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Vale (VALE3) perde R$ 24,64 bilhões em valor de mercado desde o primeiro turno eleitoral

Dólar perto de R$ 5 e frete marítimo mais caro pressionam as perspectivas de margem da mineradora antes da divulgação dos resultados do terceiro trimestre, em 29 de outubro.

por João Souza
20/10/2026 às 15h34
em Empresas
Vale (Vale3) - Gazeta Mercantil

As ações da Vale (VALE3) perderam quase 8% entre o fechamento do mercado em 2 de outubro, último pregão antes do primeiro turno das eleições presidenciais, e 19 de outubro, enquanto o Ibovespa avançou no período. A divergência reflete a combinação de fatores específicos da mineração com mudanças nas expectativas dos investidores para a economia brasileira: petróleo mais caro, valorização do real e diferentes perspectivas para as empresas de commodities.

No intervalo analisado, a cotação da ação caiu de R$ 72,10 para R$ 66,36, uma redução de R$ 5,74 por papel. O recuo foi de aproximadamente 7,96%, segundo o histórico de preços dos pregões. A desvalorização contrasta com a recuperação do mercado acionário brasileiro após o primeiro turno, em 4 de outubro, e mostra que a entrada de recursos na Bolsa não se traduz necessariamente em valorização uniforme das empresas.

A pressão ocorre às vésperas da divulgação do balanço do terceiro trimestre, marcada para 29 de outubro, depois do fechamento do mercado. Os números serão acompanhados por investidores interessados em avaliar a evolução dos custos operacionais, o comportamento dos preços realizados do minério de ferro, o efeito do câmbio e a capacidade da companhia de preservar a geração de caixa diante das pressões logísticas.

A queda das ações não representa, por si só, uma deterioração já comprovada dos resultados financeiros. No segundo trimestre, a mineradora registrou crescimento do Ebitda pro forma e aumento das vendas de minério de ferro, cobre e níquel. O movimento dos papéis, porém, indica que o mercado também está avaliando os riscos para os resultados futuros, especialmente em um período marcado pela elevação do petróleo e pela valorização da moeda brasileira.

Custos operacionais ganharam peso na avaliação da mineradora

Os números divulgados pela própria Vale no segundo trimestre oferecem uma referência para compreender a preocupação com as margens. Entre abril e junho, o custo caixa C1 do minério de ferro chegou a US$ 24,10 por tonelada, aumento de 9% na comparação anual. Esse indicador representa os custos diretos de produção do minério, antes de outras despesas incorporadas às medidas mais abrangentes de custo.

O custo all-in, que considera uma cesta mais ampla de despesas associadas ao minério de ferro, alcançou US$ 61,60 por tonelada, alta de 18% em relação ao segundo trimestre de 2025. A diferença entre as taxas de crescimento dos dois indicadores é relevante: o aumento do custo total superou em nove pontos percentuais a expansão do custo caixa C1.

A companhia atribuiu a pressão, entre outros fatores, à valorização do real e à elevação das despesas com frete. O comportamento dos custos logísticos é especialmente importante para uma mineradora que precisa transportar grandes volumes de minério por ferrovias, portos e navios até os mercados consumidores.

A Vale revisou suas projeções para 2026. O guidance do custo caixa C1 passou a indicar uma faixa de US$ 22,50 a US$ 23,50 por tonelada. Para o custo all-in do minério de ferro, a previsão ficou entre US$ 58 e US$ 62 por tonelada. A empresa relacionou as estimativas, principalmente, à expectativa de real mais valorizado e aos preços mais elevados do petróleo.

Essas projeções ajudam a explicar por que uma companhia pode apresentar bons resultados operacionais e, simultaneamente, enfrentar pressão na Bolsa. O preço das ações incorpora expectativas sobre receitas, despesas e geração de caixa futuras, e não apenas os números do último trimestre divulgado.

A alta dos custos, contudo, não elimina os efeitos positivos de preços realizados e volumes maiores. No segundo trimestre, a Vale obteve preço realizado de US$ 95 por tonelada para os finos de minério de ferro, queda de 1% ante o trimestre anterior, mas aumento de 12% na comparação anual. O balanço entre preços de venda, produção, frete e demais despesas continuará determinante para a evolução das margens.

Petróleo caro amplia a diferença entre mineração e produção de energia

O avanço do petróleo representa um dos principais pontos de atenção para a Vale. Em 20 de outubro, o Brent superou US$ 111 por barril, atingindo o maior nível em cinco meses, em meio a tensões geopolíticas e preocupações com a oferta internacional.

Para a mineradora, o efeito não se limita aos combustíveis consumidos diretamente nas operações. O petróleo também influencia o preço do bunker, utilizado por navios de carga, e pode elevar o custo do transporte marítimo do minério de ferro. Quando o frete fica mais caro, uma parcela maior da receita obtida com as vendas é absorvida pelas despesas necessárias para levar o produto ao comprador.

O impacto depende da duração e da intensidade da alta da commodity, dos contratos de transporte e das condições comerciais negociadas pela companhia. Por isso, não é possível converter automaticamente uma elevação percentual do Brent em aumento idêntico dos custos da Vale.

A exposição ao petróleo também não é igual em todas as empresas de commodities. Para produtoras de petróleo, a valorização da matéria-prima pode elevar as receitas obtidas com a venda da produção, dependendo dos volumes comercializados, dos custos de extração, da qualidade do petróleo e das condições contratuais. Para a Vale, o mesmo movimento pode representar uma fonte de pressão sobre a logística.

Essa diferença ajuda a compreender por que investidores podem preferir ações de empresas do setor petrolífero em determinados períodos, reduzindo a exposição a companhias mais vulneráveis ao encarecimento do transporte. A Petrobras (PETR4), por exemplo, tem uma estrutura de receitas e custos diferente da mineradora, o que produz sensibilidades distintas aos preços internacionais da energia.

A valorização do petróleo, isoladamente, não comprova que tenha ocorrido uma migração direta de recursos da Vale para a Petrobras. Movimentos de carteira dependem também das avaliações de cada empresa, das perspectivas para produção e vendas, dos dividendos esperados e dos riscos específicos de cada negócio. A relação entre os dois papéis deve ser entendida como uma possível estratégia de alocação, e não como explicação única para o desempenho das ações.

A própria Vale utiliza instrumentos de proteção financeira para administrar parte da exposição às oscilações de commodities. Segundo a divulgação dos resultados do segundo trimestre, operações de hedge geraram um ganho econômico de US$ 99 milhões, equivalente a aproximadamente US$ 1,60 por tonelada de minério de ferro vendido. O benefício ajudou a compensar os efeitos dos preços mais altos do petróleo, embora não elimine a exposição da companhia a mudanças nas condições de transporte.

Valorização do real afeta a estrutura de custos

O câmbio constitui outro elemento relevante para a avaliação financeira da companhia, mas seus efeitos precisam ser distinguidos de acordo com a perspectiva analisada.

A Vale apresenta seus resultados financeiros principalmente em dólares, enquanto parte importante de sua estrutura de despesas no Brasil é denominada em reais. Quando a moeda brasileira se valoriza, salários, serviços e outros custos locais passam a representar valores maiores em dólares, mantidas as demais condições. Esse mecanismo ajuda a explicar a pressão cambial destacada pela companhia ao revisar suas projeções de custos.

A relação também afeta a leitura feita pelos investidores brasileiros. Quando o dólar cai, a conversão de receitas e ativos denominados na moeda americana para reais produz valores menores, considerados isoladamente. Entretanto, essa conversão não deve ser confundida com uma redução automática da receita operacional apresentada pela empresa em sua moeda de reporte.

Na prática, o efeito líquido do câmbio depende da composição de receitas e despesas, dos compromissos financeiros, dos instrumentos de proteção e das operações realizadas em diferentes moedas. A valorização do real pode pressionar os custos expressos em dólares sem necessariamente provocar, na mesma proporção, uma queda do resultado operacional.

Essa distinção é importante porque a análise das ações da Vale envolve dois planos diferentes. O primeiro é o desempenho econômico da companhia, medido por produção, preços realizados, despesas, lucro e geração de caixa. O segundo é a rentabilidade do investimento para o acionista brasileiro, influenciada também pela cotação em reais e pelas condições gerais do mercado financeiro.

O câmbio, portanto, não deve ser interpretado isoladamente como causa suficiente para a desvalorização das ações. Seu peso aumenta quando combinado a outros fatores que também pressionam a rentabilidade esperada, como a elevação do frete e as perspectivas para o preço do minério de ferro.

Recuperação do Ibovespa não garante valorização de todas as ações

A diferença entre o desempenho da Vale e o índice de referência da Bolsa brasileira também evidencia os limites de uma análise baseada apenas no comportamento do mercado como um todo.

Após o primeiro turno das eleições de 4 de outubro, os ativos brasileiros passaram a reagir às expectativas relacionadas ao futuro da política econômica, à condução fiscal e ao ingresso de capital estrangeiro. O resultado eleitoral e a perspectiva para o segundo turno, previsto para 25 de outubro, tornaram-se variáveis relevantes para a formação dos preços.

Esse movimento pode beneficiar diferentes segmentos por meio da redução de prêmios de risco ou da revisão das expectativas para juros, investimentos e atividade econômica. Ainda assim, a valorização de um índice não significa que todos os seus componentes apresentem fundamentos idênticos ou perspectivas equivalentes de retorno.

Empresas com maior exposição a custos domésticos podem reagir de maneira diferente às mudanças no câmbio. Companhias ligadas à energia podem ter desempenho influenciado pelo preço internacional do petróleo, enquanto empresas de mineração respondem também às condições do mercado de minério de ferro, à demanda industrial e à capacidade de transporte.

Os fluxos destinados a fundos negociados em Bolsa que replicam índices também não eliminam essa diferenciação. Embora as compras realizadas por esses fundos possam favorecer ações com participação relevante nos indicadores, o preço de cada papel continua sujeito às ordens de compra e venda, às expectativas de resultado e aos riscos próprios da companhia.

No caso da Vale, a queda observada entre 2 e 19 de outubro ocorreu mesmo diante da recuperação do mercado acionário. A diferença mostra que a conjuntura política favorável a uma parcela dos ativos não foi suficiente para neutralizar, no período, as preocupações relacionadas à estrutura de custos e à perspectiva operacional da mineradora.

Balanço de outubro deverá esclarecer a pressão sobre as margens

A próxima divulgação financeira será um ponto importante para avaliar se as preocupações com custos se confirmam nos resultados do terceiro trimestre. A Vale programou a publicação do relatório de desempenho para 29 de outubro, após o fechamento do mercado, e a teleconferência com investidores para 30 de outubro, às 11h, no horário de Brasília.

A partir do terceiro trimestre, a empresa passará a reunir as informações operacionais, comerciais e financeiras em um único Relatório de Desempenho. A mudança permitirá uma leitura integrada dos volumes produzidos, das vendas e dos indicadores financeiros, que anteriormente eram distribuídos entre documentos separados.

Entre os indicadores acompanhados pelo mercado estarão o volume de embarques de minério de ferro, os preços realizados, os custos por tonelada, as despesas logísticas e o Ebitda. A evolução da geração de caixa também será relevante para avaliar em que medida a pressão das despesas afeta a capacidade de financiar investimentos e remunerar os acionistas.

O segundo trimestre oferece uma base de comparação positiva. O Ebitda pro forma da Vale somou US$ 4,1 bilhões, alta de 19% em relação ao mesmo período de 2025. O fluxo de caixa livre recorrente alcançou US$ 1,505 bilhão, enquanto a dívida líquida expandida terminou junho em US$ 16,7 bilhões, redução de US$ 1,1 bilhão em relação ao trimestre anterior.

Esses números indicam que a companhia chegou ao segundo semestre com geração de caixa robusta, apoiada por volumes maiores e preços realizados favoráveis em seus negócios. A questão para o terceiro trimestre é verificar como essa base foi afetada pelas mudanças nas condições de câmbio, combustível e transporte.

A queda das ações, nesse contexto, não permite concluir antecipadamente que haverá deterioração dos resultados. Ela sinaliza que o mercado está atribuindo peso crescente aos fatores capazes de reduzir a rentabilidade futura da mineradora, mesmo diante dos resultados positivos apresentados no trimestre anterior.

A combinação entre petróleo caro, real valorizado e incertezas sobre o mercado de minério de ferro deverá continuar influenciando a avaliação da Vale. O balanço de 29 de outubro fornecerá dados atualizados para medir a intensidade dessa pressão e verificar se a geração de caixa e o desempenho operacional seguem suficientes para compensar o aumento das despesas.

Fontes:

Vale – divulgação dos resultados financeiros do segundo trimestre de 2026, Ebitda pro forma, geração de caixa, dívida e indicadores operacionais

Vale – relatório de produção e vendas do segundo trimestre de 2026, volumes de minério de ferro, cobre e níquel

Vale – informações sobre custos C1 e all-in, efeitos do câmbio e do bunker e revisão das projeções para 2026

Vale – calendário de divulgação dos resultados do terceiro trimestre de 2026 e consolidação das informações no Relatório de Desempenho

Tribunal Superior Eleitoral – calendário oficial das Eleições Gerais de 2026, com datas do primeiro e do segundo turno

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