Mensagens apreendidas pela Polícia Federal no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro registram uma sequência de contatos com pessoas próximas ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), antes de o magistrado assumir a relatoria do caso envolvendo o Banco Master. Os registros incluem a articulação de uma reunião presencial com o ministro em março de 2025 e convites para eventos do Instituto Iter, entidade fundada por Mendonça em 2023.
A cronologia ganhou relevância porque Mendonça passou a relatar o caso Master em fevereiro de 2026, depois que Dias Toffoli deixou a condução do processo. O STF confirmou em 12 de fevereiro a escolha do ministro por sorteio eletrônico. Desde então, Mendonça tomou decisões centrais na investigação, incluindo a prisão preventiva de Vorcaro em março e a autorização de novas fases da Operação Compliance Zero.
Os registros obtidos pela PF não demonstram, por si só, que os contatos tenham produzido influência sobre decisões judiciais ou que tenham envolvido pagamentos ao ministro. O gabinete de Mendonça confirmou que houve um encontro com Vorcaro em março de 2025 e afirmou que a conversa se limitou a uma ação relacionada a precatórios em julgamento no Supremo. A informação sobre o conteúdo da reunião é especialmente relevante para separar a existência do contato de eventual irregularidade, que não foi demonstrada pelos elementos divulgados até agora.
Reunião foi articulada por advogado ligado a Vorcaro
A interlocução entre Vorcaro e Mendonça aparece em mensagens trocadas com o advogado Ciro Soares, que já havia atuado para o Banco Master e para o próprio Vorcaro. Em uma conversa de fevereiro de 2025, Soares informou ao banqueiro que “A.M.” queria recebê-lo e que seria necessário marcar o encontro.
Em outro registro, de 13 de março de 2025, o contato se torna mais explícito. Cezinha Madureira avisou Vorcaro que havia uma reunião marcada para o dia seguinte, às 17h, com o “ministro André”, em São Paulo. O banqueiro respondeu que estava a caminho e recebeu, na sequência, a informação de que o ministro já o aguardava.
A existência do encontro foi posteriormente confirmada pelo gabinete de Mendonça. Segundo a versão apresentada pelo ministro, Vorcaro foi recebido uma única vez e a conversa tratou de uma ação relacionada a precatórios que tramitava no STF. Mendonça afirmou que apenas ouviu o empresário.
A diferença entre a confirmação objetiva do encontro e as mensagens que o antecederam é relevante porque mostra que a reunião não ocorreu de forma casual. Os registros indicam uma articulação por intermediários, com definição de data, horário e local. Isso não estabelece, porém, qual foi a finalidade efetiva do contato além da versão apresentada pelo ministro.
A própria posição processual de Mendonça seria alterada quase um ano depois. Em 12 de fevereiro de 2026, ele foi sorteado para relatar o caso Master após a saída de Toffoli. A diferença entre a reunião e a relatoria é de aproximadamente 11 meses.
Vorcaro também foi incluído em eventos do Instituto Iter
Os registros analisados pela PF apontam ainda para convites enviados a Vorcaro para eventos relacionados ao Instituto Iter, instituição privada criada por Mendonça em novembro de 2023, quando ele já ocupava uma cadeira no STF.
Um dos convites, encaminhado em maio de 2025, se referia a um coquetel e debate previsto para 2 de junho no hotel Fasano, em Belo Horizonte. A programação reuniria Mendonça e o ministro Antonio Anastasia, do Tribunal de Contas da União, e era apresentada como restrita a poucos convidados selecionados pelo Iter.
As mensagens mostram que Vorcaro chegou a ser convidado, mas depois foi retirado da lista. O Instituto Iter informou que o convite havia partido de terceiros e que o banqueiro acabou sendo desconvidado. Os registros divulgados não esclarecem se Vorcaro chegou a comparecer ao evento.
Outro convite teria sido enviado para uma atividade relacionada ao lançamento do Iter em Minas Gerais, em julho de 2025. O encontro tinha como foco instituições públicas, eficiência e desenvolvimento econômico.
A sequência dos contatos produz uma segunda linha temporal relevante: o convite para o evento ocorreu apenas dois meses depois da reunião presencial com Mendonça e cerca de oito meses antes de o ministro assumir formalmente a relatoria do caso Master.
Instituto Iter firmou contratos com órgãos públicos
A repercussão dos contatos também envolve a atividade empresarial do Instituto Iter. Dados de contratações públicas mostram que a instituição passou a fornecer cursos e programas de capacitação para órgãos públicos em diferentes estados.
Levantamentos sobre os contratos indicam que o Iter firmou 68 contratos sem licitação com órgãos de 15 estados desde 2024, em montante informado de R$ 11,5 milhões. A própria documentação pública disponível mostra exemplos de contratação direta para capacitação de servidores.
Em São Paulo, por exemplo, a prefeitura contratou o Instituto Iter em 2025 para cursos de treinamento e aperfeiçoamento de agentes públicos. Em 2026, a Secretaria Municipal de Segurança Urbana também contratou a instituição, por inexigibilidade, para um curso de captação e execução qualificada de recursos na segurança pública, com valor de R$ 183,04 mil.
A atividade do Iter é voltada principalmente à educação executiva e à capacitação de profissionais. O instituto informa atuação em formação para o setor público, além de áreas como gestão, direito e infraestrutura.
Em 3 de setembro de 2026, Mendonça anunciou que deixaria o quadro societário da instituição. Em nota, afirmou que nunca recebeu lucros do Iter e que suas cotas e as de sua esposa seriam cedidas sem contrapartida financeira, com destinação de eventuais valores para fins sociais e educacionais. O ministro disse que permaneceria ligado ao instituto como professor.
A cronologia dos contratos acrescenta uma dimensão administrativa ao caso. Embora os registros de contratação não demonstrem irregularidade por si mesmos, mostram que a instituição fundada por um ministro do STF manteve relações comerciais com o poder público enquanto ele ainda integrava sua estrutura societária.
Relatoria colocou os contatos sob novo escrutínio
A escolha de Mendonça para relatar o caso Master ocorreu em uma fase avançada da investigação. O STF informa que ele assumiu a Petição 15556, ligada à apuração de supostas fraudes envolvendo o banco, e posteriormente autorizou medidas de grande impacto contra investigados.
Em 4 de março, Mendonça determinou a prisão preventiva de Daniel Vorcaro e de outros investigados a pedido da Polícia Federal. Em 20 de março, a Segunda Turma do STF referendou por unanimidade a manutenção das prisões e demais medidas cautelares.
Em maio, o ministro também autorizou nova fase da Operação Compliance Zero, envolvendo suspeitas de atuação política em benefício de interesses vinculados ao Banco Master. Em junho, autorizou outra etapa da operação, relacionada a gestores do banco e ao senador Jaques Wagner.
Os atos mostram que Mendonça passou a exercer papel decisivo na condução judicial do caso depois de os contatos registrados nas mensagens já terem ocorrido. Essa ordem cronológica não significa, entretanto, que os contatos anteriores tenham interferido nas decisões posteriores.
O ponto central da controvérsia está justamente na necessidade de distinguir proximidade, acesso e eventual conflito de interesses de uma interferência efetiva na atividade jurisdicional. As mensagens tornam documentados alguns contatos, mas não estabelecem automaticamente nexo entre esses encontros e decisões tomadas pelo ministro.
PF ampliou investigação sobre relações de Vorcaro
O material extraído do celular de Vorcaro também passou a ser analisado em diferentes frentes da crise envolvendo o STF. Em março, Mendonça determinou a abertura de investigação sobre o vazamento de mensagens obtidas dos aparelhos do ex-banqueiro, atendendo a pedido da defesa.
A partir da divulgação de novos diálogos, outros ministros e pessoas de seus círculos de relacionamento também passaram a ser mencionados. Isso levou o presidente do STF, Edson Fachin, a assumir a condução de parte das apurações e a ordenar medidas para preservar o andamento dos procedimentos.
No caso específico de Mendonça, porém, o elemento documental mais objetivo continua sendo a combinação de três fatos distintos: o encontro presencial com Vorcaro em março de 2025, os convites para eventos do Instituto Iter nos meses seguintes e a posterior escolha do ministro para relatar o caso Master, em fevereiro de 2026.
A reunião de março ocorreu cerca de nove meses antes de o Iter convidar Vorcaro para o evento de Belo Horizonte e aproximadamente 11 meses antes da mudança de relatoria no STF. Já o último convite mencionado nas mensagens antecedeu em cerca de sete meses a entrada de Mendonça no caso Master.
Essa sequência ajuda a delimitar o que está comprovado. Os contatos existiram e foram registrados pela PF; o encontro foi reconhecido pelo gabinete do ministro; o Iter confirmou que Vorcaro recebeu convite e posteriormente foi retirado da lista; e Mendonça efetivamente se tornou relator do caso em fevereiro de 2026.
O que permanece sem demonstração pública é uma relação causal entre esses contatos e decisões judiciais favoráveis a Vorcaro ou ao Banco Master. Também não há, nos elementos divulgados até o momento, comprovação de pagamento direto ao ministro em razão das reuniões ou dos eventos.
A apuração ocorre em um momento de forte disputa institucional no Supremo, enquanto a Corte analisa diferentes pedidos e procedimentos derivados das mensagens encontradas no aparelho de Vorcaro. O caso tende a exigir que fatos documentados, alegações das partes e conclusões jurídicas sejam mantidos em planos distintos, especialmente porque as informações divulgadas ainda estão sendo examinadas no âmbito das investigações.
Fontes:
Supremo Tribunal Federal – processo do caso Master, decisões de André Mendonça e informações sobre a relatoria da investigação
Supremo Tribunal Federal – decisões sobre a Operação Compliance Zero e medidas cautelares contra investigados ligados ao Banco Master
Polícia Federal – mensagens e elementos extraídos dos aparelhos de Daniel Vorcaro mencionados na apuração sobre suas relações com autoridades
Instituto Iter – informações institucionais sobre a entidade, sua atividade educacional e posicionamento sobre os convites a Daniel Vorcaro
Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos – dados sobre contratos firmados pelo Instituto Iter com órgãos públicos
Prefeitura de São Paulo – contratos do Instituto Iter para capacitação e treinamento de agentes públicos
André Mendonça – nota sobre sua saída do quadro societário do Instituto Iter
Agência Brasil – registro da escolha de André Mendonça para a relatoria do caso Master e informações sobre sua saída do Instituto Iter







