A Axia Energia (AXIA3) ampliou sua presença na cadeia de infraestrutura digital com a entrada da Eletronet na Scala AI City, complexo de data centers em desenvolvimento no município de Eldorado do Sul, na Região Metropolitana de Porto Alegre. A controlada será responsável pela primeira estrutura de conectividade instalada dentro do empreendimento, projetado para atender operações de inteligência artificial, computação em nuvem e processamento de dados em larga escala.
A parceria prevê a implantação de um ponto de presença da Eletronet no interior do campus. Conhecida pela sigla PoP, a estrutura funcionará como um elo entre os data centers do complexo e as redes de telecomunicações que conectam empresas, plataformas digitais, provedores de nuvem e sistemas internacionais de transmissão de dados.
Na prática, a operação permitirá que os futuros usuários da Scala AI City tenham acesso a diferentes rotas de fibra óptica, pontos de interconexão e hubs digitais. A diversidade de caminhos é considerada fundamental para operações que não podem sofrer interrupções, como serviços financeiros, plataformas de nuvem, sistemas corporativos e aplicações de inteligência artificial.
Conectividade passa a ocupar posição central
A expansão da inteligência artificial transformou a conectividade em uma parte essencial da infraestrutura de data centers. A disponibilidade de energia continua sendo determinante, mas já não é suficiente para sustentar projetos de grande escala.
O treinamento de modelos de inteligência artificial exige a movimentação permanente de grandes volumes de dados entre servidores, processadores e sistemas de armazenamento. Já a etapa de inferência, na qual os modelos processam solicitações de usuários e empresas, depende de respostas rápidas e conexões estáveis.
Nesse ambiente, a latência, a redundância das rotas e a capacidade de transmissão se tornaram fatores estratégicos. Uma interrupção de rede pode comprometer desde aplicações corporativas até serviços digitais utilizados simultaneamente por milhares ou milhões de pessoas.
A instalação do ponto de presença da Eletronet pretende reduzir esse risco ao criar novas alternativas de conexão dentro do campus. A estrutura deverá permitir a integração do complexo com diferentes redes e operadoras, sem limitar os clientes a um único fornecedor.
Scala AI City terá desenvolvimento por etapas
A Scala AI City foi concebida para alcançar capacidade potencial de 5 gigawatts quando todas as fases previstas estiverem concluídas. O número coloca o projeto entre os maiores empreendimentos de infraestrutura digital anunciados na América Latina.
A primeira etapa terá um data center com capacidade de tecnologia da informação de 54 megawatts. O complexo ocupará uma área total de aproximadamente 5,35 milhões de metros quadrados e deverá crescer de maneira modular, de acordo com a contratação de capacidade e a demanda de empresas de tecnologia.
A diferença entre os 54 megawatts previstos para a fase inicial e os 5 gigawatts do plano de longo prazo mostra a dimensão da expansão projetada. O desenvolvimento completo dependerá da atração de clientes, da disponibilidade de energia, das licenças necessárias e das condições do mercado de computação de alto desempenho.
Grandes projetos de data centers exigem investimentos em subestações, linhas de transmissão, fibra óptica, sistemas de segurança, equipamentos de refrigeração e infraestrutura de processamento. Por isso, a ocupação tende a ocorrer gradualmente, acompanhando a demanda de empresas de nuvem, inteligência artificial e serviços digitais.
Eletronet aproveita corredores de transmissão
A Eletronet opera uma rede nacional de fibra óptica construída, em grande parte, sobre estruturas ligadas ao sistema de transmissão de energia. Esse modelo permite utilizar corredores elétricos para transportar dados por longas distâncias e conectar regiões distintas do país.
A companhia possui mais de 18 mil quilômetros de fibra óptica distribuídos por 18 estados e mantém uma rede de centros de processamento na borda. A expectativa é encerrar 2026 com 26 mil quilômetros de rotas, presença em 23 estados e 255 estruturas desse tipo.
Os centros de borda, chamados de Edge Data Centers, aproximam o processamento dos locais onde os dados são produzidos. Essa distribuição reduz o tempo necessário para transmitir informações e diminui a dependência de grandes centros concentrados em poucas capitais.
A estratégia de expansão inclui pontos como Chuí, no Rio Grande do Sul, e Foz do Iguaçu, no Paraná. A localização das unidades também abre espaço para conexões com Uruguai e Paraguai, ampliando a integração digital entre o Sul do Brasil e os países vizinhos.
Projeto reforça posição do Rio Grande do Sul
A escolha de Eldorado do Sul está associada à disponibilidade territorial, à possibilidade de acesso a energia renovável e à proximidade de rotas nacionais e internacionais de telecomunicações.
O Rio Grande do Sul ocupa uma posição geográfica relevante para conexões com outros países do Mercosul. A região pode funcionar como um ponto de passagem para o tráfego de dados entre o mercado brasileiro, o Uruguai, a Argentina e o Paraguai.
Entre as rotas internacionais relacionadas ao projeto está o cabo submarino Malbec, que conecta Brasil e Argentina. A integração com cabos desse tipo reduz a dependência de caminhos terrestres mais longos e aumenta as alternativas de transmissão para clientes com operações internacionais.
Para empresas de tecnologia, a diversidade de rotas é um fator decisivo. Quando uma conexão apresenta problemas, o tráfego pode ser transferido para outro caminho disponível. Essa redundância diminui riscos e aumenta a confiabilidade dos serviços.
A Eletronet deverá fortalecer justamente essa camada terrestre da Scala AI City, ligando o empreendimento à sua rede nacional e a outros pontos de interconexão.
Energia renovável entra na disputa por investimentos
A Scala pretende operar o complexo com energia renovável certificada. O projeto também prevê metas de eficiência relacionadas ao consumo de eletricidade e água.
A companhia trabalha com a expectativa de manter o indicador PUE abaixo de 1,2. A métrica compara toda a energia consumida por um data center com a parcela efetivamente utilizada pelos equipamentos de tecnologia.
Quanto mais próximo de 1 estiver o resultado, menor será o consumo relativo de sistemas auxiliares, como refrigeração, iluminação e segurança.
Outra meta é atingir WUE igual a zero nos sistemas de resfriamento, eliminando o uso contínuo de água nessa etapa da operação. A proposta ganha relevância diante das críticas relacionadas ao consumo hídrico de grandes centros de processamento.
A expansão da inteligência artificial aumentou a demanda global por eletricidade. Servidores destinados ao treinamento de modelos operam com elevada densidade computacional e exigem sistemas robustos de resfriamento.
Nesse cenário, países com oferta relevante de energia renovável podem ganhar vantagem na atração de investimentos. O Brasil reúne uma matriz elétrica com participação expressiva de fontes de baixo carbono, fator que pode atender às metas ambientais de grandes companhias de tecnologia.
Axia Energia amplia exposição à economia digital
A participação da Eletronet no projeto aproxima a Axia Energia de um mercado que vai além de sua atividade principal de geração e transmissão de eletricidade.
A companhia passou a utilizar a marca Axia Energia e adotou o código AXIA3 para suas ações ordinárias. A mudança marcou uma nova etapa da empresa após a simplificação de sua estrutura societária e a migração para o Novo Mercado da B3.
Mesmo com a nova frente, o negócio central da Axia continua concentrado no setor elétrico. A Eletronet, contudo, estabelece uma ligação entre a infraestrutura de energia e o mercado de telecomunicações.
Essa convergência se torna especialmente relevante no segmento de data centers. Grandes centros de processamento dependem simultaneamente de energia disponível, transmissão confiável e redes capazes de transportar dados com alta velocidade.
A entrada da controlada na Scala AI City não deve alterar de forma imediata a composição dos resultados da Axia. O acordo, porém, posiciona o grupo em uma atividade associada ao crescimento dos investimentos em inteligência artificial e serviços digitais.
Parceria une energia, telecomunicações e computação
A Scala AI City foi estruturada para reunir, em um único complexo, três componentes considerados essenciais para a próxima geração de data centers: energia, conectividade e capacidade computacional.
A Scala Data Centers ficará responsável pelo desenvolvimento e pela operação do campus. A Eletronet fornecerá a primeira estrutura interna de conexão, enquanto a Axia Energia ganha exposição indireta ao avanço da infraestrutura de inteligência artificial.
A parceria também evidencia uma mudança na economia digital. Energia e telecomunicações deixaram de ser apenas serviços de suporte e passaram a influenciar diretamente a localização dos investimentos tecnológicos.
A existência de energia renovável em escala, redes redundantes e acesso a rotas internacionais pode definir quais regiões receberão novos centros de processamento. O Brasil tenta transformar essas condições em vantagem competitiva diante de outros mercados.
O projeto de Eldorado do Sul ainda terá um longo processo de desenvolvimento. A capacidade total anunciada dependerá da contratação de clientes e da execução das diferentes etapas do campus. A chegada da Eletronet, contudo, estabelece uma das bases necessárias para que o empreendimento avance: a conexão entre os futuros data centers e o restante do ecossistema digital.









