O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, deixou a sociedade do Instituto Iter depois de vir a público que recebeu Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, na sede da instituição em março de 2025. O encontro aconteceu antes de Mendonça passar a conduzir procedimentos relacionados às investigações sobre o banco e acrescentou um novo elemento à crise que atingiu o STF com a divulgação das relações mantidas por Vorcaro com autoridades e pessoas próximas a integrantes da Corte.
Mendonça confirmou que recebeu Vorcaro em 14 de março de 2025. Segundo a versão apresentada pelo ministro, a conversa não tratou da situação financeira do Banco Master nem das dificuldades enfrentadas pela instituição perante o Banco Central. O assunto teria sido um processo envolvendo créditos de precatórios, e Mendonça sustenta que a decisão posteriormente tomada no caso não beneficiou os interesses apresentados pelo empresário.
A controvérsia surgiu porque, meses depois, o ministro passou a atuar em processos derivados das investigações sobre o Master sem que a reunião anterior com Vorcaro fosse de conhecimento público. O episódio passou a suscitar questionamentos sobre transparência e sobre a conveniência de o contato ter sido informado quando Mendonça recebeu procedimentos envolvendo o ex-banqueiro.
A situação ganhou peso adicional porque foi sob sua relatoria que documentos da Polícia Federal contendo mensagens e referências ao ministro Alexandre de Moraes foram divulgados. Enquanto a Corte discutia as relações de outros magistrados com personagens do caso Master, a confirmação de que o próprio relator havia recebido Vorcaro ampliou a pressão sobre a condução das investigações.
Reunião aconteceu na sede do Instituto Iter
O encontro entre Mendonça e Vorcaro ocorreu na sede do Instituto Iter, em São Paulo. A reunião foi articulada pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira, do PL de São Paulo.
Mendonça afirmou posteriormente que a conversa durou entre 20 e 30 minutos e que ouviu argumentos de Vorcaro relacionados a uma discussão sobre precatórios. De acordo com o ministro, não houve conversa sobre a situação do Banco Master nem pedido de ajuda relacionado à instituição financeira.
Mensagens e áudios recuperados do telefone de Vorcaro, entretanto, mostraram que pessoas envolvidas na organização do encontro tinham conhecimento dos problemas enfrentados pelo banco. Em uma comunicação anterior à reunião, Ciro Rocha Soares teria informado ao empresário que Mendonça conhecia aspectos da situação do Master perante o Banco Central.
A mensagem não demonstra que o assunto tenha sido tratado durante a reunião, mas mostra que a situação do banco fazia parte do contexto conhecido por integrantes do grupo que trabalhou para aproximar Vorcaro do ministro.
A cronologia é um dos pontos mais sensíveis do episódio. Quando recebeu o empresário, Mendonça ainda não comandava as investigações relacionadas ao Banco Master. Posteriormente, já em 2026, passou a atuar como relator de procedimentos envolvendo Vorcaro e o conglomerado financeiro. A partir daí, passou a ser discutido se o encontro anterior deveria ter sido comunicado formalmente ao assumir esses processos.
Mendonça deixa sociedade do Iter após revelação do encontro
A reunião com Vorcaro tornou-se pública no início de setembro. Logo depois, Mendonça anunciou que deixaria a sociedade do Instituto Iter e cederia tanto sua participação quanto as cotas pertencentes à mulher, Janei Mendonça.
O ministro não estabeleceu oficialmente uma relação de causa e efeito entre a revelação do encontro e a saída da instituição. Segundo sua versão, a decisão foi tomada após conversa com Victor Godoy, presidente do Iter, e não envolveria recebimento de contrapartida financeira.
Mendonça também afirmou que nunca recebeu distribuição de lucros da instituição e que continuaria participando de atividades do instituto como professor e palestrante.
O Instituto Iter foi criado em novembro de 2023, quando Mendonça já ocupava uma cadeira no Supremo. A instituição oferece cursos jurídicos e programas de capacitação voltados, entre outros públicos, a integrantes da administração pública.
Levantamentos divulgados sobre o instituto identificaram dezenas de contratos com órgãos públicos ao longo dos últimos anos e também revelaram dados de faturamento, ampliando o interesse sobre a estrutura empresarial da qual Mendonça fazia parte. Esses contratos não têm relação demonstrada com Vorcaro; o ponto de contato entre os dois episódios é o fato de a reunião ter ocorrido justamente na sede da instituição fundada pelo ministro.
Caso Master passou a atingir diferentes ministros do Supremo
A controvérsia envolvendo Mendonça ocorre depois de as investigações sobre Daniel Vorcaro já terem alcançado outros ministros do STF. O material extraído do telefone do ex-controlador do Master revelou uma ampla rede de contatos com autoridades, empresários, advogados e pessoas próximas a diferentes núcleos de poder.
Alexandre de Moraes passou a ser citado no caso depois que a Polícia Federal encontrou mensagens de Vorcaro e documentos relacionados ao escritório de advocacia comandado por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. Os documentos analisados pelos investigadores incluem contratos de prestação de serviços entre empresas relacionadas ao Master e o escritório, além de mensagens nas quais Vorcaro tratava de pagamentos e demonstrava preocupação com compromissos financeiros ligados à banca.
Outra frente do caso envolveu o ministro Dias Toffoli. Relatórios policiais passaram a analisar operações financeiras associadas a um empreendimento relacionado a integrantes de sua família. Toffoli negou qualquer relação irregular com Vorcaro ou participação nas operações investigadas.
As situações envolvendo os ministros são distintas e precisam ser examinadas separadamente. A presença de nomes em mensagens, contratos ou contatos mantidos pelo banqueiro, por si só, não define responsabilidade sobre os fatos investigados.
Divulgação de informações sobre Moraes ampliou tensão dentro do STF
O caso de Mendonça ganhou dimensão adicional porque coube a ele retirar o sigilo de parte do material policial que continha referências a Alexandre de Moraes.
A decisão provocou questionamentos dentro da própria Corte sobre a quantidade de informações divulgadas, os documentos que continuavam protegidos e a necessidade de os ministros terem acesso ao conjunto completo dos dados recuperados do telefone de Vorcaro.
Cristiano Zanin e outros integrantes do Supremo passaram a defender acesso aos dados brutos da investigação, sob o argumento de que decisões sobre o caso não deveriam ser tomadas apenas a partir de trechos selecionados de conversas ou relatórios produzidos pela Polícia Federal.
O presidente do STF, Edson Fachin, passou então a acompanhar diretamente procedimentos relacionados ao caso Master. A intervenção ocorreu em meio ao aumento das divergências internas sobre competência, sigilo e tratamento das investigações que passaram a atingir integrantes da própria Corte.
A discussão se concentra principalmente nas frentes em que os fatos investigados passaram a alcançar ministros do Supremo, criando questões adicionais sobre a condução dos procedimentos e sobre a necessidade de preservar a independência das apurações.
Encontro cria questão sobre transparência e condução do caso
O ponto central do episódio não é apenas a existência de uma reunião entre um ministro do Supremo e um empresário. Magistrados de tribunais superiores recebem advogados, empresários e representantes de partes para tratar de processos, prática que faz parte da rotina institucional.
A questão levantada pela revelação é se, diante do contato anterior com Vorcaro, Mendonça deveria ter informado a reunião quando posteriormente passou a conduzir procedimentos ligados ao empresário e ao Banco Master.
Essa avaliação depende do conteúdo efetivamente discutido, da relação entre os participantes e da eventual conexão entre o tema apresentado em março de 2025 e os processos que mais tarde chegaram à relatoria do ministro. Mendonça afirma que os assuntos eram distintos e sustenta que a reunião tratou exclusivamente da questão dos precatórios.
A controvérsia, portanto, está concentrada menos no encontro em si e mais na forma como ele se relaciona com a transparência exigida de um magistrado que posteriormente assumiu investigações envolvendo um dos participantes daquela reunião.
Vorcaro transforma crise bancária em problema institucional para o STF
O alcance das investigações mostra que o caso deixou de ser apenas uma apuração sobre os problemas financeiros de um banco. O conteúdo apreendido pela Polícia Federal passou a expor a capacidade de circulação de Vorcaro entre diferentes centros de poder político, jurídico e empresarial.
O banqueiro manteve contato com parlamentares, integrantes do Judiciário, empresários, advogados e servidores de instituições responsáveis por supervisionar o sistema financeiro. À medida que esses vínculos se tornaram conhecidos, o Supremo passou a enfrentar o desafio de investigar um caso que alcança pessoas situadas dentro da própria instituição responsável por decidir sobre parte das apurações.
No caso de Mendonça, a situação se tornou especialmente delicada porque ele estava à frente de investigações que revelavam relações de Vorcaro com outros integrantes da Corte quando veio a público que também havia se encontrado pessoalmente com o empresário.
A partir desse momento, a discussão deixou de se limitar ao conteúdo das mensagens encontradas no celular do ex-banqueiro. Passou a envolver também os critérios de transparência, impedimento, suspeição e distribuição dos procedimentos no STF.
A saída de Mendonça do Instituto Iter não encerra essas questões, e o próprio ministro não vinculou formalmente a decisão à controvérsia. O fato novo, porém, adiciona mais um capítulo à crise: o magistrado responsável por parte das apurações do Master havia recebido Vorcaro anteriormente na sede de uma instituição privada da qual era sócio.
O desafio para o Supremo será estabelecer com clareza quais relações pertencem à rotina institucional de um magistrado e quais situações exigem providências adicionais para preservar a confiança pública e a independência das investigações.
Fontes:
Agência Brasil – manifestação de André Mendonça sobre o encontro com Daniel Vorcaro e informações sobre a saída do Instituto Iter
Supremo Tribunal Federal – decisões e atos relacionados à condução das investigações do Banco Master e às atribuições da Presidência da Corte
Polícia Federal – relatórios e informações produzidas nas investigações envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master








