A relação econômica entre Brasil e China ganhou nova dimensão em 2026. De janeiro a agosto, a corrente de comércio brasileira com o paÃs asiático atingiu US$ 128,63 bilhões, enquanto a movimentação com os Estados Unidos ficou em US$ 51,42 bilhões. A diferença de US$ 77,21 bilhões significa que o comércio com a China foi 2,5 vezes maior no perÃodo. Os dados consolidados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), mostram que a distância entre os dois parceiros aumentou tanto nas exportações quanto nas importações.
A China respondeu por 28,8% de toda a corrente de comércio brasileira nos oito primeiros meses do ano, enquanto os Estados Unidos representaram 11,5%, cálculo obtido a partir dos US$ 446,39 bilhões movimentados pelo comércio exterior brasileiro no perÃodo. Nas exportações, a vantagem chinesa foi ainda maior: o Brasil vendeu US$ 77,07 bilhões para a China, 3,2 vezes os US$ 24,10 bilhões embarcados aos Estados Unidos. Nas importações, os US$ 51,56 bilhões procedentes da China foram 1,9 vez os US$ 27,32 bilhões comprados dos norte-americanos.
O movimento não começou neste ano. A China tornou-se o principal parceiro comercial do Brasil em 2009 e, desde então, consolidou uma posição que deixou de depender apenas da venda de commodities. Em 2025, a corrente de comércio bilateral chegou a US$ 171 bilhões, contra US$ 83 bilhões nas trocas com os Estados Unidos, segundo dados apresentados pelo Ministério das Relações Exteriores.
Exportações crescem, mas concentração de produtos permanece elevada
O crescimento do comércio com a China em 2026 é sustentado por uma combinação de expansão das vendas brasileiras e aumento das compras de produtos chineses. Entre janeiro e agosto, as exportações para o mercado asiático cresceram 15% em relação ao mesmo perÃodo de 2025, enquanto as importações avançaram 9,5%. O saldo comercial bilateral ficou positivo em US$ 25,51 bilhões para o Brasil.
A composição das exportações, porém, mostra que a expansão ainda está fortemente concentrada em produtos primários e semimanufaturados. Soja, petróleo bruto e minério de ferro responderam juntos por 77,3% das vendas brasileiras à China até agosto. A soja representou 35,7% dos embarques, com US$ 27,50 bilhões; o petróleo bruto, 25,5%, com US$ 19,62 bilhões; e o minério de ferro, 16,1%, com US$ 12,44 bilhões. Carne bovina e celulose acrescentaram outros 11,4 pontos percentuais à pauta.
A dependência chinesa também aparece de forma especialmente clara no agronegócio. No primeiro trimestre de 2026, a China respondeu por 29,8% das exportações brasileiras do setor, com US$ 11,33 bilhões. Em 2025, as compras chinesas de produtos agropecuários brasileiros alcançaram US$ 55,3 bilhões, equivalentes a 32,7% das exportações do agronegócio nacional.
Esse padrão cria uma relação com efeitos simultâneos. De um lado, a demanda chinesa amplia receitas de exportação e contribui para o superávit comercial brasileiro. De outro, a concentração de vendas em poucos grupos de produtos deixa parte relevante da receita externa brasileira exposta às oscilações de preços internacionais, ciclos de produção e mudanças na demanda chinesa.
A pauta de importações apresenta perfil diferente. A China já responde por 26,4% de tudo o que o Brasil compra no exterior, acima dos 14% dos Estados Unidos. A participação chinesa nas importações brasileiras subiu de 19,3% no acumulado de janeiro a agosto de 2019 para 26,4% no mesmo intervalo de 2026. No caso dos Estados Unidos, a participação recuou de 16,6% aproximadamente para 14% no intervalo equivalente.
Capital chinês avança para indústria, energia e tecnologia
A presença chinesa não se limita ao comércio. Segundo levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), o Brasil recebeu US$ 6,1 bilhões em investimentos chineses em 2025, alta de 45% em relação ao ano anterior, e foi o principal destino mundial desse capital naquele ano. O estudo também registra a expansão dos aportes em eletricidade, mineração e indústria automotiva.
No acumulado entre 2007 e 2025, o estoque de investimentos chineses no Brasil chegou a US$ 85,5 bilhões distribuÃdos por 355 projetos, segundo o levantamento do CEBC. A dimensão desse estoque mostra que a relação bilateral já está estruturada sobre ativos produtivos instalados no paÃs, e não apenas sobre contratos de compra e venda de mercadorias.
A indústria automotiva é um exemplo dessa mudança. A BYD inaugurou em outubro de 2025 sua fábrica em Camaçari, na Bahia, e passou a montar veÃculos elétricos e hÃbridos no Brasil. O projeto prevê capacidade inicial de 150 mil veÃculos por ano e expansão para 300 mil unidades na segunda etapa. A planta começou com montagem utilizando peças importadas, enquanto o governo baiano anunciou a construção de uma rede local de fornecedores para ampliar a nacionalização dos componentes.
A expansão avançou também em tecnologia e infraestrutura digital. O TikTok, controlado pela chinesa ByteDance, anunciou um data center no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, no Ceará, com investimento estimado em mais de R$ 200 bilhões. Segundo o governo estadual, aproximadamente R$ 15 bilhões estão previstos para a primeira fase. A implantação começou em janeiro de 2026 e envolve a Omnia Data Centers e a Casa dos Ventos.
A escala desses projetos altera a natureza da relação bilateral. A presença chinesa passa a alcançar setores associados à transição energética, mobilidade elétrica, infraestrutura e serviços digitais, áreas nas quais o Brasil busca ampliar a produtividade doméstica e atrair capital para novos investimentos.
Relação financeira também começa a ganhar densidade
A aproximação ocorre ainda no mercado de capitais. Em outubro de 2025, o Ministério da Fazenda e a Comissão de Valores Mobiliários informaram que reguladores chineses haviam autorizado a listagem de ETFs vinculados ao Ibovespa nas bolsas de Xangai e Shenzhen. O programa ETF Connect Brasil-China também permitiu a negociação, na B3, de produtos referenciados em Ãndices chineses.
O mecanismo não substitui os mercados financeiros tradicionais nem significa que o Brasil esteja abandonando os canais de financiamento norte-americanos. Ele representa, porém, a criação de uma segunda via institucional para a circulação de investimentos e para a aproximação entre investidores brasileiros e chineses.
A diferença entre os parceiros também aparece no saldo comercial. Enquanto o Brasil acumulou superávit de US$ 25,51 bilhões com a China nos primeiros oito meses de 2026, registrou déficit de US$ 3,21 bilhões com os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a corrente de comércio com a China cresceu 12,7% sobre um ano antes, enquanto a movimentação com os EUA caiu 9,1%.
Essa combinação ajuda a explicar por que mudanças polÃticas em BrasÃlia, isoladamente, não determinam a direção da relação econômica. O comércio, os investimentos produtivos, o agronegócio, a infraestrutura e os mecanismos financeiros criaram vÃnculos que envolvem empresas e cadeias produtivas de diferentes setores da economia brasileira.
Eleição ocorre em meio a uma relação econômica já consolidada
A discussão ganha dimensão polÃtica à s vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais, marcado para 4 de outubro de 2026. O Tribunal Superior Eleitoral deferiu, em setembro, os registros das chapas de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, entre outras candidaturas presidenciais.
Independentemente da composição do próximo governo, a estrutura comercial construÃda nas últimas quase duas décadas não pode ser alterada rapidamente. A China permanece como principal destino das exportações brasileiras e maior origem das importações, além de deter um estoque expressivo de investimentos no paÃs.
O desafio econômico para o Brasil está menos em escolher um parceiro único e mais em administrar a assimetria dessa relação. A China compra grandes volumes de commodities brasileiras e, simultaneamente, fornece máquinas, equipamentos, veÃculos, componentes e bens industriais. O paÃs asiático também amplia investimentos em segmentos com maior conteúdo tecnológico.
Para a indústria brasileira, o efeito é ambivalente. A entrada de capital pode ampliar produção, emprego, transferência tecnológica e formação de fornecedores. Ao mesmo tempo, a maior presença de fabricantes chineses aumenta a concorrência em segmentos que passam por transformação tecnológica, como automóveis e equipamentos ligados à eletrificação.
O caso da BYD ilustra essa transição. A empresa entrou no mercado brasileiro inicialmente com produtos importados, mas avançou para a produção local e para a formação de uma cadeia de fornecedores. O resultado pode representar maior integração industrial ou, dependendo do grau efetivo de nacionalização, apenas uma mudança parcial do ponto de entrada dos produtos chineses no mercado brasileiro. Essa diferença deverá ser observada pela evolução dos fornecedores locais, do conteúdo nacional e das exportações realizadas a partir das novas unidades.
Dependência comercial não elimina espaço para diversificação
Os números mostram que a aproximação econômica com a China não equivale a uma ruptura com os Estados Unidos. O Brasil continua mantendo fluxos relevantes de comércio, investimentos e financiamento com empresas e instituições norte-americanas.
A questão central é que a proporção mudou. Em agosto de 2026, a China não apenas mantém a liderança histórica conquistada em 2009 como amplia sua distância no comércio exterior brasileiro. Nos oito primeiros meses do ano, a diferença entre os dois parceiros chegou a US$ 77,2 bilhões na corrente de comércio.
Para o Brasil, a agenda econômica passa por transformar a escala dessa relação em maior diversificação produtiva. A pauta exportadora concentrada em soja, petróleo e minério sustenta o superávit, mas não resolve sozinha o objetivo de aumentar a participação de bens e serviços de maior valor agregado nas vendas externas.
A expansão dos investimentos chineses em energia, mineração, automóveis e tecnologia abre novas possibilidades, mas também aumenta a importância de polÃticas capazes de desenvolver fornecedores nacionais e incorporar tecnologia à s cadeias produtivas instaladas no paÃs.
A relação Brasil-China, portanto, já ultrapassou há muito a condição de simples parceria comercial baseada em commodities. Os dados de 2026 mostram uma integração que envolve comércio, investimento, indústria, agronegócio e mercado de capitais. A disputa de influência entre grandes potências pode mudar de intensidade conforme o cenário internacional, mas o peso econômico chinês no Brasil passou a ter uma dimensão estrutural.
Fontes:
Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços – dados consolidados da balança comercial brasileira de janeiro a agosto de 2026, com exportações, importações, corrente de comércio e saldos por paÃs
Conselho Empresarial Brasil-China – levantamento de investimentos chineses no Brasil em 2025 e evolução dos aportes bilaterais
Ministério da Agricultura e Pecuária – dados de exportações do agronegócio brasileiro por destino e participação da China em 2025 e 2026
Ministério das Relações Exteriores – dados sobre a corrente de comércio do Brasil com China, Estados Unidos e outros principais parceiros em 2025
Tribunal Superior Eleitoral – registros de candidatura à Presidência da República nas Eleições Gerais de 2026
Comissão de Valores Mobiliários e Ministério da Fazenda – implementação do programa ETF Connect Brasil-China e integração dos mercados de capitais
Governo da Bahia – informações sobre a fábrica da BYD em Camaçari, capacidade produtiva e formação de cadeia de fornecedores
Governo do Ceará e TikTok – informações sobre o projeto do data center da ByteDance no Complexo do Pecém e investimentos previstos










