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Operação Fluxo Oculto mira fintechs e combustíveis em investigação ligada ao PCC

MPSP, Receita Federal e ANP apuram suspeitas de fraude, sonegação e lavagem de dinheiro; seis fintechs teriam movimentado R$ 26 bilhões.

por Daniel Wicker
28/05/2026 às 09h52
em Brasil
Operação Fluxo Oculto Mira Fintechs E Combustíveis Em Investigação Ligada Ao Pcc

Divulgação

O Ministério Público de São Paulo deflagrou na manhã desta quinta-feira, 28 de maio de 2026, a Operação Fluxo Oculto, nova fase de uma investigação sobre suspeitas de fraude, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis, com ramificações em estruturas financeiras usadas, segundo as autoridades, por uma organização criminosa ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A ação, conduzida pelo Gaeco em conjunto com Receita Federal, ANP, Secretaria da Fazenda de São Paulo, Procuradoria-Geral do Estado e polícias Civil e Militar, cumpre 59 mandados de busca e apreensão em cinco estados e aprofunda apurações iniciadas na Operação Carbono Oculto.

A Operação Fluxo Oculto tem como foco duas frentes principais: seis fintechs suspeitas de atuar como “bancos paralelos” para movimentação e compensação de recursos do grupo investigado e um esquema de adulteração de combustíveis associado ao suposto desvio de nafta petroquímica. Segundo a Receita Federal, as fintechs investigadas movimentaram mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025.

Leia também: Soltura de MC Ryan: STJ determina liberdade imediata em operação de R$ 1,6 bi.

Os mandados são cumpridos em São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Em território paulista, há diligências na capital e em cidades como Barueri, Santos, São José do Rio Preto e Sorocaba. Também foram mencionadas buscas em endereços da região da Faria Lima, centro financeiro de São Paulo.

A operação mobiliza cerca de 135 auditores-fiscais, analistas-tributários e servidores da Receita Federal, além de agentes dos demais órgãos envolvidos. Como se trata de investigação em curso, os alvos têm direito à defesa, e eventuais responsabilidades penais, fiscais ou administrativas ainda dependem de apuração e decisão das autoridades competentes.

Leia também: Camisaria Colombo: donos são presos na Operação Fractal por fraude milionária.

Investigação amplia alcance da Carbono Oculto

A Operação Fluxo Oculto é apresentada pelas autoridades como um desdobramento da Carbono Oculto, investigação que já havia apontado suspeitas de infiltração de organização criminosa no mercado de combustíveis e em estruturas financeiras associadas ao setor.

Segundo o Ministério Público, a etapa deflagrada nesta quinta-feira busca aprofundar o rastreamento de canais financeiros, empresas intermediárias, fundos de investimento e mecanismos de ocultação patrimonial que teriam permitido a circulação de recursos de origem suspeita.

O setor de combustíveis é considerado sensível por combinar alto volume financeiro, complexidade tributária, circulação interestadual de mercadorias e dificuldade de fiscalização em cadeias longas, que envolvem importadores, distribuidores, terminais, transportadores e postos de revenda.

Para os investigadores, esse ambiente teria sido explorado por grupos suspeitos de criar estruturas empresariais e financeiras destinadas a dar aparência lícita a recursos, reduzir artificialmente a carga tributária e sustentar operações de adulteração ou venda irregular de combustíveis.

A ofensiva desta quinta-feira busca documentos, registros contábeis, contratos, aparelhos eletrônicos e outros materiais que possam auxiliar na reconstrução do fluxo financeiro e operacional do suposto esquema.

Fintechs são investigadas como supostos “bancos paralelos”

Uma das principais frentes da Operação Fluxo Oculto envolve seis fintechs que, segundo o Ministério Público, teriam funcionado como “bancos paralelos” da organização criminosa investigada.

De acordo com a apuração, essas instituições integrariam um núcleo financeiro usado para compensações internas entre distribuidoras e postos de combustíveis. Também teriam participado de operações envolvendo empresas e fundos de investimento ligados ao grupo sob investigação.

As autoridades afirmam que o sistema serviria não apenas para movimentação de valores empresariais, mas também para pagamento de colaboradores e despesas pessoais de operadores apontados como centrais no esquema.

Entre os grupos citados na investigação estão Ceopag, com atuação em São José do Rio Preto e Barueri; Sispay, com empresas no Itaim Bibi, em São Paulo; Smart Solutions, no Rio de Janeiro; e o grupo Yaw, com operações em Alphaville e Belo Horizonte.

Também aparece entre os alvos a Ello Gestora de Recursos Ltda., com mandados em endereços na Rua Professor Atílio Innocenti, na Vila Nova Conceição, e na Avenida Brigadeiro Faria Lima, no Itaim Bibi, ambos na capital paulista.

A suspeita central é que fintechs, contas de pagamento, estruturas de compensação e fundos tenham sido utilizados para dificultar o rastreamento dos beneficiários reais das transações. Esse tipo de mecanismo, segundo os órgãos de fiscalização, pode criar camadas sucessivas de movimentação financeira e reduzir a transparência sobre a origem e o destino dos recursos.

Movimentação de R$ 26 bilhões eleva dimensão financeira do caso

O volume financeiro atribuído às fintechs investigadas é um dos pontos mais relevantes da Operação Fluxo Oculto. Segundo a Receita Federal, as seis instituições movimentaram mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025.

O valor, por si só, não representa conclusão de crime, mas é considerado pelas autoridades um indicativo da dimensão econômica das estruturas investigadas. A apuração busca verificar a origem dos recursos, a natureza das operações e a eventual ligação com empresas do setor de combustíveis e com pessoas apontadas como integrantes ou operadores da organização criminosa.

A Receita Federal identificou operações suspeitas com depósitos em espécie, considerados incompatíveis com a natureza de instituições de pagamento. Apenas uma das instituições investigadas teria recebido mais de R$ 1 bilhão em dinheiro vivo entre 2022 e 2024.

Outro ponto destacado pelos investigadores é a abertura de contas em outras fintechs, o que teria criado uma segunda camada de ocultação financeira. Na avaliação das autoridades, esse arranjo dificulta o acompanhamento das transações, fragmenta a trilha dos recursos e pode mascarar os beneficiários finais.

A investigação também aponta o uso de chamadas “contas bolsão”, estruturas utilizadas para centralizar recursos e, posteriormente, distribuí-los para múltiplos destinatários. Esse tipo de conta pode ser usado em operações legítimas, mas, segundo os investigadores, teria sido empregado no caso para dificultar a identificação da origem e do destino do dinheiro.

Criptoativos e fundos entram na mira dos investigadores

A Operação Fluxo Oculto também apura movimentações envolvendo criptoativos e fundos de investimento. Segundo os órgãos envolvidos, foram identificadas transações de pelo menos R$ 365 milhões em criptoativos entre instituições investigadas e empresas suspeitas de lavagem de dinheiro ligada a organizações criminosas alvo de outras operações.

O uso de criptoativos em investigações financeiras tem sido acompanhado com maior atenção por autoridades fiscais e policiais, especialmente quando há suspeita de conversão de recursos para dificultar rastreamento, pulverização de valores ou remessas entre diferentes carteiras e plataformas.

No caso da Operação Fluxo Oculto, as autoridades investigam se criptoativos teriam sido utilizados como parte de uma engrenagem financeira mais ampla, conectada a fintechs, contas de pagamento, empresas do setor de combustíveis e fundos de investimento.

Segundo o Ministério Público de São Paulo, quatro fundos de investimento, duas administradoras de recursos e duas gestoras estão sob investigação. O patrimônio estimado dos fundos chega a cerca de R$ 205 milhões e teria crescido mais de 200% em pouco mais de um ano.

A apuração busca identificar se essas estruturas foram usadas para ocultar patrimônio, dissimular beneficiários finais ou dar aparência formal a recursos associados ao esquema investigado. Fundos de investimento e gestoras são instrumentos regulados, mas podem entrar no radar de autoridades quando há suspeita de uso indevido para blindagem patrimonial ou lavagem de dinheiro.

Desvio de nafta petroquímica é segunda frente da operação

Além do núcleo financeiro, a Operação Fluxo Oculto investiga um suposto esquema de desvio de nafta petroquímica, matéria-prima derivada do petróleo usada pela indústria química.

Segundo o Ministério Público, um núcleo investigado teria simulado a venda de solventes para empresas-fantasma e, depois, direcionado o material para terminais e postos de combustíveis. A suspeita é que a nafta fosse desviada de sua finalidade industrial e usada na mistura com combustíveis automotivos.

A investigação, realizada em conjunto com a Agência Nacional do Petróleo, aponta que o grupo mantinha um esquema de abertura em série de empresas em diferentes estados. Essas companhias teriam como responsáveis formais parentes, pessoas em situação de vulnerabilidade social e até presos.

Na prática, segundo a apuração, os produtos eram desviados para a Grande São Paulo, onde poderiam ser misturados a combustíveis antes de chegar ao consumidor final por meio de postos ligados ao grupo investigado.

De acordo com a Receita Federal, apenas o esquema envolvendo nafta teria causado prejuízo estimado em R$ 200 milhões em tributos supostamente sonegados ao longo de dois anos.

Fraude em combustíveis afeta arrecadação e concorrência

A suspeita de adulteração e desvio de combustíveis tem impacto direto sobre arrecadação tributária, concorrência e segurança do consumidor. O setor opera com margens apertadas e forte carga de impostos, o que torna fraudes fiscais e operacionais especialmente danosas para empresas que atuam dentro das regras.

Quando há sonegação ou adulteração, postos e distribuidoras suspeitos podem vender produtos a preços artificialmente baixos, pressionando concorrentes regulares e distorcendo a formação de preços no mercado. Esse tipo de prática também reduz a arrecadação de estados e da União, além de prejudicar políticas públicas financiadas por tributos.

No caso da Operação Fluxo Oculto, a apuração indica que o suposto esquema não se limitaria à sonegação. As autoridades investigam uma estrutura integrada, com empresas de fachada, fintechs, fundos, contas de pagamento, criptoativos e mecanismos de compensação interna.

Esse arranjo, se confirmado, apontaria para um modelo mais sofisticado de atuação no setor de combustíveis, com uso de instrumentos financeiros formais para dar suporte a atividades consideradas ilícitas pelos investigadores.

A ANP participa da operação justamente por envolver suspeitas relacionadas à cadeia de combustíveis, à destinação de matérias-primas e à regularidade de agentes econômicos que operam em um mercado regulado.

Cinco estados concentram buscas e apreensões

Os 59 mandados de busca e apreensão da Operação Fluxo Oculto são cumpridos em São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A distribuição geográfica reforça o caráter interestadual da investigação.

Em São Paulo, as diligências ocorrem na capital e em municípios com relevância econômica e logística. Barueri e Alphaville concentram empresas financeiras, gestoras e escritórios corporativos. Santos é estratégico pela presença portuária. São José do Rio Preto e Sorocaba aparecem como polos regionais com atividades empresariais e logísticas relevantes.

A presença de mandados no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, no Paraná e em Mato Grosso do Sul indica que a apuração busca mapear conexões empresariais e financeiras para além do mercado paulista.

As buscas têm como objetivo coletar elementos que ajudem a comprovar ou descartar as suspeitas. Em operações desse tipo, documentos físicos, computadores, celulares, contratos, registros contábeis, comprovantes de transações e comunicações internas podem ser decisivos para reconstruir a cadeia de decisões e movimentações.

Até que a investigação avance, os alvos são tratados como investigados. A responsabilização individual depende da análise das provas, do contraditório e de eventual decisão judicial.

Caso aumenta pressão sobre fiscalização financeira e setor de combustíveis

A Operação Fluxo Oculto amplia a pressão sobre órgãos de fiscalização, instituições financeiras, fintechs, distribuidoras e postos de combustíveis. O caso expõe a preocupação das autoridades com o uso de estruturas financeiras modernas em esquemas de lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial.

O avanço das fintechs ampliou a concorrência no sistema financeiro e facilitou pagamentos digitais, mas também aumentou a necessidade de controles robustos de prevenção à lavagem de dinheiro, identificação de beneficiários finais e monitoramento de operações atípicas.

Para o setor de combustíveis, a operação reforça um problema antigo: a presença de fraudes fiscais e adulteração em uma cadeia essencial para transporte, indústria, comércio e consumidores. A combinação de alto volume financeiro, tributação complexa e capilaridade nacional torna o segmento um alvo recorrente de investigações.

Segundo o Ministério Público, a etapa deflagrada nesta quinta-feira busca compreender o “ecossistema criminoso” associado às organizações investigadas. A expressão usada pelas autoridades indica que o foco não está apenas em episódios isolados, mas em uma estrutura que teria reunido canais financeiros, empresas operacionais, fundos, fintechs e agentes formais.

A partir dos materiais apreendidos, Receita Federal, Ministério Público, ANP e demais órgãos deverão aprofundar a análise sobre movimentações financeiras, documentos societários, registros fiscais e operações comerciais. O resultado dessa apuração poderá definir novas medidas judiciais, autuações tributárias, bloqueios de bens ou denúncias criminais, caso as suspeitas sejam confirmadas.

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