A LVMH, conglomerado francês que reúne marcas como Louis Vuitton, Christian Dior, Tiffany & Co. e Sephora, encerrou o terceiro trimestre de 2026 com resultados abaixo das expectativas do mercado, em um momento de enfraquecimento da demanda chinesa por produtos de luxo. Entre julho e setembro, a receita orgânica da divisão de moda e artigos de couro caiu 5% na comparação anual, para € 8,245 bilhões. O resultado divulgado em 12 de outubro interrompeu a recuperação observada no trimestre anterior e elevou a preocupação dos investidores com a capacidade de retomada do setor.
A deterioração ocorre em paralelo à repercussão negativa de uma disputa judicial envolvendo a Louis Vuitton e a rede chinesa de bebidas Molly Tea. A ação movida pela grife francesa contra a empresa local terminou, em primeira instância, com uma condenação por violação de marcas registradas. A decisão provocou intenso debate nas redes sociais chinesas, com manifestações de apoio à companhia local e crÃticas à atuação da marca francesa. O episódio passou a integrar o conjunto de fatores de risco para os negócios da LVMH no paÃs, embora a empresa não tenha divulgado uma estimativa especÃfica do impacto financeiro do boicote.
No mercado acionário, as ações da LVMH acumulavam desvalorização de aproximadamente 40% em 2026 até 13 de outubro, segundo dados reportados pela Reuters. A queda coloca os papéis em trajetória para registrar o pior desempenho anual desde 2008, caso a tendência se mantenha até dezembro. A reação negativa aos resultados trimestrais reforçou as dúvidas sobre a recuperação do consumo de luxo e sobre o ritmo de crescimento das principais marcas do conglomerado.
Divisão de moda concentra a principal deterioração dos resultados
A divisão de moda e artigos de couro, responsável por marcas como Louis Vuitton e Christian Dior, continua sendo o principal ponto de pressão operacional do grupo. No terceiro trimestre, a receita reportada do segmento atingiu € 8,245 bilhões, ante € 8,497 bilhões no mesmo perÃodo de 2025. A diferença representa uma redução nominal de aproximadamente 3%, enquanto a queda orgânica chegou a 5%, desconsiderando os efeitos das variações cambiais e das mudanças no perÃmetro de consolidação.
A distinção entre os dois indicadores é relevante para a análise dos resultados. A receita reportada reflete os valores efetivamente contabilizados em euros, enquanto o crescimento orgânico permite comparar a evolução dos negócios em condições mais próximas de equivalência entre perÃodos. No caso da divisão de moda, os números apontam para uma deterioração da atividade comercial que não pode ser explicada apenas pelas oscilações cambiais.
O desempenho também representa uma reversão em relação ao segundo trimestre, quando a divisão havia registrado crescimento orgânico de 1%. Entre abril e junho, o resultado alimentou expectativas de que a demanda começava a se estabilizar após uma sequência prolongada de retrações. O recuo de 5% entre julho e setembro significa uma piora de seis pontos percentuais na taxa de crescimento orgânico do segmento em apenas um trimestre.
A divisão respondeu por aproximadamente 44,6% da receita total da LVMH no terceiro trimestre, calculada a partir dos valores divulgados pela empresa. Essa participação explica por que a fraqueza de moda e artigos de couro tem peso elevado sobre a percepção dos investidores, mesmo quando outras operações apresentam crescimento.
Nos nove primeiros meses do ano, a receita reportada da divisão somou € 26,391 bilhões, ante € 27,611 bilhões no mesmo intervalo de 2025, uma redução de aproximadamente 4,4%. Na comparação orgânica, a retração foi de 2%. O desempenho acumulado indica que a recuperação registrada no segundo trimestre não foi suficiente para compensar as perdas observadas no inÃcio e no final do perÃodo analisado.
China combina desaceleração econômica e desgaste de imagem
O enfraquecimento do mercado chinês constitui um dos principais elementos da deterioração dos resultados. A própria LVMH afirmou, no comunicado de receitas do terceiro trimestre, que um ambiente menos favorável na China afetou a atividade comercial, enquanto Estados Unidos, Europa e Japão apresentaram crescimento.
A reação negativa à disputa judicial da Louis Vuitton com a Molly Tea acrescentou um componente reputacional a esse contexto econômico. Em 29 de junho de 2026, o Tribunal Popular Intermediário de Suzhou, na provÃncia chinesa de Jiangsu, decidiu em primeira instância que a rede de bebidas havia infringido sete marcas registradas da grife francesa relacionadas a um desenho floral de quatro pétalas.
A decisão determinou a interrupção do uso da marca contestada e o pagamento de 10,3 milhões de yuans em indenizações e despesas relacionadas ao processo. A Molly Tea também foi obrigada a publicar uma declaração pública, conforme os relatos sobre o julgamento. A companhia indicou que pretendia recorrer da decisão, de modo que o resultado de primeira instância não deve ser confundido com uma conclusão definitiva do litÃgio.
A controvérsia ganhou dimensão pública porque parte dos consumidores e comentaristas chineses questionou a legitimidade da reivindicação da grife francesa sobre um motivo floral considerado semelhante a elementos tradicionais da cultura local. Outros participantes do debate defenderam a proteção da propriedade intelectual e argumentaram que empresas não deveriam utilizar sinais comerciais capazes de gerar confusão com marcas registradas anteriormente.
O alcance da discussão foi expressivo nas redes sociais. Uma publicação temática sobre a ação e a indenização de 10,3 milhões de yuans acumulou mais de 360 milhões de visualizações, segundo informações publicadas pela plataforma IPR in China, vinculada ao ambiente institucional de comércio e propriedade intelectual chinês. Outro tópico sobre a invalidação do sÃmbolo associado à Molly Tea ultrapassou 18,7 milhões de leituras.
Esses números demonstram a dimensão pública da controvérsia, mas não medem diretamente a quantidade de consumidores que deixaram de comprar produtos da Louis Vuitton. Também não permitem calcular, isoladamente, o efeito da reação nas redes sobre as receitas da empresa. Até o momento, os dados trimestrais da LVMH não discriminam as perdas atribuÃveis ao boicote, separando-as dos efeitos econômicos mais amplos.
A distinção é importante porque a desaceleração chinesa afeta o mercado de luxo para além de uma única marca ou controvérsia. A crise no setor imobiliário, a menor disposição de parte dos consumidores para realizar compras de alto valor e a pressão sobre a confiança econômica constituem obstáculos adicionais para empresas dependentes do consumo discricionário.
Dados do varejo chinês indicam pressão sobre lojas de marcas
Os indicadores oficiais de consumo ajudam a contextualizar o desempenho da LVMH. Segundo o Escritório Nacional de EstatÃsticas da China, as vendas totais do varejo de bens de consumo avançaram 1,1% entre janeiro e agosto de 2026, na comparação com o mesmo perÃodo do ano anterior. Em agosto, o crescimento anual foi de apenas 0,4%.
Os dados também mostram diferenças importantes entre formatos de comércio. Nos oito primeiros meses de 2026, as vendas de grandes redes de lojas de marcas exclusivas recuaram 10%, enquanto as de lojas de departamento caÃram 3%. As lojas especializadas registraram redução de 2,2%.
Os indicadores não representam exclusivamente o segmento de luxo e, portanto, não permitem atribuir a retração da LVMH diretamente ao desempenho geral do varejo chinês. Ainda assim, mostram que os estabelecimentos especializados e as lojas que comercializam produtos de marcas especÃficas enfrentavam condições desfavoráveis antes do encerramento do terceiro trimestre.
O comportamento do mercado chinês é especialmente relevante para as empresas de luxo porque a demanda depende de consumidores com maior renda disponÃvel e disposição para adquirir bens de preço elevado. Quando a confiança diminui, compras de bolsas, vestuário, acessórios e outros artigos discricionários podem ser adiadas, mesmo quando o consumidor continua gastando em categorias essenciais.
Nesse ambiente, a repercussão da ação judicial pode ter ampliado uma dificuldade que já existia. Entretanto, sem uma divulgação individualizada dos resultados da Louis Vuitton na China, não é possÃvel determinar quanto da queda decorre da perda de confiança na marca, quanto está relacionado à conjuntura econômica e quanto corresponde a outros fatores operacionais.
Receita do grupo cresce, mas avanço perde intensidade
Apesar da retração da divisão de moda, a receita consolidada da LVMH cresceu no terceiro trimestre. O grupo registrou € 18,504 bilhões entre julho e setembro, ante € 18,280 bilhões um ano antes. O avanço reportado foi de aproximadamente 1,2%, enquanto o crescimento orgânico ficou em 1%.
O desempenho, porém, representou uma desaceleração em relação ao segundo trimestre, quando o crescimento orgânico consolidado havia alcançado 3%. No primeiro semestre, a expansão orgânica foi de 2%, mesma taxa registrada no acumulado dos nove primeiros meses de 2026.
A diferença entre crescimento orgânico e receita reportada também aparece no acumulado anual. Entre janeiro e setembro, a LVMH registrou receita de € 57,148 bilhões, abaixo dos € 58,090 bilhões obtidos no mesmo intervalo de 2025. A queda nominal foi de aproximadamente 1,6%, apesar do avanço orgânico de 2%.
A empresa atribuiu parte da diferença aos efeitos cambiais e à s mudanças no perÃmetro de consolidação. Nos nove primeiros meses, as variações de câmbio tiveram impacto negativo de 3%, enquanto as mudanças de perÃmetro reduziram o resultado em 1%. Os efeitos ajudam a explicar por que a evolução orgânica dos negócios foi positiva, embora a receita contabilizada em euros tenha diminuÃdo.
A composição dos resultados mostra que a diversificação do grupo continua funcionando como proteção parcial contra a fraqueza de moda e artigos de couro. A divisão de varejo seletivo, que inclui a Sephora, apresentou crescimento orgânico de 8% no terceiro trimestre. Relógios e joias avançaram 6%, enquanto vinhos e destilados cresceram 6%. Perfumes e cosméticos tiveram expansão de 1%.
A área de relógios e joias, que reúne marcas como Tiffany & Co. e Bulgari, registrou crescimento orgânico de 8% no acumulado de janeiro a setembro. A divisão de varejo seletivo avançou 6% no mesmo intervalo, apoiada pelo desempenho da Sephora e pela ampliação de sua presença em diferentes mercados.
Esses resultados mostram que a desaceleração não atinge todas as atividades da LVMH com a mesma intensidade. Entretanto, a compensação oferecida por outras divisões permanece limitada diante da importância econômica da moda e dos artigos de couro, que continuam representando a maior parcela individual da receita do grupo.
Pressão sobre o lucro já aparecia nos resultados anuais
A deterioração operacional ocorre depois de um exercÃcio de retração para a companhia em 2025. Segundo os indicadores financeiros divulgados pela LVMH, a receita anual caiu de € 84,683 bilhões em 2024 para € 80,807 bilhões em 2025, redução de aproximadamente 4,6%.
No mesmo intervalo, o lucro das operações recorrentes recuou de € 19,571 bilhões para € 17,755 bilhões, uma queda próxima de 9,3%. O lucro lÃquido consolidado passou de € 12,958 bilhões para € 11,222 bilhões, redução de cerca de 13,4%.
A diferença entre a retração da receita e a queda mais intensa do lucro indica que a pressão sobre os resultados não se limitou ao volume de vendas. A rentabilidade também diminuiu, tornando mais relevante a recuperação das operações de maior peso dentro do conglomerado.
O segmento de moda e artigos de couro, isoladamente, registrou lucro das operações recorrentes de € 13,209 bilhões em 2025, ante € 15,230 bilhões em 2024. A redução, de aproximadamente 13,3%, reforça a importância de uma retomada sustentável das vendas e do controle da rentabilidade para o grupo.
Os dados históricos ajudam a compreender a sensibilidade do mercado acionário aos resultados mais recentes. Quando uma empresa apresenta queda simultânea de receita e lucro, a possibilidade de recuperação passa a depender não apenas de uma melhora pontual nas vendas, mas também da capacidade de preservar margens e sustentar a demanda por seus produtos.
Mercado aguarda sinais de estabilização do consumo de luxo
A perda de aproximadamente 40% no valor das ações em 2026 reflete a combinação de resultados operacionais mais fracos e expectativas de recuperação menos favoráveis para o mercado de luxo. A divulgação do terceiro trimestre reforçou a percepção de que a retomada não ocorre de maneira uniforme e de que a China continua sendo uma fonte relevante de incerteza para marcas globais.
O resultado também aumenta a atenção sobre os próximos balanços do setor, especialmente os de grupos concorrentes que dependem da venda de artigos de alto valor. A comparação entre empresas poderá ajudar a identificar se a fraqueza está concentrada em determinadas marcas e categorias ou se representa uma desaceleração mais abrangente do consumo de luxo.
Para a LVMH, um dos principais desafios é recuperar o desempenho de moda e artigos de couro sem comprometer o posicionamento de suas marcas. A companhia afirmou que continuará priorizando a atratividade dos produtos, a qualidade, a criatividade e a experiência de varejo. O comunicado, contudo, não apresentou uma previsão quantitativa especÃfica para a recuperação da demanda chinesa.
A repercussão da disputa com a Molly Tea acrescenta uma variável reputacional difÃcil de mensurar. Uma melhora nas condições econômicas pode favorecer as vendas, mas não garante, por si só, uma reversão de eventuais danos à percepção da marca entre determinados consumidores. Da mesma forma, a controvérsia judicial não explica sozinha a desaceleração observada em todo o segmento.
A próxima etapa para avaliar a dimensão do problema será acompanhar a evolução das vendas no último trimestre do ano e verificar se o desempenho da divisão de moda se estabiliza. A trajetória da receita, a resposta do consumidor chinês e a capacidade das demais áreas de sustentar o crescimento serão determinantes para avaliar se a LVMH conseguirá encerrar 2026 com uma recuperação operacional mais consistente.
Fontes:
LVMH – comunicado de resultados do terceiro trimestre e da receita acumulada nos nove primeiros meses de 2026
LVMH – indicadores financeiros consolidados de 2023 a 2025, incluindo receita, lucro lÃquido e lucro das operações recorrentes por divisão
Escritório Nacional de EstatÃsticas da China – dados de vendas no varejo de bens de consumo entre janeiro e agosto de 2026
Ministério do Comércio da China, IPR in China – informações sobre a disputa de marcas entre Louis Vuitton e Molly Tea e a repercussão nas redes sociais








