A disputa por mercados agrícolas passou a incorporar de forma mais direta questões de segurança nacional, política comercial e geopolítica, elevando a importância da atuação brasileira no exterior. O tema ganhou destaque nesta quinta-feira (1º), durante o Global Agribusiness Festival (GAFFFF), em São Paulo, em um painel dedicado às estratégias de crescimento e consolidação do agronegócio no mercado global. A discussão ocorreu em um momento de novas tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, avanço da regulamentação ambiental europeia e maior esforço do governo para ampliar canais comerciais.
A mudança tem efeito direto sobre um setor cuja exposição externa é elevada. Dados oficiais do comércio exterior paulista mostram que, no primeiro semestre de 2026, a China respondeu por US$ 30,54 bilhões das exportações do agronegócio brasileiro, equivalente a 35,1% do total. A União Europeia absorveu US$ 12,62 bilhões, ou 14,5%, enquanto os Estados Unidos ficaram em US$ 5 bilhões, 5,7% da pauta. Juntos, os três destinos representaram cerca de 55,3% das vendas externas do agro brasileiro no período.
A concentração amplia simultaneamente a força comercial e a exposição a mudanças regulatórias ou tarifárias. No mesmo período, as exportações do agro brasileiro para a China cresceram 10,5% em valor, enquanto as vendas para a União Europeia avançaram 4,6%. Para os Estados Unidos, houve queda de 25,1%. O contraste mostra que a diversificação não é apenas uma estratégia de expansão, mas também uma forma de reduzir a dependência de mercados sujeitos a decisões comerciais unilaterais.
Tarifas transformam acesso ao mercado em instrumento de negociação
A frente mais imediata está nos Estados Unidos. Em julho, o governo norte-americano estabeleceu sobretaxas adicionais de 25% e 12,5% sobre parcelas das importações originárias do Brasil, em medidas decorrentes de investigações conduzidas sob a Seção 301 da legislação comercial americana. O Brasil contestou as medidas na Organização Mundial do Comércio, que registrou a abertura das consultas entre os dois países em 27 de julho.
As conversas bilaterais, entretanto, avançaram nas últimas semanas. Em 30 de setembro, os ministros brasileiros Mauro Vieira, das Relações Exteriores, e Márcio Elias Rosa, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, reuniram-se em Milwaukee com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer. Segundo o governo brasileiro, Washington deverá apresentar nas próximas semanas uma proposta para o escopo de um grupo de trabalho destinado a discutir questões tarifárias e não tarifárias.
O episódio evidencia que, para exportadores agrícolas, o acesso ao consumidor estrangeiro deixou de depender apenas de preço, escala e qualidade do produto. Tarifas, regras sanitárias, requisitos ambientais, padrões técnicos e mecanismos de rastreabilidade passaram a fazer parte da disputa comercial.
A própria política comercial brasileira já incorporou medidas para reduzir parte dos efeitos das barreiras americanas. Em setembro, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços regulamentou a possibilidade de prorrogação, por até 12 meses, dos prazos de operações de drawback afetadas pelas tarifas adicionais aplicadas pelos Estados Unidos. O mecanismo permite postergar obrigações relacionadas a tributos suspensos em operações vinculadas à exportação.
União Europeia combina mercado relevante e novas exigências
Na Europa, o desafio assume natureza diferente. O Regulamento da União Europeia sobre Desmatamento, conhecido como EUDR, passará a ser aplicado a grandes e médias empresas a partir de 30 de dezembro de 2026. Para as pequenas e microempresas abrangidas pelas regras, a aplicação ocorrerá em 30 de junho de 2027.
A norma cobre commodities como carne bovina, soja, café, cacau, óleo de palma, borracha e madeira, além de produtos derivados. Para acessar o mercado europeu, as empresas precisarão demonstrar que os produtos não estão associados a desmatamento recente e que foram produzidos em conformidade com a legislação do país de origem.
Em julho, a Comissão Europeia atualizou o escopo de produtos derivados abrangidos e estabeleceu regras operacionais para o sistema de declarações de diligência. A revisão retirou alguns itens do regime, acrescentou outros e manteve a entrada em aplicação das regras principais no fim de 2026.
Para o Brasil, isso cria um problema comercial diferente do enfrentado com os Estados Unidos. No mercado americano, o principal instrumento de pressão recente foi tarifário; no europeu, a barreira é construída em torno de requisitos regulatórios e de comprovação. Em ambos os casos, entretanto, o exportador precisa responder rapidamente a decisões tomadas fora do país.
Foi nesse contexto que especialistas participantes do GAFFFF defenderam maior coordenação entre governo e iniciativa privada. Laura Antoniazzi, da Agroicone, afirmou no painel que o Brasil precisa atuar de forma pragmática diante das exigências europeias, combinando questionamento de pontos específicos com capacidade de adaptação às regras de um mercado considerado relevante para as exportações brasileiras.
Rede de adidos amplia capacidade de negociação
Uma das estruturas já existentes para essa estratégia é a rede de adidos agrícolas do Ministério da Agricultura e Pecuária. O Mapa informa atualmente 40 adidos brasileiros designados junto a representações diplomáticas no exterior. Eles atuam na abertura, manutenção e ampliação de mercados, identificando oportunidades comerciais, desafios regulatórios e possibilidades de investimento e cooperação.
A distribuição dos postos também mostra a tentativa de acompanhar mercados estratégicos. Há adidos em países como China, Estados Unidos, Japão, Índia, Indonésia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, México e Reino Unido, além de representações junto à União Europeia, à Organização Mundial do Comércio e à Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.
Em 2026, o governo ainda abriu processo para seleção de oito novos postos, incluindo Alemanha, Colômbia, Egito, Reino Unido, Angola, Marrocos, Roma e Bruxelas. O movimento amplia justamente a presença em mercados e centros diplomáticos com peso comercial e regulatório.
O Ministério da Agricultura também passou a utilizar a plataforma ConectAgro para reunir informações sobre comércio, oportunidades e atuação dos adidos. A ferramenta foi apresentada como instrumento para ampliar a circulação de informações e apoiar a expansão das exportações brasileiras.
Segurança alimentar ganha peso na geopolítica
A discussão sobre acesso a mercados também está ligada à capacidade de abastecimento. No painel do GAFFFF, Pablo Ibanez, professor e pesquisador da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, associou a transformação do comércio internacional à crescente incorporação da segurança alimentar nas estratégias nacionais. A avaliação apresentada foi de que países passaram a tratar o abastecimento de alimentos como componente de segurança nacional, ampliando a dimensão estratégica das cadeias agrícolas.
Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal, destacou a posição do Brasil como grande fornecedor internacional de proteína animal e relacionou essa capacidade ao déficit de consumo de proteína em parcelas expressivas da população mundial. A declaração reforça um argumento recorrente do setor: escala produtiva e capacidade de abastecimento são ativos comerciais, mas precisam ser convertidos em relacionamento diplomático e acesso efetivo a mercados.
Essa transformação ocorre enquanto o sistema multilateral enfrenta uma multiplicação de mecanismos de proteção comercial. A Organização Mundial do Comércio, em sua edição de 2026 dos perfis tarifários globais, ampliou o levantamento de tarifas e medidas não tarifárias aplicadas por mais de 150 economias, refletindo a importância crescente desses instrumentos na definição das condições de acesso a mercados.
Diversificação reduz concentração, mas exige coordenação
Os dados do primeiro semestre mostram por que a discussão ultrapassa a diplomacia tradicional. China, União Europeia e Estados Unidos concentraram aproximadamente 55% das exportações do agronegócio brasileiro. A China sozinha respondeu por mais de um terço das vendas externas do setor. Ao mesmo tempo, a diferença entre o avanço das exportações para China e União Europeia e a queda registrada nos Estados Unidos mostra como decisões comerciais podem alterar rapidamente o peso relativo de cada destino.
A diversificação, portanto, envolve mais do que buscar compradores adicionais. Ela exige negociação sanitária, reconhecimento de certificações, adaptação regulatória, infraestrutura logística, inteligência comercial e presença institucional permanente.
A aproximação recente com a Índia oferece um exemplo desse movimento. Em agosto, Brasil e Índia trataram da ampliação do Acordo de Comércio Preferencial, acesso a mercados, barreiras comerciais e diversificação das exportações. Nos sete primeiros meses de 2026, a corrente de comércio bilateral alcançou US$ 10,1 bilhões, crescimento de 32,9% em relação ao mesmo período anterior.
O ponto central para o agronegócio é que novos mercados precisam ser construídos antes que uma crise comercial torne a diversificação uma necessidade urgente. A estrutura de adidos, a negociação de acordos e a atuação conjunta de governo e empresas formam instrumentos para esse processo.
O cenário também reduz a separação entre política agrícola e política externa. Quando tarifas são usadas como instrumento de negociação e exigências ambientais condicionam o acesso a grandes mercados, competitividade passa a depender não apenas da produção dentro da porteira, mas da capacidade brasileira de antecipar regras, defender seus interesses e apresentar ao comprador externo evidências sobre origem, segurança, sustentabilidade e regularidade dos produtos.
A reunião entre Brasil e Estados Unidos em 30 de setembro, um dia antes do início do GAFFFF, dá dimensão prática ao debate realizado no festival. O governo brasileiro e o USTR concordaram em criar um grupo de trabalho para discutir obstáculos tarifários e não tarifários. Ao mesmo tempo, a União Europeia se prepara para colocar em funcionamento o EUDR. Para o agronegócio brasileiro, as duas frentes indicam que a disputa comercial será cada vez mais definida pela combinação entre diplomacia, regulação e capacidade de resposta empresarial.
Fontes:
Ministério da Agricultura e Pecuária – estrutura dos 40 adidos agrícolas brasileiros, atribuições e distribuição dos postos diplomáticos
Ministério da Agricultura e Pecuária – processo seletivo de 2026 para novos postos de adidos agrícolas
Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços – medidas tarifárias dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros e ações de resposta comercial
Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e Ministério das Relações Exteriores – reunião Brasil-Estados Unidos de 30 de setembro de 2026 e criação de grupo de trabalho comercial
Comissão Europeia – aplicação, escopo e regras de implementação do Regulamento da União Europeia sobre Desmatamento
Instituto de Economia Agrícola de São Paulo – destinos e desempenho das exportações do agronegócio brasileiro no primeiro semestre de 2026
Organização Mundial do Comércio – perfis tarifários globais de 2026 e disputa entre Brasil e Estados Unidos sobre tarifas adicionais
GAFFFF – programação de 2026 e painel sobre estratégias do agronegócio no mercado global









