O forte movimento dos ativos brasileiros depois do primeiro turno da eleição presidencial produziu ganhos expressivos para alguns dos principais fundos multimercados do país. O Vista Hedge avançou 8,15% somente na segunda-feira, 5 de outubro, enquanto Legacy Capital e Ibiúna Hedge STH ganharam 4,75% e 4,12%, respectivamente, em um pregão marcado pela disparada da Bolsa, queda do dólar e fechamento acentuado das taxas de juros.
O levantamento, elaborado por Luigi Wis, especialista de investimentos da Crava Capital, reuniu 15 fundos de gestoras relevantes e mostra como diferentes posicionamentos responderam ao chamado “kit Brasil”. Dos fundos analisados, 14 terminaram a segunda-feira no campo positivo. Apenas o Adam Macro registrou perda, de 1,17%.
A fotografia de um único dia, porém, é quase o inverso do desempenho acumulado no ano para alguns gestores. O Vista Hedge, líder disparado do pregão, ainda acumulava queda de 7,41% em 2026. O Adam Macro, único fundo negativo na segunda-feira, seguia na liderança anual da amostra, com ganho de 26,95%.
A diferença evidencia uma característica central dos multimercados: o resultado depende menos de uma classe específica de ativos e mais da combinação de posições montadas pela gestora em Bolsa, juros, moedas, commodities e mercados internacionais.
Na segunda-feira, estar comprado em ações brasileiras, posicionado para a queda dos juros ou para a valorização do real foi particularmente lucrativo. O Ibovespa disparou 7,70%, aos 206.911,89 pontos, maior alta diária desde 2020, enquanto o dólar caiu 4,12%, para aproximadamente R$ 5. Os juros futuros também recuaram de forma abrupta.
Vista Hedge ganha 8,15%, mas ainda perde no ano
O Vista Hedge foi o principal destaque da amostra. O fundo avançou 8,15% em um único pregão, desempenho excepcional mesmo para os padrões dos multimercados macro.
A alta correspondeu a aproximadamente 163 vezes o CDI de segunda-feira, de 0,05%. Essa comparação serve apenas para dimensionar o movimento e não deve ser utilizada como medida direta de eficiência, já que o nível de risco das duas aplicações é completamente diferente.
O próprio perfil do Vista ajuda a explicar a intensidade da oscilação. Trata-se de uma estratégia de volatilidade superior à de boa parte dos fundos presentes no levantamento, o que aumenta tanto o potencial de ganhos quanto o de perdas em períodos de movimentos bruscos dos mercados.
Mesmo depois da valorização de segunda-feira, o Vista Hedge ainda acumulava queda de 7,41% em 2026.
Isso significa que o ganho de um único pregão recuperou uma parcela relevante das perdas anteriores, mas não foi suficiente para levar o fundo ao campo positivo no ano.
A volatilidade também não deve ser interpretada como um limite de quanto um fundo pode ganhar ou perder. Uma volatilidade anualizada de determinada magnitude é uma medida estatística da dispersão dos retornos, e não um teto para a variação anual ou diária.
Legacy e Ibiúna também capturam o rali
O Legacy Capital apareceu em segundo lugar na amostra, com valorização de 4,75% na segunda-feira.
Diferentemente do Vista, o fundo também permanecia no campo positivo em 2026, com retorno acumulado de 11,85%, acima dos 10,68% do CDI até 5 de outubro.
A diferença era de 1,17 ponto percentual a favor do Legacy.
O Ibiúna Hedge STH teve o terceiro maior ganho diário, de 4,12%. No ano, porém, acumulava 8,05%, abaixo do CDI.
Absolute Vertex avançou 2,95% no pregão e acumulava 10,12% em 2026, enquanto Occam Retorno Absoluto ganhou 2,80% na segunda-feira e apresentava retorno anual de 6,39%.
O resultado mostra que gestores com exposições diferentes conseguiram capturar partes distintas do movimento brasileiro, inclusive por meio de derivativos.
Veja o desempenho dos multimercados
| Fundo | Gestora | Retorno em 5/10 | Retorno em 2026 |
|---|---|---|---|
| Vista Hedge | Vista | +8,15% | -7,41% |
| Legacy Capital | Legacy | +4,75% | +11,85% |
| Ibiúna Hedge STH | Ibiúna | +4,12% | +8,05% |
| Absolute Vertex | Absolute | +2,95% | +10,12% |
| Occam Ret. Abs. | Occam | +2,80% | +6,39% |
| Vinland Macro | Vinland | +2,26% | +8,19% |
| Verde Master | Verde | +2,25% | +15,43% |
| AZ Quest Multi Max | AZ Quest | +2,08% | +10,38% |
| Kinea Atlas | Kinea | +2,01% | +11,00% |
| Kapitalo Kappa | Kapitalo | +1,15% | +8,76% |
| Armor Axe | Armor | +0,76% | +10,23% |
| Genoa Radar | Genoa | +0,75% | +14,00% |
| Quantitas Mallorca | Quantitas | +0,70% | +9,13% |
| SPX Nimitz | SPX | +0,07% | +7,40% |
| Adam Macro | Adam | -1,17% | +26,95% |
| CDI | — | +0,05% | +10,68% |
Apesar do impacto visual dos ganhos de 8%, 4% ou 3% em apenas um dia, a mediana dos retornos da amostra ficou em 2,08%. A média foi de aproximadamente 2,24%, puxada para cima principalmente pelo desempenho excepcional do Vista.
A dispersão também foi elevada: a distância entre o melhor e o pior resultado do dia chegou a 9,32 pontos percentuais.
Esse intervalo mostra quanto a interpretação do cenário eleitoral e, principalmente, o posicionamento anterior à votação foram determinantes para os resultados.
Só cinco fundos da amostra superavam o CDI no ano
Quando a análise é ampliada para 2026, a fotografia muda.
Dos 15 multimercados listados, apenas cinco apresentavam retorno superior aos 10,68% acumulados pelo CDI até 5 de outubro: Adam Macro, Verde Master, Genoa Radar, Legacy Capital e Kinea Atlas.
O Adam liderava com ampla margem, aos 26,95%. O Verde Master acumulava 15,43%, seguido pelo Genoa Radar, com 14%.
Legacy aparecia com 11,85% e Kinea Atlas, com 11%.
Os outros dez fundos estavam abaixo do CDI, incluindo alguns que registraram os maiores ganhos no rali de segunda-feira.
O Ibiúna, por exemplo, ganhou mais de 4% em um dia, mas ainda acumulava apenas 8,05% no ano. Absolute Vertex estava em 10,12%, AZ Quest em 10,38% e Armor Axe em 10,23%, todos ligeiramente abaixo da taxa de referência.
O dado ajuda a evitar uma leitura distorcida: o pregão pós-eleitoral foi extraordinariamente favorável para parte da indústria, mas não resolveu os problemas acumulados durante 2026.
Adam perde no rali, mas lidera 2026
O Adam Macro representa o outro extremo.
O fundo caiu 1,17% na segunda-feira, pior resultado da amostra, mas apresentava rentabilidade de 26,95% em 2026, mais que o dobro do CDI acumulado no mesmo período.
Segundo o levantamento, a gestora vinha mantendo uma visão mais negativa em relação aos ativos brasileiros e maior exposição ao dólar e aos mercados americanos.
Esse posicionamento funcionou bem durante outras fases do ano, mas tornou-se desfavorável justamente na sessão em que houve forte valorização simultânea de Bolsa e real e queda dos juros brasileiros.
A diferença em relação ao Vista é ilustrativa.
Enquanto um ganhou 8,15% em um dia e ainda perdia 7,41% no ano, o outro perdeu 1,17% no pregão e acumulava quase 27% em 2026.
Avaliar os dois fundos apenas pela segunda-feira produziria uma conclusão completamente diferente daquela obtida ao observar o horizonte anual.
Verde combina ganho no dia e desempenho acima do CDI
O Verde Master ficou em uma posição intermediária.
O fundo ganhou 2,25% na segunda-feira e acumulava 15,43% em 2026, retorno 4,75 pontos percentuais superior ao CDI.
A Verde estava entre as gestoras que vinham utilizando opções para obter exposição ao mercado brasileiro durante o período eleitoral.
Esse tipo de instrumento permite montar estruturas em que o gestor limita o capital diretamente exposto e, ao mesmo tempo, mantém participação relevante caso determinado cenário se concretize.
A Ibiúna também havia utilizado derivativos para posicionar suas carteiras.
Essa flexibilidade é uma das principais características dos multimercados macro. Diferentemente de um fundo de ações tradicional, eles podem combinar simultaneamente posições em diferentes mercados e utilizar futuros, opções e outros instrumentos para alterar rapidamente seu perfil de risco.
Opções ajudaram fundos a entrar na Bolsa antes da eleição
Antes do primeiro turno, a exposição direta de vários multimercados à Bolsa brasileira permanecia relativamente reduzida.
Parte dos gestores preferiu utilizar opções para construir posições que se beneficiariam de uma valorização do mercado sem comprometer o mesmo volume de capital exigido por uma compra direta de ações.
A estratégia se mostrou especialmente relevante na segunda-feira.
O resultado eleitoral produziu uma mudança abrupta no preço dos ativos brasileiros. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, que recebeu 45,16%.
A reação dos investidores refletiu principalmente uma mudança na percepção sobre a probabilidade de alternância de poder e sobre a possibilidade de uma política econômica mais orientada à consolidação fiscal.
A sustentabilidade dessa leitura ainda dependerá das propostas apresentadas durante o segundo turno e, posteriormente, das medidas efetivamente implementadas por quem vencer a eleição.
No mercado, entretanto, o ajuste foi imediato.
EWZ recebeu fluxo recorde nos Estados Unidos
A dimensão do movimento também apareceu fora do Brasil.
O EWZ, principal ETF de ações brasileiras negociado nos Estados Unidos, subiu 12,54% na segunda-feira e registrou o maior volume negociado de sua história.
Foram aproximadamente US$ 8,2 bilhões em negócios durante a sessão, valor que colocou o fundo atrás apenas dos grandes ETFs vinculados ao S&P 500 e ao Nasdaq entre os mais negociados do mercado americano naquele dia.
O fundo também recebeu aproximadamente US$ 700 milhões em novos recursos, maior captação diária desde sua criação.
O movimento reforça a interpretação de que o rali não foi produzido apenas por investidores domésticos. Houve uma entrada rápida de capital estrangeiro buscando exposição ao Brasil depois do resultado eleitoral.
Para os multimercados que possuíam posições compradas em ativos brasileiros, direta ou indiretamente, esse fluxo potencializou os resultados.
“Kit Brasil” reuniu Bolsa, real e juros
A expressão “kit Brasil” utilizada pelo mercado resume uma combinação de posições que se valorizam quando melhora a percepção de risco sobre o país.
A principal delas é a compra de ações brasileiras.
Outra é uma posição favorável ao real, que ganha quando o dólar cai.
A terceira é uma aposta na redução das taxas de juros, normalmente implementada por meio de contratos futuros ou títulos de renda fixa.
Na segunda-feira, as três funcionaram simultaneamente.
O Ibovespa ganhou 7,70%, o dólar recuou 4,12% e os contratos de juros registraram fortes quedas ao longo de praticamente toda a curva.
Esse tipo de correlação é especialmente favorável para fundos macro que tenham construído uma visão direcional sobre o Brasil.
Também produz o efeito inverso para gestoras posicionadas em dólar, juros maiores ou queda da Bolsa.
A sessão de segunda-feira funcionou, portanto, como uma espécie de teste concentrado do posicionamento de cada gestor diante das eleições.
Um dia não define a qualidade do fundo
O próprio levantamento ressalta que o objetivo não é construir um ranking de qualidade dos gestores.
Um único pregão é insuficiente para avaliar um fundo multimercado.
O resultado pode mostrar quem estava corretamente posicionado para um evento específico, mas não informa sozinho quanto risco foi assumido, quais perdas ocorreram anteriormente ou como a estratégia se comporta em diferentes cenários.
O Vista é novamente o melhor exemplo. Ganhar 8,15% em um dia impressiona, mas o fundo ainda acumulava perda no ano. O Adam perdeu na mesma sessão, porém apresentava o maior retorno de 2026 entre os fundos comparados.
Também existem diferenças importantes de volatilidade entre as estratégias, o que impede uma comparação direta apenas pelos percentuais de retorno.
Fundos mais agressivos podem apresentar ganhos muito superiores em movimentos favoráveis, mas também perdas maiores quando suas posições caminham na direção contrária.
Por isso, retorno deve ser analisado em conjunto com volatilidade, drawdown, consistência, liquidez, estratégia e horizonte de investimento.
Multimercados tentam recuperar um 2026 difícil
O rali pós-eleitoral chegou em um momento em que boa parte da indústria vinha enfrentando um ano complexo.
A guerra no Oriente Médio, a disparada do petróleo, mudanças abruptas nos juros internacionais e a volatilidade das moedas alteraram várias das teses utilizadas pelos fundos macro ao longo do ano.
Em março, por exemplo, grandes multimercados haviam sofrido perdas relevantes com a mudança do cenário global, embora algumas casas tenham conseguido manter resultados positivos no acumulado do ano.
Setembro trouxe uma melhora. Antes mesmo do primeiro turno, 155 de 223 fundos multimercados macro pesquisados pela Economatica haviam superado o CDI do mês.
O pregão de 5 de outubro acrescentou um impulso significativo para muitos deles.
Ainda assim, os números da amostra mostram que a recuperação permanece desigual.
Quatorze dos 15 fundos selecionados ganharam na segunda-feira, e nove avançaram mais de 2%. Porém, apenas um terço da amostra — cinco fundos — estava acima do CDI no acumulado de 2026.
O segundo turno, marcado para 25 de outubro, tende a manter esse cenário de elevada sensibilidade.
Para os multimercados, cada mudança nas probabilidades eleitorais pode afetar simultaneamente Bolsa, câmbio e juros. E, como a segunda-feira mostrou, quando esses três mercados se movem juntos, o resultado das posições pode aparecer de forma excepcionalmente rápida.
Fontes
Crava Capital — levantamento de desempenho e posicionamento dos fundos multimercados
Economatica — rentabilidade dos fundos e CDI
Vista Capital — cotas e rentabilidade do Vista Hedge
Gestoras dos fundos analisados — dados de desempenho
B3 — Ibovespa, dólar e mercado de juros em 5 de outubro de 2026
BlackRock/iShares — movimentação do EWZ







