Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro revelam que o ex-controlador do Banco Master participou de articulações para custear uma viagem do ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), e de sua esposa, Eliane Fux, a Nova York, em maio de 2024. Os diálogos mostram que o banqueiro autorizou a emissão de passagens aéreas e a contratação de hospedagem para o casal, mas determinou que o procedimento fosse realizado por intermédio de Antonio Camarotti, CEO e publisher da Forbes Brasil, evitando que as despesas fossem emitidas diretamente por sua estrutura empresarial.
O conteúdo foi revelado pela Folha de S.Paulo e pelo Times Brasil | CNBC a partir de mensagens obtidas pela PF. Os registros também relacionam Vorcaro à organização de um almoço promovido pela Forbes em homenagem ao magistrado, patrocinado pela BeFly, empresa do setor de turismo que mantinha relações comerciais com o Banco Master.
Em uma das conversas, realizadas entre março e maio de 2024, um funcionário comunicou ao banqueiro que Camarotti havia confirmado a participação de Fux em um evento da publicação e perguntou se poderia providenciar passagens e hospedagem para o ministro e sua mulher. Vorcaro autorizou a operação, mas acrescentou uma orientação específica: “Não podemos nós mesmos fazermos [sic] a emissão”.
A determinação de utilizar a Forbes como intermediária é um dos pontos centrais do material. As mensagens indicam que o ex-banqueiro acompanhava e autorizava a organização financeira da viagem, embora o convite formal ao magistrado tenha partido da revista.
Fux nega ter recebido convite de Vorcaro, afirma que nunca manteve contato com o empresário e sustenta que foi chamado diretamente pela Forbes Brasil para participar de um encontro sobre segurança jurídica e risco Brasil. O ministro também declarou que não esteve com Vorcaro durante o almoço.
Os registros conhecidos não demonstram que Fux tivesse conhecimento da participação do banqueiro nos bastidores da organização. Também não estabelecem, isoladamente, que o custeio tenha produzido alguma decisão judicial favorável ao Master ou configurado crime.
Forbes intermediou viagem e recebeu patrocínio do Master
A viagem ocorreu durante a programação de eventos empresariais brasileiros realizada em Nova York em maio de 2024. O almoço em homenagem a Luiz Fux foi promovido pela Forbes Brasil em 14 de maio, sob o nome Forbes Power Lunch, e contou com patrocínio da BeFly.
Os diálogos mostram que a participação da empresa de turismo estava inserida em uma negociação comercial mais ampla, envolvendo também a Forbes Party, festa organizada pela publicação na noite seguinte, 15 de maio.
Em uma das mensagens obtidas pela imprensa, um interlocutor explicou a Vorcaro que o almoço seria uma contrapartida relacionada ao patrocínio da festa. O banqueiro procurou confirmar se o apoio financeiro era de seu grupo e qual marca apareceria no evento dedicado ao magistrado. Recebeu como resposta que seria a BeFly.
O material também registra a participação direta de Camarotti na preparação do almoço, incluindo a definição de detalhes do evento e o envio dos convites. A Forbes encaminhou ao advogado Rodrigo Fux, filho do ministro, uma comunicação assinada por sua própria equipe, sem mencionar Vorcaro como responsável pelo convite.
Segundo os diálogos, a previsão era reunir entre 30 e 40 convidados.
Outra mensagem atribuída a Camarotti menciona uma proposta de patrocínio de US$ 200 mil, com direito de associação do nome do patrocinador à Forbes Party, para o Banco Master ou outra marca escolhida por Vorcaro. O registro demonstra a negociação comercial, mas, isoladamente, não comprova que esse tenha sido o valor efetivamente desembolsado.
A Forbes Brasil confirmou à Folha que a BeFly patrocinou o almoço de Fux e que o Banco Master figurou entre os apoiadores da Forbes Party. A publicação classificou as relações comerciais como formais, regulares e transparentes, realizadas no curso habitual de suas atividades.
A BeFly também se manifestou, informando que mantém parcerias comerciais pontuais com a Forbes desde 2021, mediante apoio e patrocínio a eventos da publicação.
As manifestações confirmam a existência dos vínculos comerciais, mas não esclarecem integralmente a origem final dos valores empregados nas despesas específicas da viagem do ministro e de sua esposa.
Publicação da própria Forbes confirma presença de Vorcaro na festa
A documentação pública da Forbes permite confirmar parte da cronologia apresentada nas mensagens.
Em reportagem publicada em 16 de maio de 2024, a revista registrou a realização da sexta edição da Forbes Brasil Party na noite anterior, no Cipriani Broadway, em Nova York. A cobertura mencionou Daniel Vorcaro, então presidente do Banco Master, entre os convidados presentes.
O texto também identificou Antonio Camarotti como responsável por receber os participantes e apresentou uma galeria fotográfica com registros de empresários, autoridades, executivos e familiares que compareceram à festa.
Entre os nomes identificados nas imagens estão Rodrigo Fux e sua mãe, Eliane Fux.
Há, entretanto, uma diferença importante entre os dois eventos. O almoço em homenagem a Luiz Fux ocorreu em 14 de maio; a Forbes Party foi realizada no dia 15. O ministro afirma ter participado somente do primeiro encontro e nega presença em outros eventos organizados pela Forbes ou pelo Banco Master naquela ocasião.
Assim, a presença de familiares na festa e a participação de Vorcaro no evento posterior não demonstram que o ministro tenha se encontrado pessoalmente com o banqueiro.
A cobertura publicada pela Forbes em 2024 também identifica patrocinadores e empresas associadas à festa. O Banco Master não aparece expressamente na relação principal de patrocinadores apresentada naquele texto, embora a publicação tenha reconhecido posteriormente, em sua manifestação à imprensa, que o banco integrou o grupo de apoiadores do evento.
Essa diferença torna relevante a documentação comercial da operação, incluindo contratos, notas fiscais, identificação das empresas responsáveis pelos pagamentos e comprovantes de emissão das passagens e hospedagens.
Os diálogos revelados até agora demonstram a organização e a autorização das despesas, mas não permitem estabelecer integralmente a cadeia de pagamentos efetivamente executados.
Fundo ligado ao Master declarou R$ 113,7 milhões em ações da Forbes
A relação entre Vorcaro e a Forbes Brasil não se limita às mensagens sobre a viagem.
Documentos apresentados à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), examinados pelo Times Brasil | CNBC, mostram que a FRBS Participações, controladora da operação brasileira da publicação, aparecia como principal ativo do Eagle Eye Investments, fundo administrado pela Reag Investimentos e inserido em uma estrutura financeira relacionada ao universo investigado no caso Master.
Segundo os registros divulgados pelo veículo, o Eagle Eye declarou possuir R$ 113,7 milhões em ações da FRBS. Em demonstrativo recebido pela CVM em abril de 2025, esse investimento representava aproximadamente 92,87% de um patrimônio líquido de R$ 123,3 milhões.
Os documentos também mencionam um contrato de mútuo conversível de R$ 100 milhões concedido pelo fundo à empresa. Esse tipo de instrumento permite que uma obrigação financeira seja convertida em participação societária, conforme as condições estabelecidas contratualmente.
A dimensão desses valores acrescenta uma questão societária à investigação sobre os eventos. Não se trata apenas de verificar quem patrocinou uma viagem ou um almoço, mas de identificar se existiam relações financeiras capazes de conectar, direta ou indiretamente, a operação brasileira da Forbes às estruturas de investimento relacionadas ao ex-controlador do Master.
Antonio Camarotti nega que o Banco Master, seus sócios ou veículos a eles relacionados tenham ou tenham tido participação societária na publicação. Segundo ele, os únicos sócios da empresa são o próprio executivo e sua filha, Katarina Camarotti.
A negativa contrasta com os dados declarados pelo fundo e divulgados pelo Times Brasil | CNBC. Essa divergência, contudo, não autoriza afirmar como fato definitivamente estabelecido que Vorcaro era proprietário oculto da Forbes.
As informações disponíveis exigem distinguir a titularidade declarada de ativos, a estrutura de controle dos fundos, os beneficiários econômicos efetivos e a existência de direitos contratuais de conversão em participação societária.
A CVM informou ao veículo que recebe e disponibiliza informações fornecidas pelos administradores dos fundos, mas não comenta casos específicos. Portanto, os registros declaratórios não equivalem, por si mesmos, a uma conclusão da autarquia sobre eventual propriedade oculta ou irregularidade societária.
Fux nega relação com Vorcaro; mensagens também citam seu filho
A divulgação das mensagens ocorre em meio a outras revelações sobre as relações mantidas por Vorcaro com pessoas próximas a integrantes do Supremo Tribunal Federal.
Em 15 de setembro, durante sessão da Corte, Luiz Fux afirmou que nunca havia mantido contato pessoal com o ex-controlador do Master. A manifestação ocorreu após o ministro Flávio Dino mencionar a existência de registros relacionados ao magistrado.
Fux declarou: “Nunca vi esse cidadão na minha vida, nunca tive relação com ele”.
Posteriormente, por meio da assessoria do STF, reafirmou que nunca trocou mensagens com Vorcaro, não recebeu convite do banqueiro e participou apenas do almoço organizado pela Forbes.
O ministro também explicou que a participação ocorreu para tratar de segurança jurídica e dos riscos decorrentes da instabilidade jurisprudencial, assunto relacionado a debates que já havia desenvolvido em outros eventos.
O acervo da PF contém, por outro lado, conversas entre Vorcaro e Rodrigo Fux, advogado e filho do magistrado. Em reportagem divulgada em setembro, a Folha revelou mensagens que indicam que os dois participaram de um almoço em Nova York, em maio de 2024, além de manterem contatos posteriores.
O advogado utilizou expressões de proximidade pessoal em mensagens trocadas com Vorcaro. Sua assessoria afirmou, entretanto, que ele não prestou serviços advocatícios ao banqueiro, ao Banco Master ou a empresas e fundos associados ao grupo.
A relação documentada entre Rodrigo Fux e Vorcaro não comprova que o ministro tivesse conhecimento das tratativas comerciais envolvendo o empresário e os organizadores da viagem. Tampouco demonstra participação do magistrado nas operações financeiras investigadas.
Essa separação é necessária porque as mensagens, embora componham um mesmo conjunto probatório, envolvem pessoas, relações e acontecimentos diferentes.
Custeio de eventos envolve transparência e independência judicial
A revelação dos bastidores financeiros da viagem coloca em discussão as condições de participação de integrantes do Judiciário em eventos organizados ou patrocinados por entidades privadas.
O Código de Ética da Magistratura Nacional, instituído pela Resolução nº 60/2008 do Conselho Nacional de Justiça, estabelece princípios de independência, imparcialidade, prudência, transparência e integridade pessoal e profissional.
Esses parâmetros já estavam em vigor quando ocorreu a viagem de maio de 2024.
A participação de magistrados em conferências, palestras e encontros institucionais não é, por si só, uma irregularidade. A análise de situações concretas depende de informações como a identidade de quem efetivamente custeou as despesas, as condições do convite, a finalidade da participação e a existência de circunstâncias capazes de comprometer a independência ou a aparência de imparcialidade.
No episódio envolvendo Fux, a questão documental mais relevante está na diferença entre o organizador formal do convite e a pessoa que aparece nas mensagens autorizando e acompanhando despesas da viagem.
Até o momento, os elementos divulgados não esclarecem integralmente quem realizou cada pagamento, quais foram os valores efetivos das passagens e hospedagens e se os responsáveis pela emissão receberam reembolso de outra empresa ou pessoa.
Também não há demonstração, nesses registros específicos, de decisão judicial tomada por Fux como contrapartida ao evento.
As mensagens acrescentam uma nova dimensão às investigações sobre a rede de relacionamentos construída por Vorcaro antes da crise e posterior liquidação do Banco Master. Elas documentam sua participação nos bastidores de um encontro promovido por uma publicação empresarial, mostram a utilização de intermediários comerciais e revelam que o ex-banqueiro procurava acompanhar pessoalmente a organização financeira da homenagem a um integrante do STF.
A apuração sobre o custeio efetivo, o grau de conhecimento dos participantes e a estrutura societária das empresas envolvidas dependerá do exame de contratos, registros bancários, documentos fiscais e demais elementos capazes de corroborar as conversas recuperadas pela Polícia Federal.








