Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro mostram que o ex-controlador do Banco Master manteve uma relação frequente com Rodrigo Fux, advogado e filho do ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), entre maio de 2024 e pelo menos agosto de 2025. Os diálogos misturam encontros pessoais, convites para festas e Carnaval, tentativas de aproximação profissional e pedidos relacionados a assuntos jurídicos. Em dezembro de 2024, ao remarcar um compromisso para receber Vorcaro em seu escritório, Rodrigo escreveu que haveria “tapete vermelho” para o empresário. O material ganhou peso institucional porque foi divulgado no mesmo dia em que o Plenário do Supremo passou a analisar os desdobramentos das mensagens encontradas no aparelho de Vorcaro envolvendo Alexandre de Moraes.
A existência das conversas não demonstra que Luiz Fux tenha favorecido o Banco Master, tampouco que Rodrigo tenha recebido dinheiro do banco ou de Vorcaro. O Fux Advogados afirma que jamais celebrou contrato com o empresário ou com empresas do grupo Master, nunca recebeu recursos dessas partes e não atuou em processos que estivessem no Supremo ou prestes a chegar à Corte. O escritório reconhece que houve uma tentativa de aproximação comercial, mas afirma que ela não se transformou em relação profissional. Os registros conhecidos até agora também não apresentam comprovante de pagamento de Vorcaro a Rodrigo.
O conteúdo, no entanto, mostra que a aproximação foi mais extensa do que um encontro isolado. Durante mais de um ano, Rodrigo e Vorcaro procuraram compatibilizar agendas no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, trocaram convites sociais e discutiram assuntos profissionais. Em determinado momento, o ex-banqueiro pediu ajuda do advogado em um caso e enviou material para análise. Em outra conversa, Rodrigo orientou que informações relacionadas a um compromisso fossem encaminhadas à secretária de Luiz Fux no STF. A natureza exata de todos esses assuntos não aparece integralmente nos trechos divulgados.
Contatos começaram em maio de 2024 e avançaram para assuntos profissionais
As primeiras mensagens conhecidas são de maio de 2024 e mostram uma relação informal. Rodrigo Fux e Vorcaro utilizavam expressões como “irmão”, “meu amigo” e “meu caro”. Inicialmente, boa parte das conversas tratava de encontros e compromissos sociais. Quando um deles não conseguia comparecer, os dois buscavam outra oportunidade para se encontrar em São Paulo, Rio de Janeiro ou Brasília.
A relação avançou para assuntos profissionais ao longo daquele ano. Em novembro de 2024, Vorcaro disse a Rodrigo que precisava de ajuda em um caso. O advogado respondeu que poderia avaliar o assunto e uma videoconferência foi combinada. O empresário posteriormente enviou um documento identificado nas mensagens como “SLAT TABU”, e Rodrigo informou que faria a leitura e poderia examinar o conteúdo com mais atenção durante o fim de semana.
Os registros divulgados não identificam de maneira suficiente qual processo, operação ou controvérsia estava por trás desse material. Também não demonstram que Rodrigo tenha sido formalmente contratado para atuar no caso. Essa diferença é importante porque uma conversa preliminar entre advogado e potencial cliente não equivale à celebração de contrato nem comprova prestação remunerada de serviços.
O próprio escritório sustenta que as tratativas profissionais não avançaram. Segundo o Fux Advogados, houve aproximação comercial com Vorcaro e seus sócios mais de um ano antes de as suspeitas de fraude no Banco Master adquirirem dimensão pública, mas nenhuma contratação foi concluída. A banca afirma ainda que nunca advogou para o banco, suas controladas, subsidiárias, fundos relacionados ou para o próprio Vorcaro.
“Tapete vermelho” foi escrito ao remarcar encontro no escritório
Em dezembro de 2024, Rodrigo procurou Vorcaro para marcar um café em seu escritório no Rio de Janeiro. Como o horário inicialmente sugerido não atendia ao empresário, o advogado informou que alteraria outro compromisso para recebê-lo. Depois de confirmar a nova agenda para as 14h, escreveu a expressão “tapete vermelho irmão”.
A frase, isoladamente, não demonstra favorecimento jurídico. O contexto conhecido indica uma maneira informal de informar que havia reorganizado a agenda para receber Vorcaro. Ainda assim, combinada à sequência de encontros e mensagens, ela reforça a existência de uma relação de proximidade entre os dois.
Em fevereiro de 2025, as conversas mostram nova tentativa de encontro, desta vez em Brasília. Rodrigo informou estar no Superior Tribunal de Justiça e disse que avisaria quando pudesse sair. Houve contato telefônico e combinação de horário para uma reunião no fim da tarde.
O conjunto revela que a comunicação não dependia de intermediários e ocorria diretamente entre Rodrigo e o ex-banqueiro. Essa característica diferencia o caso de outras relações identificadas no celular de Vorcaro, nas quais contatos com ministros ou familiares eram organizados por advogados, políticos ou assessores.
Carnaval expôs dimensão social da relação
A proximidade ficou mais evidente durante o Carnaval do Rio de Janeiro de 2025. Vorcaro convidou Rodrigo para uma área reservada do camarote Café de La Musique na Marquês de Sapucaí e estendeu o convite à mulher, aos filhos, à sogra e a amigos do advogado. Rodrigo enviou dados para a emissão das credenciais e posteriormente procurou o empresário para resolver questões relacionadas à entrega dos convites e kits.
As mensagens indicam que os dois continuaram se comunicando durante os desfiles. Rodrigo perguntou se Vorcaro estava no camarote e voltou a procurar o empresário durante o período das escolas de samba. Dias depois, os contatos continuaram em tom pessoal.
A troca não ocorreu apenas em uma direção. Rodrigo convidou Vorcaro para sua festa de aniversário no Rio de Janeiro, prevista para maio de 2025, e posteriormente confirmou que o empresário havia recebido as informações da comemoração. Os registros mostram, portanto, uma relação social recíproca, e não simplesmente uma tentativa unilateral de aproximação de Vorcaro.
Não há, nos diálogos conhecidos, informação suficiente sobre o valor dos convites de Carnaval efetivamente utilizados por Rodrigo e seus acompanhantes nem indicação de que tenham sido vinculados a algum serviço jurídico ou contraprestação. A existência das cortesias pode ter relevância para compreender a proximidade entre os dois, mas não permite, por si só, concluir pela existência de irregularidade.
Conversas chegaram à estrutura do gabinete de Luiz Fux
Um dos pontos mais sensíveis aparece quando as mensagens avançam para assuntos envolvendo Luiz Fux. Registros divulgados nesta terça-feira indicam que Rodrigo orientou Vorcaro a enviar informações para a secretária do ministro no Supremo em uma tratativa relacionada a um compromisso. Outros diálogos mencionam possíveis agendas e participação do magistrado em eventos.
O Fux Advogados afirma que, sempre que alguma pessoa procura acesso a Luiz Fux por intermédio do escritório ou de seus integrantes, a orientação é utilizar os canais oficiais do Supremo. Segundo a banca, o encaminhamento para a secretaria do ministro seguia justamente essa prática e não representava intermediação de assunto judicial.
Até agora, não foi apresentado elemento demonstrando que Luiz Fux tenha recebido de Vorcaro pedido referente a processo do Banco Master por intermédio do filho ou que tenha praticado decisão em favor do empresário em consequência dessas conversas. Também não há prova de contratação do escritório para processos em tramitação ou com perspectiva de chegar ao STF.
A distinção tornou-se especialmente relevante com a sessão desta terça-feira. O material do celular de Vorcaro passou a expor relações com o entorno de diferentes ministros justamente no momento em que a Corte precisa decidir como tratar registros referentes a Alexandre de Moraes.
Relação continuou até pelo menos agosto de 2025
Os contatos não terminaram depois do Carnaval. Em maio de 2025, Rodrigo procurou Vorcaro para marcar um café que descreveu como uma conversa de “contextualização”. Em junho, parabenizou o empresário por uma aprovação e perguntou se ele estaria em Lisboa. O significado específico da aprovação não está suficientemente identificado nos registros divulgados.
Em 30 de agosto de 2025, Rodrigo voltou a entrar em contato e perguntou se, diante de uma “movimentação”, Vorcaro ainda mantinha interesse em assunto que vinha sendo tratado anteriormente. A mensagem mostra que alguma discussão entre os dois permanecia aberta mais de um ano depois das primeiras conversas conhecidas.
Essa duração ajuda a diferenciar uma tentativa pontual de prospecção comercial de uma relação mantida ao longo do tempo. Ao mesmo tempo, o conteúdo disponível continua sem demonstrar que a aproximação tenha produzido contrato ou pagamento. É possível comprovar a existência de conversas, reuniões e tratativas; não é possível afirmar, com os elementos divulgados, que Rodrigo tenha sido remunerado por Vorcaro.
A defesa do advogado é categórica nesse ponto. O escritório afirma nunca ter recebido qualquer valor de Vorcaro ou do Banco Master e sustenta que nenhum serviço profissional foi contratado. Também nega ter atuado em processos relacionados ao empresário que tramitassem no Supremo.
Revelações chegam ao STF no meio de julgamento sobre Moraes
A divulgação ocorre em um momento particularmente delicado para Luiz Fux. O STF iniciou nesta terça-feira a sessão extraordinária relacionada à Petição 16.662, procedimento que reúne elementos produzidos a partir do material apreendido de Vorcaro e a controvérsia sobre possíveis comunicações com Alexandre de Moraes.
A sessão da manhã foi suspensa e deverá ser retomada às 14h. Durante a primeira parte do julgamento, Kassio Nunes Marques declarou-se impedido depois que informações extraídas do mesmo celular atingiram seu entorno familiar. Dias Toffoli também se declarou suspeito. Até a suspensão da sessão, Luiz Fux não havia anunciado impedimento por causa das mensagens envolvendo Rodrigo.
O contexto aumenta a importância institucional dos registros sem alterar sua natureza probatória. O fato de Vorcaro ter mantido proximidade com filhos, advogados ou aliados de integrantes do Supremo não demonstra automaticamente que os magistrados tenham participado de irregularidades. Cada situação precisa ser examinada separadamente, com identificação de pagamentos, processos, decisões e eventuais contrapartidas.
No caso de Rodrigo Fux, as evidências divulgadas até agora permitem estabelecer uma relação frequente, encontros, convites sociais e tentativas de aproximação profissional com Vorcaro entre 2024 e 2025. Não comprovam, porém, pagamento ao advogado, contratação de seu escritório ou favorecimento judicial por Luiz Fux. A diferença entre esses dois níveis de informação será determinante para avaliar se o material permanecerá apenas como registro da rede de relações do ex-banqueiro ou dará origem a novas diligências no caso Master.
Fontes:
Supremo Tribunal Federal – andamento da Petição 16.662 e informações oficiais sobre a sessão extraordinária do Plenário de 15 de setembro de 2026
Polícia Federal – mensagens e dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro incorporados às investigações relacionadas ao Banco Master
Fux Advogados – posicionamento sobre inexistência de contrato, prestação de serviços ou recebimento de valores de Daniel Vorcaro e do Banco Master







