O advogado e empresário Willer Tomaz de Souza tornou-se um dos personagens que conectam diferentes círculos de poder de Brasília a algumas das investigações de maior repercussão dos últimos anos. Amigo declarado do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Tomaz aparece em viagens particulares com o parlamentar, em imóveis utilizados pelo político e em articulações nos bastidores do Judiciário. Ao mesmo tempo, desde agosto de 2026 está formalmente no centro de uma investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas ao esquema de descontos indevidos sobre benefícios do INSS.
A situação jurídica de Tomaz exige uma distinção importante. A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que autorizou buscas em 4 de agosto, registra expressamente Willer como investigado e reproduz a hipótese da Polícia Federal de que estruturas vinculadas ao advogado funcionariam como um “hub financeiro, patrimonial e logístico” colocado à disposição de beneficiários, entre eles o senador Weverton Rocha (PDT-MA). Tomaz nega qualquer participação em crimes e sustenta que suas movimentações são decorrentes de atividades profissionais e empresariais regulares. A mesma investigação, até o momento, não apresenta Flávio Bolsonaro como investigado ou beneficiário do esquema do INSS.
Essa separação é fundamental para entender o caso. A proximidade pessoal de Flávio com Tomaz está documentada por anos de convivência e por episódios recentes, mas não equivale, por si só, a participação do candidato do PL nas suspeitas apuradas pela Operação Sem Desconto. O que coloca a relação sob escrutínio público é a intensidade desses vínculos e o fato de personagens hoje alcançados pela investigação terem compartilhado viagens, aeronaves e ambientes privados com o senador antes e depois de o escândalo previdenciário vir a público.
Quem é Willer Tomaz
Willer Tomaz construiu sua carreira como advogado em Brasília e, ao longo dos anos, ampliou a atuação para negócios imobiliários e outros empreendimentos. Seu escritório atua em áreas que incluem direito empresarial, eleitoral, administrativo, constitucional e contencioso judicial. No meio político da capital, tornou-se conhecido pelo relacionamento com parlamentares e integrantes do Judiciário de diferentes campos políticos, não se restringindo ao grupo de Jair Bolsonaro. Seu escritório já teve como sócio Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça do governo Dilma Rousseff, e Tomaz também manteve proximidade com nomes do Centrão e com o senador Weverton Rocha.
Uma passagem anterior de sua trajetória ocorreu em 2017, quando foi preso preventivamente durante investigações relacionadas à J&F. A suspeita então investigada envolvia a possível intermediação de pagamentos a um procurador da República. Tomaz negou as acusações, e posteriormente a denúncia contra ele foi rejeitada pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região por falta de elementos suficientes. O episódio, portanto, não resultou em condenação do advogado.
Nos anos seguintes, Tomaz aumentou sua circulação nos bastidores políticos de Brasília. Reportagens daquele período apontaram sua participação em articulações relacionadas a cargos no Judiciário. Durante o governo Jair Bolsonaro, ele esteve próximo de Flávio Bolsonaro e do advogado Frederick Wassef. Segundo relatos publicados posteriormente, Tomaz participou de conversas relacionadas a indicações para tribunais e esteve no ambiente político que antecedeu a escolha de Kassio Nunes Marques para o Supremo Tribunal Federal.
A relação com Flávio não ficou apenas nos bastidores. Durante a CPI da Covid, em 2021, quando o nome de Tomaz surgiu em questionamentos relacionados às negociações da vacina Covaxin, o próprio senador interveio publicamente e o chamou de “meu amigo”. Tomaz acabou não sendo incluído no núcleo final das investigações daquele episódio. A declaração tornou pública uma amizade que já existia fora do ambiente institucional.
O que a Polícia Federal atribui a Willer no caso do INSS
A posição de Tomaz mudou de escala com a nova fase da Operação Sem Desconto deflagrada em 4 de agosto de 2026. A investigação começou a partir da análise de material extraído do celular do senador Weverton Rocha e de elementos reunidos nas apurações sobre descontos associativos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS. A hipótese policial passou a alcançar não apenas a origem dos recursos, mas também mecanismos que teriam sido utilizados para ocultar ou dissimular patrimônio e movimentações financeiras.
Na decisão que autorizou as buscas, André Mendonça reproduz a descrição da PF segundo a qual Willer seria uma “personagem de sustentação” ligada a empresas, imóveis, aeronaves, pilotos, funcionários, operadores financeiros e interlocutores políticos. O documento afirma que pessoas e empresas associadas ao advogado estariam conectadas a pagamentos, saldos, patrimônio e logística utilizados pelo núcleo investigado. A PF afirma que a estrutura vinculada a Tomaz funcionaria como um “hub financeiro, patrimonial e logístico”.
Um dos pontos destacados pela investigação é uma residência no Lago Sul, em Brasília, utilizada por Weverton Rocha. Embora o parlamentar tenha participado de tratativas relativas ao imóvel, segundo a decisão, a aquisição foi formalizada em abril de 2023 pela WT Administração de Imóveis e Bens, sociedade ligada a Willer Tomaz, por R$ 6 milhões. Para a PF, a diferença entre quem aparecia como proprietário formal e quem supostamente exercia o domínio econômico do bem justificava aprofundar a apuração.
Outro eixo envolve a advogada Samya Lorene, mulher de Weverton Rocha. A decisão registra que, segundo informação policial, ela teria recebido mais de R$ 11 milhões de empresas relacionadas a Willer Tomaz no período analisado. Conversas citadas pela PF mostram ainda tratativas sobre um repasse de R$ 500 mil e a atuação de uma funcionária identificada no telefone de Weverton como “Financeiro WT Fayla Zulmira”.
Tomaz sustenta que Samya trabalhava regularmente como advogada associada de seu escritório e que os valores recebidos correspondem a honorários por serviços efetivamente prestados. Sobre os imóveis, afirma atuar também no setor imobiliário e diz que as operações foram regulares. Ele nega ter colocado empresas ou patrimônio a serviço de lavagem de dinheiro.
A hipótese apresentada pela PF ao Supremo, contudo, é mais ampla. Segundo a decisão de Mendonça, os investigadores trabalham com a suspeita de que Weverton, Willer e outros investigados teriam concorrido, pelo menos desde 2023, para ocultar ou dissimular origem, movimentação, disponibilidade e propriedade de bens e valores provenientes de possíveis infrações antecedentes. A apuração menciona empresas, contas pessoais e familiares, imóveis, postos de combustíveis, dinheiro em espécie e outros ativos. Trata-se de uma hipótese investigativa, ainda sujeita à produção de provas, contraditório e posterior avaliação pelo Ministério Público e pelo Judiciário.
O Ministério Público Federal chegou a se manifestar contra as buscas, argumentando que medidas menos invasivas poderiam ser utilizadas inicialmente para esclarecer as movimentações. André Mendonça decidiu de forma diferente e autorizou as diligências, além da extração e análise de dados dos equipamentos apreendidos, impondo salvaguardas específicas para preservar informações de clientes e advogados alheios à investigação.
A amizade com Flávio Bolsonaro
Enquanto a investigação do INSS se concentra principalmente na relação financeira e patrimonial de Tomaz com o núcleo de Weverton Rocha, as apurações e reportagens posteriores expuseram a extensão de sua convivência com Flávio Bolsonaro. Registros divulgados neste mês mostram que os dois fizeram diversas viagens juntos ao longo de 2025. Uma delas ocorreu em março, quando Flávio, Willer e Weverton participaram de uma viagem à África do Sul. Fotografias do grupo durante um safári foram posteriormente localizadas no material analisado pelas autoridades.
A cronologia é relevante: a viagem à África do Sul ocorreu em março de 2025, antes de a Operação Sem Desconto revelar publicamente, no mês seguinte, a dimensão do esquema de descontos indevidos no INSS. Portanto, os registros da viagem demonstram proximidade pessoal, mas não permitem concluir que Flávio tivesse naquele momento conhecimento das suspeitas que mais tarde alcançariam Tomaz e Weverton.
Outra viagem ganhou repercussão nesta semana. Em 19 de janeiro de 2025, Flávio retornou de Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, para Brasília acompanhado da mulher, das filhas e de Willer Tomaz em um Legacy 650 de prefixo PP-NLR. Tomaz possuía um terço da sociedade proprietária da aeronave. Outra participação havia sido adquirida pela Prime You, empresa que naquele período tinha Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, entre seus sócios.
Tomaz afirma que foi ele quem solicitou e custeou o voo, que não conhecia Vorcaro e que só posteriormente soube da participação ligada à Prime You na aeronave. Flávio, ao comentar a revelação, disse que entendia o avião como pertencente a Willer e tratou a viagem como um deslocamento privado entre amigos. Não há nos elementos divulgados até agora indicação de que esse voo, por si só, tenha relação com a fraude do INSS.
Imóveis ampliam os vínculos entre Willer e Flávio
A relação entre os dois também aparece no patrimônio administrado por empresas de Tomaz. Durante a campanha presidencial de 2026, Flávio utilizou em São Paulo um apartamento pertencente à WT Administração de Imóveis e Bens, segundo apuração da revista piauí. O imóvel fica na Vila Nova Conceição e havia sido comprado pela empresa de Tomaz por R$ 3,5 milhões em fevereiro deste ano.
Antes disso, o apartamento pertencia a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e investigado no caso Banco Master. Zettel havia comprado o imóvel por R$ 5,5 milhões em abril de 2025 e o vendeu meses depois à empresa de Tomaz por R$ 2 milhões a menos. Willer afirma que não conhece Zettel nem Vorcaro e que jamais manteve com eles relação pessoal, comercial ou societária. Tomaz não é investigado no inquérito do Banco Master.
Flávio também já frequentou imóveis de Tomaz em Angra dos Reis, e o advogado aparece em diferentes episódios da vida privada do senador. Reportagens registram viagens de lazer das famílias e utilização de aeronaves vinculadas ao advogado. Esses fatos compõem uma relação pessoal prolongada e ajudam a explicar por que o avanço da Operação Sem Desconto sobre Tomaz produziu repercussão política para a campanha presidencial de Flávio.
O limite factual, porém, permanece claro. A decisão do Supremo que autorizou as buscas contra Willer Tomaz descreve suspeitas relacionadas ao núcleo de Weverton Rocha e à possível lavagem de valores derivados de infrações associadas ao caso do INSS. Flávio Bolsonaro não é apontado nesse documento como integrante da estrutura, beneficiário dos descontos previdenciários ou participante da lavagem investigada. O elo demonstrado até agora é de amizade, convivência, viagens, utilização de bens e interlocução política com Tomaz — circunstâncias que são relevantes para compreender a rede de relações do advogado, mas que não constituem prova de participação do senador nas fraudes previdenciárias.
Fontes:
Supremo Tribunal Federal — decisão do ministro André Mendonça na Petição 16.435
Polícia Federal — elementos reproduzidos na decisão judicial da Operação Sem Desconto









