O MDB aprofundou nesta terça-feira (13) sua divisão interna na disputa presidencial ao ter dez diretórios estaduais declarando apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para o segundo turno, marcado para 25 de outubro. O posicionamento foi formalizado em nota conjunta assinada por dirigentes de estados do Norte e do Nordeste, que atribuíram a decisão à defesa da democracia, à continuidade de programas sociais e à manutenção de investimentos do governo federal. O gesto, porém, está longe de representar uma posição nacional unificada da legenda. No mesmo dia, uma ala com peso político em outras regiões do país manteve articulações em favor da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), ampliando o quadro de fragmentação partidária.
Assinaram a nota presidentes ou dirigentes do MDB no Amazonas, Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Paraíba e Rondônia. No texto, os emedebistas afirmam que o apoio se ancora na defesa “da liberdade, da democracia e da soberania do povo brasileiro, exercida por meio do voto direto”, além de destacar a importância da continuidade de políticas públicas como Bolsa Família, Farmácia Popular, Pé-de-Meia, Fies e ProUni.
A manifestação tem peso político por partir de diretórios localizados em regiões nas quais o MDB mantém capilaridade municipal e presença histórica em prefeituras, câmaras e assembleias legislativas. Em termos práticos, o apoio não altera a posição formal adotada pelo partido no primeiro turno, quando o MDB preferiu a neutralidade na corrida presidencial. Mas torna público, com mais clareza, que a estratégia de liberar as bases estaduais para definirem seus próprios caminhos não evitou o racha e apenas deslocou para o segundo turno uma divergência que já estava contratada.
Apoio do Norte e Nordeste reforça palanque de Lula
Na nota conjunta, os dirigentes sustentam que a continuidade do atual governo é importante para preservar políticas de inclusão social, programas de financiamento estudantil e ações voltadas a famílias de menor renda. Também associam a gestão Lula a resultados econômicos positivos, citando crescimento das exportações, expansão da indústria e redução do desemprego.
O documento procura construir uma justificativa política e programática para o apoio, e não apenas eleitoral. Ao dizer que interromper o atual ciclo “seria deixar obras pela metade, recursos parados e o povo esperando”, os signatários vinculam a reeleição de Lula à conclusão de projetos e à manutenção de repasses e investimentos em andamento nos estados e municípios.
Esse argumento tem relevância sobretudo nas regiões Norte e Nordeste, onde o governo federal costuma exercer influência significativa por meio de programas sociais, obras de infraestrutura e transferências constitucionais e voluntárias. O MDB, como partido com forte inserção regional, tende a considerar esse ambiente na hora de definir alianças.
O apoio também tem potencial para fortalecer a campanha lulista no plano organizativo. A nota convoca prefeitos, vereadores, deputados, senadores e lideranças comunitárias a atuar diretamente na mobilização eleitoral, com comitês, carreatas, mutirões de rua, atos públicos e ações digitais. Em outras palavras, o texto não se limita a uma adesão simbólica. Ele pede engajamento ativo da máquina política partidária nos territórios em que esses diretórios exercem influência.
Para Lula, isso significa a possibilidade de ampliar a capilaridade da campanha em municípios onde o MDB dispõe de bases organizadas, lideranças locais e estrutura eleitoral própria. Mesmo em estados já tradicionalmente mais receptivos ao PT, esse tipo de apoio pode fazer diferença na reta final de uma disputa apertada, sobretudo quando se busca elevar comparecimento e converter apoios políticos em votos efetivos.
Neutralidade do MDB no primeiro turno deixou caminho aberto para o racha
A divisão atual tem origem direta na escolha feita pelo MDB ainda antes do primeiro turno. Em julho, o partido convocou convenção nacional com a perspectiva de formalizar a liberação dos diretórios estaduais na disputa presidencial. Na prática, a sigla optou por não fechar posição nacional em torno de nenhum candidato ao Palácio do Planalto, preservando a autonomia das estruturas regionais.
A decisão não surpreendeu quem acompanha o partido. Historicamente, o MDB funciona como uma federação ampla de lideranças estaduais e municipais, com forte descentralização e grande margem de autonomia local. A força do partido repousa menos em uma identidade ideológica nacional coesa e mais na presença capilar em estados, municípios e no Congresso.
Essa característica permite ao MDB compor governos de diferentes matizes, manter alianças heterogêneas e adaptar sua atuação às conveniências políticas regionais. Ao mesmo tempo, cobra seu preço em momentos de polarização intensa, como o atual segundo turno presidencial. Quando a disputa exige alinhamentos mais nítidos, a falta de unidade nacional fica mais visível.
O apoio dos dez diretórios a Lula, portanto, não representa uma mudança de orientação do MDB nacional, mas sim a materialização da autonomia dada às seções estaduais. O mesmo vale para os movimentos de setores da legenda que articulam palanque para Flávio Bolsonaro.
Ala pró-Flávio mostra que o partido está longe de uma posição única
Se o apoio do Norte e do Nordeste fortalece Lula em parte relevante da estrutura emedebista, a outra metade da história confirma que o MDB permanece cindido. Outra ala da legenda trabalha para associar-se à candidatura de Flávio Bolsonaro, em articulação com lideranças de peso no Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
Entre os nomes citados nesse movimento estão o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, e o governador de Goiás, Daniel Vilela, ambos do MDB, além do governador paulista Tarcísio de Freitas, do Republicanos, aliado do campo bolsonarista. A presença de Vilela é particularmente significativa porque mostra que a divisão não se restringe às bases municipais ou a lideranças periféricas do partido: alcança também quadros com projeção estadual e peso institucional.
Esse cenário desmonta qualquer leitura simplificada segundo a qual o MDB teria “fechado” com um dos candidatos. O que existe é uma fragmentação formalizada, em que diferentes braços da legenda disputam protagonismo e tentam influenciar o comportamento do eleitorado em seus respectivos redutos.
Do ponto de vista político, essa ambiguidade preserva o espaço de manobra do partido para o pós-eleição. Independentemente do vencedor, o MDB poderá alegar que segmentos relevantes da legenda estiveram presentes no campo vitorioso. Essa flexibilidade sempre foi uma das marcas da sigla, mas também ajuda a explicar por que o partido enfrenta dificuldades para projetar uma identidade nacional mais consistente.
Apoio regional tem valor político, mas não resolve o impasse partidário
O apoio dos dez diretórios estaduais é relevante por três razões principais. Primeiro, porque envolve estados com forte presença do MDB e importante densidade eleitoral, especialmente no Nordeste. Segundo, porque ocorre em uma fase decisiva da campanha, quando alianças regionais podem influenciar o ritmo da mobilização de rua e o engajamento das bases. Terceiro, porque torna mais explícita a dificuldade do partido de sustentar uma narrativa de neutralidade sem ser pressionado a tomar lados.
Mas esse apoio tem limites claros. Ele não obriga o diretório nacional a adotar uma posição formal. Tampouco encerra a disputa interna ou impede que outros segmentos da legenda reforcem a candidatura adversária. O MDB segue sendo, ao mesmo tempo, uma plataforma de sustentação regional para Lula em determinados estados e um aliado potencial do campo bolsonarista em outros.
Esse comportamento não é inédito. Em eleições recentes, o partido já demonstrou elevada capacidade de acomodar alianças contraditórias conforme o interesse local. O diferencial agora é o grau de polarização nacional e o fato de que a disputa presidencial se tornou o eixo principal do ambiente político, reduzindo o espaço para ambiguidades discretas.
A nota divulgada pelos diretórios do Norte e Nordeste também procura responder a essa realidade. Ao invocar democracia, soberania popular e continuidade de programas sociais, os signatários tentam atribuir ao apoio uma dimensão de princípio, e não apenas de conveniência. Ainda assim, a coexistência de um bloco pró-Lula e de uma ala pró-Flávio dentro do mesmo partido impede que a legenda apresente uma mensagem unificada ao eleitor.
O que o movimento representa para Lula e para o MDB
Para a campanha de Lula, a adesão de dez diretórios estaduais do MDB oferece ganho político e logístico. O presidente amplia sua rede de sustentação em regiões onde já possui desempenho historicamente competitivo e passa a contar com reforço partidário em cidades e estados nos quais o MDB mantém presença institucional consolidada. Em uma eleição equilibrada, qualquer incremento na mobilização local pode ser relevante.
Para o MDB, no entanto, o episódio evidencia uma tensão estrutural: a legenda continua grande demais e descentralizada demais para agir como um bloco homogêneo em uma eleição presidencial polarizada. A autonomia estadual preserva alianças locais e protege interesses regionais, mas também cobra o preço de expor divergências públicas e dificultar o discurso nacional.
No curto prazo, a estratégia pode ser funcional. No médio e longo prazo, ela alimenta a percepção de que o partido continua operando mais como uma confederação de lideranças estaduais do que como uma força nacional programaticamente coesa.
Até o segundo turno, a tendência é que esse quadro permaneça. O MDB deve seguir convivendo com palanques duplos, discursos distintos e apoios regionais cruzados, sem que isso se traduza em uma definição única da direção nacional. Para Lula, o apoio dos dez diretórios é um ativo concreto. Para o MDB, é mais um capítulo de uma história conhecida: a de um partido robusto em capilaridade, mas permanentemente tensionado quando a política nacional exige escolha clara.
Fontes
- Nota conjunta divulgada por presidentes de dez diretórios estaduais do MDB em 13 de outubro de 2026.
- MDB — Convenção nacional e decisão de liberar diretórios estaduais para definir apoios na disputa presidencial, julho de 2026.
- MDB — Informações institucionais sobre diretórios estaduais e composição partidária.
- Declarações públicas de lideranças emedebistas reproduzidas na cobertura política do segundo turno em 13 de outubro de 2026.








