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Tarifaço de Trump pode atingir mais de um terço das exportações brasileiras para os EUA, aponta CNI

Estudo indica que novas sobretaxas comerciais podem afetar setores estratégicos como siderurgia, açúcar e etanol e ampliar a pressão sobre a indústria brasileira.

por Camila Braga
16/06/2026 às 09h17
em Economia
Acordo Mercosul União Europeia Entra Em Vigor E Impulsiona Exportações Do Brasil-Gazeta Mercantil

A possível retomada do tarifaço comercial pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, poderá atingir 35,2% das exportações brasileiras destinadas ao mercado americano, segundo estudo divulgado nesta segunda-feira (15) pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). O levantamento considera a hipótese de aplicação de novas sobretaxas decorrentes das investigações conduzidas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), que apura supostas práticas comerciais consideradas injustas por Washington.

Com base na balança comercial de 2024, a entidade calcula que cerca de US$ 14 bilhões em produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos poderiam ser diretamente afetados pela imposição de novas tarifas. A estimativa reforça as preocupações do setor produtivo diante da crescente escalada protecionista adotada pela administração Trump e de seus potenciais efeitos sobre a indústria brasileira.

Leia também: 6 ações internacionais para navegar no tarifaço de Trump em agosto.

A análise ocorre em um momento de elevada incerteza para o comércio internacional, marcado pela retomada de investigações comerciais, pela revisão de acordos e pela adoção de novas barreiras tarifárias por parte da maior economia do mundo.

Investigação do USTR mira práticas comerciais do Brasil

No início deste mês, o USTR divulgou um relatório preliminar sobre a investigação aberta em julho de 2025 contra o Brasil, com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos.

A investigação apura supostas práticas consideradas prejudiciais às empresas americanas, incluindo alegações de favorecimento ao Pix em detrimento de multinacionais de meios de pagamento e a incidência de tarifas sobre as importações de etanol.

O relatório sugere a aplicação de uma sobretaxa adicional de 25% sobre produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos, embora preveja uma extensa lista de exceções.

O documento, contudo, ainda não representa uma decisão definitiva. O processo encontra-se na fase de consultas públicas e deverá ser submetido a audiências em Washington antes que a Casa Branca decida se implementará as medidas propostas.

Em paralelo, outra investigação baseada na Seção 301 examina a utilização de trabalho forçado em cadeias produtivas globais. Diferentemente do primeiro processo, essa apuração não é direcionada exclusivamente ao Brasil e abrange diversos parceiros comerciais dos Estados Unidos.

Exportações brasileiras já enfrentam tarifas adicionais

O comércio entre Brasil e Estados Unidos já opera sob um ambiente de maior restrição tarifária.

Desde fevereiro, uma parcela significativa das exportações brasileiras está sujeita a uma tarifa mínima de 10%, imposta pela administração Trump após uma reformulação jurídica do pacote tarifário originalmente anunciado pelo governo americano.

A mudança ocorreu depois que a Suprema Corte dos Estados Unidos considerou inconstitucional parte relevante do tarifaço inicialmente proposto pela Casa Branca.

Além da tarifa mínima, alguns produtos seguem submetidos a tributações mais elevadas.

Os setores de aço e alumínio, por exemplo, permanecem sujeitos a uma sobretaxa de 25%, aplicada com base na Seção 232 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, que permite restrições comerciais por razões de segurança nacional.

Segundo a CNI, a retomada de novas tarifas ampliaria significativamente o alcance das barreiras comerciais impostas ao Brasil e elevaria os custos de acesso ao mercado americano.

Mais da metade das exportações poderia ser afetada

Os cálculos da entidade mostram que, consideradas conjuntamente as duas investigações conduzidas pelo USTR, 31,6% das exportações brasileiras para os Estados Unidos em 2024 — cerca de US$ 13 bilhões — ficariam sujeitas a novas sobretaxas.

Uma parcela adicional de 3,6% das vendas externas, equivalente a aproximadamente US$ 1 bilhão, seria atingida exclusivamente pelas medidas relacionadas à investigação sobre trabalho forçado.

Com a combinação dos dois grupos de produtos, a fatia das exportações brasileiras sujeitas a sobretaxas subiria para 35,2%.

Quando são incluídas as tarifas adicionais já existentes sobre os setores de aço e alumínio, o percentual de exportações brasileiras afetadas alcança 54,1% do total comercializado com os Estados Unidos.

Isso significa que mais da metade das vendas brasileiras ao mercado americano poderia ficar submetida a algum tipo de tarifa adicional, elevando os custos para exportadores e reduzindo a competitividade de produtos nacionais.

Siderurgia e agronegócio estão entre os setores mais expostos

O estudo da CNI aponta que alguns segmentos seriam particularmente vulneráveis à retomada do tarifaço.

Entre os produtos que poderiam enfrentar uma sobretaxa de até 37,5% estão o ferro-gusa não ligado, o açúcar de cana em forma sólida, o sebo não comestível, o álcool etílico não desnaturado e molduras de madeira de pinho.

Outro grupo de produtos seria atingido por uma tarifa adicional de 12,5%, caso do minério de ferro e seus concentrados, das lajes de quartzito, dos óleos essenciais de laranja, do silício e da pasta química de madeira.

O setor siderúrgico figura entre os mais expostos em razão da integração produtiva existente entre Brasil e Estados Unidos.

Diversas multinacionais operam com cadeias industriais compartilhadas, nas quais unidades brasileiras exportam insumos que são posteriormente processados ou transformados em fábricas instaladas em território americano.

A elevação das tarifas poderia comprometer a competitividade dessas operações, aumentar custos e provocar ajustes nas estratégias de produção e investimento das empresas.

Decisão da Suprema Corte trouxe alívio temporário aos exportadores

A CNI ressalta que as exportações brasileiras sofreram forte impacto em 2025 com a implementação do pacote tarifário inicialmente anunciado pelo governo Trump.

A decisão posterior da Suprema Corte dos Estados Unidos, ao limitar parte das medidas, e a adoção de uma tarifa mínima de 10% foram interpretadas pelo setor produtivo como um alívio em relação ao cenário mais severo inicialmente projetado.

Mesmo assim, o ambiente de incerteza permanece elevado.

Empresários e representantes da indústria acompanham com atenção o andamento das investigações comerciais conduzidas pelo USTR e os sinais emitidos pela Casa Branca em relação à política comercial americana.

O temor é que novas tarifas reduzam a competitividade dos produtos brasileiros justamente em um dos principais mercados de destino das exportações nacionais.

Escalada protecionista amplia incertezas para a indústria brasileira

Segundo o levantamento da CNI, mesmo em um cenário de intensificação das barreiras comerciais, cerca de 45,9% das exportações brasileiras para os Estados Unidos, o equivalente a aproximadamente US$ 19 bilhões com base nos dados de 2024, permaneceriam sem incidência de tarifas adicionais.

Ainda assim, a ampliação das sobretaxas teria potencial para provocar efeitos relevantes sobre setores estratégicos da economia brasileira, especialmente aqueles mais dependentes do mercado americano.

Os Estados Unidos figuram entre os principais parceiros comerciais do Brasil e representam destino importante para produtos industrializados, de maior valor agregado e com forte geração de empregos.

A eventual retomada do tarifaço de Donald Trump, portanto, adiciona um novo elemento de risco às perspectivas do comércio exterior brasileiro, em um momento em que empresas exportadoras já enfrentam um ambiente internacional marcado por maior protecionismo, disputas geopolíticas e crescente fragmentação das cadeias globais de produção.

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