano”, declarou o senador.
A frase chamou atenção por recolocar no centro da pré-campanha um tipo de retórica moral e religiosa que marcou a eleição de 2022. Naquele ano, Jair Bolsonaro também recorreu a discursos que apresentavam a disputa contra Lula como uma batalha de valores, aproximando política, religião e identidade conservadora.
Marcha para Jesus vira palco político
A Marcha para Jesus é uma das maiores manifestações evangélicas do país e costuma atrair autoridades em ano eleitoral. A edição deste ano voltou a evidenciar o peso político do segmento evangélico, um dos grupos mais disputados por governo e oposição.
Flávio Bolsonaro participou do evento em um momento sensível de sua trajetória política. O senador tenta se consolidar como nome competitivo no campo bolsonarista, mas enfrenta desgaste após controvérsias envolvendo sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.
Mesmo assim, o parlamentar escolheu um tom de confronto religioso e político. Ao falar em “guerra espiritual” e em expulsar o “mal” do governo, aproximou seu discurso da linguagem usada pelo pai em 2022.
A presença de Tarcísio de Freitas no mesmo trio elétrico também teve leitura política. O governador paulista é apontado como um dos principais nomes da direita para 2026 e vinha evitando agendas de maior exposição ao lado de Flávio após a repercussão do caso envolvendo o filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro.
Estratégia mira eleitorado evangélico
O discurso de Flávio Bolsonaro parece mirar diretamente a base evangélica, segmento que teve papel relevante nas últimas eleições presidenciais e segue estratégico para a direita.
Ao usar expressões como “guerra espiritual”, o senador busca acionar uma linguagem familiar a parte do público religioso, especialmente entre lideranças e fiéis que associam política a valores morais, família, costumes e defesa da fé.
Essa estratégia tem potencial de mobilização, mas também aumenta a polarização. Ao transformar o adversário político em representação do “mal”, o discurso reduz espaço para debate programático e tende a intensificar a divisão entre grupos políticos.
A retórica é conhecida no bolsonarismo. Em 2022, Jair Bolsonaro frequentemente buscou se apresentar como representante de valores cristãos em oposição ao governo Lula e à esquerda. Flávio, agora, parece tentar ocupar esse mesmo terreno simbólico.
Discurso pode indicar mudança de tom
Até recentemente, Flávio Bolsonaro vinha tentando construir uma imagem mais moderada dentro da direita. O senador buscava se apresentar como nome institucional, capaz de dialogar com diferentes setores conservadores e empresariais.
A fala na Marcha para Jesus, porém, aponta para um endurecimento do tom. Ao adotar uma linguagem mais próxima da base religiosa bolsonarista, Flávio sinaliza que pode priorizar mobilização ideológica em vez de moderação.
Essa mudança ocorre em meio a pressões políticas recentes. Além do caso Vorcaro, o senador também viu sua viagem aos Estados Unidos ser associada por adversários ao aumento da tensão entre Brasil e o governo Donald Trump, incluindo discussões sobre tarifas comerciais e críticas ao Pix.
Nesse contexto, o discurso religioso pode funcionar como tentativa de reconexão com a base mais fiel do bolsonarismo.
Risco é ampliar polarização
A estratégia de enquadrar a disputa política como confronto entre “bem” e “mal” tem efeitos conhecidos. Ela fortalece a identificação emocional com o eleitorado mais engajado, mas também pode ampliar rejeições e dificultar pontes com setores moderados.
Em democracias, divergências políticas são naturais. O problema surge quando o adversário deixa de ser tratado como alguém com outro projeto de país e passa a ser descrito como ameaça moral a ser eliminada.
Esse tipo de linguagem tende a reduzir o espaço para negociação, compromissos institucionais e debate racional sobre políticas públicas. Também pode transformar eventos religiosos em arenas de disputa eleitoral, algo que costuma gerar críticas de setores que defendem a separação entre fé e campanha.
No caso de Flávio Bolsonaro, a escolha do tom indica que o senador vê no eleitorado evangélico um caminho prioritário para fortalecer sua posição no campo da direita.
Governo Lula também tenta ocupar espaço
A Marcha para Jesus não teve apenas representantes da direita. O advogado-geral da União, Jorge Messias, participou do evento como representante do governo federal e fez uma chamada de vídeo com Lula.
Na conversa exibida ao público, o presidente afirmou que evita participar de eventos religiosos em período eleitoral para não passar a impressão de uso político da fé.
“Eu não participo de nada religioso em época de eleição, porque eu não quero passar a ideia de que estou tentando tirar proveito de uma coisa sagrada”, afirmou Lula.
A presença de Messias mostra que o governo também tenta manter interlocução com lideranças evangélicas, segmento no qual Lula ainda enfrenta resistência. Evangélico e presbítero batista, Messias é visto no Planalto como uma ponte com esse eleitorado.
Evangélicos seguem no centro da disputa eleitoral
A Marcha para Jesus voltou a mostrar que o eleitorado evangélico será peça central na disputa política de 2026. A presença de Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Jorge Messias, André Mendonça e outras autoridades reforçou o peso do evento como vitrine pública.
Para a direita, a marcha funciona como espaço de mobilização e reafirmação de identidade religiosa. Para o governo Lula, é uma oportunidade de tentar reduzir resistências e mostrar presença institucional.
O discurso de Flávio Bolsonaro, porém, foi o ponto de maior impacto político. Ao retomar a lógica da “guerra espiritual”, o senador repetiu uma estratégia que marcou a campanha de Jair Bolsonaro contra Lula em 2022.
A dúvida agora é se essa retórica terá o mesmo efeito em um cenário diferente. Em 2026, Lula estará no exercício do poder e poderá ser julgado pelos eleitores por sua gestão. Flávio, por sua vez, terá de equilibrar a mobilização da base bolsonarista com a necessidade de ampliar apoios fora do núcleo mais ideológico da direita.








