O rali histórico da Bolsa brasileira após o primeiro turno das eleições pode ter espaço para continuar. O BTG Pactual calcula que, em um cenário de nova expansão dos múltiplos, o potencial adicional de valorização das ações brasileiras pode chegar a 30%, mesmo depois da disparada registrada no primeiro pregão após a votação.
A projeção, porém, não é um preço-alvo formal para o Ibovespa nem uma previsão de que o índice necessariamente subirá 30%. Trata-se de um cenário de valuation construído pelo banco para a hipótese de as ações brasileiras passarem a negociar um desvio-padrão acima de sua média histórica, algo que o BTG considera possível se a redução dos juros de longo prazo for sustentada.
Depois da alta de 7,70% do Ibovespa na segunda-feira, 5 de outubro, o mercado brasileiro ainda negociava com desconto. Excluindo Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3), as ações estavam cotadas a aproximadamente 11,1 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses, cerca de 7% abaixo da média histórica calculada pelo banco.
O argumento do BTG é que o movimento eleitoral elevou os preços, mas também reduziu fortemente as taxas de juros utilizadas para descontar os resultados futuros das companhias. Essa combinação impede que a alta da Bolsa seja interpretada apenas como encarecimento dos ativos.
Na avaliação dos estrategistas, as próximas pesquisas do segundo turno deverão determinar se uma parcela adicional desse desconto será eliminada.
Alta de 30% não é um alvo oficial para o Ibovespa
A dimensão do número exige uma distinção.
Se uma alta de 30% fosse aplicada mecanicamente aos 206.911,89 pontos em que o Ibovespa fechou na segunda-feira, o índice chegaria a aproximadamente 269 mil pontos.
Esse cálculo serve apenas para dimensionar a magnitude do cenário. O BTG não estabeleceu, nesse relatório, uma meta formal de 269 mil pontos para o Ibovespa.
A análise parte dos múltiplos de valuation das empresas brasileiras e da possibilidade de o mercado passar de um desconto em relação à média histórica para uma avaliação superior a essa média.
O banco afirma que, se o Ibovespa avançar até um desvio-padrão acima da média de valuation, o potencial de valorização poderia atingir aproximadamente 30%.
Isso significa que o cenário depende de investidores aceitarem pagar múltiplos maiores pelos lucros futuros das empresas.
Para que isso aconteça de forma sustentável, o BTG considera necessária uma combinação de menor risco fiscal, juros mais baixos e perspectivas melhores para os resultados corporativos.
Bolsa ainda negocia abaixo da média histórica
O principal argumento para a continuidade da alta está no preço relativo das ações.
Mesmo depois do rali, o conjunto das empresas brasileiras analisadas pelo BTG, excluindo Vale e Petrobras, negociava a 11,1 vezes o lucro esperado nos 12 meses seguintes.
Como esse número representa um desconto de aproximadamente 7%, é possível estimar que a média histórica utilizada como referência pelo banco esteja perto de 11,9 vezes o lucro.
A diferença mostra que a valorização pós-eleitoral não levou o mercado, pelo menos segundo essa métrica, a uma situação de euforia extrema em relação ao seu próprio histórico.
O valuation sozinho, entretanto, não determina a direção da Bolsa.
Uma ação pode permanecer negociada com desconto durante longos períodos se os investidores considerarem elevados os riscos fiscais, políticos ou econômicos. Da mesma forma, uma empresa pode negociar acima de sua média histórica se houver expectativa de forte crescimento dos lucros.
É por isso que o BTG condiciona a nova etapa da valorização ao desenvolvimento do cenário eleitoral e, posteriormente, à política econômica.
Primeiro turno provocou reprecificação excepcional
O movimento começou depois de Flávio Bolsonaro (PL) terminar o primeiro turno à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula ficou com 45,16%. O resultado contrariou parte das expectativas anteriores à eleição e provocou uma revisão abrupta da percepção dos investidores sobre o cenário para 2027.
Na segunda-feira, o Ibovespa avançou 7,70%, para 206.911,89 pontos, maior alta diária desde 2020 e novo recorde de fechamento.
Em dólares, considerando também a valorização do real, a alta chegou a aproximadamente 12,7%.
O efeito foi ainda mais intenso em determinados setores. Empresas ligadas à economia doméstica, mercado de capitais, bancos, varejo e construção apresentaram valorizações de dois dígitos.
A B3 (B3SA3) subiu 22,63% naquele pregão, enquanto BTG Pactual (BPAC11) avançou 22,52%. Magazine Luiza (MGLU3) ganhou mais de 24%.
Ao mesmo tempo, o dólar caiu para perto de R$ 5 e as taxas dos contratos futuros de juros desabaram.
O DI para janeiro de 2035, por exemplo, recuou mais de 130 pontos-base na segunda-feira, um movimento de magnitude rara em apenas uma sessão.
Próximo gatilho serão as pesquisas do segundo turno
Depois do ajuste inicial, o BTG espera que o comportamento da Bolsa se torne mais dependente das pesquisas eleitorais.
O banco avalia que Flávio entrou no segundo turno em posição favorável, mas ressalta que a eleição permanece aberta e que Lula ainda possui capacidade de recuperação.
Uma das variáveis destacadas são os mais de 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno.
A disputa por esse contingente, somada aos votos dos candidatos eliminados, poderá alterar a vantagem observada na primeira votação.
Para o BTG, um cenário no qual pesquisas mostrem Flávio abrindo uma vantagem entre quatro e cinco pontos percentuais poderia dar novo impulso aos ativos brasileiros.
Se os levantamentos indicarem uma disputa mais apertada ou recuperação de Lula, a reação poderá ser diferente.
Essa dependência ajuda a explicar por que o banco espera ganhos mais graduais depois do salto inicial.
Eleição sozinha não sustenta valorização de 30%
O resultado eleitoral é apenas a primeira etapa da tese.
Para o BTG, uma valorização mais duradoura dependerá da política econômica implementada pelo próximo governo.
Dois pontos aparecem como determinantes: a composição do ministério e a qualidade do pacote de ajuste fiscal.
A lógica é que um programa capaz de reduzir a trajetória da dívida pública e controlar o crescimento das despesas diminuiria o prêmio de risco exigido pelos investidores.
Com menor risco fiscal, as taxas de juros de longo prazo poderiam cair adicionalmente.
Esse movimento beneficiaria a Bolsa por dois canais.
O primeiro é financeiro: taxas menores aumentam o valor presente dos lucros futuros das empresas, permitindo múltiplos mais elevados.
O segundo é econômico: juros menores reduzem custos de financiamento, estimulam consumo e investimento e podem elevar os lucros corporativos.
Sem melhora fiscal, a valorização ocorrida depois da eleição corre o risco de permanecer apenas como uma reprecificação de curto prazo.
Juros reais já caíram cerca de um ponto percentual
O mercado começou a antecipar parte desse cenário imediatamente depois do primeiro turno.
Segundo o BTG, as taxas reais de juros de longo prazo recuaram cerca de 100 pontos-base após a votação.
Uma queda de um ponto percentual em juros longos produz efeito relevante sobre empresas domésticas, especialmente aquelas com maior endividamento ou cujos resultados dependem de crédito e atividade econômica.
Construtoras, varejistas, empresas de shopping centers, concessionárias e negócios ligados ao mercado de capitais estão entre os segmentos que normalmente apresentam maior sensibilidade.
A mudança também afeta a comparação entre Bolsa e renda fixa.
Quando títulos públicos oferecem retornos reais excepcionalmente elevados, investidores exigem um prêmio maior para assumir risco em ações. Se essas taxas diminuem, o retorno exigido da Bolsa também pode cair, elevando os preços que o mercado aceita pagar.
Essa é uma das razões pelas quais a queda dos juros pode permitir expansão de múltiplos mesmo após uma forte valorização inicial.
Selic poderia cair para 10% a 11% em 2027, diz BTG
O banco também vê espaço para uma trajetória de juros mais favorável caso o cenário fiscal e as expectativas de inflação melhorem.
A referência do mercado para o fim de 2027 está em torno de 12% ao ano para a Selic. O BTG considera que, em um ambiente de maior confiança fiscal e inflação sob controle, a taxa poderia migrar para uma faixa entre 10% e 11%.
Uma Selic de 10%, no limite inferior dessa faixa, representaria dois pontos percentuais a menos que a projeção utilizada atualmente pelo mercado.
A diferença teria impacto relevante na precificação de praticamente todas as classes de ativos.
O cenário, contudo, não é automático. O Banco Central define a taxa de juros em função da inflação e de suas projeções, e não do desempenho da Bolsa ou do resultado eleitoral.
Para cortes mais intensos, seria necessário que as expectativas de inflação permitissem uma flexibilização monetária sem comprometer a convergência para a meta.
BTG ainda vê oportunidades depois do rali
Apesar da valorização expressiva de várias empresas na segunda-feira, o BTG afirma continuar encontrando oportunidades em ações consideradas de qualidade.
Entre os nomes destacados aparecem Lojas Renner (LREN3), C&A (CEAB3) e Assaí (ASAI3) no varejo; XP no mercado de capitais; Motiva (MOTV3) em concessões; Cyrela (CYRE3) e Allos (ALOS3) no setor imobiliário; Localiza (RENT3) em locação de veículos; e Rede D’Or (RDOR3) em saúde.
Entre as empresas de serviços públicos, o banco menciona Equatorial (EQTL3), Energisa e Sabesp (SBSP3).
A seleção reforça o direcionamento para companhias mais expostas à economia brasileira.
O raciocínio é diferente daquele aplicado às grandes exportadoras. Empresas como Vale e outras companhias com receitas dolarizadas podem se beneficiar menos de uma valorização do real e da redução dos juros domésticos.
Essa diferença também explica por que o BTG exclui Vale e Petrobras de determinados cálculos de valuation usados para analisar a Bolsa doméstica.
Rali já produziu realização de lucros
O mercado também mostrou que a trajetória não será linear.
Depois de disparar 7,70% na segunda-feira, o Ibovespa recuou 0,52% na terça, aos 205.835,29 pontos.
A correção foi pequena quando comparada à valorização anterior, mas mostrou que parte dos investidores aproveitou a alta para realizar ganhos.
Banco do Brasil, Vale e Petrobras estiveram entre as pressões da sessão.
Esse tipo de oscilação tende a continuar durante as próximas semanas, principalmente à medida que novas pesquisas eleitorais forem divulgadas, candidatos apresentarem propostas econômicas e alianças políticas forem formalizadas.
O segundo turno será realizado em 25 de outubro.
Até lá, cada pesquisa capaz de alterar a percepção sobre a probabilidade de vitória de Flávio ou Lula poderá provocar ajustes rápidos em ações, dólar e juros.
Cenário de 30% depende do que acontecer depois da eleição
O principal cuidado na leitura do relatório do BTG é não transformar uma hipótese de valuation em previsão automática.
O banco vê espaço para uma valorização adicional significativa porque as ações ainda negociam abaixo da média histórica e porque a queda dos juros modifica o preço considerado razoável para os ativos.
Mas a própria análise estabelece condições.
No curto prazo, pesquisas mostrando vantagem mais clara de Flávio poderiam prolongar o chamado trade eleitoral.
Depois da eleição, porém, o mercado passará a exigir informações concretas sobre equipe econômica, política fiscal e capacidade de implementar reformas.
Nesse momento, o nome do vencedor deixa de ser suficiente.
A combinação que poderia sustentar o cenário otimista seria uma redução do risco fiscal acompanhada por queda dos juros, aceleração gradual da atividade e crescimento dos lucros empresariais.
Sem esses elementos, a expansão dos múltiplos projetada pelo BTG pode não ocorrer.
A Bolsa, portanto, continua com espaço de valorização na avaliação do banco, mas os 30% representam o limite de um cenário mais favorável, não uma promessa de retorno.
Aplicada apenas como exercício matemático ao fechamento recorde de segunda-feira, essa valorização levaria o Ibovespa para perto de 269 mil pontos. O verdadeiro teste, porém, não será atingir um número específico: será saber se a reprecificação iniciada depois do primeiro turno poderá ser sustentada por fundamentos econômicos depois de 25 de outubro.
Fontes
BTG Pactual — estratégia para ações brasileiras após o primeiro turno
B3 — desempenho do Ibovespa e ações brasileiras
Banco Central do Brasil — Boletim Focus e política monetária
Tribunal Superior Eleitoral — resultado do primeiro turno das Eleições 2026







