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Após Artemis II, NASA acelera corrida por água lunar enquanto hélio-3 e datacenters orbitais ganham espaço

Primeiro voo tripulado ao redor da Lua em mais de 50 anos validou SLS e Orion; nova arquitetura prevê pouso humano no polo sul em 2028, enquanto água, hélio-3 e computação espacial avançam em estágios diferentes de maturidade

por Sandro Dias
17/08/2026 às 11h52
em Mundo
Nasa Conclui Artemis Ii, Primeiro Voo Tripulado À Lua Em 50 Anos, E Avança Para Base Com Gelo E Hélio-3-Gazeta Mercantil

A conclusão da missão Artemis II em abril de 2026 colocou seres humanos novamente na vizinhança da Lua pela primeira vez desde a era Apollo e abriu uma etapa em que a exploração lunar deixa de ser apenas uma sequência de missões científicas para incorporar infraestrutura permanente, utilização de recursos locais e participação crescente de empresas privadas. O programa inclui desde prospecção de água no polo sul até estudos sobre hélio-3 e sistemas de energia capazes de sustentar uma presença humana prolongada.

A Artemis II decolou às 18h35 no horário da costa leste dos Estados Unidos em 1º de abril, do Complexo de Lançamento 39B do Centro Espacial Kennedy, na Flórida. A bordo da Orion estavam os astronautas da NASA Reid Wiseman, Victor Glover e Christina Koch e o canadense Jeremy Hansen. A cápsula retornou em 10 de abril, com amerissagem no Oceano Pacífico após uma viagem de quase dez dias ao redor da Lua.

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No ponto mais distante da trajetória, a tripulação ficou a 252.756 milhas — aproximadamente 406,8 mil quilômetros — da Terra. Segundo a NASA, o voo estabeleceu um novo recorde de distância alcançada por seres humanos no espaço, superando o marco da Apollo 13. A missão percorreu aproximadamente 694 mil milhas antes do retorno.

O sucesso da Artemis II, entretanto, não significa que a NASA esteja prestes a iniciar imediatamente mineração comercial de gelo ou hélio-3. Os planos atuais mostram uma diferença importante entre tecnologias que já entraram na arquitetura operacional da agência e conceitos energéticos que ainda dependem de demonstrações científicas, redução de custos e desenvolvimento de mercados que hoje não existem em escala comercial.

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Artemis III não pousará mais na Lua em 2027

A principal mudança em relação ao planejamento apresentado anteriormente pela NASA está no cronograma das próximas missões. A Artemis III deixou de ser o primeiro pouso humano no polo sul lunar.

Em fevereiro e março de 2026, a agência reorganizou o programa. A Artemis III passou a ser uma missão de demonstração em órbita baixa da Terra, prevista para 2027. A tripulação deverá testar encontro e acoplamento da Orion com versões de demonstração dos sistemas comerciais de pouso desenvolvidos por SpaceX e Blue Origin.

O primeiro pouso tripulado no polo sul dentro da nova arquitetura passou para a Artemis IV, atualmente planejada para 2028. A mudança desloca em pelo menos um ciclo de missão a etapa em que astronautas efetivamente trabalharão na superfície lunar.

A Artemis III terá, ainda assim, função crítica. A NASA pretende executar uma sequência de lançamentos envolvendo SLS, Orion e os veículos comerciais para testar acoplamento, operações conjuntas e procedimentos que serão necessários quando os astronautas tiverem de transferir-se da Orion para um módulo lunar.

Na prática, a agência introduziu uma missão intermediária destinada a reduzir riscos antes de mandar uma tripulação para a superfície. O ajuste altera também o horizonte da futura economia lunar: infraestrutura, mineração experimental e utilização intensiva de recursos locais dependem primeiro de uma cadeia de transporte confiável entre a Terra, órbita lunar e superfície.

Água é hoje o recurso lunar com aplicação mais concreta

Entre os recursos naturais identificados na Lua, a água ocupa posição mais avançada nos planos oficiais.

Missões anteriores confirmaram gelo em regiões permanentemente sombreadas próximas aos polos. Dados da Lunar Reconnaissance Orbiter, da missão LCROSS e de instrumentos levados pela Chandrayaan-1 formaram um conjunto de evidências de que depósitos de água estão preservados em áreas extremamente frias da superfície lunar.

A importância econômica e operacional desse recurso vai além do consumo humano. A água pode ser utilizada diretamente para suporte à vida e, em princípio, separada em hidrogênio e oxigênio. Esses elementos podem servir para produzir oxigênio respirável e propelente.

É esse conceito que sustenta a estratégia chamada ISRU, sigla para utilização de recursos in situ. A NASA define a tecnologia como uma forma de utilizar materiais disponíveis no destino para produzir água, combustível, oxigênio e outros suprimentos, reduzindo a dependência de cargas enviadas da Terra.

A lógica econômica é direta. Cada quilograma que não precisa ser transportado da superfície terrestre elimina parte de uma cadeia cara de lançamento, transferência e pouso. Quanto mais distante e permanente for uma operação espacial, maior tende a ser a vantagem de produzir localmente determinados insumos.

Isso não significa que exista hoje uma mina lunar operacional. O desafio ainda é determinar concentração, profundidade, distribuição e facilidade de extração do gelo, além de desenvolver equipamentos capazes de funcionar em regiões de temperaturas extremas.

VIPER deverá mapear gelo no polo sul em 2027

O cronograma atualizado da NASA prevê uma sequência de missões robóticas antes da expansão da presença humana.

O rover VIPER está programado para chegar ao polo sul no fim de 2027 por meio do programa Commercial Lunar Payload Services. Equipado com instrumentos científicos e uma broca de aproximadamente um metro, o veículo deverá analisar o solo em diferentes profundidades e temperaturas em busca de água e outros compostos voláteis.

A NASA pretende utilizar os dados para construir um mapa de recursos e determinar onde a água está, em que quantidade aparece e quão difícil seria extraí-la. São informações indispensáveis antes que qualquer sistema de mineração possa ser dimensionado comercialmente.

A agência dividiu o desenvolvimento de sua futura base lunar em fases. Até 2029, a prioridade é realizar missões robóticas, demonstrar tecnologias e estudar o ambiente. Entre 2029 e 2032, o planejamento prevê instalação progressiva de infraestrutura de energia, logística, comunicação e transporte. A partir de 2032, a meta é avançar para um posto mais permanente onde tripulações possam viver e trabalhar por períodos prolongados.

Essa sequência mostra que o recurso mais valioso no curto prazo não é necessariamente aquele que teria maior valor de venda na Terra. Água, oxigênio e propelente podem gerar valor econômico simplesmente por evitar que materiais equivalentes tenham de escapar da gravidade terrestre.

NASA também prepara medição de hélio-3

O hélio-3 ocupa posição diferente. O isótopo, escasso na Terra, foi depositado no regolito lunar ao longo de bilhões de anos pela ação do vento solar e há décadas é estudado como combustível potencial para determinadas reações de fusão nuclear.

O interesse voltou a ganhar dimensão prática porque a NASA agora inclui uma medição específica de hélio-3 entre as investigações previstas para a superfície.

A missão Griffin-1 deverá transportar o experimento Moon Exploration for Titanium with Active Lighting, o METAL, desenvolvido pelo Centro Ames da NASA em parceria com a Interlune. Segundo a agência, o instrumento estudará a abundância de hélio-3 no regolito para ampliar o conhecimento sobre os recursos lunares e subsidiar futuras iniciativas de ISRU.

A existência da investigação não equivale, contudo, a um programa da NASA para abastecer usinas terrestres com hélio-3.

Estudos técnicos armazenados no sistema de pesquisas da agência analisam há décadas métodos de mineração e o potencial do ciclo deutério-hélio-3 para geração de energia. A reação é atraente porque produz proporção menor de nêutrons de alta energia que o ciclo deutério-trítio, reduzindo alguns problemas de ativação e degradação de materiais.

O obstáculo está na cadeia completa. Seria necessário escavar volumes muito grandes de regolito, aquecer o material, separar o isótopo, concentrá-lo e transportá-lo, além de dispor de reatores de fusão capazes de utilizá-lo economicamente. Nenhuma dessas cadeias existe hoje em escala comercial.

Assim, o hélio-3 deve ser tratado como recurso estratégico potencial, e não como uma nova commodity energética já disponível.

SpaceX pede autorização para até 1 milhão de satélites de computação

Enquanto a NASA desenvolve infraestrutura lunar, outra fronteira energética surgiu mais perto da Terra: transferir parte da capacidade de processamento de inteligência artificial para a órbita.

Em janeiro de 2026, a SpaceX apresentou à Federal Communications Commission um pedido para operar um sistema de datacenters orbitais composto, no limite da solicitação, por até um milhão de satélites não geoestacionários. A FCC aceitou o pedido para análise em fevereiro. A aceitação para processamento não equivale a autorização para colocar a constelação em operação.

O projeto prevê satélites distribuídos entre aproximadamente 500 e 2.000 quilômetros de altitude e interligados por conexões ópticas. A proposta busca utilizar energia solar e processamento distribuído para executar cargas de trabalho de inteligência artificial fora de datacenters terrestres.

Documentos corporativos apresentados pela própria SpaceX ao mercado indicam que a empresa espera começar a implantar satélites dedicados a computação orbital de IA já em 2028. A companhia reconhece, ao mesmo tempo, que a iniciativa depende de tecnologias ainda não provadas em escala, grandes investimentos e aprovações regulatórias.

O número de um milhão de satélites representa, portanto, o teto do sistema submetido ao regulador, não uma constelação já autorizada ou um compromisso de implantação imediata.

Espaço oferece Sol abundante, mas refrigeração continua sendo desafio

A justificativa energética dos datacenters orbitais é a possibilidade de aumentar a disponibilidade de energia solar e reduzir algumas limitações terrestres relacionadas a terrenos e acesso à rede elétrica.

O conceito, porém, costuma ser simplificado quando se afirma que o “frio do espaço” resolveria automaticamente a refrigeração. No vácuo não existe ar para remover calor por convecção. Satélites precisam dissipar a energia térmica principalmente por radiação, o que exige radiadores e gerenciamento térmico específico.

A massa desses equipamentos, a degradação causada por radiação, o lançamento de hardware, manutenção, substituição de componentes e descarte dos satélites entram na conta econômica.

A própria NASA, ao avaliar energia solar espacial para geração elétrica, concluiu que os sistemas analisados continuariam mais caros do que alternativas sustentáveis terrestres nas condições estudadas e que seriam necessárias reduções relevantes de custos e avanços em montagem, manutenção e transmissão de energia.

Isso não impede que aplicações específicas de computação orbital avancem antes de grandes usinas solares espaciais. A economia pode ser diferente quando o objetivo é processar dados diretamente em órbita e reduzir a quantidade de informação que precisa ser transmitida à Terra.

Recursos espaciais entram em nova fase regulatória

O crescimento dessas atividades também amplia a importância das regras internacionais.

Os Artemis Accords estabelecem que a extração e utilização de recursos da Lua, de Marte e de asteroides devem ser realizadas de maneira compatível com o Tratado do Espaço Exterior. Os países signatários também assumem compromissos de transparência, coordenação das atividades, mitigação de detritos e prevenção de interferências prejudiciais.

Em julho de 2026, o número de países participantes dos acordos chegou a 70, segundo a NASA. A expansão ocorre justamente quando recursos antes discutidos principalmente em estudos acadêmicos começam a aparecer em missões financiadas, instrumentos científicos, programas comerciais e processos regulatórios.

Quatro meses depois da Artemis II, a transformação mais concreta não é a existência de uma indústria lunar pronta, mas a construção dos elementos necessários para que ela possa surgir.

A Orion já levou uma tripulação ao redor da Lua e retornou. Em 2027, a NASA pretende testar em órbita terrestre os sistemas comerciais necessários para as futuras descidas. No mesmo período, robôs deverão ampliar o conhecimento sobre gelo e recursos minerais. Em 2028, a Artemis IV deverá tentar o primeiro pouso humano da nova fase no polo sul.

A água lunar é a frente com aplicação operacional mais clara. O hélio-3 começa a receber novas medições, mas permanece dependente de uma indústria de fusão ainda inexistente comercialmente. Os datacenters orbitais já chegaram aos reguladores e aos planos corporativos, mas continuam sujeitos a desafios de escala, calor, lançamento e custo.

A corrida que emerge depois da Artemis II, portanto, não é apenas para voltar à Lua. É para determinar quais recursos e infraestruturas conseguem transformar presença no espaço em atividade economicamente sustentável.

Fontes:

NASA — registros oficiais de lançamento, voo e retorno da missão Artemis II.

NASA — arquitetura atualizada das missões Artemis III e Artemis IV e planejamento do retorno humano ao polo sul lunar.

NASA — programa Moon Base, missão VIPER e tecnologias de utilização de recursos in situ.

NASA — informações científicas sobre água e gelo na Lua e investigação METAL para caracterização de hélio-3.

Federal Communications Commission — processo regulatório referente ao sistema de datacenters orbitais proposto pela SpaceX.

U.S. Securities and Exchange Commission — documentos corporativos da SpaceX sobre computação orbital para inteligência artificial.

NASA Office of Technology, Policy and Strategy — avaliação técnica de sistemas de energia solar espacial.

NASA — Artemis Accords e princípios internacionais para utilização de recursos espaciais.

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