O diretor de “Dark Horse”, Cyrus Nowrasteh, afirmou que os US$ 24 milhões associados ao filme sobre Jair Bolsonaro não representam exclusivamente o custo de produção do longa e incluem despesas projetadas de marketing e publicidade. A manifestação, feita em 10 de setembro, altera um ponto relevante na discussão sobre o orçamento da obra, mas não resolve a principal questão examinada pelas investigações: quanto dinheiro efetivamente entrou no projeto, como os recursos foram distribuídos entre Brasil e Estados Unidos e quais despesas foram pagas com os valores transferidos para o fundo norte-americano Havengate Development Fund.
Nowrasteh reagiu às comparações entre os US$ 24 milhões e os orçamentos de outros filmes. Segundo o diretor, os números divulgados como custo da produção estão “ridiculamente inflados” porque somariam produção e marketing. Ele acrescentou que, nos Estados Unidos, esses dois grupos de despesas costumam ser tratados separadamente e afirmou que o gasto estritamente relacionado à realização do longa foi inferior ao de grande parte dos filmes usados nas comparações públicas. O cineasta, porém, não informou qual foi o custo efetivo da produção nem detalhou quanto dos US$ 24 milhões havia sido reservado para publicidade e distribuição.
A distinção é importante porque os US$ 24 milhões aparecem nos documentos da investigação como valor previsto para o investimento no projeto, e não como prova de que toda essa quantia chegou à produtora ou foi efetivamente gasta. Documentos analisados pela Polícia Federal indicam que o financiamento seria estruturado em parcelas e que ao menos US$ 12,3 milhões foram transferidos em 2025 ao Havengate, fundo sediado nos Estados Unidos associado ao financiamento de “Dark Horse”. Isso corresponde a pouco mais de 51% dos US$ 24 milhões previstos inicialmente. Portanto, a diferença entre os dois valores não pode ser tratada automaticamente como dinheiro desaparecido: parte do investimento projetado pode simplesmente não ter sido realizada.
Três números diferentes cercam o financiamento do filme
A apuração disponível até agora trabalha com pelo menos três cifras que precisam ser separadas. A primeira é o investimento projetado de US$ 24 milhões. A segunda corresponde aos pelo menos US$ 12,3 milhões atribuídos a transferências feitas a pedido do ex-controlador do Banco Master Daniel Vorcaro para o Havengate. A terceira vem de uma perícia particular contratada pela defesa da produtora Go Up Entertainment, segundo a qual o custo total do projeto teria alcançado aproximadamente US$ 13,4 milhões, equivalentes a R$ 75,2 milhões nos valores apresentados no documento.
Pelos números da perícia particular, US$ 9,6 milhões, ou aproximadamente R$ 54,2 milhões, teriam sido gastos nos Estados Unidos. Outros US$ 3,7 milhões, equivalentes a cerca de R$ 20,9 milhões, corresponderiam às despesas da produção no Brasil. Isso significa que aproximadamente 72% do custo declarado pela própria produtora está associado a operações realizadas no exterior, justamente a parte para a qual a investigação brasileira ainda enfrenta maiores dificuldades para obter documentação bancária, fiscal e contratual completa.
O laudo particular também indicou que o Havengate havia aportado aproximadamente US$ 13,39 milhões no projeto. Esse valor é cerca de US$ 1,1 milhão superior aos US$ 12,3 milhões até agora associados às transferências feitas a pedido de Vorcaro. A diferença, por si só, não demonstra irregularidade: os dois números podem corresponder a universos distintos de investidores ou períodos diferentes. Ela mostra, porém, que a reconstrução financeira ainda depende da identificação de todos os recursos que abasteceram o fundo e de sua posterior destinação.
Há outra diferença relevante. Se o custo declarado de “Dark Horse” foi de aproximadamente US$ 13,4 milhões e o planejamento previa captar US$ 24 milhões, cerca de US$ 10,6 milhões do orçamento projetado não aparecem como gasto realizado na perícia particular. A explicação de Nowrasteh oferece uma hipótese contábil para essa distância ao afirmar que parte do planejamento incluía marketing e publicidade, mas não informa qual era a parcela prevista para essas atividades nem se chegou a ser captada.
Documentos dos Estados Unidos tornam-se peça central da apuração
A maior lacuna está nos Estados Unidos. Michael Brian Davis, identificado como sócio da Go Up Entertainment LLC, recusou-se a autorizar a entrega voluntária à Polícia Federal de documentos societários, contábeis, fiscais, bancários e contratuais da empresa americana. Segundo a posição encaminhada à produtora brasileira, esse material deverá ser requisitado pelas autoridades brasileiras por meio dos instrumentos legais de cooperação internacional e dependerá de ordem emitida pela Justiça dos Estados Unidos.
A recusa não significa, por si só, ocultação ou prática criminosa. Ela cria, entretanto, uma barreira objetiva para verificar a maior parcela do custo declarado pela própria produtora. Enquanto os R$ 20,9 milhões atribuídos às operações brasileiras foram acompanhados de milhares de páginas de documentos apresentados pela defesa, a comprovação detalhada dos R$ 54,2 milhões atribuídos aos Estados Unidos permanece no centro da controvérsia.
A manifestação de Nowrasteh também não esclarece essa parte. Ao sustentar que o custo de produção foi menor do que os US$ 24 milhões, o diretor reforça que o valor originalmente associado ao projeto não deve ser comparado diretamente com orçamentos estritamente cinematográficos. Mas a investigação precisa responder a uma questão diferente: qual foi o custo real de cada etapa e quais pagamentos correspondem efetivamente a produção, pré-produção, pós-produção, distribuição e marketing.
Essa distinção também impede que a cifra de US$ 24 milhões seja apresentada como valor comprovadamente gasto. Até o momento, o conjunto de documentos conhecidos aponta para uma previsão de financiamento maior que os aportes comprovados. O foco da investigação, portanto, não é encontrar necessariamente US$ 24 milhões desaparecidos, mas reconciliar os contratos, aportes, transferências e despesas efetivamente realizados.
Vorcaro continuou sendo cobrado durante as filmagens
A cronologia das mensagens acrescenta outra camada à investigação. Em 8 de setembro de 2025, Flávio Bolsonaro cobrou Vorcaro sobre pagamentos relacionados ao projeto e mencionou compromissos com Jim Caviezel, que interpreta Jair Bolsonaro, e com Cyrus Nowrasteh. Em 16 de setembro, ocorreu uma transferência de US$ 1.666.667 ao Havengate, pagamento que elevou para cerca de US$ 12,3 milhões o volume conhecido de recursos enviados ao fundo a pedido de Vorcaro.
As cobranças, contudo, não terminaram aí. Em 22 de outubro, já com as filmagens iniciadas em São Paulo, Flávio informou ao ex-banqueiro que o longa estava no terceiro dia de gravação e que a produção se encontrava “no limite”. Segundo as mensagens reunidas pela PF, o senador afirmou que precisaria buscar outro caminho caso Vorcaro não conseguisse liberar novos recursos. No mesmo dia, Vorcaro indicou a interlocutores que continuaria priorizando o financiamento.
Esse episódio ajuda a explicar por que não é possível concluir, apenas comparando os US$ 24 milhões previstos com os valores conhecidos, que todo o orçamento estivesse disponível para os produtores. As mensagens mostram que ainda havia cobrança por novos aportes durante as filmagens, realizadas entre 20 de outubro e 7 de dezembro de 2025.
A PF também identificou movimentações de aproximadamente R$ 19 milhões nas contas da Go Up entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025, período que coincide parcialmente com as gravações. Entre as despesas apontadas estão cerca de R$ 906,8 mil pagos a um hotel e R$ 653,2 mil a uma empresa de alimentação, além de pagamentos a empresas ligadas à atividade audiovisual. Essas movimentações integram uma frente distinta, mas conectada, da investigação sobre o financiamento do filme.
Suspeita sobre R$ 750 mil é separada dos aportes de Vorcaro
Outro ponto que exige separação é a investigação sobre recursos públicos. A Operação Make Up, deflagrada pela Polícia Federal em 10 de setembro com apoio da Controladoria-Geral da União e autorização do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, investiga suspeitas de desvio de recursos de emendas parlamentares. Foram cumpridos 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. A PF apura crimes como peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e delitos relacionados a contratações públicas.
Um dos pontos examinados é um repasse de R$ 750 mil à Go Up feito pela NTT Brasil. A PF identificou uma sequência anterior na qual R$ 700 mil de recursos vinculados a emendas destinadas ao Instituto Conhecer Brasil foram pagos a duas empresas de um mesmo núcleo empresarial. Pouco depois, a NTT, ligada a esse grupo, transferiu R$ 750 mil para a produtora. Os investigadores consideram a proximidade dos valores e das datas um indício a ser esclarecido, mas os elementos divulgados até agora não permitem afirmar de forma definitiva que os mesmos recursos públicos terminaram no filme.
A perícia particular contratada pela produtora sustenta posição oposta e afirma não ter identificado entrada de recursos públicos no financiamento de “Dark Horse”. Mário Frias e Karina Ferreira da Gama negam irregularidades. Frias classificou a operação como motivada politicamente e disse que apresentará documentação para demonstrar a legalidade das operações. A defesa de Karina afirma que ela vem colaborando com as autoridades e entregando documentos.
O quadro disponível, portanto, é mais complexo do que a comparação entre um orçamento de US$ 24 milhões e o custo de filmagem. A declaração de Cyrus Nowrasteh esclarece que produção e marketing estavam agrupados no planejamento financeiro, mas deixa sem resposta qual era o valor destinado a cada rubrica. A perícia particular aponta custo de cerca de US$ 13,4 milhões; documentos da investigação registram ao menos US$ 12,3 milhões transferidos a pedido de Vorcaro; e a maior parte dos gastos declarados teria ocorrido nos Estados Unidos, onde a documentação completa ainda não foi entregue voluntariamente à PF.
É essa reconciliação entre dinheiro previsto, dinheiro captado, dinheiro transferido ao Havengate e despesas efetivamente comprovadas que deverá determinar se as diferenças são apenas consequência da estrutura financeira de uma produção internacional ou se escondem movimentações incompatíveis com a finalidade declarada. Até que essa verificação seja concluída, não há base para afirmar que o saldo entre os US$ 24 milhões planejados e o custo declarado tenha sido roubado ou desviado.
Fontes:
Polícia Federal – comunicado da Operação Make Up e informações oficiais sobre a investigação de possível desvio de recursos provenientes de emendas parlamentares
Supremo Tribunal Federal – informações sobre a autorização das buscas e apreensões e a investigação relacionada ao financiamento de Dark Horse
Controladoria-Geral da União – informações sobre a atuação conjunta com a Polícia Federal na apuração de recursos provenientes de emendas parlamentares
Cyrus Nowrasteh – manifestação pública de 10 de setembro de 2026 sobre a composição do orçamento de Dark Horse entre custos de produção e despesas projetadas de marketing






