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Tesouro Reserva atinge R$ 8 bilhões e ultrapassa 190 mil clientes

por Lucas Correa
29/10/2026 às 17h04
em Economia
Tesouro Reserva Atinge R$ 8 Bilhões E Ultrapassa 190 Mil Clientes-Gazeta Mercantil

O Tesouro Reserva ultrapassou R$ 8 bilhões em aplicações pouco mais de cinco meses após chegar ao mercado, ampliando a presença do Tesouro Direto no segmento de investimentos de curto prazo. Dados do Banco do Brasil referentes a 19 de outubro de 2026 indicavam um saldo de R$ 8,01 bilhões, distribuído entre mais de 190 mil clientes. O avanço ocorre enquanto o produto continua disponível exclusivamente pela instituição financeira estatal, apesar de ter sido desenvolvido em parceria com o Tesouro Nacional e a B3 para facilitar o acesso dos brasileiros a títulos públicos.

Lançado em 11 de maio, o investimento foi concebido para atender principalmente quem precisa manter dinheiro disponível para despesas imprevistas, sem deixá-lo integralmente parado em uma conta corrente. A aplicação começa em R$ 1, acompanha a taxa básica de juros da economia e permite solicitar resgates a qualquer momento, inclusive à noite, em fins de semana e feriados, observadas as condições operacionais do sistema.

O desempenho inicial coloca o Tesouro Reserva entre os produtos de maior visibilidade recente do programa de títulos públicos destinados a pessoas físicas. A expansão, no entanto, ainda acontece dentro de uma base de distribuição limitada: para investir, o cliente precisa utilizar os canais do Banco do Brasil. A ampliação para outras instituições financeiras depende da evolução do projeto e da habilitação de novos distribuidores, sem um cronograma público confirmado para a oferta generalizada.

Aplicações cresceram mais de 40% desde julho

A trajetória do produto mostra expansão tanto em volume financeiro quanto em número de investidores. Em divulgação publicada em agosto, o Banco do Brasil informou que as aplicações haviam alcançado R$ 5,7 bilhões em julho, com participação de 167,3 mil correntistas.

Na comparação com esse patamar, o saldo de R$ 8,01 bilhões registrado em 19 de outubro representa acréscimo de R$ 2,31 bilhões, equivalente a aproximadamente 40,5%. O número de clientes, por sua vez, passou de 167,3 mil para mais de 190 mil, aumento superior a 13,5% no período. Os cálculos consideram os valores divulgados pelo banco para as respectivas datas de referência.

Em comunicado de 14 de outubro, a instituição já havia informado que o volume superava R$ 7,5 bilhões e a base ultrapassava 186 mil clientes. Os dados mais recentes reforçam a continuidade da expansão, embora os valores divulgados em cada marco não permitam determinar com precisão a variação diária das aplicações.

A diferença entre o crescimento do saldo financeiro e o da quantidade de clientes também merece atenção. O volume aplicado aumentou proporcionalmente mais do que a base de investidores entre julho e outubro. Isso, isoladamente, não comprova que cada cliente tenha ampliado seus aportes: o saldo agregado pode variar conforme novas aplicações, retiradas e rendimentos acumulados, enquanto a quantidade de participantes também se altera.

O banco informou ainda que o produto já alcançava mais de 80% dos municípios brasileiros e estava presente nos 27 estados. A abrangência geográfica sugere que a distribuição digital permite levar o investimento a localidades distintas, embora a oferta esteja vinculada à infraestrutura comercial de uma única instituição.

Parceria reúne Tesouro Nacional, B3 e Banco do Brasil

O Tesouro Reserva foi anunciado como parte das iniciativas para ampliar a participação de pessoas físicas no mercado de títulos públicos. O Tesouro Nacional responde pela emissão dos títulos federais, enquanto a B3 fornece a infraestrutura de mercado e o Banco do Brasil atua como distribuidor nesta primeira etapa.

A escolha do banco estatal para a fase inicial permite disponibilizar a modalidade aos clientes já atendidos pelos seus canais digitais. No anúncio de lançamento, o Tesouro Nacional informou que o produto começaria a ser oferecido à base de correntistas do BB, enquanto outras instituições se encontravam em fase de testes para uma eventual distribuição futura.

A estratégia reduz a complexidade de entrada para quem já mantém relacionamento bancário com a instituição. As aplicações e os resgates são feitos pelo aplicativo Investimentos BB, com movimentação integrada à conta corrente. O modelo evita que o investidor precise administrar uma estrutura adicional apenas para constituir uma reserva financeira.

A concentração da distribuição, porém, distingue o Tesouro Reserva de uma oferta amplamente disponível por diferentes bancos e corretoras. Embora o título pertença ao programa federal, o acesso prático depende dos canais habilitados. Para quem não tem conta no Banco do Brasil, a disponibilidade de investimento continua condicionada à abertura de relacionamento com a instituição, conforme as regras informadas pelo produto.

O estágio atual também permite ao banco acompanhar a utilização da ferramenta e os padrões de movimentação antes de uma eventual expansão comercial. Não há, contudo, dados públicos suficientes para concluir que o crescimento observado decorra exclusivamente de uma estratégia de aquisição de novos investidores, em vez de migração de recursos de clientes que já investiam em outros produtos.

Rendimento acompanha a Selic e dispensa marcação a mercado

O Tesouro Reserva foi desenvolvido para manter o dinheiro acessível sem abrir mão da remuneração vinculada à taxa básica de juros. O rendimento corresponde a 100% da Selic, com acumulação a partir do primeiro dia útil após a aplicação.

Sua principal característica técnica é a ausência de marcação a mercado. Nos títulos tradicionais negociados no Tesouro Direto, o preço pode oscilar antes do vencimento conforme mudanças nas taxas de juros e nas expectativas do mercado. A possibilidade de vender um título em momento desfavorável pode levar o investidor a receber um valor diferente daquele que esperava ao observar a rentabilidade contratada para o vencimento.

No Tesouro Reserva, a estrutura foi concebida para não apresentar essas oscilações negativas de preço provocadas pela marcação a mercado. O saldo disponível, portanto, oferece maior previsibilidade para quem pretende utilizar o dinheiro em um prazo curto ou diante de uma emergência.

Isso não significa que o investimento esteja livre de todas as condições e riscos existentes em uma aplicação financeira. O rendimento continua ligado à Selic, a tributação incide sobre os ganhos e as operações dependem da infraestrutura que permite movimentar os recursos. A ausência de marcação a mercado também não deve ser confundida com uma taxa de retorno fixa, independente da política monetária.

O desenho atende a uma necessidade diferente daquela de quem busca maximizar ganhos em prazos longos. Para formar uma reserva de emergência, a prioridade costuma ser combinar preservação do capital, disponibilidade de recursos e remuneração. Para objetivos de longo prazo, outros títulos públicos podem oferecer características mais adequadas, dependendo do prazo e da tolerância às oscilações.

A possibilidade de aplicar apenas R$ 1 reduz a barreira de entrada. O limite informado pelo Banco do Brasil é de R$ 500 mil em aplicações por investidor ao mês, sem restrição equivalente para resgates. A combinação permite construir a reserva de forma gradual, sem exigir um desembolso inicial elevado.

Tributação e custódia afetam o rendimento líquido

Apesar da simplicidade operacional, o Tesouro Reserva não é isento de impostos. O Imposto de Renda incide sobre os rendimentos, segundo a tabela regressiva dos investimentos de renda fixa. As alíquotas diminuem conforme aumenta o prazo de permanência do dinheiro aplicado.

A tributação é de 22,5% para aplicações de até 180 dias; 20% entre 181 e 360 dias; 17,5% entre 361 e 720 dias; e 15% para investimentos mantidos por mais de 720 dias. O imposto é descontado sobre os ganhos, não sobre o total do dinheiro investido.

Também pode haver cobrança do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) quando o resgate ocorre nos primeiros 30 dias da aplicação. A alíquota segue uma tabela regressiva e chega a zero após esse período. Por isso, a rentabilidade efetivamente recebida depende do tempo de permanência dos recursos, além do comportamento da Selic.

Há ainda a taxa de custódia da B3, fixada em 0,20% ao ano para o produto, com isenção para valores de até R$ 10 mil investidos por CPF. Conforme as regras divulgadas para o Tesouro Reserva, a cobrança incide sobre a parcela que excede esse limite. Para quem mantém valores menores, a isenção reduz o custo de utilização da modalidade.

A análise do rendimento líquido deve considerar essas despesas em conjunto. Comparar apenas o percentual vinculado à Selic com a remuneração oferecida por outros investimentos pode levar a conclusões incompletas, porque os produtos têm regras tributárias, tarifas e condições de resgate diferentes.

Na prática, a modalidade reúne atributos de um título público com uma experiência digital próxima à de uma conta de movimentação. Essa combinação pode ajudar na organização de recursos de curto prazo, desde que o investidor considere o custo efetivo e mantenha o dinheiro compatível com suas necessidades de liquidez.

Tesouro Direto movimentou R$ 8,77 bilhões em setembro

Os números do Tesouro Reserva surgem em um momento de movimentação expressiva no conjunto do Tesouro Direto. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Fazenda em 29 de outubro, os investidores realizaram R$ 8,77 bilhões em aplicações no programa durante setembro de 2026. No mesmo mês, os resgates antecipados e vencimentos somaram R$ 3,94 bilhões, resultando em emissão líquida positiva de R$ 4,83 bilhões.

Os títulos vinculados à Selic, grupo que reúne o Tesouro Selic e o Tesouro Reserva nas estatísticas oficiais, somaram R$ 5 bilhões em vendas, equivalentes a 57,5% do total. Os títulos indexados à inflação responderam por R$ 2,2 bilhões, enquanto os prefixados totalizaram R$ 1,6 bilhão.

Os dados não permitem separar quanto das vendas do grupo vinculado à Selic corresponde especificamente ao Tesouro Reserva. Assim, não é possível atribuir ao produto, de forma isolada, a participação de 57,5% registrada em setembro. A estatística, contudo, mostra a relevância dos investimentos associados à taxa básica de juros na composição das compras do programa.

O relatório também aponta que 61,3% das operações de investimento em setembro envolveram valores de até R$ 1 mil. A proporção se refere à quantidade de operações, e não à parcela do volume financeiro total. O dado ajuda a dimensionar o alcance dos pequenos aportes na distribuição de títulos públicos e dialoga com a proposta do Tesouro Reserva de permitir aplicações a partir de R$ 1.

O estoque total do Tesouro Direto encerrou setembro em R$ 279,3 bilhões, alta de 2,7% em relação a agosto e de 43% na comparação com setembro de 2025. O número de investidores ativos chegou a 3,92 milhões, com acréscimo de 92.224 participantes no mês. Em 12 meses, a base ativa cresceu 22,3%.

Esses indicadores mostram que a expansão do Tesouro Reserva ocorre dentro de um programa maior, que já apresenta crescimento do estoque e da participação de investidores. Ainda assim, o desempenho individual do novo título deve ser avaliado com base nos números próprios de aplicações, clientes e resgates, e não por associação automática com o avanço de todo o Tesouro Direto.

Próxima etapa depende da ampliação da distribuição

O avanço para R$ 8 bilhões coloca o Tesouro Reserva em um estágio relevante para avaliar a aceitação de seu modelo operacional. O produto combina aporte inicial baixo, rendimento atrelado à Selic e acesso contínuo aos recursos, mas a expansão futura dependerá também da capacidade de chegar a clientes de outras instituições financeiras.

O Tesouro Nacional e a B3 indicaram no lançamento que outros distribuidores poderiam passar a oferecer a modalidade após a fase inicial. Até a data desta reportagem, porém, a oferta permanecia concentrada no Banco do Brasil, sem confirmação de uma data para a entrada de novos canais.

A ampliação da distribuição será um dos fatores a acompanhar nos próximos meses. O desempenho atual demonstra que existe uma base relevante de clientes utilizando o título, mas ainda não permite medir qual seria a demanda fora do ecossistema do BB, nem quanto do volume representa dinheiro novo destinado ao mercado de títulos públicos.

A evolução dos resgates, o crescimento da base de clientes e a eventual entrada de outras instituições ajudarão a esclarecer se o Tesouro Reserva se consolidará como uma opção de alcance mais amplo para a formação de reservas financeiras. Até lá, os resultados mostram uma expansão acelerada, sustentada por uma proposta de investimento simples e por uma distribuição ainda restrita.

Fontes:

Banco do Brasil – divulgação de aplicações e base de clientes do Tesouro Reserva em julho e outubro de 2026

Secretaria do Tesouro Nacional – comunicado de lançamento do Tesouro Reserva, características operacionais, limite de aplicação e regras tributárias

Ministério da Fazenda – dados de aplicações, resgates, estoque e investidores do Tesouro Direto em setembro de 2026

B3 Educação – características do Tesouro Reserva, rentabilidade, liquidez, tributação e taxa de custódia

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