A Samarco registrou produção de 4,3 milhões de toneladas de pelotas e finos de minério de ferro no terceiro trimestre de 2026, crescimento de 4% em relação ao mesmo perÃodo do ano passado e de 10% na comparação com o segundo trimestre. O volume representa o maior resultado trimestral desde a retomada das operações, em dezembro de 2020, após cinco anos de paralisação provocada pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG). Os números foram apresentados na prévia operacional divulgada nesta quinta-feira (22) pela mineradora, controlada em partes iguais pela Vale (VALE3) e pela australiana BHP.
Entre janeiro e setembro, a produção acumulada atingiu 12 milhões de toneladas, avanço de 7% sobre os nove primeiros meses de 2025. O desempenho também representa o maior volume registrado para esse intervalo desde o reinÃcio das atividades. A evolução consolida a recuperação da capacidade produtiva da companhia, que atualmente opera com aproximadamente 60% de sua estrutura instalada.
O crescimento da produção, entretanto, não foi acompanhado pelo mesmo desempenho comercial. As vendas recuaram na comparação anual, criando uma diferença entre o volume produzido e a quantidade comercializada. O contraste será um dos indicadores relevantes para avaliar a eficiência operacional e os resultados financeiros da Samarco nos próximos trimestres.
Produção da Samarco cresce, mas vendas recuam 5%
As vendas de pelotas e finos de minério de ferro somaram 3,9 milhões de toneladas entre julho e setembro, volume praticamente estável em relação ao trimestre anterior. Na comparação com o terceiro trimestre de 2025, porém, houve queda de 5%. O resultado indica que o crescimento da produção ainda não se traduziu em expansão proporcional dos embarques e das vendas.
No acumulado dos nove primeiros meses de 2026, a Samarco comercializou 11 milhões de toneladas, crescimento de apenas 1% em relação ao mesmo perÃodo do ano passado. A diferença entre os indicadores evidencia ritmos distintos de recuperação. Enquanto a produção avançou 7% no ano, o crescimento comercial permaneceu limitado.
Os dados detalhados da BHP mostram que a produção superou as vendas em aproximadamente 420 mil toneladas no terceiro trimestre. Considerando os nove primeiros meses, essa diferença acumulada chega a cerca de 1 milhão de toneladas. Embora o descompasso possa estar associado à formação de estoques e ao calendário de embarques, os números divulgados não permitem determinar isoladamente sua composição ou identificar a causa predominante.
A diferença merece acompanhamento porque volumes produzidos e ainda não comercializados podem afetar as necessidades de capital de giro. A transformação dessa produção em receita depende das condições de venda, da demanda internacional e da logÃstica de exportação. Por isso, os próximos balanços deverão esclarecer como a companhia está administrando a relação entre produção, comercialização e estoques.
Preço médio das pelotas sobe para US$ 125,1 por tonelada
Apesar da queda no volume vendido, a Samarco conseguiu melhorar o preço médio realizado das pelotas de minério de ferro. O indicador alcançou US$ 125,1 por tonelada no terceiro trimestre, aproximadamente 4% acima do valor registrado no mesmo perÃodo de 2025. Em relação ao segundo trimestre deste ano, o preço permaneceu praticamente estável.
Segundo a mineradora, o resultado reflete melhores condições comerciais e a recuperação dos prêmios pagos pelas pelotas. Esses produtos passam por um processo de aglomeração do minério de ferro e são utilizados como matéria-prima pela indústria siderúrgica. Suas caracterÃsticas técnicas podem proporcionar vantagens operacionais em determinadas rotas de produção de aço.
A valorização do preço realizado ajuda a compensar parcialmente a redução dos volumes comercializados. Entretanto, não é suficiente para determinar o desempenho da receita total, já que o resultado depende da composição das vendas, dos contratos e dos diferentes produtos negociados. Custos de produção, despesas logÃsticas e variações cambiais também influenciam a rentabilidade.
A evolução dos preços será particularmente relevante diante dos investimentos previstos para ampliar a capacidade industrial da Samarco. A companhia precisa sustentar margens operacionais capazes de financiar suas atividades e cumprir compromissos financeiros e ambientais. O comportamento da demanda internacional por pelotas continuará sendo um fator decisivo nesse processo.
Samarco avança na retomada operacional após desastre de Mariana
O desempenho do terceiro trimestre representa mais uma etapa da recuperação da mineradora, que permaneceu com as operações paralisadas entre novembro de 2015 e dezembro de 2020. A interrupção ocorreu após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, desastre que deixou 19 mortos e provocou danos ambientais e sociais ao longo da bacia do Rio Doce. A tragédia atingiu comunidades de Minas Gerais e do EspÃrito Santo e deu origem a um extenso processo de reparação.
A retomada começou com aproximadamente 26% da capacidade produtiva instalada, após a implantação de mudanças nos sistemas de processamento e destinação de rejeitos. A Samarco passou a utilizar tecnologias de filtragem e empilhamento a seco, além da disposição controlada de rejeitos ultrafinos em cava confinada. O novo modelo operacional foi apresentado pela empresa como parte de sua estratégia para reduzir os riscos associados à atividade minerária.
Em dezembro de 2024, a reativação de estruturas industriais permitiu elevar a capacidade operacional para aproximadamente 60%. O processo incluiu a retomada do segundo concentrador no complexo de Germano, em Minas Gerais, e de outra usina de pelotização em Ubu, no EspÃrito Santo. Essas instalações integram um sistema de produção e transporte de minério que conecta as operações mineiras ao terminal portuário.
A ampliação da produção representa uma recuperação industrial importante, mas não encerra as obrigações decorrentes do desastre. A companhia continua vinculada aos compromissos de reparação ambiental, indenização e recuperação socioeconômica das regiões atingidas. A expansão dos negócios ocorre, portanto, paralelamente à execução dessas responsabilidades.
Investimentos de R$ 13,8 bilhões miram capacidade plena em 2028
A Samarco mantém um programa de investimentos de R$ 13,8 bilhões destinado a recuperar integralmente sua capacidade produtiva instalada a partir de 2028. A iniciativa envolve a reativação de unidades industriais, a modernização de equipamentos e a ampliação da infraestrutura necessária ao processamento do minério. O objetivo é alcançar uma produção anual próxima de 26 milhões de toneladas de pelotas e finos.
O projeto inclui a retomada do Concentrador 1, no complexo de Germano, e das usinas de pelotização 1 e 2, em Ubu. A execução também depende de novas estruturas de filtragem, instalações auxiliares e sistemas de suporte operacional. Trata-se da etapa final do planejamento de recuperação gradual iniciado após a paralisação das atividades.
A conclusão do programa poderá ampliar significativamente a presença da Samarco no mercado internacional de pelotas. Entretanto, o aumento da capacidade produtiva não garante, isoladamente, maior rentabilidade. A demanda siderúrgica, os preços das commodities e a eficiência de execução dos investimentos determinarão os resultados econômicos da expansão.
O cronograma também exige acompanhamento das condições ambientais e regulatórias. A mineração depende de licenças, monitoramento contÃnuo das estruturas e cumprimento das exigências técnicas aplicáveis à s operações. A capacidade de conciliar expansão industrial com segurança operacional será um dos principais desafios da companhia.
Samarco pode alcançar meta de produção de 2026 com desaceleração no último trimestre
Os resultados divulgados permitem uma avaliação adicional sobre o desempenho esperado para o encerramento do ano. Em agosto, a Samarco havia informado uma projeção de produção entre 14,7 milhões e 15,4 milhões de toneladas para 2026. Considerando o acumulado de aproximadamente 12 milhões de toneladas até setembro, a companhia precisaria produzir entre 2,7 milhões e 3,4 milhões de toneladas no quarto trimestre para atingir essa faixa.
O volume necessário seria inferior aos 4,3 milhões de toneladas registrados entre julho e setembro. Isso sugere que a meta divulgada anteriormente pode ser alcançada mesmo com uma redução no ritmo produtivo durante os últimos três meses do ano. A comparação, porém, não incorpora eventuais paradas de manutenção, restrições operacionais ou alterações nas projeções da empresa.
Outro aspecto importante é a comparação com o desempenho de 2025, quando a Samarco produziu 15,11 milhões de toneladas. A faixa projetada para 2026 contempla tanto um resultado ligeiramente inferior quanto uma pequena expansão sobre o volume do ano anterior. Assim, o recorde trimestral não significa necessariamente que a companhia encerrará o exercÃcio com um novo recorde anual.
A produção adicional também precisará ser acompanhada pela capacidade de comercialização. Caso o ritmo dos embarques permaneça inferior ao da produção, a diferença entre os dois indicadores poderá continuar aumentando. A divulgação dos resultados completos permitirá avaliar com maior precisão os efeitos sobre estoques, receitas e geração de caixa.
Qual o impacto da recuperação da Samarco para a Vale (VALE3)?
A recuperação operacional da Samarco possui relevância estratégica para a Vale (VALE3), que detém 50% de participação na mineradora. A outra metade pertence à BHP, uma das maiores companhias globais do setor. O desempenho da joint venture influencia a avaliação dos investimentos mantidos pelas duas controladoras no Brasil.
Para a Vale, a expansão da Samarco pode contribuir para ampliar a exposição ao mercado de pelotas de minério de ferro, produto utilizado por siderúrgicas em diferentes regiões. Entretanto, os volumes da joint venture não devem ser confundidos com a produção diretamente atribuÃda à s operações próprias da Vale. A consolidação dos resultados depende das regras contábeis aplicáveis à participação societária.
A BHP também acompanha a evolução da produção e mantém projeções especÃficas para sua participação no empreendimento. No relatório operacional divulgado em 20 de outubro, o grupo australiano confirmou a produção atribuÃvel de aproximadamente 2,2 milhões de toneladas no trimestre, equivalente à metade do volume total da Samarco. A companhia destacou o desempenho dos concentradores como principal fator para o crescimento.
A importância econômica da joint venture vai além da produção mineral. A operação envolve instalações industriais, minerodutos, infraestrutura portuária, contratos internacionais e investimentos de longo prazo. Sua recuperação pode fortalecer a atividade econômica nas regiões onde está instalada, embora os efeitos financeiros para as controladoras dependam da rentabilidade efetiva do negócio.
Resultados financeiros mostrarão alcance da recuperação
A divulgação da prévia operacional confirma a continuidade da recuperação produtiva da Samarco, mas ainda deixa questões relevantes sobre sua situação financeira. O avanço da produção, a queda das vendas e a melhora dos preços realizados apresentam efeitos distintos sobre receitas, custos e necessidade de capital de giro. A análise conjunta desses indicadores será necessária para determinar a qualidade do resultado trimestral.
O balanço completo do terceiro trimestre está previsto para 9 de novembro, conforme o calendário de relações com investidores da companhia. A divulgação deverá trazer informações sobre receita lÃquida, geração operacional de caixa, despesas financeiras e evolução do endividamento. Esses dados permitirão avaliar se os ganhos de eficiência industrial estão se convertendo em melhora econômica sustentável.
O histórico financeiro também merece atenção. A Samarco encerrou formalmente seu processo de recuperação judicial em agosto de 2025, após uma reestruturação de passivos superiores a R$ 50 bilhões. O encerramento representou um avanço na reorganização financeira, mas a empresa continua obrigada a cumprir os compromissos previstos nos acordos e instrumentos financeiros aplicáveis.
A prévia do terceiro trimestre mostra que a mineradora alcançou um novo patamar de produção desde o reinÃcio das atividades. O desafio agora é transformar esse desempenho em crescimento comercial, geração de caixa e capacidade de investimento, sem comprometer as obrigações ambientais e financeiras. A consolidação dessa trajetória dependerá tanto da execução de seu plano industrial quanto das condições do mercado internacional de minério de ferro.
Fontes
Samarco Mineração — Prévia operacional do terceiro trimestre de 2026, divulgada em 22 de outubro.
BHP — Operational Review for the Quarter Ended 30 September 2026, publicado em 20 de outubro de 2026.
Samarco Mineração — Resultados operacionais do segundo trimestre de 2026, divulgados em agosto.
Samarco Mineração — Resultados operacionais de 2025 e relatório da administração.
Samarco Mineração — Plano de retomada operacional e programa de investimentos para recuperação integral da capacidade produtiva.
Samarco Relações com Investidores — Calendário de divulgação dos resultados do terceiro trimestre de 2026.
Samarco Mineração — Comunicado sobre o encerramento da recuperação judicial, de agosto de 2025.







