Os contratos futuros de minério de ferro encerraram esta quarta-feira (30) em alta moderada na China, em meio à combinação de melhora dos indicadores industriais e novas medidas de estímulo anunciadas por Pequim. O contrato mais negociado na Bolsa de Commodities de Dalian (DCE) avançou 0,14%, para 702,5 yuans por tonelada, segundo dados de mercado. O movimento ocorreu no mesmo dia em que o índice oficial de gerentes de compras (PMI) da indústria chinesa voltou à zona de expansão, reforçando as expectativas de recuperação da demanda por matérias-primas.
O PMI industrial atingiu 50,1 pontos em setembro, alta de 0,3 ponto em relação a agosto e acima da marca de 50 pontos que separa, na metodologia do indicador, expansão e contração. Foi a segunda alta mensal consecutiva e a primeira vez desde os meses anteriores em que o índice retornou à zona de expansão. O resultado também veio acompanhado de melhora mais forte no componente de produção, que subiu 1,3 ponto, para 51,7.
A reação do minério, entretanto, foi limitada. Os dados mais recentes da produção industrial mostram que a recuperação chinesa não ocorre de maneira uniforme entre os setores consumidores de aço. Em agosto, o valor adicionado da indústria de transformação cresceu 6,1% na comparação com o mesmo mês de 2025, mas a produção de aço bruto recuou 3,7%, enquanto a de produtos laminados caiu 5,5%. O contraste ajuda a explicar por que a melhora da percepção sobre a atividade ainda não produz uma aceleração equivalente nos preços do minério.
PMI melhora, mas indústria ainda opera em ritmos diferentes
O resultado de setembro apresentou melhora em várias frentes. Segundo o Escritório Nacional de Estatísticas da China, o índice de produção alcançou 51,7 pontos, enquanto o índice de novos pedidos ficou em 50,5 pontos. Ambos permaneceram acima do nível de 50 pontos, indicando expansão, embora o componente de novos pedidos tenha recuado 0,1 ponto na comparação mensal.
Outra mudança relevante ocorreu na abrangência da recuperação. Dos 21 setores industriais pesquisados oficialmente, 12 registraram PMI acima de 50 pontos em setembro, quatro a mais do que em agosto. A melhora indica que a recuperação não ficou concentrada apenas em um conjunto restrito de atividades.
A composição dos dados também mostra uma diferença importante entre produção e demanda. O índice de produção avançou de forma mais expressiva, enquanto os novos pedidos apresentaram estabilidade relativa. Isso significa que o crescimento da atividade fabril já aparece nos dados de produção, mas a expansão da demanda ainda é mais gradual.
Para o minério de ferro, essa distinção é relevante porque o consumo está diretamente ligado ao ritmo de fabricação de aço e à utilização das usinas. Uma melhora do PMI tende a apoiar expectativas de demanda futura, mas não significa necessariamente aumento imediato das compras de minério pelas siderúrgicas.
Os números de agosto reforçam essa cautela. A produção industrial total da China aumentou 5,2% na comparação anual, com a indústria de transformação avançando 6,1%. Dentro desse resultado, a produção de máquinas de uso geral cresceu 9,8%, a de máquinas especiais aumentou 11,4%, a fabricação de equipamentos elétricos subiu 9,9% e a produção de computadores, equipamentos de comunicação e outros produtos eletrônicos avançou 17,2%.
Esse perfil mostra que parte importante da expansão industrial chinesa está vindo de setores de maior intensidade tecnológica. Em paralelo, a produção de ferro-gusa caiu 3,5% em agosto e a de aço bruto recuou 3,7%. A produção de aço bruto de 74,61 milhões de toneladas naquele mês ficou cerca de 8,4% abaixo da média mensal registrada entre janeiro e agosto, calculada a partir do volume acumulado de 651,85 milhões de toneladas.
O dado ajuda a colocar a alta do minério de ferro em perspectiva. O mercado passou a incorporar uma melhora da atividade, mas os números físicos de produção siderúrgica ainda não apontam para uma retomada homogênea da demanda.
Estímulos ampliam expectativa para infraestrutura e indústria
A percepção de que Pequim pretende sustentar a atividade também contribuiu para o movimento dos contratos. Entre as medidas anunciadas recentemente está a ampliação de instrumentos financeiros voltados à economia, incluindo mudanças nas condições de financiamento de projetos considerados estratégicos.
O Banco Popular da China reduziu de 1,75% para 1,5% a taxa de um ano do chamado Pledged Supplementary Lending (PSL), instrumento utilizado para direcionar recursos por meio de bancos de política. Também ampliou o escopo desse mecanismo para projetos associados a redes de água, energia, computação, comunicações, infraestrutura subterrânea urbana e logística. A autoridade monetária também elevou a cota do programa de crédito para inovação científica e tecnológica em 200 bilhões de yuans, de 1,2 trilhão para 1,4 trilhão de yuans.
O impacto potencial sobre o minério está principalmente na possibilidade de aumento dos investimentos em infraestrutura e equipamentos. Projetos dessa natureza demandam aço em diferentes etapas, desde estruturas metálicas até equipamentos, redes de transporte e instalações industriais. O efeito, porém, depende da velocidade de implementação dos investimentos e de sua conversão efetiva em demanda por produtos siderúrgicos.
A política de crédito também foi ampliada para agricultura e pequenas empresas. Uma das medidas elevou em 500 bilhões de yuans a cota destinada a esses segmentos, incluindo 300 bilhões de yuans direcionados ao apoio financeiro a empresas privadas. Para o mercado de commodities, a importância está menos no efeito imediato e mais na tentativa de preservar o fluxo de financiamento para empresas e investimentos em um momento de desaceleração de algumas áreas da economia.
Pequim também anunciou uma política inédita de subsídio de juros para determinadas operações de financiamento imobiliário. A medida começa a valer em 1º de outubro, terá duração inicial de um ano e prevê subsídio equivalente a 1 ponto percentual ao ano para empréstimos destinados à compra do primeiro imóvel, respeitados os critérios de valor e área estabelecidos pelo governo. O financiamento elegível fica limitado a 1 milhão de yuans por pessoa ou família dentro das regras do programa, com prazo de subsídio de até cinco anos.
No limite máximo previsto, a redução de custo financeiro equivale a até 10 mil yuans por ano sobre 1 milhão de yuans de saldo elegível. Em cinco anos, caso o principal permaneça integralmente dentro do limite de incidência durante todo o período, o benefício nominal pode alcançar 50 mil yuans. O cálculo não representa o desembolso efetivo de cada família, já que o subsídio depende do saldo e das condições da operação ao longo do tempo.
Imobiliário ainda limita uma recuperação mais forte do aço
O apoio ao mercado de imóveis é particularmente relevante para o minério porque a construção civil permanece entre os principais canais de consumo de aço na China. Os indicadores disponíveis, contudo, mostram que esse segmento ainda apresenta retração significativa.
Entre janeiro e agosto, o investimento nacional em desenvolvimento imobiliário caiu 19,9% em relação ao mesmo período do ano anterior, para 4,7979 trilhões de yuans. O investimento residencial recuou 19,7%. As novas construções diminuíram 24,8%, enquanto a área residencial iniciada caiu 25,4%.
As vendas também permaneceram pressionadas. A área de imóveis novos vendida nos oito primeiros meses caiu 12,1%, enquanto o valor das vendas recuou 13%. Os recursos captados pelas empresas imobiliárias diminuíram 21%, com os empréstimos domésticos recuando 33,3% e os financiamentos hipotecários individuais 22,4%.
Esses números mostram que o estímulo ao setor imobiliário ocorre sobre uma base ainda fraca. Ao mesmo tempo em que o governo busca reduzir o custo do financiamento para compradores de primeira moradia, o investimento das incorporadoras e os lançamentos continuam abaixo dos níveis de um ano antes.
A composição do investimento reforça a necessidade de diferenciar os vetores de crescimento. Nos oito primeiros meses, o investimento em ativos fixos caiu 7,2%, enquanto o investimento em infraestrutura recuou 4%. O investimento industrial diminuiu 2,9%, embora o setor de mineração tenha apresentado crescimento de 3,4%.
O quadro, portanto, combina expansão em setores industriais específicos com retração em segmentos relevantes para a siderurgia tradicional. Esse descompasso reduz a possibilidade de interpretar a alta do minério de ferro desta quarta-feira como sinal de uma retomada generalizada da demanda.
Mercado acompanha produção siderúrgica e próximos dados chineses
O comportamento dos contratos deve continuar condicionado à evolução simultânea da atividade econômica, das compras das siderúrgicas e das medidas de estímulo. O PMI de setembro melhora a leitura sobre a atividade industrial no curto prazo, mas os números de produção de aço mostram que as usinas ainda não responderam integralmente ao ambiente de maior expectativa.
Em agosto, a produção de aço bruto acumulada de janeiro a agosto ficou 3,1% abaixo do mesmo período de 2025. A fabricação de produtos laminados caiu 1,7% no acumulado do ano. Em contraste, setores ligados a tecnologia e equipamentos apresentaram taxas de crescimento significativamente maiores, indicando mudança na composição da atividade manufatureira chinesa.
Para o minério, essa mudança pode representar uma combinação de sinais positivos e limitações. A expansão da produção industrial e das atividades de maior valor agregado sustenta o consumo de metais e equipamentos, enquanto a fraqueza da construção civil e a menor produção de aço limitam o crescimento da demanda por minério em segmentos tradicionais.
O próprio movimento do contrato em Dalian reflete essa leitura mais equilibrada. A alta de 0,14% levou o contrato mais negociado a 702,5 yuans por tonelada, avanço suficiente para registrar reação aos novos dados chineses, mas ainda distante de caracterizar uma mudança abrupta nas expectativas do mercado. Dados de mercado apontaram que o contrato I2701 terminou a sessão nesse nível, com variação de 0,14% sobre o pregão anterior.
A próxima etapa será observar se a recuperação do PMI se transforma em aumento efetivo de pedidos, produção e consumo de aço. Também será importante acompanhar a execução dos novos mecanismos de crédito e os efeitos das medidas voltadas ao mercado imobiliário a partir de outubro.
Para as mineradoras, a combinação de atividade industrial mais firme e estímulos à infraestrutura pode sustentar o mercado no médio prazo, mas a persistência da retração imobiliária e a redução da produção siderúrgica mantêm limites para uma recuperação mais acelerada. O comportamento do minério, portanto, dependerá menos de um único indicador e mais da capacidade dos estímulos de transformar melhora de confiança em demanda física por aço.
Fontes:
Escritório Nacional de Estatísticas da China – PMI de setembro de 2026, produção industrial, índices de produção e novos pedidos
Escritório Nacional de Estatísticas da China – produção industrial de agosto de 2026 e dados de aço bruto, ferro-gusa e produtos laminados
Ministério das Finanças da China, Banco Popular da China e Administração Nacional de Regulação Financeira – política de subsídio de juros para financiamento de primeira moradia
Banco Popular da China – medidas de ampliação e redução de custos de instrumentos de crédito para infraestrutura, inovação tecnológica e empresas
Shanghai Metals Market – fechamento dos contratos futuros de minério de ferro na Bolsa de Commodities de Dalian em 30 de setembro de 2026








