Daniel Vorcaro afirmou em sua proposta de colaboração premiada que R$ 5 milhões oficialmente doados à s campanhas de Jair Bolsonaro (PL) e TarcÃsio de Freitas (Republicanos) em 2022 integraram um suposto acordo para preservar a operação do Credcesta, cartão de benefÃcio consignado ligado ao grupo do Banco Master, no Estado de São Paulo. A acusação envolve o presidente do PSD, Gilberto Kassab, e foi negada por ele e por TarcÃsio. As três versões da proposta de colaboração apresentadas pelo ex-banqueiro foram recusadas pela PolÃcia Federal e pela Procuradoria-Geral da República por falta de ineditismo e de elementos suficientes de corroboração.
Os registros da Justiça Eleitoral confirmam a parte objetiva da movimentação financeira: Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro, destinou R$ 3 milhões à campanha de reeleição de Bolsonaro e R$ 2 milhões à candidatura de TarcÃsio ao governo paulista. O que não está comprovado pelos registros eleitorais é a alegação de Vorcaro de que esses repasses teriam natureza de propina ou seriam contrapartida por decisões relacionadas ao Credcesta. As doações foram declaradas oficialmente e constaram das prestações de contas das campanhas.
A versão apresentada pelo ex-dono do Master amplia a dimensão financeira do episódio. Além dos R$ 5 milhões registrados oficialmente, Vorcaro relatou aproximadamente R$ 10 milhões em pagamentos em espécie que, segundo ele, seriam destinados a campanhas do PSD por intermédio de pessoas vinculadas a Kassab. Somados, os valores apontados pelo ex-banqueiro chegam a cerca de R$ 15 milhões. Desse total, um terço corresponde às doações eleitorais formalmente registradas, enquanto os outros dois terços dependem da comprovação da versão apresentada por Vorcaro.
Zettel concentrou R$ 5 milhões nas campanhas de Bolsonaro e TarcÃsio
A distribuição dos R$ 5 milhões declarados à Justiça Eleitoral também mostra a concentração dos recursos. Bolsonaro recebeu 60% do montante, ou R$ 3 milhões, enquanto TarcÃsio recebeu os 40% restantes, equivalentes a R$ 2 milhões. Zettel figurou entre os maiores financiadores pessoa fÃsica das eleições de 2022 e foi o principal doador individual das duas campanhas.
Na narrativa apresentada por Vorcaro, entretanto, Zettel não teria sido o responsável por negociar a suposta contrapartida polÃtica. O ex-banqueiro atribui a articulação a Augusto Lima, ligado à operação do Credcesta e sócio de Vorcaro. Segundo o relato, Lima teria buscado Kassab durante a eleição paulista de 2022 para assegurar que o produto continuasse disponÃvel aos servidores estaduais caso TarcÃsio vencesse a disputa pelo Palácio dos Bandeirantes.
Vorcaro sustenta que recebeu posteriormente de Lima a informação de que teria sido acertado um pagamento vinculado aos resultados do Credcesta em São Paulo e a realização de contribuições eleitorais. A proposta de colaboração menciona 5% do resultado lÃquido da operação paulista, além das doações eleitorais e dos supostos pagamentos em espécie.
O ex-banqueiro declarou ainda que acionou Zettel para efetuar as contribuições registradas à Justiça Eleitoral. Na versão apresentada às autoridades, o cunhado não teria conhecimento da finalidade que Vorcaro agora atribui aos pagamentos. Essa afirmação também depende de comprovação independente.
Regra que abriu espaço ao cartão consignado é anterior ao governo TarcÃsio
A cronologia administrativa é um dos pontos centrais para avaliar a acusação. A modalidade de cartão de benefÃcio consignado para servidores paulistas foi criada durante o governo João Doria, antes da eleição de TarcÃsio.
O Decreto estadual nº 66.622, de 31 de março de 2022, incluiu entre as consignações facultativas a aquisição de bens e serviços e os saques emergenciais por meio de cartão de benefÃcio, estabelecendo limite de 15% da margem consignável. A norma também autorizou o credenciamento de empresas administradoras desses cartões conveniadas a instituições financeiras autorizadas pelo Banco Central.
A Secretaria da Fazenda e Planejamento regulamentou a modalidade em abril de 2022. Segundo o governo paulista, a PKL One Participações, empresa responsável pela exploração comercial do Credcesta, foi credenciada em 27 de maio daquele ano. TarcÃsio somente assumiu o governo em 1º de janeiro de 2023.
Essa sequência é importante porque afasta a possibilidade de atribuir à administração TarcÃsio o credenciamento original da PKL. Ao mesmo tempo, não elimina por si só a acusação narrada por Vorcaro: o relato do ex-banqueiro não diz que o suposto acordo teria servido para obter o credenciamento inicial, mas para assegurar a continuidade do negócio depois da troca de governo. É justamente essa alegada contrapartida posterior que exigiria comprovação adicional.
O governo paulista afirma que o credenciamento não equivale a um contrato do Estado com a empresa. Pelas regras do sistema, instituições que atendam às exigências podem ser habilitadas para oferecer produtos consignados e o servidor escolhe com qual delas contratar. O Executivo estadual sustenta que não há repasse de dinheiro público à instituição nem exclusividade concedida pelo governo.
Decreto de 2024 ampliou grupo de instituições aptas a operar consignado
Outro ponto citado no debate é o Decreto nº 69.126, assinado por TarcÃsio em 9 de dezembro de 2024. A norma alterou as regras estaduais para permitir o credenciamento de sociedades de crédito, financiamento e investimento autorizadas pelo Banco Central, além das categorias que já participavam do sistema.
A existência do decreto, isoladamente, não demonstra favorecimento à PKL. O governo de São Paulo afirma que a empresa responsável pelo Credcesta havia sido habilitada em outra categoria jurÃdica, criada ainda em 2022, e que a alteração de 2024 não foi necessária para manter sua participação no sistema.
Segundo dados divulgados pelo próprio governo paulista em resposta às acusações, a PKL respondia por 3,4% de uma base de R$ 634 milhões em operações consignadas considerada pela administração estadual, participação que teria alcançado anteriormente 5,26%. O Estado afirma que havia mais de uma centena de instituições habilitadas e que operadores como Banco do Brasil, Santander, Banco Pan, Bradesco e Caixa tinham participação superior.
Em 19 de fevereiro de 2026, o governo paulista suspendeu a celebração de novas operações vinculadas à PKL após a empresa perder as condições regulatórias necessárias para continuar atuando. Os contratos já existentes permaneceram sendo cumpridos.
Kassab nega negociação e diz nunca ter recebido valores
Gilberto Kassab rejeitou integralmente a versão de Vorcaro. O presidente do PSD afirmou nunca ter tratado de doações com o ex-banqueiro ou com Augusto Lima e disse não ter participado de qualquer negociação envolvendo o Credcesta. Ele reconheceu conhecer Lima e Thiago Botelho, apontado no relato como participante das entregas de dinheiro, mas negou ter discutido o produto com ambos.
Kassab também negou ter recebido dinheiro em espécie e classificou as acusações como fantasiosas e sem sustentação factual. Nesta semana, afirmou que o episódio deve ser investigado e disse estar tranquilo em relação à apuração.
A acusação passou a produzir efeitos na própria campanha presidencial de 2026. Kassab é candidato a vice-presidente na chapa de Ronaldo Caiado (PSD). Na sexta-feira, 4 de setembro, Caiado afirmou defender a abertura das informações e a investigação dos fatos pela PolÃcia Federal e pelo Supremo Tribunal Federal, embora tenha ressaltado que seu companheiro de chapa nega qualquer irregularidade.
TarcÃsio diz que acusação não encontra respaldo na cronologia
TarcÃsio também elevou o tom da resposta. O governador afirmou que nunca se encontrou com Vorcaro ou Zettel e disse não ter participado de qualquer discussão relacionada aos repasses. Classificou a acusação como sem sentido e sustentou que não existem comunicações, agendas ou outros elementos que demonstrem contato dele com os envolvidos.
A campanha de TarcÃsio afirma que recebeu recursos de mais de 600 doadores em 2022, cumpriu a legislação eleitoral e teve suas contas regularmente apresentadas à Justiça Eleitoral. O governo paulista acrescentou que a PKL foi credenciada durante a administração anterior e que não houve contratação direta, exclusividade ou decisão discricionária para permitir sua entrada no sistema.
Flávio Bolsonaro (PL), atual candidato à Presidência, também contestou publicamente a narrativa ao tratar do repasse destinado à campanha de seu pai. Ele argumentou que as contribuições eleitorais registradas foram realizadas por Zettel e questionou a hipótese de Kassab ter articulado recursos para Bolsonaro em 2022. A manifestação polÃtica não resolve, porém, a discussão sobre a origem econômica do dinheiro apontada por Vorcaro.
Proposta rejeitada não transforma relato em prova
O estágio jurÃdico da acusação é determinante. O relato está inserido em propostas de colaboração apresentadas por Vorcaro, mas não em um acordo de delação premiada aceito e homologado. PolÃcia Federal e PGR recusaram as três versões apresentadas pelo ex-banqueiro, avaliando que faltavam fatos suficientemente inéditos e elementos de corroboração capazes de justificar o acordo.
A Lei nº 12.850 estabelece que a defesa de um potencial colaborador deve indicar provas e elementos capazes de confirmar os fatos narrados. A legislação também determina que medidas cautelares, recebimento de denúncia e sentença condenatória não podem ser fundamentados exclusivamente nas declarações de um colaborador.
No caso das doações de 2022, portanto, há dois nÃveis distintos de informação. O primeiro é documental: os R$ 3 milhões transferidos por Zettel para Bolsonaro e os R$ 2 milhões destinados a TarcÃsio constam dos registros eleitorais. O segundo é acusatório: a tese de que o dinheiro teria sido disponibilizado por Vorcaro e constituiria contrapartida para preservar interesses do Credcesta depende de provas independentes que sustentem a narrativa.
O mesmo vale para os aproximadamente R$ 10 milhões em espécie mencionados pelo ex-banqueiro. Diferentemente das doações oficiais, essa parcela não está demonstrada pela prestação de contas eleitoral citada na apuração. A identificação de saques, entregas, destinatários finais e eventual relação entre o dinheiro e decisões administrativas seria necessária para transformar o relato em evidência verificável.
Com a repercussão polÃtica e o pedido público de investigação feito por Caiado, o caso passa agora a depender de eventual apuração formal dos elementos narrados por Vorcaro e da localização de provas que possam confirmá-los ou afastá-los. Até aqui, a existência das doações oficiais está documentada; a caracterização desses pagamentos como propina é uma acusação do ex-banqueiro, rejeitada pelos citados e ainda não comprovada.
Fontes:
Tribunal Superior Eleitoral – base de prestação de contas eleitorais de candidatos nas eleições de 2022
Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo – Decreto nº 66.622, de 31 de março de 2022, sobre cartão de benefÃcio e consignações de servidores
Secretaria da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo – normas sobre consignações e Resolução SFP nº 26, de 14 de abril de 2022
Governo do Estado de São Paulo – posicionamento e cronologia do credenciamento da PKL One Participações e suspensão de novas operações
Secretaria da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo – Decreto nº 69.126, de 9 de dezembro de 2024, sobre instituições habilitadas ao sistema de consignações
Presidência da República – Lei nº 12.850, de 2 de agosto de 2013, e regras aplicáveis à colaboração premiada e à necessidade de corroboração








