A Oi encerrou 2025 com prejuÃzo lÃquido consolidado de R$ 36,4 bilhões, revertendo o lucro de R$ 9,6 bilhões registrado no ano anterior, em um balanço divulgado já sob o efeito da conversão da recuperação judicial em falência. As demonstrações financeiras, entregues em 7 de outubro, mostram também retração de 18,3% da receita operacional lÃquida, para R$ 2,6 bilhões, e resultado financeiro negativo de R$ 33,2 bilhões. O cenário é agravado por uma opinião adversa da PwC, que questionou a adoção da premissa de continuidade operacional.
O tamanho da deterioração não decorre apenas da redução da atividade. A diferença entre o resultado lÃquido de 2024 e o de 2025 foi de R$ 46 bilhões. Já o resultado financeiro piorou R$ 45,4 bilhões em um ano, saindo de um ganho de R$ 12,2 bilhões para uma despesa lÃquida de R$ 33,2 bilhões. Em termos proporcionais, o prejuÃzo de 2025 equivale a cerca de 14 vezes a receita operacional lÃquida do exercÃcio, uma dimensão que ajuda a mostrar o peso dos efeitos financeiros e contábeis sobre uma companhia cuja operação encolheu ao longo do perÃodo.
Efeito contábil domina a virada do resultado
Segundo as demonstrações, a deterioração do resultado financeiro esteve ligada principalmente à reversão de ajustes associados à novação de passivos prevista no plano de recuperação judicial. Entraram nesse movimento valores relacionados a empréstimos e financiamentos, fornecedores e obrigações com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), com recomposição dos saldos nominais das dÃvidas.
O tratamento contábil de 2025 contrasta com o que ocorreu em 2024. Naquele exercÃcio, a homologação do plano de recuperação judicial produziu efeitos positivos sobre o resultado financeiro porque dÃvidas sujeitas ao plano foram novadas e recalculadas. Em 2025, parte desse efeito foi revertida, contribuindo para a forte piora do resultado.
A diferença é importante para a leitura do balanço porque o prejuÃzo não pode ser interpretado integralmente como uma saÃda de caixa de R$ 36,4 bilhões no perÃodo. Uma parcela relevante do resultado veio da forma como os passivos passaram a ser reconhecidos e ajustados nos demonstrativos. O dado, portanto, expressa principalmente a deterioração patrimonial e financeira registrada contabilmente em um momento em que a empresa já havia perdido a perspectiva de reorganização pela via da recuperação judicial.
A receita operacional lÃquida caiu de R$ 3,18 bilhões em 2024 para R$ 2,6 bilhões em 2025, uma redução de aproximadamente R$ 580 milhões. A retração de 18,3% mostra que a piora não ficou restrita a efeitos extraordinários: a base operacional também era menor ao final do exercÃcio. Ainda assim, a queda de receita foi numericamente muito inferior à oscilação de R$ 45,4 bilhões registrada no resultado financeiro.
Auditoria aponta mudança na base contábil
A PwC emitiu opinião adversa sobre as demonstrações financeiras. A auditoria avaliou que os números não apresentam adequadamente a posição patrimonial e financeira e o desempenho da companhia e de suas controladas segundo as regras contábeis aplicáveis a entidades em liquidação e as normas internacionais de contabilidade.
O ponto central do parecer está na escolha da base contábil. Segundo a auditoria, a manutenção do pressuposto de continuidade operacional foi inadequada diante das circunstâncias da companhia. Na avaliação da PwC, as demonstrações deveriam ter sido preparadas sob uma base de liquidação, levando em conta que a empresa não seria capaz de liquidar seus passivos no curso normal de suas atividades.
A diferença não é apenas formal. Na base de continuidade, ativos e passivos são registrados a partir da expectativa de que a empresa seguirá operando e cumprirá suas obrigações no curso normal dos negócios. Em uma situação de liquidação, a avaliação dos ativos e das obrigações passa a refletir as condições relacionadas ao encerramento ou à realização dos ativos e à liquidação dos passivos. Por isso, a própria escolha da base pode alterar valores relevantes do balanço.
Na prática, o parecer da auditoria introduz uma ressalva estrutural sobre a capacidade das demonstrações de representar a posição econômica da companhia em um cenário de falência. A opinião adversa também impede que o balanço seja lido como uma fotografia patrimonial sem considerar as limitações apontadas pelo auditor.
Falência muda o estágio da companhia
A conversão da recuperação judicial em falência foi mantida pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro em 25 de agosto, nos julgamentos dos agravos de instrumento relacionados ao caso. Os acórdãos correspondem aos processos 0096877-26.2025.8.19.0000 e 0096871-19.2025.8.19.0000, segundo a documentação divulgada pela companhia e pelo processo de recuperação judicial.
A sequência judicial ajuda a explicar por que o balanço de 2025 foi publicado em um contexto diferente daquele em que os números originalmente deveriam ter sido apresentados. A companhia adiou várias vezes a divulgação das informações financeiras ao longo de 2026, citando os impactos dos acontecimentos ligados à recuperação judicial e aos processos competitivos de venda de ativos.
A publicação do balanço ocorreu, portanto, depois de uma mudança fundamental no regime jurÃdico da empresa. O ano de 2025 ainda foi contabilizado em um perÃodo em que a recuperação judicial estava em curso, mas os demonstrativos chegaram ao mercado depois de a falência ter sido decretada e mantida em segunda instância.
Outro marco ocorreu em setembro, quando a listagem das ações da Oi deixou de ser admitida na B3. A deslistagem não extingue, por si só, a companhia nem converte automaticamente as ações em créditos contra a massa falida, mas retira os papéis do ambiente de negociação da bolsa. O fato reforça a mudança do perfil da companhia perante acionistas e credores.
Venda de ativos passa a definir a continuidade operacional
A trajetória dos ativos também mostra que a reorganização da Oi está avançando por meio de alienações especÃficas. Uma das operações mais relevantes envolve a Unidade Produtiva Isolada de Serviços Telefônicos, criada para concentrar os ativos e contratos ligados à telefonia fixa. A proposta vencedora do leilão foi apresentada pela Método Telecomunicações e Comércio Ltda., em operação estruturada para preservar a continuidade dos serviços.
A venda da UPI foi aprovada em etapas ao longo de 2026 e a aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) transitou em julgado no fim de setembro. A estrutura prevê a transferência da operação de telefonia fixa para a Oi Serviços Telefônicos S.A., com mudança prevista para novembro, e posterior alienação da participação da Oi nessa nova empresa à Método, vencedora do processo competitivo.
Esse tipo de operação é compatÃvel com uma companhia em processo de liquidação porque separa ativos e atividades operacionais em unidades que podem ser vendidas individualmente. O foco deixa de ser reconstruir integralmente o antigo grupo econômico e passa a ser realizar ativos e organizar a destinação dos recursos dentro do processo falimentar.
Para consumidores, credores e prestadores de serviço, a consequência é diferente. A falência societária não significa necessariamente interrupção imediata de todas as operações. Atividades consideradas essenciais podem continuar temporariamente enquanto ativos, contratos e estruturas empresariais são transferidos ou vendidos, o que explica a permanência de serviços mesmo após a decretação da falência.
Balanço evidencia limite da operação remanescente
Os números de 2025 ajudam a dimensionar a diferença entre a Oi que existia antes das grandes vendas de ativos e a estrutura que permanece em processo de liquidação. A receita operacional lÃquida de R$ 2,6 bilhões é insuficiente para explicar, sozinha, a magnitude do resultado lÃquido negativo. O principal fator de pressão foi financeiro e patrimonial, intensificado pela reversão dos efeitos de novações e pela mudança de referência contábil discutida pela auditoria.
A diferença entre receita e prejuÃzo também mostra por que o desempenho de 2025 não deve ser lido com a mesma lógica de um balanço convencional de uma companhia em atividade normal. O resultado está fortemente condicionado por eventos de reestruturação de passivos, decisões judiciais e alienação de ativos, e não apenas pela capacidade de gerar receita com seus serviços.
O próximo ciclo da Oi, portanto, dependerá menos de uma recuperação operacional tradicional e mais da execução ordenada da falência, da realização de ativos e do tratamento dos passivos. A divulgação das demonstrações financeiras encerra uma etapa de atraso na apresentação dos números, mas também deixa explÃcita a dimensão dos ajustes contábeis produzidos pela crise.
Com o parecer adverso da PwC e a companhia já submetida ao regime falimentar, os demonstrativos de 2025 passam a servir sobretudo como registro da posição financeira de uma empresa em transição para a liquidação. Os números mostram uma operação menor, um passivo sujeito a fortes efeitos de reavaliação e um processo cuja etapa seguinte será determinada pela venda dos ativos remanescentes e pela ordem de pagamento dos credores.
Fontes:
Oi S.A. – Demonstrações Financeiras Anuais Completas de 2025 e relatório anual com o parecer da auditoria independente
Oi S.A. – fatos relevantes e comunicados sobre adiamento das demonstrações financeiras, falência, deslistagem e alienação de ativos
Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro – acórdãos dos agravos de instrumento que mantiveram a convolação da recuperação judicial do Grupo Oi em falência
Oi S.A. – documentos sobre a alienação da UPI Serviços Telefônicos e transferência da operação para a Oi Serviços Telefônicos S.A.
Conselho Administrativo de Defesa Econômica – aprovação da operação envolvendo a UPI Serviços Telefônicos







