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Vorcaro acusa PF de intimidação e diz que delação poderia atingir integrantes do governo

Ex-dono do Banco Master relatou ameaças durante transferências, questionou a atuação da PF e afirmou ter informações sobre autoridades e integrantes do governo.

por Júlia Campos
04/09/2026 às 16h44
em Política
Vorcaro Acusa Pf De Intimidação E Diz Que Delação Poderia Atingir Integrantes Do Governo - Gazeta Mercantil - Política

Daniel Vorcaro afirmou em depoimento ao gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que sofreu intimidações enquanto estava sob custódia, encontrou resistência para negociar uma colaboração premiada com a Polícia Federal e pretendia incluir em eventual acordo informações sobre pessoas que classificou como relevantes no atual governo. O ex-dono do Banco Master também citou diretamente o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, ao relatar relações anteriores entre os dois e sustentar que essa circunstância teria dificultado suas tentativas de apresentar informações à corporação.

As declarações foram prestadas em 27 de agosto a um juiz auxiliar do gabinete de Mendonça, relator das investigações sobre o Banco Master. O Ministério Público acompanhou a oitiva, mas a equipe da Polícia Federal responsável pelo caso não esteve presente. O gabinete do ministro confirmou posteriormente que a audiência foi requerida pela defesa de Vorcaro em caráter de urgência, depois de o banqueiro alegar que vinha sofrendo graves intimidações. Segundo a explicação divulgada pelo gabinete, a exclusão dos policiais da audiência ocorreu justamente porque as acusações apresentadas pelo depoente alcançavam integrantes da instituição responsável pela investigação.

O depoimento acrescenta uma nova frente ao caso Master, mas exige uma distinção essencial: as falas de Vorcaro constituem alegações de um investigado que busca viabilizar uma colaboração premiada e não representam, por si, comprovação das condutas atribuídas a policiais ou autoridades. Até o momento, não foram apresentados publicamente elementos independentes que confirmem as ameaças descritas pelo banqueiro ou demonstrem que a direção da PF tenha interferido para impedir uma delação. Andrei Rodrigues também rejeitou a existência de proximidade nos termos sugeridos por Vorcaro e afirmou, segundo relatos publicados sobre sua versão, que esteve com o empresário apenas em um evento em Londres.

Termo de confidencialidade foi assinado um dia antes da segunda prisão

Um dos pontos centrais do depoimento é a cronologia apresentada por Vorcaro para sustentar que já tentava colaborar antes de sua segunda prisão. Segundo o banqueiro, um termo de confidencialidade relacionado às negociações para uma possível colaboração foi assinado em 3 de março de 2026. No dia seguinte, 4 de março, André Mendonça determinou sua prisão preventiva a pedido da própria Polícia Federal, que alegou risco concreto de interferência nas investigações.

A proximidade temporal entre os dois acontecimentos foi utilizada por Vorcaro para questionar a atuação da corporação. Ele classificou como fora do padrão o fato de ter sido preso no dia seguinte à formalização do termo. A sequência das datas é confirmável: o STF informou oficialmente que a nova prisão preventiva foi determinada em 4 de março, no âmbito da Operação Compliance Zero, após requerimento da PF. A decisão alcançou Vorcaro e outros investigados e citou riscos para a continuidade da apuração.

Isso, contudo, não demonstra relação causal entre a tentativa de colaboração e a prisão. O mandado foi expedido em uma investigação que já estava em andamento e resultou de pedido apresentado pela Polícia Federal ao relator. Posteriormente, em 20 de março, a Segunda Turma do Supremo manteve por unanimidade a prisão preventiva de Vorcaro e de outros investigados, referendando a decisão de Mendonça. Em junho, o ministro voltou a negar pedido de prisão domiciliar e determinou a transferência do banqueiro para o 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, a chamada Papudinha.

Há ainda uma diferença entre dois períodos mencionados no depoimento. Vorcaro afirmou que vinha tentando ser ouvido havia cerca de nove meses, o que remete aproximadamente ao período iniciado ainda em 2025, enquanto o termo de confidencialidade citado por ele foi assinado em março de 2026. As duas referências, portanto, não descrevem necessariamente a mesma etapa da tentativa de colaboração.

Banqueiro relata ameaças durante transferências sob custódia

Vorcaro fez acusações mais graves ao narrar episódios ocorridos durante seu transporte entre unidades de custódia. Ele afirmou que foi submetido a condições degradantes durante uma transferência e relatou ter ouvido frases que interpretou como advertências para que não falasse sobre determinadas pessoas. Em outro episódio, já em Brasília, disse ter sido intimidado enquanto era transportado de helicóptero.

Segundo seu relato, agentes fizeram comentários sobre a possibilidade de ele ser lançado da aeronave. Vorcaro afirmou que temeu pela própria vida. Também descreveu o uso de óculos que impediam sua visão durante o transporte e disse ter sofrido intimidações ao longo do trajeto. As declarações se somam a outras alegações de maus-tratos e tortura psicológica atribuídas pelo banqueiro a agentes envolvidos em sua custódia.

Nenhuma dessas acusações pode ser tratada como fato comprovado apenas com base na palavra do depoente. Integrantes da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República ouvidos por diferentes veículos contestaram a narrativa e afirmaram não ter recebido provas capazes de sustentar as alegações. O ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, declarou, após a repercussão do caso, que a busca pela verdade interessa à própria Polícia Federal e deverá ser realizada pela instituição.

A existência das denúncias, porém, foi suficiente para produzir uma consequência processual concreta. O gabinete de Mendonça afirmou que a oitiva foi realizada sem a presença dos investigadores da PF justamente em razão das acusações apresentadas por Vorcaro. O ato foi conduzido por um juiz auxiliar e teve acompanhamento de representante do Ministério Público. O gabinete classificou o procedimento como regular.

Vorcaro coloca diretor-geral da PF no centro de sua versão

Andrei Rodrigues apareceu repetidamente no depoimento. Vorcaro afirmou que tinha uma relação anterior com o diretor-geral da Polícia Federal, vinculada principalmente a eventos dos quais ambos teriam participado. Em um dos trechos divulgados, o banqueiro disse que Rodrigues esteve em eventos com ele e que essa relação antecedia as atuais investigações.

O ex-dono do Master sustentou que o diretor-geral estaria entre os nomes que poderiam aparecer em uma eventual colaboração. A afirmação não significa que Vorcaro tenha apresentado prova de crime cometido por Rodrigues. O próprio banqueiro descreveu as supostas informações dentro de um contexto mais amplo de relações que teria construído para buscar proteção enquanto o Banco Master enfrentava pressão regulatória, política e policial.

Vorcaro também tentou estabelecer uma ligação entre essa relação e a dificuldade para avançar em sua negociação com a Polícia Federal. Segundo ele, seria desconfortável apresentar uma colaboração envolvendo o chefe máximo da instituição justamente aos investigadores subordinados à mesma estrutura. O banqueiro disse acreditar que isso explicaria o baixo interesse da PF em ouvi-lo.

A tese é contestada. Rodrigues nega proximidade com Vorcaro nos moldes descritos pelo empresário. Além disso, o simples fato de uma autoridade ter participado de evento no qual o banqueiro também estivesse presente não comprova favorecimento, vínculo ilícito ou interferência em investigação. A relevância jurídica dependerá do conteúdo concreto das informações que Vorcaro eventualmente apresentar e, principalmente, de sua capacidade de fornecer documentos, registros financeiros, mensagens, testemunhas ou outros elementos independentes de corroboração.

Negociação com a PGR teria tido tratamento diferente

Vorcaro também comparou a atuação da Polícia Federal à da Procuradoria-Geral da República. Segundo seu depoimento, a PGR demonstrou disposição maior para realizar reuniões e escutar as informações que ele pretendia apresentar, enquanto os contatos com a PF teriam sido protocolares e sem interesse efetivo.

A colaboração premiada não se constitui apenas pela disposição do investigado de falar. Para que um acordo avance, as informações precisam apresentar utilidade concreta para a investigação, indicar fatos relevantes e permitir alguma forma de verificação. O colaborador também precisa revelar elementos que não sejam simplesmente versões já conhecidas ou acusações impossíveis de comprovar.

Esse é um dos pontos decisivos para interpretar as declarações de Vorcaro. O banqueiro pode afirmar que possui informações sobre autoridades e integrantes do governo, mas o valor jurídico dessas alegações dependerá do material que seja capaz de entregar. Uma colaboração premiada não transforma automaticamente o relato de um investigado em prova; as declarações precisam ser corroboradas por evidências independentes para sustentar acusações ou medidas judiciais.

O caso ainda apresenta uma particularidade. Outras colaborações relacionadas ao universo do Banco Master avançaram recentemente pela PGR, demonstrando que a Procuradoria vem utilizando esse instrumento nas investigações. O ex-controlador da Reag, João Carlos Mansur, por exemplo, fechou acordo direcionado ao caso Master, posteriormente encaminhado ao Supremo para análise de homologação.

Vorcaro diz que pretendia citar integrantes do atual governo

O trecho de maior potencial político do depoimento é aquele em que Vorcaro afirma que sua eventual colaboração alcançaria pessoas ligadas ao atual governo. Segundo ele, as relações foram construídas enquanto tentava se proteger de ataques sofridos pelo banco e, em algumas situações, teriam ultrapassado aquilo que chamou de limites de moralidade e legalidade.

O banqueiro não apresentou, nos trechos tornados públicos, uma relação completa desses nomes nem detalhou todas as condutas que atribuiria a cada pessoa. Por isso, não é possível concluir a partir do depoimento divulgado que integrantes específicos do governo tenham cometido crimes.

Vorcaro declarou possuir relações jurídicas e pessoais com pessoas relevantes do governo e de instituições públicas e afirmou que a revelação desses vínculos poderia prejudicar interlocutores envolvidos. A amplitude da afirmação aumenta o impacto político do depoimento, mas também reforça a necessidade de comprovação. Quanto mais abrangente a acusação, maior a importância de identificar fatos determinados, datas, operações, valores e documentos que possam confirmar a narrativa.

As investigações do Banco Master já alcançaram políticos de diferentes partidos e campos políticos. Em junho, por exemplo, o STF autorizou uma nova fase da Operação Compliance Zero que envolveu o senador Jaques Wagner, depois de a PF apontar indícios de possível atuação parlamentar em favor de interesses ligados ao banco. Em outra etapa, a investigação também alcançou o senador Ciro Nogueira. São apurações distintas, e a existência desses procedimentos não confirma as novas alegações de Vorcaro.

Próximo passo será saber se as acusações podem ser comprovadas

O depoimento de 27 de agosto muda o caso porque formaliza perante o gabinete do relator acusações que atingem diretamente a Polícia Federal e seu diretor-geral, ao mesmo tempo em que apresenta Vorcaro como possível interessado em entregar informações contra autoridades e integrantes do governo. Não modifica, entretanto, o estágio probatório dessas afirmações.

Há três questões distintas a serem resolvidas. A primeira é saber se as ameaças e intimidações relatadas pelo banqueiro ocorreram e quem eventualmente participou delas. A segunda é verificar se existiu alguma interferência destinada a impedir ou dificultar sua colaboração. A terceira é determinar se as informações que ele diz possuir sobre autoridades têm conteúdo criminal relevante e podem ser comprovadas.

O histórico recente também recomenda cautela. Vorcaro permanece preso preventivamente por decisão referendada pela Segunda Turma do STF e é investigado em um caso que envolve suspeitas de fraudes bilionárias no sistema financeiro. Sua condição de investigado não torna suas afirmações falsas, mas cria interesse direto no resultado de uma eventual negociação de colaboração premiada.

A consequência imediata do depoimento, portanto, não é a comprovação das acusações, mas a abertura de uma nova disputa sobre quem poderá conduzir e avaliar uma eventual colaboração. Se Vorcaro entregar documentação capaz de sustentar o que afirmou, o caso poderá ampliar significativamente seu alcance institucional. Se as declarações não forem acompanhadas de elementos independentes, permanecerão como alegações feitas por um investigado em busca de um acordo.

O ponto decisivo deixa de ser o impacto das frases atribuídas ao banqueiro e passa a ser a existência de provas. É essa verificação que poderá separar informações com potencial para produzir novas investigações de uma estratégia defensiva sem capacidade de sustentação nos autos.

Fontes:

Supremo Tribunal Federal – decisões sobre a segunda prisão preventiva de Daniel Vorcaro, manutenção da custódia pela Segunda Turma e posterior transferência para a Papudinha

Gabinete do ministro André Mendonça – confirmação da oitiva realizada em 27 de agosto, presença do Ministério Público e justificativa para a ausência da Polícia Federal

Supremo Tribunal Federal – decisões e informações processuais da Operação Compliance Zero e das investigações relacionadas ao Banco Master

Polícia Federal – investigações e requerimentos apresentados ao Supremo no âmbito da Operação Compliance Zero

Procuradoria-Geral da República – atuação em negociações de colaboração premiada relacionadas às investigações do Banco Master

Ministério da Justiça e Segurança Pública – manifestação sobre a necessidade de apuração das acusações envolvendo a Polícia Federal

Relatos públicos do depoimento de Daniel Vorcaro – trechos relativos às alegações de intimidação, tentativa de colaboração, relação com Andrei Rodrigues e referências a integrantes do atual governo

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