Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro ampliaram o conjunto de relações políticas e institucionais que passaram a integrar as investigações sobre o Banco Master. Os registros mostram trocas diretas do ex-controlador da instituição com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), além de conversas entre o advogado Walfrido Warde e Marco Aurélio Santana Ribeiro, então chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), sobre a tentativa de venda do Master ao Banco de Brasília (BRB).
O material, revelado nos últimos dias, não demonstra por si só que os interlocutores tenham cometido crimes nem estabelece que pedidos feitos por Vorcaro ou por seus representantes tenham produzido decisões favoráveis ao banco. No caso da operação com o BRB, o Banco Central indeferiu o pedido de autorização em 3 de setembro de 2025, após receber o requerimento em 28 de março daquele ano. O negócio previa a aquisição pelo banco público de 49% das ações ordinárias e 100% das preferenciais do Master, equivalentes a 58% do capital total da instituição.
A relevância das mensagens está principalmente no registro de interlocuções políticas durante um período em que o Master enfrentava crescente pressão regulatória. Em julho de 2025, quando a negociação com o BRB ainda estava em análise, Warde pediu a Marcola que levasse a Lula reclamações sobre a atuação do Banco Central e sobre Gabriel Galípolo, presidente da autarquia. O então chefe de gabinete respondeu que levaria o assunto adiante.
Operação com o BRB avançou enquanto Vorcaro buscava apoio político
A cronologia da operação ajuda a dimensionar o conteúdo das conversas. O BRB e o Banco Master anunciaram o acordo em 28 de março de 2025, mas a transação dependia de autorização do Banco Central. Em 3 de setembro, a Diretoria Colegiada do BC indeferiu o pedido de alteração de controle societário. O documento encaminhado ao BRB registra expressamente que a decisão se referia ao contrato firmado em 28 de março e alcançava, além do Banco Master, outras empresas do conglomerado envolvidas na estrutura da operação.
Entre esses dois marcos, as mensagens mostram uma tentativa de interlocução política. Segundo os registros analisados pela PF, Warde afirmou a Marcola que seria necessário pressionar o Banco Central e pediu que Lula fosse informado. Em seguida, o então chefe de gabinete respondeu que avisaria o presidente. Em outro trecho, o advogado dizia que o banco central estaria dificultando a operação e criticava Galípolo.
A atuação descrita nas mensagens precisa ser diferenciada de uma intervenção efetiva sobre a decisão regulatória. Não há, nos registros divulgados, demonstração de que o Planalto tenha determinado ao BC a aprovação da operação. Ao contrário, a autorização acabou sendo negada em setembro. O Banco Central, posteriormente, também divulgou que sua área de supervisão havia identificado inconsistências nas operações envolvendo carteiras de crédito do Master e encaminhado comunicações ao Ministério Público Federal.
Marcola, por meio de sua assessoria, afirmou que nunca intermediou negociações e que não atuou em favor de interesses privados durante o exercício do cargo. A manifestação é relevante para delimitar o alcance das mensagens: elas registram uma interlocução, mas a caracterização jurídica de eventual irregularidade depende de elementos adicionais.
Alcolumbre mantinha relação pessoal próxima com o ex-banqueiro
Outro conjunto de mensagens envolve Davi Alcolumbre. Em fevereiro de 2025, após a eleição do senador para a Presidência do Senado, Vorcaro o parabenizou e desejou sucesso na nova função. Em resposta, Alcolumbre tratou o empresário como “meu amor” e agradeceu pelo “carinho e amizade fraterna”. Em março, escreveu que era “seu irmão” e que seria “pra vida toda”. Vorcaro respondeu que também o considerava irmão e que estaria disponível “a qualquer tempo pra qualquer coisa”.
As conversas também registram contatos ligados a encontros privados e festas. Em um grupo denominado “Macallan”, referência a uma marca de uísque, mensagens de 2023 mencionam Alcolumbre em meio à organização de um evento. Em outro diálogo, Vorcaro utiliza a expressão “Bonde do Tigrão”. O conteúdo mostra a circulação do senador em ambientes privados frequentados pelo ex-banqueiro, mas não estabelece, isoladamente, relação entre esses encontros e decisões do poder público.
O conteúdo ganhou peso adicional porque, meses antes, Alcolumbre havia negado acusações divulgadas sobre um suposto recebimento de US$ 30 milhões de Vorcaro. Em pronunciamento no Senado, em junho, o presidente da Casa afirmou jamais ter recebido qualquer valor do empresário e classificou a acusação como falsa.
Após a divulgação das conversas mais recentes, Alcolumbre afirmou que as mensagens não indicam ilegalidade e classificou as acusações como injustas, segundo manifestações reproduzidas pela imprensa. A defesa política do senador, portanto, separa a existência da relação pessoal do conteúdo criminal atribuído por terceiros ao caso.
Alegações sobre Jaques Wagner foram apresentadas sem acordo de colaboração
A dimensão política do caso também alcançou o senador Jaques Wagner (PT-BA). Em uma proposta de colaboração premiada apresentada por Vorcaro, o ex-banqueiro teria relatado que um grupo político ligado ao senador recebia cerca de R$ 3 milhões mensais em supostas propinas relacionadas à operação do cartão consignado Credcesta, na Bahia.
A alegação, porém, deve ser tratada de maneira distinta de uma denúncia formal ou de uma colaboração homologada pela Justiça. A Polícia Federal recusou duas versões da proposta de delação e considerou que o material apresentado não acrescentava elementos suficientemente novos às investigações. Em 15 de junho, a Procuradoria-Geral da República também rejeitou a segunda proposta.
Isso significa que a acusação atribuída a Vorcaro permaneceu dentro de uma tentativa de colaboração que não foi aceita. Não houve, a partir dela, um acordo premiado homologado que conferisse validade jurídica autônoma às declarações.
Wagner, por sua vez, já havia se manifestado publicamente sobre o Credcesta. Em pronunciamento no Senado, afirmou que a operação não começou em seu governo, disse que outros Estados e municípios também adotaram o produto e rejeitou qualquer relação de seu grupo com irregularidades posteriores atribuídas ao Banco Master.
A diferença entre alegação e prova é central no caso. A existência de uma declaração feita por um investigado em busca de um acordo não equivale à comprovação do fato relatado. Para produzir consequências jurídicas, a informação precisa ser submetida a investigação, contraditório e eventual comprovação por outros elementos.
Pedido de investigação contra Lula entrou no STF
As mensagens envolvendo Walfrido Warde também foram usadas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, como fundamento para uma notícia-crime apresentada ao Supremo Tribunal Federal contra Lula.
A representação, encaminhada ao ministro André Mendonça em 23 de setembro, pede apuração de possíveis crimes de corrupção passiva e advocacia administrativa. Entre os elementos citados está uma mensagem do então advogado de Vorcaro na qual ele relata uma conversa com Lula e menciona um suposto uísque enviado pelo ex-banqueiro.
A Presidência da República negou que Lula tenha recebido presentes de Vorcaro, enviado recados ao empresário ou atuado em favor dos interesses do Master. Segundo a versão apresentada pelo governo, Lula se encontrou uma vez com Vorcaro, em 4 de dezembro de 2024, em reunião no Palácio do Planalto.
A notícia-crime não representa abertura automática de investigação nem conclusão sobre a existência de crime. O pedido precisa seguir a tramitação correspondente no Supremo e, conforme o caso, ser encaminhado ao Ministério Público para análise.
O episódio ocorre em uma disputa eleitoral na qual Flávio Bolsonaro é adversário de Lula. Ao mesmo tempo, o próprio senador aparece nas investigações relacionadas a Vorcaro por sua interlocução com o ex-banqueiro em torno do filme “Dark Horse”, produção sobre Jair Bolsonaro. A PF abriu apuração sobre a atuação de Flávio nesse contexto, o que exige que as diferentes frentes sejam analisadas separadamente.
O caso combina investigação financeira e pressão sobre instituições
O pano de fundo é uma investigação que ultrapassou o episódio da tentativa de aquisição do Master pelo BRB. O Banco Central posteriormente decretou a liquidação extrajudicial do conglomerado, enquanto a Polícia Federal passou a investigar operações financeiras e a atuação de diferentes agentes relacionados à instituição.
A própria autoridade monetária informou que sua supervisão identificou inconsistências em cessões de carteiras de crédito do Master para o BRB, promoveu investigações internas e comunicou possíveis ilícitos ao Ministério Público Federal. A autarquia afirmou ainda ter adotado medidas prudenciais para reduzir riscos sobre a instituição financeira pública.
A cronologia mostra uma sucessão de decisões institucionais em cerca de oito meses: o contrato de venda foi firmado em março de 2025; as conversas entre representantes de Vorcaro e o governo ocorreram em julho; o Banco Central rejeitou a transferência de controle em setembro; e a crise culminou posteriormente na liquidação do Master. A sequência ajuda a separar a existência de contatos políticos da efetiva decisão regulatória, que permaneceu formalmente sob responsabilidade do Banco Central.
Também chama atenção o fato de que parte das alegações mais graves surgiu em propostas de colaboração que foram rejeitadas. Assim, o acervo atual reúne registros eletrônicos, decisões administrativas, depoimentos e alegações de investigados em diferentes estágios. O tratamento jurídico de cada elemento depende da comprovação independente e da evolução dos inquéritos.
Governo prepara mudança sobre bets enquanto caso Master repercute no Congresso
Em paralelo ao avanço das revelações sobre o Master, Lula deve anunciar nesta sexta-feira, 25 de setembro, medidas para restringir ou proibir as apostas eletrônicas no país. Até o momento, a medida ainda está em fase de anúncio e não deve ser tratada como norma já publicada.
A eventual mudança ocorrerá em um setor que o próprio governo federal regulamentou. A Lei nº 14.790, de dezembro de 2023, estabeleceu regras para as apostas de quota fixa e incluiu os jogos on-line no regime regulado. Desde janeiro de 2025, apenas empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda podem operar nacionalmente.
A intenção de mudar novamente esse marco regulatório, segundo as informações divulgadas nesta semana, prevê uma medida provisória com alcance sobre apostas esportivas e cassinos on-line. O governo também discute mecanismos para reduzir os impactos financeiros sobre clubes de futebol que dependem de patrocínios do setor.
Os dois assuntos — o caso Master e a revisão das regras para bets — têm em comum a presença de decisões políticas em setores com forte participação privada. No caso bancário, a apuração depende agora do cruzamento entre mensagens, documentos financeiros e atos oficiais. No mercado de apostas, o próximo marco será o conteúdo efetivamente publicado pelo Executivo e sua posterior análise pelo Congresso Nacional e pelo Judiciário, caso haja contestação.
Fontes:
Banco Central do Brasil – decisão de 3 de setembro de 2025 que indeferiu a operação de aquisição do Banco Master pelo BRB e informações sobre inconsistências identificadas nas operações de crédito do conglomerado
Senado Federal – pronunciamentos de Davi Alcolumbre e Jaques Wagner sobre as acusações relacionadas ao Banco Master e ao Credcesta
Agência Brasil – informações sobre as rejeições das propostas de colaboração premiada apresentadas por Daniel Vorcaro pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República
Presidência da República – posicionamento oficial sobre os contatos de Lula com Daniel Vorcaro e a alegação de recebimento de presente
Ministério da Fazenda – legislação e regras vigentes para as apostas de quota fixa no Brasil
Banco de Brasília – comunicado ao mercado sobre o indeferimento da operação de aquisição do Banco Master pelo Banco Central








