A produção industrial brasileira recuou 0,6% em agosto, na comparação com julho, e consolidou uma perda de ritmo ao longo do segundo quadrimestre de 2026. De maio a agosto, a atividade acumulou queda de 3,1%, segundo dados da Pesquisa Industrial Mensal (PIM) do Instituto Brasileiro de Geografia e EstatÃstica (IBGE). Com o resultado, a expansão acumulada no ano ficou limitada a 0,8%, enquanto em 12 meses o avanço é de 0,6%.
A deterioração ocorre depois de uma primeira parte do ano mais favorável. Entre janeiro e abril, a indústria havia acumulado crescimento de 4,3%. A perda registrada nos quatro meses seguintes equivale a cerca de 72% daquele ganho. Pela evolução das taxas mensais, o movimento mostra que a recuperação observada no inÃcio de 2026 perdeu intensidade antes do encerramento do terceiro trimestre.
O resultado de agosto também corrigiu parte das referências utilizadas para julho. Na série mais recente do IBGE, a produção havia crescido 0,2% de junho para julho, e não 0,1% como indicado inicialmente em algumas divulgações secundárias. A nova queda de agosto foi disseminada: 16 dos 25 ramos pesquisados produziram menos, enquanto as quatro grandes categorias econômicas apresentaram retração.
Queda deixa indústria mais distante de uma recuperação sustentada
O dado mais relevante do mês não está apenas na variação negativa de agosto, mas na sequência de resultados que reduziu o ritmo da atividade industrial. A média móvel trimestral, indicador utilizado para suavizar oscilações mensais, recuou 0,7% no trimestre encerrado em agosto. As quatro grandes categorias econômicas também apresentaram taxas negativas nesse indicador.
Na passagem de julho para agosto, bens de consumo semiduráveis e não duráveis tiveram a maior queda, de 1,7%. Bens de consumo duráveis recuaram 1%, enquanto bens de capital diminuÃram 0,6% e bens intermediários, 0,2%. A retração dos bens intermediários chama atenção porque representa o quarto resultado negativo consecutivo, acumulando perda de 2,3% no perÃodo.
Entre as atividades industriais, produtos do fumo exerceram a principal pressão negativa, com redução de 23,4%. O resultado interrompeu uma sequência de quatro meses de expansão na atividade, perÃodo em que a produção havia acumulado alta de 32,5%. O setor farmoquÃmico e farmacêutico recuou 5,5%, eliminando o avanço registrado em julho, enquanto as indústrias extrativas caÃram 0,7%, no quarto resultado negativo consecutivo.
Também houve perdas em segmentos ligados a bens de consumo e à indústria de transformação. A produção de equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos diminuiu 4%; confecção de artigos do vestuário e acessórios caiu 3,3%; produtos de borracha e material plástico recuaram 1,8%; produtos de metal, 1,6%; e outros equipamentos de transporte, 2,9%. O conjunto indica que a fraqueza de agosto não ficou concentrada em uma única cadeia produtiva.
Na direção oposta, nove atividades apresentaram crescimento. Produtos alimentÃcios avançaram 1%, no segundo mês consecutivo de alta e com ganho acumulado de 2,2% nesse intervalo. Produtos diversos cresceram 8,4%, produtos quÃmicos subiram 0,9% e metalurgia aumentou 0,8%. A expansão desses segmentos, porém, não foi suficiente para compensar a quantidade e a intensidade das quedas registradas pelo restante da indústria.
Comparação anual mostra fraqueza mais disseminada
O desempenho de agosto também piorou na comparação com o mesmo mês de 2025. A produção industrial ficou 1,2% abaixo do nÃvel de um ano antes, depois de uma queda de 0,5% em julho. A retração atingiu 17 dos 25 ramos, 48 dos 80 grupos industriais e 54,2% dos 789 produtos investigados pela PIM. Como os dois meses tiveram 21 dias úteis, o efeito calendário não explica a diferença negativa.
Os maiores impactos negativos vieram de produtos farmoquÃmicos e farmacêuticos, com queda de 22,3%, máquinas e equipamentos, com redução de 8%, e produtos quÃmicos, que recuaram 3,8%. Também houve perdas expressivas em confecção de vestuário, de 10,6%; produtos alimentÃcios, 1%; borracha e plástico, 4,6%; produtos diversos, 11,6%; e impressão e reprodução de gravações, 18%.
Nem todos os setores tiveram desempenho negativo nessa base de comparação. A produção de veÃculos automotores, reboques e carrocerias aumentou 6,6%, enquanto indústrias extrativas avançaram 2,4%. Máquinas, aparelhos e materiais elétricos cresceram 9,1%, bebidas tiveram alta de 4,4%, metalurgia aumentou 3,7% e produtos de madeira avançaram 11,3%. Esses resultados, contudo, ficaram concentrados em um número menor de atividades.
As grandes categorias também revelam uma diferença importante entre segmentos. Na comparação anual, bens de consumo semiduráveis e não duráveis recuaram 4,5% e bens de capital diminuÃram 4,1%. Em sentido contrário, bens intermediários avançaram 0,1% e bens de consumo duráveis cresceram 2,8%. O resultado reforça a perda de tração justamente em segmentos relacionados a consumo corrente e produção de equipamentos.
Bens de capital concentram a principal perda no acumulado do ano
No acumulado de janeiro a agosto, a indústria ainda registra alta de 0,8%, mas o resultado é sustentado por um grupo relativamente restrito de atividades. Onze dos 25 ramos pesquisados acumulam crescimento. Indústrias extrativas avançaram 6,1%, coque, derivados de petróleo e biocombustÃveis cresceram 3,1% e veÃculos automotores tiveram alta de 5,8%.
Na outra ponta, máquinas e equipamentos recuaram 7,8% no acumulado do ano, o pior resultado entre os principais segmentos industriais. Produtos quÃmicos diminuÃram 3,5%, confecção de vestuário caiu 7,3%, equipamentos de informática e eletrônicos, 4,8%, produtos de metal, 2,8%, couro e calçados, 4,7%, celulose, papel e produtos de papel, 1,8%, e produtos têxteis, 4,2%.
A composição por categoria evidencia ainda mais a fragilidade da produção de equipamentos. Bens de capital acumulam queda de 5,3% nos oito primeiros meses do ano e são a única das quatro grandes categorias com resultado negativo no perÃodo. Em alguns nichos, a retração é ainda mais acentuada: a produção de bens de capital agrÃcolas caiu 22,8%, enquanto a de bens de capital para uso misto recuou 16,6%.
O dado é relevante porque bens de capital representam máquinas e equipamentos utilizados na própria atividade produtiva. A queda prolongada desse segmento não equivale, por si só, a uma redução do investimento agregado, mas mostra que a fabricação doméstica de equipamentos vem encontrando um ambiente mais fraco. No segundo trimestre, pela ótica das Contas Nacionais, a formação bruta de capital fixo cresceu 1,2% na comparação com o primeiro trimestre, enquanto a produção industrial avançou apenas 0,1% na margem.
A desaceleração industrial também coincide com uma economia que perdeu velocidade depois de um começo de ano mais forte. O PIB cresceu 1,1% no primeiro trimestre e 0,5% no segundo, na comparação com o trimestre imediatamente anterior. A indústria, por sua vez, avançou 1,0% no primeiro trimestre e apenas 0,1% no segundo. Na comparação anual, a atividade industrial cresceu 1,5% no segundo trimestre, apoiada principalmente pelas indústrias extrativas, enquanto a transformação recuou 0,9%.
Emprego industrial ainda cresce apesar da perda de produção
A fraqueza da produção não foi acompanhada, até agosto, por uma deterioração equivalente do emprego formal no setor. Dados do Novo Caged mostram saldo positivo de 16.613 vagas na indústria em agosto. De janeiro a agosto, o setor acumulou 170.442 novos postos formais, sendo 152.933 na indústria de transformação.
A combinação entre produção menor e criação lÃquida de empregos indica que o ajuste do setor ainda não ocorreu por meio de uma redução generalizada do quadro formal. Isso não permite concluir que o movimento será permanente, mas mostra que a desaceleração observada na PIM ainda convive com expansão do estoque de trabalhadores registrados na indústria. Em agosto, o estoque total de empregos formais do paÃs chegou a 48,2 milhões de vÃnculos, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego.
Para a indústria, o próximo ponto de verificação será o comportamento da produção em setembro. O resultado de agosto encerra um quadro no qual a expansão acumulada no inÃcio do ano perdeu grande parte da força nos meses seguintes. Com alta de apenas 0,8% no acumulado de janeiro a agosto e queda de 3,1% nos quatro meses anteriores, a evolução do terceiro trimestre passa a ser determinante para saber quanto da recuperação industrial observada no começo de 2026 permanecerá refletida no resultado anual.
Fontes:
IBGE – Pesquisa Industrial Mensal Produção FÃsica de agosto de 2026, incluindo resultados mensais, acumulados, categorias econômicas e atividades industriais
IBGE – Contas Nacionais Trimestrais do segundo trimestre de 2026 e desempenho da indústria no PIB
Ministério do Trabalho e Emprego – Novo Caged de agosto de 2026, com saldo de empregos formais por atividade econômica










