Operação Barco de Papel: PF Investiga Aplicações Irregulares de R$ 1 Bilhão do Rioprevidência no Banco Master
A manhã desta sexta-feira (23) marcou um novo e turbulento capítulo na crise bancária que assola o mercado financeiro nacional desde o final do ano passado. A Polícia Federal (PF) deflagrou a Operação Barco de Papel, uma ação ostensiva que visa desmantelar um suposto esquema de gestão fraudulenta e desvio de recursos públicos envolvendo as aplicações do Rioprevidência no Banco Master. A operação lança luz sobre a fragilidade dos controles de governança em regimes próprios de previdência e coloca em xeque a segurança dos proventos de milhares de aposentados e pensionistas do Estado do Rio de Janeiro.
O foco central das investigações recai sobre um montante expressivo: cerca de R$ 1 bilhão em recursos previdenciários que foram direcionados para uma instituição financeira que, à época dos aportes, já apresentava sinais de deterioração em seus balanços. A liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pelo Banco Central em 19 de novembro de 2025, foi o estopim que revelou a exposição tóxica do fundo fluminense. Agora, autoridades federais buscam entender como e por que o comitê de investimentos aprovou a alocação de recursos do Rioprevidência no Banco Master em volumes tão expressivos e em produtos de risco elevado, como Letras Financeiras (LF).
Neste dossiê especial, analisaremos as minúcias da operação da PF, os impactos fiscais para o Rio de Janeiro, a responsabilidade dos gestores envolvidos e a complexa situação jurídica dos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) diante da ausência de garantias do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
A Anatomia da Operação Barco de Papel
A Operação Barco de Papel não recebe este nome por acaso. A nomenclatura é uma alusão direta à fragilidade dos ativos que lastreavam as operações financeiras investigadas. Segundo fontes ligadas à Polícia Federal, os investimentos do Rioprevidência no Banco Master teriam sido construídos sobre bases insustentáveis, simulando uma solidez que a instituição financeira já não possuía.
As ordens judiciais, expedidas pela 6ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, autorizaram o cumprimento de quatro mandados de busca e apreensão em endereços estratégicos na capital fluminense. O objetivo é recolher provas documentais e digitais — como atas de reuniões, trocas de e-mails corporativos e registros de transações — que comprovem a tese de gestão temerária e fraudulenta na condução dos ativos do Rioprevidência no Banco Master.
Entre os alvos principais da ação da PF estão figuras da alta cúpula da gestão do fundo de previdência. Os mandados miram Deivis Marcon Antunes, atual diretor-presidente da instituição; Eucherio Lerner Rodrigues, ex-diretor de investimentos; e Pedro Pinheiro Guerra Leal, que ocupou o cargo de diretor de investimento interino até sua exoneração em dezembro de 2025. A tese dos investigadores é que pode ter havido “indução em erro de repartição pública”, um termo jurídico que, na prática, sugere que os relatórios de risco foram maquiados ou ignorados para permitir o aporte bilionário.
O Fluxo do Dinheiro: Aportes em Meio à Crise
O cronograma das transações é uma das peças-chave para entender a gravidade do caso envolvendo o Rioprevidência no Banco Master. De acordo com o inquérito, que teve início em novembro de 2025 (logo após a liquidação do banco), os aportes sob suspeita ocorreram entre outubro de 2023 e agosto de 2024.
Durante esse período, o mercado financeiro já observava com cautela a expansão agressiva do passivo do Banco Master. No entanto, na contramão da prudência exigida na gestão de recursos públicos, o fundo previdenciário do Rio de Janeiro intensificou suas posições. A Polícia Federal identificou nove operações financeiras específicas que, somadas, totalizam aproximadamente R$ 970 milhões.
Esses recursos do Rioprevidência no Banco Master foram alocados majoritariamente em Letras Financeiras (LF). Diferente de um CDB comum, a Letra Financeira é um instrumento de dívida de longo prazo, geralmente com vencimentos superiores a dois anos, e que possui cláusulas de subordinação. Isso significa que, em caso de quebra do banco — o que efetivamente ocorreu —, os detentores desses papéis são os últimos a receber, ficando atrás de depositantes comuns e de outros credores privilegiados.
A escolha por Letras Financeiras com vencimentos previstos apenas para 2033 e 2034 levanta suspeitas sobre a motivação dos gestores. Por que travar a liquidez de quase R$ 1 bilhão do Rioprevidência no Banco Master por uma década em uma instituição de médio porte? A PF apura se houve pagamento de vantagens indevidas (corrupção passiva) ou se a operação visava inflar artificialmente o balanço do banco para atrair outros investidores desavisados.
Crimes Contra o Sistema Financeiro Nacional
O arcabouço jurídico que sustenta a Operação Barco de Papel é vasto. A Polícia Federal tipificou as condutas investigadas em uma série de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional (Lei 7.492/86) e contra a administração pública. A centralidade das acusações orbita a gestão fraudulenta e o desvio de recursos públicos através das aplicações do Rioprevidência no Banco Master.
Além disso, os investigados poderão responder por fraude à fiscalização ou ao investidor. Este ponto é crucial, pois sugere que os órgãos de controle interno do Rioprevidência, ou mesmo o conselho fiscal, podem ter sido ludibriados com informações falsas sobre a saúde financeira do Banco Master ou sobre a classificação de risco (rating) dos papéis adquiridos. A associação criminosa também figura entre as tipificações, indicando que a PF acredita na existência de um conluio organizado e hierarquizado para lesar o patrimônio dos servidores estaduais.
A complexidade das operações estruturadas utilizadas para viabilizar o investimento do Rioprevidência no Banco Master exige uma perícia contábil detalhada. Muitas vezes, gestores fraudulentos utilizam-se de camadas de veículos de investimento ou fundos exclusivos para ocultar o destinatário final dos recursos ou para burlar limites de exposição a um único emissor, regras básicas de prudência exigidas pela resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN) para RPPS.
A Liquidação do Banco Master e o Impacto no Rioprevidência
Para compreender a magnitude do prejuízo potencial, é necessário revisitar o evento de 19 de novembro de 2025. Naquela data, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, encerrando as atividades da instituição devido ao comprometimento patrimonial severo e à existência de graves violações às normas legais e regulamentares.
Foi nesse momento que a “bomba” dos investimentos do Rioprevidência no Banco Master detonou. Com a liquidação, os ativos da instituição são congelados e passam a ser geridos por um liquidante nomeado pela autoridade monetária. Os credores entram em uma fila de recebimento que pode levar anos para ser processada.
Em nota oficial divulgada após a liquidação e reiterada agora com a operação da PF, o Rioprevidência tentou acalmar os ânimos. A autarquia confirmou o aporte de cerca de R$ 960 milhões, mas sustentou que “o pagamento de aposentadorias e pensões está assegurado, sem qualquer risco para os segurados do Estado do Rio de Janeiro. O argumento financeiro utilizado é de que o valor investido no Rioprevidência no Banco Master, embora vultoso em termos absolutos, é inferior a uma folha de pagamento mensal do estado, que gira em torno de R$ 1,9 bilhão.
Contudo, analistas de contas públicas veem essa declaração com ceticismo. A perda de R$ 1 bilhão em patrimônio líquido representa um golpe duro na solvência de longo prazo do fundo. O déficit atuarial — a diferença entre o que o fundo tem e o que precisará pagar no futuro — é agravado por perdas de capital dessa magnitude. A má alocação do Rioprevidência no Banco Master pode não paralisar os pagamentos neste mês, mas certamente pressionará o Tesouro Estadual a realizar aportes suplementares no futuro, drenando recursos que poderiam ir para saúde, educação ou segurança.
O Vácuo de Proteção: RPPS e a Ausência do FGC
Um dos aspectos mais técnicos e dramáticos deste caso reside na natureza jurídica dos investidores. É fundamental esclarecer que os Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), como é o caso do fundo fluminense, não contam com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Muitos servidores acreditam, erroneamente, que os investimentos do Rioprevidência no Banco Master estariam cobertos pela garantia ordinária de até R$ 250 mil ou pela garantia especial de DPGE. No entanto, o regulamento do FGC é explícito ao limitar sua cobertura a investidores do setor privado e pessoas físicas. Os fundos públicos e institucionais, como os RPPS, estão fora desse guarda-chuva de proteção.
Isso significa que o Rioprevidência se torna um credor quirografário (sem garantia real) ou subordinado (no caso das Letras Financeiras) na massa falida do Banco Master. A recuperação dos valores aplicados pelo Rioprevidência no Banco Master dependerá exclusivamente do que sobrar após a venda dos ativos do banco — carteiras de crédito, imóveis e outros bens. Historicamente, em liquidações extrajudiciais de instituições financeiras no Brasil, a taxa de recuperação para credores nessa classe costuma ser baixa e o processo extremamente moroso, estendendo-se frequentemente por mais de uma década.
A fiscalização dos RPPS cabe ao Ministério da Previdência Social e aos Tribunais de Contas Estaduais. A operação da PF levanta questões sérias sobre a eficácia dessa supervisão prévia. Como foi possível alocar quase R$ 1 bilhão do Rioprevidência no Banco Master sem que os alertas de risco disparassem nos painéis de controle dos órgãos fiscalizadores?
Governança Corporativa e Dever de Diligência
O caso reacende o debate sobre a profissionalização e a blindagem política na gestão dos fundos de pensão de servidores. o dever de diligência (duty of diligence) exige que os gestores ajam com o cuidado que um “homem ativo e probo” costuma empregar na administração de seus próprios negócios. A concentração de investimentos do Rioprevidência no Banco Master, uma instituição que não figurava entre os maiores bancos do país (Top 5) e que possuía classificações de risco questionadas por partes do mercado, sugere, no mínimo, uma falha grave na política de investimentos.
Especialistas em compliance bancário apontam que a diversificação é a regra de ouro da gestão de ativos. A exposição massiva a um único emissor de médio porte contradiz os princípios básicos de prudência. A investigação da PF deverá esclarecer se essa concentração no Rioprevidência no Banco Master foi fruto de imperícia técnica ou de dolo (intenção de fraudar) motivado por interesses escusos.
A Operação Barco de Papel também investiga a atuação das consultorias de investimento que assessoravam o Rioprevidência. Frequentemente, os regimes próprios contratam empresas terceirizadas para validar suas alocações. Se houver comprovação de que consultores recomendaram a compra de papéis do Banco Master ignorando os riscos evidentes, eles também poderão ser responsabilizados civil e criminalmente.
O Futuro das Investigações
À medida que a Polícia Federal analisa o material apreendido nos escritórios e residências dos diretores do fundo, novas ramificações do esquema podem surgir. A quebra do sigilo bancário e fiscal dos envolvidos será determinante para rastrear o caminho do dinheiro e verificar se houve enriquecimento ilícito ligado à aprovação dos aportes do Rioprevidência no Banco Master.
Para o mercado financeiro, a operação serve como um alerta severo sobre o risco de contraparte em negociações com entidades públicas. Para os servidores do Rio de Janeiro, resta a apreensão e a exigência de transparência total. Embora o governo garanta a continuidade dos pagamentos, a erosão de R$ 1 bilhão em ativos é um dano irreparável ao patrimônio coletivo do funcionalismo.
A saga dos investimentos do Rioprevidência no Banco Master está longe de terminar. Ela se tornará, infelizmente, mais um estudo de caso sobre como a má gestão e a falta de governança podem dissipar a poupança previdenciária construída com o esforço de décadas de trabalho dos servidores públicos. A sociedade aguarda agora que a Justiça Federal e a Polícia Federal conduzam a Operação Barco de Papel com a celeridade e o rigor que a gravidade dos fatos exige.






