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Brasil vê oportunidades no petróleo da Venezuela e acelera articulação para retomada comercial

Missão empresarial liderada pelo Itamaraty realizou 90 reuniões em Caracas e mapeou oportunidades em energia, agronegócio e indústria.

por Alice Nascimento
19/06/2026 às 18h11
em Negócios
Brasil Vê Oportunidades No Petróleo Da Venezuela E Acelera Articulação Para Retomada Comercial-Gazeta Mercantil

O governo brasileiro intensificou os esforços para reaproximar o setor produtivo nacional da Venezuela e identificou novas oportunidades de negócios, especialmente na exploração de petróleo, durante missão empresarial realizada nesta semana em Caracas. Coordenada pelo Ministério das Relações Exteriores, a iniciativa reuniu representantes de dez setores econômicos e promoveu cerca de 90 reuniões com autoridades e empresários venezuelanos, em uma estratégia voltada à eventual retomada do comércio bilateral após anos de retração econômica no país vizinho.

A agenda foi liderada pelo secretário de Promoção Comercial, Ciência, Tecnologia, Inovação e Cultura do Itamaraty, embaixador Alex Giacomelli, que se reuniu com integrantes da equipe econômica do governo venezuelano, incluindo o vice-presidente para a área econômica, Calixto Ortega, além de ministros responsáveis pelas áreas de comércio exterior, hidrocarbonetos e relações exteriores.

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Segundo o Itamaraty, um dos principais pontos identificados durante a missão envolve oportunidades ligadas ao setor de petróleo na Venezuela, especialmente em projetos de infraestrutura energética capazes de viabilizar a exploração de reservas em regiões que enfrentam limitações operacionais.

A iniciativa ocorre em um momento de renovação dos esforços diplomáticos do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para reconstruir as relações econômicas entre Brasil e Venezuela, que perderam relevância ao longo da última década em razão da crise econômica venezuelana e da deterioração das relações comerciais entre os dois países.

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Petróleo aparece como principal vetor de interesse empresarial

Entre os segmentos representados na missão, o setor de petróleo foi apontado como uma das áreas com maior potencial de negócios. A avaliação compartilhada por integrantes da comitiva é que a Venezuela continua possuindo uma das maiores reservas de petróleo do mundo, mas enfrenta desafios estruturais para ampliar a produção e modernizar sua infraestrutura energética.

De acordo com informações apresentadas pelo Itamaraty, empresas brasileiras identificaram oportunidades relacionadas à instalação de geradores termoelétricos em regiões específicas do território venezuelano. A proposta permitiria ampliar a oferta de energia para projetos de exploração de petróleo, viabilizando investimentos em áreas atualmente limitadas por questões de infraestrutura.

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A avaliação é que fornecedores brasileiros podem ocupar espaço relevante nesse processo caso a Venezuela avance em sua recuperação econômica e consiga atrair novos investimentos para o setor energético.

Além do petróleo, a missão também discutiu possibilidades de cooperação em equipamentos industriais, maquinário agrícola, autopeças, setor automotivo, indústria farmacêutica e transformação de plásticos.

O movimento reforça a percepção de que o petróleo poderá funcionar como um dos motores de uma eventual retomada econômica venezuelana, abrindo oportunidades para empresas brasileiras em diferentes cadeias produtivas ligadas à energia.

Comércio bilateral ainda está distante dos níveis históricos

Apesar da retomada do diálogo institucional entre os governos dos dois países, os números do comércio bilateral permanecem muito abaixo dos patamares registrados durante o auge da relação econômica entre Brasil e Venezuela.

Dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostram que a corrente de comércio entre os dois países somou aproximadamente US$ 837 milhões em 2025.

O valor representa apenas uma fração do recorde histórico registrado em 2008, quando o intercâmbio comercial alcançou cerca de US$ 5,1 bilhões.

A forte redução reflete anos de recessão na economia venezuelana, dificuldades cambiais, sanções internacionais, instabilidade política e restrições à capacidade de importação do país.

Para integrantes do governo brasileiro e representantes do setor privado, entretanto, os indicadores atuais sugerem a possibilidade de uma reconstrução gradual dessa relação comercial caso o ambiente econômico venezuelano apresente sinais consistentes de recuperação.

A estratégia brasileira tem sido ampliar a interlocução institucional e manter presença junto aos setores produtivos locais para garantir posicionamento competitivo em uma eventual retomada mais robusta dos negócios.

Agronegócio e proteína animal buscam recuperar espaço perdido

Outro eixo importante da missão esteve relacionado ao agronegócio e à proteína animal, segmentos que já tiveram forte presença nas exportações brasileiras para a Venezuela.

Participaram da comitiva representantes da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), da Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz) e de outras entidades ligadas à produção agroindustrial.

Segundo representantes do setor, as reuniões permitiram aprofundar contatos já existentes com empresas venezuelanas e avaliar perspectivas para futuras operações comerciais.

Historicamente, a Venezuela figurou entre mercados relevantes para exportadores brasileiros de carne de frango, carne suína e material genético avícola. A retração econômica do país, porém, reduziu significativamente esse fluxo ao longo dos últimos anos.

Executivos presentes na missão destacaram que o objetivo imediato não é a retomada acelerada das exportações, mas sim a construção de relacionamentos comerciais capazes de facilitar futuras negociações quando houver condições econômicas mais favoráveis.

A avaliação predominante entre os participantes é que o mercado venezuelano continua apresentando potencial relevante de consumo em diversos segmentos ligados à alimentação.

Setor de máquinas acompanha reorganização da economia venezuelana

A indústria brasileira de máquinas e equipamentos também vê a Venezuela como um mercado com potencial de recuperação no médio prazo.

Representantes da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) participaram das reuniões e avaliaram que a aproximação atual tem caráter estratégico para acompanhar a reorganização dos setores industrial, agrícola e energético venezuelanos.

O setor vive uma queda expressiva nas vendas para o país vizinho ao longo da última década.

Dados apresentados pela entidade mostram que as exportações brasileiras de máquinas para a Venezuela somaram US$ 831,4 milhões em 2012. Em 2025, esse volume caiu para aproximadamente US$ 64,1 milhões.

A retração evidencia a dimensão das perdas registradas nas relações comerciais bilaterais e ajuda a explicar o interesse do setor empresarial brasileiro em acompanhar possíveis mudanças no cenário econômico venezuelano.

Entre os produtos que despertam maior interesse do mercado local estão tratores, colheitadeiras e equipamentos destinados à modernização da produção agrícola.

Executivos da indústria avaliam que manter canais de diálogo ativos poderá ser decisivo para que fornecedores brasileiros recuperem participação de mercado caso a atividade econômica venezuelana avance nos próximos anos.

Missão reúne entidades estratégicas da indústria brasileira

A comitiva organizada pelo Itamaraty contou com representantes de importantes entidades empresariais nacionais.

Participaram da agenda instituições como Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), Instituto Nacional do Plástico (INP), Sindipeças, Abimaq, Abiec, ABPA, Abiarroz e outras organizações setoriais.

A diversidade dos segmentos envolvidos demonstra que o interesse brasileiro na Venezuela vai além do petróleo e envolve uma estratégia mais ampla de inserção econômica.

A percepção compartilhada entre empresários e representantes governamentais é que uma eventual recuperação da economia venezuelana poderá gerar demanda por produtos industriais, alimentos, insumos agrícolas, equipamentos e serviços especializados.

Nesse contexto, o governo brasileiro busca posicionar empresas nacionais para aproveitar oportunidades que possam surgir a partir da normalização gradual do ambiente econômico do país vizinho.

Retomada comercial depende da recuperação econômica venezuelana

Embora o governo brasileiro tenha identificado oportunidades relevantes durante a missão, especialistas e representantes empresariais ressaltam que a retomada efetiva do comércio bilateral ainda depende de fatores estruturais.

Entre eles estão a evolução da economia venezuelana, a estabilidade institucional do país, a capacidade de financiamento das importações e o ambiente regulatório para investimentos estrangeiros.

O petróleo permanece no centro dessa equação.

A recuperação da produção energética venezuelana é vista como um dos principais elementos capazes de impulsionar receitas, ampliar investimentos e estimular a demanda por bens e serviços importados.

Por essa razão, as oportunidades ligadas ao petróleo identificadas pela missão brasileira ganharam destaque nas discussões realizadas em Caracas.

Ao mesmo tempo, o governo brasileiro sinaliza que pretende organizar novas missões empresariais voltadas ao mercado venezuelano, ampliando o diálogo entre empresas dos dois países e monitorando os desdobramentos econômicos locais.

A estratégia busca reconstruir uma relação comercial que já foi uma das mais relevantes da América do Sul e que hoje opera em níveis significativamente inferiores aos registrados durante seu período de maior intensidade.

Petróleo recoloca Venezuela no radar estratégico das exportações brasileiras

A identificação de oportunidades ligadas ao petróleo reforça a percepção de que a Venezuela voltou ao radar estratégico de parte do empresariado brasileiro. Embora os desafios econômicos permaneçam significativos, a movimentação coordenada pelo Itamaraty indica uma tentativa de antecipar posicionamentos comerciais diante de uma possível reativação gradual da economia venezuelana.

Com comércio bilateral ainda distante dos níveis históricos, mas com setores industriais, agrícolas e energéticos retomando interlocução direta, a agenda construída em Caracas representa um dos movimentos mais relevantes de aproximação econômica entre Brasil e Venezuela nos últimos anos, colocando novamente o petróleo no centro das relações comerciais entre os dois países.

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