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Tarcísio diz confiar nas urnas após Flávio Bolsonaro levar suspeitas a embaixadores

Governador paulista defende debate sobre projetos, enquanto declarações do senador provocam reação do TSE, representação eleitoral e nova tensão na pré-campanha presidencial.

por Júlia Campos
23/07/2026 às 11h31
em Política
Tarcísio - Gazeta Mercantil

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou nesta quarta-feira, 22 de julho, que confia nas urnas eletrônicas e defendeu que os candidatos concentrem a disputa eleitoral na apresentação de projetos para o Brasil. A declaração foi dada na capital paulista após o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) associar, diante de representantes estrangeiros, equipamentos utilizados nas eleições brasileiras a suspeitas de manipulação registradas na Venezuela, sem apresentar provas de interferência no sistema nacional.

A fala de Tarcísio ocorre no momento em que o episódio deixa o campo estritamente político e chega à Justiça Eleitoral. A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, apresentou uma representação ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra Flávio Bolsonaro e outros parlamentares, sob a alegação de divulgação de informações falsas sobre as urnas eletrônicas.

Leia também: Quem é Willer Tomaz, advogado próximo de Flávio Bolsonaro citado pela PF como “hub financeiro” no caso INSS.

“Eu confio nas urnas. Até porque, se eu não confiasse, não estava disputando a eleição. Foram as urnas que me trouxeram aqui”, declarou o governador durante evento em comemoração aos 25 anos da BandNewsTV.

Tarcísio acrescentou que a discussão política deveria ser direcionada às demandas do país. “Acho que a gente tem que discutir projeto. O importante é discutir projeto, olhar o que o Brasil está precisando. Sair dessa discussão que não vai levar a lugar nenhum.”

A resposta colocou o governador paulista em posição diferente da adotada por Flávio Bolsonaro, embora Tarcísio tenha evitado uma crítica direta ao senador. Pré-candidato à reeleição em São Paulo, ele procurou afastar sua campanha de questionamentos sobre a confiabilidade do sistema eletrônico de votação.

Flávio Bolsonaro cita Smartmatic em encontro com diplomatas

As declarações que provocaram a reação foram feitas por Flávio Bolsonaro na terça-feira, 21 de julho, durante o evento “Debatendo o Brasil”, realizado em Brasília com a participação de representantes diplomáticos.

Ao abordar a condenação que tornou seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), inelegível, o senador mencionou um documento da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos, a CIA, relacionado a suspeitas de manipulação em eleições realizadas na Venezuela em 2010.

Flávio afirmou que parte das urnas utilizadas no Brasil teria a mesma origem de equipamentos ligados à Smartmatic, empresa mencionada no documento americano. A declaração não foi acompanhada de elementos que demonstrassem a participação da companhia na fabricação, programação ou gestão das urnas eletrônicas brasileiras.

O senador também pediu que governos estrangeiros enviassem observadores para acompanhar as eleições de 2026. A observação internacional é admitida no processo eleitoral brasileiro, mas a associação apresentada entre a Smartmatic e o sistema de votação nacional foi contestada pelo TSE.

A Justiça Eleitoral sustenta que o sistema brasileiro foi desenvolvido e é administrado pelo próprio tribunal. A Smartmatic não fornece as urnas eletrônicas nem os programas utilizados para registrar e totalizar os votos no país.

TSE nega participação da empresa nas urnas brasileiras

O Tribunal Superior Eleitoral já havia se manifestado oficialmente sobre o tema. Segundo a Corte, a Smartmatic não fabrica equipamentos eleitorais usados no Brasil e não participa do desenvolvimento dos programas responsáveis pela votação ou pela apuração.

A empresa prestou serviços técnicos específicos à Justiça Eleitoral em processos anteriores, como treinamento de profissionais de suporte e atividades ligadas à transmissão de dados. Esses contratos, no entanto, não davam à companhia acesso ao código-fonte das urnas ou controle sobre a contabilização dos votos.

A Smartmatic também participou de uma licitação destinada à fabricação de urnas, mas não venceu o processo. A produção dos equipamentos ficou sob responsabilidade de outra empresa contratada pelo tribunal.

A distinção é relevante porque o argumento apresentado por Flávio Bolsonaro relacionou a origem de equipamentos brasileiros a suspeitas envolvendo a Venezuela. Para o TSE, essa vinculação não corresponde à estrutura tecnológica e institucional usada nas eleições brasileiras.

O sistema de votação nacional é submetido a diferentes etapas de verificação, incluindo testes públicos de segurança, auditorias, inspeção de códigos e participação de partidos políticos, entidades fiscalizadoras e instituições convidadas.

Federação aciona TSE contra Flávio e aliados

Após a repercussão das declarações, a Federação Brasil da Esperança protocolou uma representação no TSE contra Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Gustavo Gayer (PL-GO) e Júlia Zanatta (PL-SC).

A federação acusa os parlamentares de divulgar uma associação falsa entre a Smartmatic e as urnas eletrônicas brasileiras. Segundo os partidos, o documento da CIA mencionado pelo senador trata da atuação da companhia na Venezuela e não apresenta referências ao sistema eleitoral do Brasil.

A ação pede que o tribunal determine a retirada de publicações que reproduzam essa vinculação. Os partidos também querem que os parlamentares sejam impedidos de divulgar novamente a alegação, sob pena de multa.

O valor solicitado é de R$ 30 mil para cada representado, caso a Justiça Eleitoral reconheça a prática de irregularidade ao final do processo.

A apresentação da representação não significa que os parlamentares tenham sido condenados. O caso ainda será analisado pelo TSE, e todos os envolvidos têm direito ao contraditório e à ampla defesa.

A Corte precisará avaliar o conteúdo integral das manifestações, o alcance das publicações e a possibilidade de enquadramento das declarações nas regras que combatem a desinformação eleitoral.

Episódio remete à reunião de Jair Bolsonaro com embaixadores

A presença de diplomatas no evento elevou a repercussão política da fala de Flávio Bolsonaro. O episódio foi comparado à reunião realizada por Jair Bolsonaro com embaixadores estrangeiros no Palácio da Alvorada, em julho de 2022.

Na ocasião, o então presidente questionou a segurança das urnas eletrônicas e apresentou acusações contra o sistema de votação sem comprovação. O encontro utilizou a estrutura da Presidência da República e teve transmissão por canais oficiais.

Em junho de 2023, o TSE declarou Jair Bolsonaro inelegível por oito anos por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação. A decisão considerou que a reunião foi utilizada para atacar a credibilidade do processo eleitoral.

Os dois casos possuem diferenças jurídicas relevantes. Flávio Bolsonaro não ocupa a Presidência da República, e o evento de 2026 não foi organizado no Palácio do Planalto ou transmitido por uma emissora pública.

Além disso, a representação atual concentra-se na divulgação de informações sobre a Smartmatic e nas publicações feitas por parlamentares. Não há, até o momento, decisão que equipare a situação ao processo enfrentado pelo ex-presidente.

Ainda assim, o precedente amplia a atenção sobre discursos dirigidos a representantes estrangeiros com questionamentos relacionados às urnas eletrônicas. A Justiça Eleitoral considera que alegações falsas podem afetar a confiança dos eleitores e a legitimidade das instituições responsáveis pelo pleito.

Tarcísio evita confronto direto com o bolsonarismo

A manifestação de Tarcísio foi construída para reafirmar sua confiança no sistema eleitoral sem transformar o episódio em um rompimento com Flávio Bolsonaro ou com o ex-presidente Jair Bolsonaro.

O governador mantém relação política com o bolsonarismo e depende de parcela desse eleitorado em sua tentativa de reeleição em São Paulo. Ao mesmo tempo, procura consolidar uma imagem de gestor institucional e preservar interlocução com setores empresariais e políticos que rejeitam novos conflitos com o TSE.

A estratégia ficou evidente quando Tarcísio direcionou sua resposta para a necessidade de discutir projetos. Em vez de analisar detalhadamente a fala de Flávio, o governador classificou o debate sobre a confiabilidade das urnas como uma discussão que não contribuiria para resolver os problemas do país.

O posicionamento também reduz o risco de que a campanha estadual seja contaminada por uma controvérsia nacional. Tarcísio disputa a reeleição em um cenário no qual segurança pública, infraestrutura, privatizações, educação e situação fiscal devem ocupar espaço central.

Questionamentos sobre as urnas poderiam deslocar o debate para uma agenda institucional com elevado potencial de desgaste, principalmente diante das decisões anteriores do TSE.

Tarifa dos Estados Unidos também entra no embate político

Tarcísio também foi questionado sobre a participação de Flávio Bolsonaro nas discussões relacionadas à tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos a determinados produtos brasileiros.

O senador participou de uma audiência com o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos e apresentou um documento defendendo o adiamento das tarifas. Entre os argumentos, citou os impactos econômicos da medida e o calendário eleitoral brasileiro.

Ao chegar ao evento em São Paulo, Tarcísio afirmou que Flávio “não tem nada a ver” com a decisão americana. Posteriormente, o governador disse que a questão deveria ser analisada pelo ponto de vista comercial, e não por meio de narrativas políticas.

“Os países estão ali tentando defender os seus interesses. O americano defendendo o interesse dele, e o brasileiro tem que defender o seu interesse também”, afirmou.

A tarifa amplia o peso econômico da disputa. Empresas exportadoras brasileiras podem enfrentar redução de competitividade no mercado americano, renegociação de contratos, pressão sobre margens e necessidade de buscar novos compradores.

A medida também adiciona tensão às relações entre Brasília e Washington. O governo brasileiro avalia mecanismos diplomáticos e comerciais de resposta, enquanto setores afetados pressionam por negociações que reduzam os impactos sobre produção, emprego e investimentos.

Declarações abrem nova frente jurídica na pré-campanha

O episódio deixa Flávio Bolsonaro diante de uma controvérsia jurídica e política antes da formalização das candidaturas de 2026. O senador busca ampliar sua presença no debate presidencial, mas passa a enfrentar uma representação que pode impor limites à divulgação de conteúdos sobre as urnas eletrônicas.

Sua defesa sustenta que ele não questionou a integridade das eleições brasileiras e que o pedido de observadores internacionais não representa desconfiança no sistema. A avaliação do TSE dependerá, contudo, não apenas desse pedido, mas também da associação feita entre a Smartmatic e os equipamentos utilizados no país.

Para Tarcísio, a resposta permite reafirmar compromisso institucional e manter distância de alegações já rejeitadas pela Justiça Eleitoral. O governador evitou atacar Flávio Bolsonaro, mas deixou claro que pretende disputar a eleição sob as regras vigentes e que reconhece a legitimidade das urnas que o levaram ao governo paulista.

A decisão do TSE sobre os pedidos apresentados pela Federação Brasil da Esperança poderá definir o alcance jurídico da controvérsia. Até lá, o caso mantém o sistema eletrônico de votação no centro da pré-campanha e força as principais lideranças conservadoras a esclarecer publicamente suas posições sobre a Justiça Eleitoral.

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