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Veto da UE põe JBS (JBSS32), MBRF (MBRF3) e Minerva (BEEF3) contra o relógio

Protocolo do Ministério da Agricultura abre caminho para preservar exportações, mas propriedades precisam ser certificadas antes de 3 de setembro.

por João Souza
30/06/2026 às 19h43
em Mercados
Minerva (Beef3), Jbs (Jbss32) E Mbrf (Mbrf3) Caem Com Veto Da Ue À Carne Brasileira - Gazeta Mercantil

A ameaça de interrupção das exportações brasileiras de carne e outros produtos de origem animal para a União Europeia ganhou uma possível rota de saída, mas o setor frigorífico continua em uma corrida contra o tempo.

O Ministério da Agricultura e Pecuária aprovou um protocolo de certificação destinado a bovinos e búfalos que não tenham recebido medicamentos antimicrobianos ao longo da vida. O mecanismo poderá fornecer a base documental necessária para que o governo brasileiro tente recuperar a habilitação exigida pelo bloco europeu.

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O problema é o calendário.

As novas regras europeias serão aplicadas às remessas que entrarem na União Europeia a partir de 3 de setembro de 2026. No momento em que o protocolo começou a ser analisado pelo mercado, ainda não havia propriedades rurais certificadas pelo novo sistema.

O prazo reduzido amplia a pressão sobre toda a cadeia, envolvendo pecuaristas, certificadoras, frigoríficos e autoridades sanitárias.

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Para JBS (JBSS32), MBRF (MBRF3) e Minerva (BEEF3), a questão não deverá necessariamente provocar uma queda relevante no volume global de vendas, devido à diversificação geográfica e à possibilidade de redirecionamento da produção.

O risco mais imediato está na perda temporária de acesso a um mercado de maior valor agregado, com efeitos sobre o mix de produtos, os preços recebidos e as margens das exportações.

A Genial Investimentos considera a publicação do protocolo um avanço concreto, mas avalia que a medida, sozinha, provavelmente não será suficiente para impedir uma interrupção de curto prazo.

Na avaliação da corretora, a variável decisiva será a velocidade com que propriedades, animais e frigoríficos conseguirão entrar no novo sistema.

O que a União Europeia passou a exigir

A União Europeia estabeleceu novas condições para a entrada de animais e produtos de origem animal provenientes de países de fora do bloco.

A legislação europeia proíbe que os produtos exportados tenham origem em animais tratados com antimicrobianos para promover crescimento ou aumentar a produtividade. Também existem restrições ao uso de substâncias reservadas ao tratamento de determinadas infecções em seres humanos.

Para continuar exportando, o país precisa apresentar evidências e garantias consideradas suficientes pelas autoridades europeias.

A Comissão Europeia publica uma lista indicando quais países estão autorizados para cada espécie ou categoria de produto, como bovinos, suínos, aves, leite, ovos, mel e pescados.

O Brasil não aparece na relação atual para as principais proteínas animais que exporta ao bloco.

Isso não significa que a União Europeia tenha identificado uma doença, contaminação generalizada ou fraude na carne brasileira.

O impasse está relacionado à comprovação de que a produção destinada ao mercado europeu cumpre as novas regras sobre medicamentos antimicrobianos.

Na prática, sem a habilitação correspondente e sem um certificado sanitário compatível, as remessas abrangidas pelas regras não poderão entrar normalmente no bloco depois de 3 de setembro.

Protocolo brasileiro adota caminho mais restritivo

O protocolo aprovado pelo Ministério da Agricultura busca criar uma forma verificável de comprovar a conformidade da produção bovina.

A solução brasileira é mais restritiva do que simplesmente demonstrar que determinados medicamentos não foram utilizados para promover crescimento.

O sistema pretende certificar bovinos e búfalos que não tenham recebido medicamentos antimicrobianos durante toda a vida.

A adesão será voluntária. Entretanto, para os produtores que desejarem fornecer animais destinados à fabricação de produtos exportados para a União Europeia, a certificação tende a se tornar uma exigência comercial.

O procedimento prevê a contratação de uma certificadora credenciada, elaboração de planos sanitário e nutricional, avaliação de registros, inspeção na propriedade e identificação dos animais.

Depois da verificação do cumprimento das condições, o certificado poderá ser emitido em até sete dias.

Esse prazo, porém, corresponde apenas à etapa final do processo. Antes da emissão, a propriedade precisará estruturar controles, comprovar o histórico dos animais e demonstrar que alimentação, medicamentos e manejo seguem as regras estabelecidas.

O grande desafio será certificar não apenas fazendas isoladas, mas uma quantidade suficiente de animais para abastecer regularmente os frigoríficos habilitados a vender à Europa.

Certificação precisa alcançar toda a cadeia

O cumprimento da regra não termina na porteira da fazenda.

Para que a carne seja exportada, os animais certificados precisarão permanecer segregados e rastreáveis durante o transporte, o abate, o processamento e a preparação das cargas.

Frigoríficos terão de assegurar que animais certificados não sejam misturados com lotes que não atendam ao protocolo.

Também será necessário manter registros capazes de demonstrar a origem da carne durante auditorias oficiais.

Qualquer falha de rastreabilidade poderá impedir a emissão do certificado sanitário ou gerar questionamentos por parte das autoridades europeias.

A criação de uma cadeia segregada aumenta os custos de controle e pode limitar a quantidade de fornecedores disponíveis no curto prazo.

Frigoríficos com redes amplas de pecuaristas terão mais alternativas para selecionar propriedades aptas. Ao mesmo tempo, precisarão coordenar um número maior de participantes e padronizar procedimentos em diferentes regiões.

Monensina é um dos principais gargalos

Segundo a análise da Genial, a monensina está entre os pontos mais sensíveis para a pecuária brasileira.

A substância é utilizada em sistemas intensivos, especialmente em dietas de confinamento, para melhorar a eficiência alimentar e auxiliar no controle de determinados problemas metabólicos.

Como o protocolo brasileiro pretende certificar animais que nunca receberam medicamentos antimicrobianos, lotes manejados com monensina poderão ficar fora da rota destinada à União Europeia.

Isso faz com que a restrição não afete toda a produção bovina brasileira de maneira uniforme.

Animais criados predominantemente a pasto e propriedades que já operam sem o uso dessas substâncias poderão ter uma adaptação mais rápida.

Confinamentos que utilizam antimicrobianos em suas dietas precisarão rever o manejo ou separar uma produção específica para atender ao mercado europeu.

A mudança pode elevar custos, reduzir ganhos de eficiência e exigir substitutos nutricionais.

Também existe uma limitação temporal importante: caso a exigência seja de ausência de uso durante toda a vida, não será suficiente retirar a substância da dieta apenas nas semanas anteriores ao abate.

JBS (JBSS32) possui proteção na diversificação global

A JBS (JBSS32) possui uma estrutura geográfica diversificada, com operações em diferentes países e exposição a bovinos, aves, suínos e alimentos preparados.

Essa presença internacional diminui a dependência da carne produzida no Brasil para atender a mercados específicos.

Caso as plantas brasileiras enfrentem uma interrupção temporária, a companhia poderá, dentro das limitações comerciais, sanitárias e logísticas, utilizar origens alternativas em sua rede global.

A diversificação não elimina o impacto.

A carne brasileira possui vantagens competitivas de custo, escala e disponibilidade. A perda de acesso a determinados clientes europeus pode reduzir a rentabilidade dos produtos fabricados no país ou exigir o redirecionamento para destinos que pagam menos.

Ainda assim, a escala mundial da JBS (JBSS32) tende a amortecer o efeito consolidado.

A Genial mantém recomendação de compra para os BDRs JBSS32, com preço-alvo de R$ 95,50.

A avaliação considera que a companhia possui diferentes operações capazes de compensar pressões localizadas no mercado brasileiro.

Preço-alvo e recomendação, contudo, representam estimativas da instituição e não constituem garantia de valorização.

Minerva (BEEF3) pode utilizar outras origens

A Minerva (BEEF3) também possui uma posição relativamente favorável devido à diversificação de sua produção na América do Sul.

A companhia mantém unidades no Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Colômbia.

Argentina e Uruguai aparecem na lista europeia de países habilitados para produtos bovinos dentro das novas regras sobre antimicrobianos.

Essa presença pode permitir que a Minerva (BEEF3) reorganize parte dos embarques e utilize plantas localizadas em países autorizados para atender determinados contratos europeus.

A estratégia dependerá da disponibilidade de gado, da capacidade das unidades, das habilitações específicas de cada fábrica e das características comerciais dos produtos.

A diversificação de origens representa uma vantagem importante, mas não torna a companhia imune.

O Brasil continua sendo uma plataforma relevante de produção e exportação. Restrições simultâneas em diferentes mercados podem afetar os preços do gado, o uso das plantas e a distribuição dos volumes.

Para Minerva (BEEF3), a Genial mantém recomendação de manutenção, com preço-alvo de R$ 4,75.

MBRF (MBRF3) enfrenta questão adicional nas aves

A situação da MBRF (MBRF3) exige uma análise diferente porque sua operação reúne exposição relevante tanto à carne bovina quanto às proteínas de aves e suínos.

O protocolo publicado pelo Ministério da Agricultura trata especificamente de bovinos e búfalos.

Ele não resolve, por si só, a ausência brasileira na categoria de aves da lista europeia.

Isso significa que a cadeia de frango precisará de garantias, controles e certificações próprios para atender às exigências aplicáveis.

A produção avícola brasileira utiliza sistemas altamente integrados, nos quais empresas controlam genética, alimentação, assistência técnica, medicamentos, abate e processamento.

Essa estrutura pode facilitar a implantação de controles padronizados. Por outro lado, a escala da cadeia e o número de produtores integrados tornam qualquer adaptação operacional ampla e complexa.

A Genial mantém recomendação de compra para MBRF (MBRF3), com preço-alvo de R$ 23.

A corretora entende que o impacto consolidado pode ser administrável, mas destaca que a ausência de uma solução equivalente para aves exige monitoramento adicional.

Mercado europeu tem peso maior em margem do que em volume

A União Europeia não é o maior destino em volume da carne bovina brasileira.

A China ocupa uma posição muito mais relevante na quantidade total embarcada pelo país.

O mercado europeu, entretanto, compra cortes de maior valor agregado e participa de mecanismos como a cota Hilton, destinada a carnes bovinas de alta qualidade.

Por isso, a interrupção pode ter um efeito proporcionalmente maior sobre o preço médio e a margem do que sobre o volume total produzido pelos frigoríficos.

Quando uma carga premium deixa de ser enviada à Europa, a empresa pode tentar direcioná-la para outro comprador.

O novo destino, porém, poderá pagar menos ou demandar um produto com especificações diferentes.

O frigorífico também pode precisar alterar o processamento da carcaça para adequar os cortes à procura de outros mercados.

A consequência aparece no mix de vendas: a empresa continua vendendo carne, mas com uma composição potencialmente menos rentável.

Restrição chinesa aumenta pressão no segundo semestre

O problema europeu ocorre simultaneamente à implantação das cotas chinesas para a carne bovina importada.

Em 2026, o Brasil possui uma cota de aproximadamente 1,106 milhão de toneladas para vendas à China.

Os embarques que ultrapassarem esse volume estarão sujeitos a uma tarifa adicional de 55%, o que pode tornar muitas operações economicamente inviáveis.

Participantes do mercado estimam que o Brasil poderá consumir sua cota entre agosto e setembro, dependendo do ritmo dos embarques e da forma como a China contabilizar os volumes.

Com a União Europeia impondo novas condições em setembro e a cota chinesa se aproximando do limite, os frigoríficos podem enfrentar duas restrições relevantes no mesmo período.

A Genial denomina esse cenário de “aperto de acesso” no segundo semestre de 2026.

O risco é que uma quantidade maior de carne produzida no Brasil precise ser redirecionada simultaneamente para o mercado doméstico e para compradores alternativos.

Oferta maior pode pressionar o preço do boi

Se os frigoríficos reduzirem as compras destinadas à exportação, a demanda por gado no mercado brasileiro poderá enfraquecer.

A consequência potencial é uma queda no preço da arroba.

A análise da Genial menciona conversas de mercado que indicam a possibilidade de a arroba sair de aproximadamente R$ 350 para uma faixa entre R$ 310 e R$ 315 no segundo semestre.

A projeção não é uma certeza.

O preço dependerá da oferta de animais terminados, das escalas de abate, do consumo doméstico, do câmbio e da capacidade de abertura de novos mercados.

Um boi mais barato pode favorecer as margens dos frigoríficos, desde que as companhias consigam vender a carne sem redução proporcionalmente maior nos preços.

Para pecuaristas, o cenário é mais desafiador, pois uma queda da arroba reduz a receita e pode apertar a rentabilidade dos sistemas de confinamento.

Estados Unidos podem absorver parte dos embarques

Os Estados Unidos aparecem entre os mercados capazes de receber parte da carne que eventualmente deixar de ser enviada à China ou à Europa.

O país enfrenta limitações na oferta doméstica de bovinos e pode demandar maiores volumes importados.

Chile, países do Sudeste Asiático e outros destinos também podem participar da redistribuição.

Nenhum desses mercados, isoladamente, possui a mesma capacidade de absorção da China.

Além disso, requisitos sanitários, tarifas, cotas e preferências de consumo limitam a velocidade do redirecionamento.

A abertura de um mercado não significa que todos os produtos e todas as plantas brasileiras estejam automaticamente autorizados.

Cada negociação envolve certificados sanitários, habilitação de fábricas e definição das condições comerciais.

Genial espera acordo parcial ou adiamento

O cenário-base da Genial considera a possibilidade de um acordo parcial, adiamento ou recertificação gradual ao longo do segundo semestre.

Nesse cenário, haveria uma interrupção temporária, mas o acesso seria reconstruído antes de provocar uma deterioração relevante nos resultados anuais.

O impacto líquido sobre o Ebitda do setor seria modesto, concentrado principalmente em mix e margem.

Um cenário mais negativo ocorreria se o Brasil permanecesse fora da lista europeia por um período prolongado e, ao mesmo tempo, a cota chinesa fosse esgotada rapidamente.

Nesse caso, os frigoríficos teriam menor poder de negociação nos mercados internacionais e poderiam operar com maior ociosidade em determinadas plantas.

O cenário favorável dependerá da rápida certificação das propriedades, do reconhecimento do sistema pelas autoridades europeias e da adaptação das cadeias ainda não cobertas pelo protocolo bovino.

O que os investidores devem acompanhar

Os próximos dois meses serão decisivos para JBS (JBSS32), MBRF (MBRF3) e Minerva (BEEF3).

Entre os principais indicadores estão:

  • número de propriedades rurais certificadas;
  • quantidade de bovinos disponíveis dentro do protocolo;
  • habilitação de certificadoras;
  • reconhecimento do sistema brasileiro pela União Europeia;
  • criação de uma solução para a cadeia de aves;
  • eventual missão técnica europeia ao Brasil;
  • ritmo de utilização da cota chinesa;
  • evolução do preço da arroba;
  • redirecionamento das exportações para outros mercados;
  • mudanças nas margens dos frigoríficos.

Também será necessário acompanhar se a União Europeia aceitará uma implementação gradual ou concederá algum período adicional de adaptação.

Até que exista uma decisão formal, as empresas precisarão trabalhar com a data de 3 de setembro como limite operacional.

Protocolo reduz incerteza, mas não elimina risco

A publicação do protocolo foi importante porque deu ao setor uma referência concreta para começar a adaptação.

Sem regras nacionais, produtores e frigoríficos não saberiam quais controles implantar nem como comprovar a conformidade.

O mecanismo, entretanto, chega com pouco tempo para adesão, auditoria e certificação de uma cadeia que envolve milhares de animais e diferentes participantes.

O Brasil ainda precisa transformar o protocolo em propriedades certificadas, lotes rastreáveis e garantias aceitas oficialmente pela União Europeia.

Para as companhias, a diversificação geográfica e de proteínas reduz a possibilidade de um impacto sistêmico.

Para determinadas plantas, produtores e linhas premium, porém, o risco de interrupção é real.

A ponte técnica para preservar o mercado europeu foi construída. O resultado para JBS (JBSS32), MBRF (MBRF3) e Minerva (BEEF3) dependerá agora da velocidade com que o setor conseguir atravessá-la.

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