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PF mira fundo nos EUA que liga Flávio, Eduardo Bolsonaro e Daniel Vorcaro

Investigação apura se recursos enviados por Daniel Vorcaro a Flávio Bolsonaro abasteceram estrutura offshore ligada ao filme Dark Horse.

por Júlia Campos
17/05/2026 às 16h10
em Política
Pf Mira Fundo Nos Eua Que Liga Flávio, Eduardo Bolsonaro E Daniel Vorcaro - Gazeta Mercantil - Política

A Polícia Federal passou a investigar um fundo offshore registrado no Texas, nos Estados Unidos, que liga o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o ex-deputado Eduardo Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em nova frente de apuração sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Os investigadores apuram se parte dos recursos transferidos por Vorcaro a Flávio foi enviada à estrutura financeira ligada ao longa e se houve desvio de finalidade. O senador nega irregularidades e afirma que todo o dinheiro foi usado na produção cinematográfica.

A estrutura sob análise é o Havengate Development Fund LP, fundo registrado no Texas. Segundo reportagem do Intercept Brasil, documentos indicam que parte dos US$ 10,6 milhões — cerca de R$ 61 milhões — pagos por Daniel Vorcaro a Flávio Bolsonaro entre fevereiro e maio de 2025 teria sido enviada ao fundo por meio da Entre Investimentos e Participações.

Leia também: Eduardo Saverin: Biografia, Fortuna, Facebook e Investimentos.

A nova frente de investigação aumenta a pressão sobre o núcleo político da família Bolsonaro e amplia o alcance do Caso Master, que já envolve suspeitas de fraude financeira, lavagem de dinheiro e movimentações ligadas a empresas associadas a Vorcaro. A apuração também ocorre em meio ao debate sobre a possível candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República.

Flávio Bolsonaro afirma que os valores foram destinados exclusivamente ao financiamento de “Dark Horse”. Eduardo Bolsonaro também nega ter recebido dinheiro de Vorcaro e diz que apenas autorizou o uso de sua imagem no filme. Os citados negam irregularidades, e os investigados têm direito à defesa.

PF apura caminho do dinheiro enviado por Vorcaro

O principal ponto da investigação é rastrear o caminho dos recursos repassados por Daniel Vorcaro a Flávio Bolsonaro. A PF quer esclarecer se o dinheiro foi usado apenas no financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro ou se parte dos valores teve outra finalidade.

Em entrevista à GloboNews, Flávio Bolsonaro afirmou que “todos os recursos” aportados no fundo foram usados na produção cinematográfica. Dois dias depois, voltou a negar que parte do dinheiro tenha servido para custear despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

Segundo o senador, Eduardo se mantém no exterior com recursos próprios e com uma doação feita por Jair Bolsonaro. Ainda em 2025, o ex-presidente enviou R$ 2 milhões ao filho nos Estados Unidos. Na ocasião, o Supremo Tribunal Federal (STF) considerou a operação um possível indício de articulação entre pai e filho para interferir na atuação do Judiciário brasileiro.

Eduardo Bolsonaro vive nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025. Na segunda-feira (11), a Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu sua condenação por coação no curso do processo, sob acusação de articular, a partir do exterior, sanções contra autoridades brasileiras para tentar influenciar o julgamento de Jair Bolsonaro no caso da tentativa de golpe de Estado.

Eduardo nega ter recebido dinheiro de Vorcaro. Em publicação nas redes sociais, afirmou que nunca exerceu cargo de gestão no fundo de investimento e que sua participação no projeto se limitou à autorização de uso de imagem.

Contrato atribui papel de produtor-executivo a Eduardo

As negativas de Eduardo Bolsonaro passaram a ser confrontadas com documentos citados pelo Intercept Brasil. Segundo a reportagem, um contrato assinado digitalmente pelo ex-deputado indicaria sua atuação como produtor-executivo de “Dark Horse”.

O documento, datado de novembro de 2023 e assinado por Eduardo em janeiro de 2024, aponta a GoUp Entertainment, sediada nos Estados Unidos, como produtora do longa. O texto também cita Eduardo Bolsonaro e o deputado federal Mario Frias (PL-SP) como responsáveis pela produção-executiva do projeto.

De acordo com o Intercept, os registros colocariam Eduardo em posição estratégica nas decisões do filme, inclusive em questões financeiras. A defesa de Mario Frias afirmou ao veículo que Eduardo nunca foi produtor-executivo do longa e que não recebeu valores do fundo ligado ao projeto.

Eduardo Bolsonaro disse ter investido inicialmente R$ 350 mil do próprio patrimônio no começo da produção. Segundo ele, o valor foi reembolsado posteriormente após a entrada de investidores. O ex-deputado afirmou ainda que, naquele momento, ocupava função de diretor executivo, mas deixou o posto quando o projeto passou a operar por meio de uma estrutura de fundo de investimento.

Para os investigadores, a distinção entre autorização de imagem, função executiva e eventual participação na gestão financeira do projeto é central. A PF busca identificar quem controlava as decisões do filme, quem autorizou pagamentos, qual foi a origem dos recursos e se a finalidade declarada foi efetivamente cumprida.

Havengate entra no centro da apuração

O Havengate Development Fund LP passou a ser o principal elo financeiro da nova frente investigativa. Registrado no Texas, o fundo aparece vinculado à estrutura montada para financiar o filme “Dark Horse”.

Segundo documentos obtidos pelo Intercept, parte dos recursos pagos por Daniel Vorcaro a Flávio Bolsonaro teria sido remetida ao Havengate por meio da Entre Investimentos e Participações. A empresa é comandada por Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, investigado na segunda fase da Operação Compliance Zero.

A operação apura suspeitas de fraude financeira e lavagem de dinheiro relacionadas ao Banco Master e a Daniel Vorcaro. Após a deflagração das investigações, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial da Entrepay Instituição de Pagamento, da Acqio Adquirência e da Octa Sociedade de Crédito Direto, empresas ligadas ao conglomerado Entrepay, controlado pela Entre Investimentos.

A PF também investiga se Vorcaro atuaria como “dono oculto” da Entre. A hipótese é negada pela empresa, que afirma não possuir relação societária ou de governança com o ex-banqueiro.

Conforme a reportagem do Intercept, a remessa dos recursos para os Estados Unidos teria ocorrido pela Entre Investimentos depois de dificuldades operacionais no Banco Master para concluir a transferência internacional. Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro apontado pela PF como operador financeiro do ex-banqueiro, teria relatado negativas do setor de câmbio do banco para efetivar a operação.

Depois disso, Vorcaro teria orientado que o pagamento fosse realizado “via Entre”, em referência à empresa. Essa informação é uma das linhas de apuração usadas para reconstruir a rota do dinheiro.

Advogado ligado a Eduardo aparece em registros no Texas

Registros do controlador de contas públicas do Texas indicam que o Havengate Development Fund LP tem como agente legal o escritório Law Offices of Paulo Calixto PLLC, pertencente ao advogado Paulo Calixto.

Os documentos mostram ainda que o fundo pertence à Havengate Development Fund GP LLC, registrada no mesmo endereço comercial do escritório de Calixto, em Dallas. Essa empresa tem como sócios Paulo Calixto e o corretor de imóveis Altieris Santana.

Calixto é advogado especializado em imigração, com foco em vistos EB-5, concedidos a estrangeiros que realizam investimentos nos Estados Unidos. Ele é formado pela Universidade Mackenzie, tem mestrado pela SMU Dedman School of Law e vive há mais de duas décadas nos Estados Unidos.

Reportagem da revista Piauí publicada em setembro de 2025 afirmou que Calixto auxiliou Eduardo Bolsonaro no processo de obtenção de visto e cedia o escritório para reuniões políticas do ex-deputado.

Flávio Bolsonaro disse considerar natural que o advogado responsável pelo processo migratório do irmão também seja gestor do fundo ligado ao filme. Eduardo, por sua vez, afirmou que Calixto tem experiência em administração patrimonial e fundos de investimento.

Paulo Calixto e Altieris Santana foram procurados pela BBC News Brasil, mas não responderam, segundo a reportagem citada.

Fundo offshore dificulta identificação de beneficiários

Fundos offshore são estruturas de investimento registradas fora do país de origem do investidor. Esses veículos podem ser usados para planejamento patrimonial, investimentos internacionais e organização de ativos, mas também podem dificultar o rastreamento de recursos quando não há transparência sobre beneficiários finais.

O tema ganhou repercussão global após vazamentos como os Panamá Papers, em 2016, e os Pandora Papers, em 2021. Esses casos revelaram o uso de empresas e fundos offshore em diferentes países para ocultação patrimonial, planejamento tributário agressivo e movimentações financeiras de difícil identificação.

Especialistas em fiscalização tributária apontam que algumas estruturas offshore aparecem publicamente apenas em nome de administradores, agentes legais ou escritórios de advocacia, sem exposição imediata dos donos econômicos dos recursos. Também é comum a criação de estruturas em cascata, nas quais uma empresa controla um fundo, que controla outro veículo financeiro.

No caso investigado pela PF, a pergunta central é quem controlava economicamente o Havengate, quem decidiu a aplicação dos recursos, quem eram os beneficiários finais e se o dinheiro saiu do Brasil de forma regular.

A apuração também pode envolver análise tributária. Investigadores poderão verificar se houve recolhimento de impostos, compatibilidade entre contratos e remessas, além da origem dos valores usados na operação.

Cooperação com autoridades dos EUA pode ser necessária

Como o fundo está registrado nos Estados Unidos, o avanço da investigação pode depender de cooperação internacional. A PF poderá precisar de informações de autoridades americanas para identificar beneficiários, movimentações financeiras, documentos societários e registros bancários.

O Brasil participa de mecanismos internacionais de troca de informações tributárias, mas os Estados Unidos não aderiram ao padrão CRS, criado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Na prática, isso dificulta o acesso automático a dados de estrangeiros que mantêm investimentos ou estruturas financeiras em território americano.

A lei americana Fatca obriga instituições estrangeiras a informar autoridades dos Estados Unidos sobre contas de cidadãos americanos no exterior. O fluxo automático inverso, porém, não ocorre da mesma forma para investidores estrangeiros com recursos nos EUA.

Por isso, investigações envolvendo fundos registrados no país podem exigir pedidos formais de cooperação com órgãos como o FBI e autoridades financeiras americanas. Esse processo costuma ser mais lento e depende de documentação robusta por parte dos investigadores brasileiros.

Para a PF, a cooperação internacional pode ser decisiva para confirmar se o Havengate foi usado apenas como estrutura de financiamento do filme ou se teve outra finalidade.

Caso amplia pressão sobre Flávio Bolsonaro e Banco Master

A nova frente de apuração envolvendo o Havengate aumenta a pressão sobre Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Daniel Vorcaro. O caso combina elementos políticos, financeiros e jurídicos em um momento de forte sensibilidade institucional.

Para Flávio, a investigação surge em meio à discussão sobre sua eventual candidatura presidencial. O senador nega irregularidades e afirma que todos os recursos foram destinados ao filme “Dark Horse”.

Para Eduardo, a apuração se soma ao pedido de condenação apresentado pela PGR e às suspeitas sobre sua atuação política nos Estados Unidos. O ex-deputado também nega ter recebido recursos de Vorcaro.

Para Daniel Vorcaro, o episódio acrescenta mais uma linha de investigação ao conjunto de apurações relacionadas ao Banco Master, à Operação Compliance Zero e a empresas associadas ao seu entorno financeiro.

O avanço do caso dependerá da capacidade da PF de rastrear a origem e o destino dos recursos, identificar beneficiários finais, examinar contratos e reconstruir o papel de cada pessoa ou empresa na operação. Até agora, as suspeitas seguem em apuração, e os citados negam irregularidades.

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