TikTok sela acordo com Oracle e investidores para criar nova operação nos EUA e evitar banimento definitivo
O TikTok firmou um acordo histórico nesta sexta-feira (23) para reestruturar completamente suas operações na América do Norte, criando uma nova entidade independente nos Estados Unidos. A medida encerra quase seis anos de incerteza regulatória e afasta o risco iminente de banimento do aplicativo, que enfrentava um ultimato do Congresso americano e da Casa Branca.
A operação transfere o controle majoritário da plataforma para um consórcio ocidental liderado pela gigante de tecnologia Oracle e pela gestora de private equity Silver Lake, reduzindo a participação da controladora chinesa ByteDance para um patamar minoritário, inferior a 20%. O movimento representa uma das maiores reengenharia corporativas do setor de tecnologia da década, desenhada sob medida para atender às exigências de segurança nacional dos EUA sem destruir o valor de um dos ativos digitais mais cobiçados do mundo.
A Engenharia do Acordo: Quem são os novos donos
O acordo do TikTok nos EUA foi estruturado para resolver o “dilema da soberania de dados. Pelo novo desenho societário, a ByteDance deixa de ser a controladora efetiva da operação americana. Mais de 80% do capital votante e da estrutura econômica da nova companhia ficará nas mãos de investidores que não respondem à jurisdição de Pequim.
O consórcio vencedor é composto por players estratégicos:
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Oracle (Infraestrutura e Auditoria): A empresa fundada por Larry Ellison não entra apenas como investidora, mas como o pilar tecnológico da nova empresa. A Oracle será responsável por hospedar 100% dos dados dos usuários americanos em sua nuvem e terá a prerrogativa de auditar o código-fonte para garantir que não haja interferência externa. Para a Oracle, o acordo representa um contrato de nuvem bilionário e de longo prazo, fortalecendo sua posição contra AWS e Microsoft Azure.
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Silver Lake (Gestão e Eficiência): Conhecida por sua expertise em transformar empresas de tecnologia maduras (tendo liderado a reestruturação da Dell e participado da saga do Twitter), a Silver Lake traz a credibilidade de Wall Street para a mesa. Sua presença sinaliza que a nova TikTok será gerida com foco em margens de lucro e eficiência operacional.
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MGX e Capital Privado: A gestora MGX, dos Emirados Árabes Unidos, compõe o aporte financeiro, juntamente com investidores privados ligados a Michael Dell. A entrada de capital do Oriente Médio demonstra a liquidez global necessária para fechar uma equação financeira dessa magnitude.
Governança Blindada: A Era Adam Presser
Um dos pontos nevrálgicos da negociação com o governo americano foi a governança. Não bastava mudar os acionistas; era preciso mudar quem manda no dia a dia.
Pelo estatuto da nova companhia, o Conselho de Administração será composto majoritariamente por cidadãos dos Estados Unidos, com credenciais de segurança aprovadas pelas autoridades federais. Esse board terá poder de veto sobre qualquer decisão que envolva dados de usuários ou moderação de conteúdo.
Para liderar essa nova fase, Adam Presser, que atuava como chefe de operações (COO) do TikTok, assumirá o posto de CEO da nova entidade americana. Presser é visto como um executivo técnico e pragmático, com a confiança tanto dos investidores da Silver Lake quanto dos reguladores em Washington. Sua missão será “americanizar” a cultura corporativa da empresa e garantir o cumprimento das barreiras de segurança (firewalls) entre a operação dos EUA e a antiga matriz na China.
O Fator Político: A Reviravolta de Trump
A conclusão do acordo do TikTok nos EUA ocorre em um cenário político radicalmente diferente daquele que iniciou a disputa em 2020. O ex-presidente Donald Trump, que em seu primeiro mandato assinou a primeira ordem executiva para banir o aplicativo, emergiu em 2026 como um dos fiadores políticos da solução de mercado.
Em sua rede social, Trump celebrou o desfecho nesta manhã, classificando os novos controladores (Oracle e investidores americanos) como “grandes patriotas. A mudança de postura de Trump reflete um cálculo político pragmático: o TikTok se tornou uma ferramenta vital de campanha e engajamento com o eleitorado jovem. Além disso, Trump passou a ver a preservação do TikTok como uma forma de evitar o monopólio absoluto da Meta (Facebook/Instagram) no mercado de redes sociais.
Especialistas em Washington apontam que a “bênção” de Trump foi crucial para acelerar a aprovação do acordo pelos órgãos reguladores, transformando o que era uma questão de segurança nacional em uma vitória de negócios para empresas americanas.
Contexto Legal: Do Ultimato à Solução
O acordo é a resposta direta à lei aprovada pelo Congresso americano em 2024 e validada pela Suprema Corte, que impunha à ByteDance uma escolha binária: o desinvestimento forçado (divestiture) ou o banimento total das lojas de aplicativos da Apple e Google.
O prazo final, que se encerrava no início de 2025, chegou a provocar instabilidade técnica e pânico no mercado publicitário. A prorrogação das negociações permitiu a costura dessa “terceira via”, onde a ByteDance mantém uma participação econômica minoritária (passiva), mas entrega as chaves do controle.
Essa solução evita o precedente perigoso de expropriar totalmente uma empresa estrangeira, o que poderia gerar retaliações da China contra empresas americanas como Tesla ou Apple, mas atinge o objetivo de segurança nacional dos EUA.
Impacto Econômico e Mercado Publicitário
Para o mercado, a assinatura do acordo destrava um valor represado gigantesco. A incerteza jurídica que pairava sobre o TikTok nos últimos dois anos funcionava como um freio de mão para grandes anunciantes globais, que hesitavam em firmar contratos de longo prazo com uma plataforma que poderia desaparecer.
Analistas de mídia preveem uma “corrida do ouro” publicitária já no primeiro trimestre de 2026. Com a garantia de permanência, o TikTok deve acelerar agressivamente suas ferramentas de monetização, especialmente o TikTok Shop, sua frente de comércio eletrônico que visa competir diretamente com a Amazon.
Para a Creator Economy (economia dos criadores), a notícia é um alívio existencial. Milhões de pequenas empresas americanas que dependem do algoritmo do TikTok para vendas e marketing agora têm a segurança jurídica para investir em produção de conteúdo e estoque.
Desafios Técnicos: O “Projeto Texas” 2.0
Embora o acordo societário esteja assinado, o desafio técnico apenas começou. Separar o TikTok EUA do resto da infraestrutura global da ByteDance é uma tarefa de engenharia hercúlea.
A Oracle terá que supervisionar a migração de petabytes de dados e, mais importante, garantir que o algoritmo de recomendação que opera nos EUA não receba “inputs” ou diretrizes da China. O modelo, que já vinha sendo desenhado sob o nome de “Projeto Texas”, agora ganha força de lei e estrutura corporativa própria.
A dúvida que permanece é sobre a eficiência do algoritmo após essa separação. O “molho secreto” do TikTok sempre foi sua capacidade de recomendação global. Resta saber se, operando em um silo americano isolado, a plataforma manterá a mesma capacidade de retenção de usuários que a tornou um fenômeno mundial.
O acordo do TikTok nos EUA com a Oracle e a Silver Lake não é apenas uma transação comercial; é um marco na geopolítica digital. Ele estabelece o precedente de que, na era da internet fragmentada (a “Splinternet”), fronteiras nacionais ditam a estrutura de capital das Big Techs.
Para a Gazeta Mercantil, o negócio sinaliza uma vitória do capital privado americano, que absorve um ativo de inovação global, limpa seus riscos regulatórios e o prepara para, possivelmente, uma futura abertura de capital (IPO) independente em Wall Street.






