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Vorcaro diz que doações a Bolsonaro e Tarcísio foram propina negociada com Kassab

Ex-dono do Banco Master relaciona R$ 5 milhões em doações eleitorais a suposta contrapartida envolvendo o Credcesta; Kassab e Tarcísio negam.

por Carlos Menezes
05/09/2026 às 01h10
em Política
Daniel Vorcaro - Gazeta Mercantil

Daniel Vorcaro afirmou em sua proposta de colaboração premiada que R$ 5 milhões oficialmente doados às campanhas de Jair Bolsonaro (PL) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) em 2022 integraram um suposto acordo para preservar a operação do Credcesta, cartão de benefício consignado ligado ao grupo do Banco Master, no Estado de São Paulo. A acusação envolve o presidente do PSD, Gilberto Kassab, e foi negada por ele e por Tarcísio. As três versões da proposta de colaboração apresentadas pelo ex-banqueiro foram recusadas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República por falta de ineditismo e de elementos suficientes de corroboração.

Os registros da Justiça Eleitoral confirmam a parte objetiva da movimentação financeira: Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro, destinou R$ 3 milhões à campanha de reeleição de Bolsonaro e R$ 2 milhões à candidatura de Tarcísio ao governo paulista. O que não está comprovado pelos registros eleitorais é a alegação de Vorcaro de que esses repasses teriam natureza de propina ou seriam contrapartida por decisões relacionadas ao Credcesta. As doações foram declaradas oficialmente e constaram das prestações de contas das campanhas.

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A versão apresentada pelo ex-dono do Master amplia a dimensão financeira do episódio. Além dos R$ 5 milhões registrados oficialmente, Vorcaro relatou aproximadamente R$ 10 milhões em pagamentos em espécie que, segundo ele, seriam destinados a campanhas do PSD por intermédio de pessoas vinculadas a Kassab. Somados, os valores apontados pelo ex-banqueiro chegam a cerca de R$ 15 milhões. Desse total, um terço corresponde às doações eleitorais formalmente registradas, enquanto os outros dois terços dependem da comprovação da versão apresentada por Vorcaro.

Zettel concentrou R$ 5 milhões nas campanhas de Bolsonaro e Tarcísio

A distribuição dos R$ 5 milhões declarados à Justiça Eleitoral também mostra a concentração dos recursos. Bolsonaro recebeu 60% do montante, ou R$ 3 milhões, enquanto Tarcísio recebeu os 40% restantes, equivalentes a R$ 2 milhões. Zettel figurou entre os maiores financiadores pessoa física das eleições de 2022 e foi o principal doador individual das duas campanhas.

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Na narrativa apresentada por Vorcaro, entretanto, Zettel não teria sido o responsável por negociar a suposta contrapartida política. O ex-banqueiro atribui a articulação a Augusto Lima, ligado à operação do Credcesta e sócio de Vorcaro. Segundo o relato, Lima teria buscado Kassab durante a eleição paulista de 2022 para assegurar que o produto continuasse disponível aos servidores estaduais caso Tarcísio vencesse a disputa pelo Palácio dos Bandeirantes.

Vorcaro sustenta que recebeu posteriormente de Lima a informação de que teria sido acertado um pagamento vinculado aos resultados do Credcesta em São Paulo e a realização de contribuições eleitorais. A proposta de colaboração menciona 5% do resultado líquido da operação paulista, além das doações eleitorais e dos supostos pagamentos em espécie.

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O ex-banqueiro declarou ainda que acionou Zettel para efetuar as contribuições registradas à Justiça Eleitoral. Na versão apresentada às autoridades, o cunhado não teria conhecimento da finalidade que Vorcaro agora atribui aos pagamentos. Essa afirmação também depende de comprovação independente.

Regra que abriu espaço ao cartão consignado é anterior ao governo Tarcísio

A cronologia administrativa é um dos pontos centrais para avaliar a acusação. A modalidade de cartão de benefício consignado para servidores paulistas foi criada durante o governo João Doria, antes da eleição de Tarcísio.

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O Decreto estadual nº 66.622, de 31 de março de 2022, incluiu entre as consignações facultativas a aquisição de bens e serviços e os saques emergenciais por meio de cartão de benefício, estabelecendo limite de 15% da margem consignável. A norma também autorizou o credenciamento de empresas administradoras desses cartões conveniadas a instituições financeiras autorizadas pelo Banco Central.

A Secretaria da Fazenda e Planejamento regulamentou a modalidade em abril de 2022. Segundo o governo paulista, a PKL One Participações, empresa responsável pela exploração comercial do Credcesta, foi credenciada em 27 de maio daquele ano. Tarcísio somente assumiu o governo em 1º de janeiro de 2023.

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Essa sequência é importante porque afasta a possibilidade de atribuir à administração Tarcísio o credenciamento original da PKL. Ao mesmo tempo, não elimina por si só a acusação narrada por Vorcaro: o relato do ex-banqueiro não diz que o suposto acordo teria servido para obter o credenciamento inicial, mas para assegurar a continuidade do negócio depois da troca de governo. É justamente essa alegada contrapartida posterior que exigiria comprovação adicional.

O governo paulista afirma que o credenciamento não equivale a um contrato do Estado com a empresa. Pelas regras do sistema, instituições que atendam às exigências podem ser habilitadas para oferecer produtos consignados e o servidor escolhe com qual delas contratar. O Executivo estadual sustenta que não há repasse de dinheiro público à instituição nem exclusividade concedida pelo governo.

Decreto de 2024 ampliou grupo de instituições aptas a operar consignado

Outro ponto citado no debate é o Decreto nº 69.126, assinado por Tarcísio em 9 de dezembro de 2024. A norma alterou as regras estaduais para permitir o credenciamento de sociedades de crédito, financiamento e investimento autorizadas pelo Banco Central, além das categorias que já participavam do sistema.

A existência do decreto, isoladamente, não demonstra favorecimento à PKL. O governo de São Paulo afirma que a empresa responsável pelo Credcesta havia sido habilitada em outra categoria jurídica, criada ainda em 2022, e que a alteração de 2024 não foi necessária para manter sua participação no sistema.

Segundo dados divulgados pelo próprio governo paulista em resposta às acusações, a PKL respondia por 3,4% de uma base de R$ 634 milhões em operações consignadas considerada pela administração estadual, participação que teria alcançado anteriormente 5,26%. O Estado afirma que havia mais de uma centena de instituições habilitadas e que operadores como Banco do Brasil, Santander, Banco Pan, Bradesco e Caixa tinham participação superior.

Em 19 de fevereiro de 2026, o governo paulista suspendeu a celebração de novas operações vinculadas à PKL após a empresa perder as condições regulatórias necessárias para continuar atuando. Os contratos já existentes permaneceram sendo cumpridos.

Kassab nega negociação e diz nunca ter recebido valores

Gilberto Kassab rejeitou integralmente a versão de Vorcaro. O presidente do PSD afirmou nunca ter tratado de doações com o ex-banqueiro ou com Augusto Lima e disse não ter participado de qualquer negociação envolvendo o Credcesta. Ele reconheceu conhecer Lima e Thiago Botelho, apontado no relato como participante das entregas de dinheiro, mas negou ter discutido o produto com ambos.

Kassab também negou ter recebido dinheiro em espécie e classificou as acusações como fantasiosas e sem sustentação factual. Nesta semana, afirmou que o episódio deve ser investigado e disse estar tranquilo em relação à apuração.

A acusação passou a produzir efeitos na própria campanha presidencial de 2026. Kassab é candidato a vice-presidente na chapa de Ronaldo Caiado (PSD). Na sexta-feira, 4 de setembro, Caiado afirmou defender a abertura das informações e a investigação dos fatos pela Polícia Federal e pelo Supremo Tribunal Federal, embora tenha ressaltado que seu companheiro de chapa nega qualquer irregularidade.

Tarcísio diz que acusação não encontra respaldo na cronologia

Tarcísio também elevou o tom da resposta. O governador afirmou que nunca se encontrou com Vorcaro ou Zettel e disse não ter participado de qualquer discussão relacionada aos repasses. Classificou a acusação como sem sentido e sustentou que não existem comunicações, agendas ou outros elementos que demonstrem contato dele com os envolvidos.

A campanha de Tarcísio afirma que recebeu recursos de mais de 600 doadores em 2022, cumpriu a legislação eleitoral e teve suas contas regularmente apresentadas à Justiça Eleitoral. O governo paulista acrescentou que a PKL foi credenciada durante a administração anterior e que não houve contratação direta, exclusividade ou decisão discricionária para permitir sua entrada no sistema.

Flávio Bolsonaro (PL), atual candidato à Presidência, também contestou publicamente a narrativa ao tratar do repasse destinado à campanha de seu pai. Ele argumentou que as contribuições eleitorais registradas foram realizadas por Zettel e questionou a hipótese de Kassab ter articulado recursos para Bolsonaro em 2022. A manifestação política não resolve, porém, a discussão sobre a origem econômica do dinheiro apontada por Vorcaro.

Proposta rejeitada não transforma relato em prova

O estágio jurídico da acusação é determinante. O relato está inserido em propostas de colaboração apresentadas por Vorcaro, mas não em um acordo de delação premiada aceito e homologado. Polícia Federal e PGR recusaram as três versões apresentadas pelo ex-banqueiro, avaliando que faltavam fatos suficientemente inéditos e elementos de corroboração capazes de justificar o acordo.

A Lei nº 12.850 estabelece que a defesa de um potencial colaborador deve indicar provas e elementos capazes de confirmar os fatos narrados. A legislação também determina que medidas cautelares, recebimento de denúncia e sentença condenatória não podem ser fundamentados exclusivamente nas declarações de um colaborador.

No caso das doações de 2022, portanto, há dois níveis distintos de informação. O primeiro é documental: os R$ 3 milhões transferidos por Zettel para Bolsonaro e os R$ 2 milhões destinados a Tarcísio constam dos registros eleitorais. O segundo é acusatório: a tese de que o dinheiro teria sido disponibilizado por Vorcaro e constituiria contrapartida para preservar interesses do Credcesta depende de provas independentes que sustentem a narrativa.

O mesmo vale para os aproximadamente R$ 10 milhões em espécie mencionados pelo ex-banqueiro. Diferentemente das doações oficiais, essa parcela não está demonstrada pela prestação de contas eleitoral citada na apuração. A identificação de saques, entregas, destinatários finais e eventual relação entre o dinheiro e decisões administrativas seria necessária para transformar o relato em evidência verificável.

Com a repercussão política e o pedido público de investigação feito por Caiado, o caso passa agora a depender de eventual apuração formal dos elementos narrados por Vorcaro e da localização de provas que possam confirmá-los ou afastá-los. Até aqui, a existência das doações oficiais está documentada; a caracterização desses pagamentos como propina é uma acusação do ex-banqueiro, rejeitada pelos citados e ainda não comprovada.

Fontes:

Tribunal Superior Eleitoral – base de prestação de contas eleitorais de candidatos nas eleições de 2022

Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo – Decreto nº 66.622, de 31 de março de 2022, sobre cartão de benefício e consignações de servidores

Secretaria da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo – normas sobre consignações e Resolução SFP nº 26, de 14 de abril de 2022

Governo do Estado de São Paulo – posicionamento e cronologia do credenciamento da PKL One Participações e suspensão de novas operações

Secretaria da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo – Decreto nº 69.126, de 9 de dezembro de 2024, sobre instituições habilitadas ao sistema de consignações

Presidência da República – Lei nº 12.850, de 2 de agosto de 2013, e regras aplicáveis à colaboração premiada e à necessidade de corroboração

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