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PGR diz que não há prova de contrato do Careca do INSS com governo Lula

Procuradoria reconhece pagamentos a Roberta Luchsinger, mas afirma que não há prova de negócio concluído com o poder público e pede envio do caso à primeira instância.

por Carlos Menezes
21/08/2026 às 11h36
em Política
Pgr Diz Que Não Há Prova De Contrato Do Careca Do Inss Com Governo Lula - Gazeta Mercantil - Política

A Procuradoria-Geral da República (PGR) concluiu que os elementos reunidos até agora pela Polícia Federal não comprovam que Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, tenha conseguido efetivamente fechar contratos ou negócios com o governo federal por intermédio da empresária Roberta Luchsinger e de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A avaliação consta de uma manifestação encaminhada ao Supremo Tribunal Federal e representa uma mudança importante na compreensão jurídica de uma das frentes abertas a partir das investigações da Operação Sem Desconto.

O parecer, assinado pelo vice-procurador-geral da República, Hindenburgo Chateaubriand Filho, foi enviado ao gabinete do ministro André Mendonça em 6 de agosto. A PGR reconhece que a investigação identificou pagamentos realizados pelo Careca do INSS a Roberta Luchsinger, mas afirma que a representação da Polícia Federal não apontou a conclusão de negócio com o poder público que demonstrasse que as pretensões empresariais do grupo tenham sido efetivamente atendidas. A existência das transferências financeiras, portanto, não foi considerada suficiente para provar que contratos tenham sido obtidos dentro do governo.

A conclusão exige uma distinção essencial. A PGR não afirmou que as mensagens encontradas pela PF são inexistentes, que não houve tentativa de interlocução com integrantes do governo ou que todos os investigados estão definitivamente isentos de qualquer responsabilidade. Tampouco pediu, nessa manifestação, que todas as apurações sejam encerradas. O órgão sustenta principalmente que não foi demonstrado o resultado final das articulações investigadas e que essa frente não possui conexão suficiente com o esquema de descontos associativos indevidos do INSS para permanecer vinculada à investigação original no Supremo.

PGR quer investigação separada da fraude do INSS

Esse é um dos pontos centrais do parecer. A presença do Careca do INSS nas duas histórias levou inicialmente à aproximação das apurações, mas, para a Procuradoria, isso não basta para estabelecer uma conexão jurídica entre elas. A Operação Sem Desconto investiga uma organização suspeita de realizar descontos não autorizados sobre benefícios de aposentados e pensionistas, enquanto a nova frente analisa possíveis articulações para favorecer interesses empresariais junto ao Ministério da Saúde.

A PGR considera que a ligação entre os dois núcleos decorre principalmente do fato de os elementos sobre Roberta e Lulinha terem surgido durante as diligências relacionadas ao Careca. No entendimento da Procuradoria, essa origem comum das provas não transforma automaticamente os fatos em partes de um mesmo esquema criminoso. A orientação é que a investigação sobre eventual tráfico de influência seja conduzida de forma autônoma, de acordo com as regras normais de competência judicial.

Documentos oficiais do Supremo confirmam que a Petição 15.041, uma das principais frentes da Operação Sem Desconto, trata das suspeitas de descontos indevidos em aposentadorias e pensões e já resultou em prisões e outras medidas cautelares autorizadas pelo ministro André Mendonça. O próprio STF descreve Antônio Carlos Camilo Antunes como um dos investigados por suposto envolvimento no esquema previdenciário.

A manifestação mais recente da PGR estabelece, portanto, uma fronteira que será importante nas próximas etapas: uma coisa é investigar a atuação do Careca do INSS no esquema previdenciário; outra é determinar se ele tentou usar Roberta, Lulinha ou outras pessoas para obter negócios na área da saúde. Para a Procuradoria, até o momento não existe base suficiente para tratar necessariamente esses dois conjuntos de fatos como partes da mesma organização criminosa.

Tentativa de negócio com canabidiol está no centro da apuração

A principal negociação analisada envolve produtos à base de cannabis medicinal. Investigadores encontraram mensagens e documentos relacionados à tentativa de viabilizar a venda de 1,2 milhão de frascos de canabidiol ao Ministério da Saúde. Uma minuta de Termo de Referência encontrada durante a investigação previa uma contratação por dispensa de licitação e mencionava quatro empresas, entre elas a World Cannabis, relacionada ao Careca do INSS. O arquivo não especificava o valor total da operação.

A Polícia Federal também localizou uma mensagem indicando que Roberta Luchsinger enviou material relacionado à proposta a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que então ocupava a chefia de gabinete do presidente Lula. A existência do envio passou a ser examinada pelos investigadores para entender se havia uma cadeia de interlocução destinada a levar o projeto até integrantes do governo capazes de influenciar uma contratação.

O fato relevante, agora reforçado pela manifestação da PGR, é que a contratação não aconteceu. O Ministério da Saúde já havia afirmado que o produto não estava incorporado ao Sistema Único de Saúde e que a pasta não realizou a compra nem mantinha processo destinado à oferta do canabidiol naquela modalidade. Swedenberger Barbosa, que era secretário-executivo da Saúde e aparece em mensagens investigadas, também afirmou anteriormente que uma reunião realizada com Antunes não resultou em contratação ou favorecimento.

A inexistência do contrato é juridicamente importante, mas não encerra automaticamente todas as perguntas da investigação. Crimes como tráfico de influência possuem elementos próprios e não dependem necessariamente de o agente público efetivamente praticar o ato pretendido. O que a PF ainda terá de estabelecer, caso a apuração continue, é qual foi exatamente a atuação de cada investigado, se houve solicitação ou recebimento de vantagem e qual era a finalidade atribuída às movimentações financeiras e contatos encontrados.

Pagamentos para Roberta existem, mas destino e finalidade estão sob análise

A própria PGR registra como fato da investigação que Antônio Carlos Camilo Antunes realizou pagamentos a Roberta Luchsinger. Esse aspecto não foi afastado pelo parecer. O que a Procuradoria questiona é a possibilidade de saltar da existência dessas transferências para a conclusão de que um negócio com o governo tenha sido concretizado.

Documentos oficiais produzidos no âmbito da CPMI do INSS mostram que o fluxo financeiro se tornou uma das principais linhas de investigação. Em reunião de março, parlamentares registraram informações extraídas da Petição 15.041 segundo as quais uma conversa mencionava um pagamento de R$ 300 mil, seguido de uma transferência para empresa de Roberta Luchsinger. No material parlamentar, consta que a PF associou a expressão “filho do rapaz”, presente na conversa, a uma possível referência a Fábio Luís Lula da Silva. Essa é uma interpretação investigativa e ainda não uma conclusão judicial de que Lulinha tenha recebido aquele dinheiro.

Essa diferença é fundamental. Uma transferência para uma empresa pertencente a Roberta pode ser comprovada documentalmente; concluir que o dinheiro tinha outro destinatário final ou representava pagamento por tráfico de influência exige evidências adicionais. É justamente nesse espaço entre aquilo que os documentos mostram diretamente e aquilo que ainda precisa ser demonstrado que se encontra boa parte da investigação.

A defesa de Lulinha nega que ele tenha participado de negócios de Roberta com a administração pública. Seus advogados também contestam a maneira como informações sob sigilo vêm sendo divulgadas e afirmam que trechos isolados dos autos estão sendo utilizados para produzir conclusões que não corresponderiam ao conjunto das provas. A defesa considera que o conteúdo conhecido seria suficiente para arquivar a investigação.

Parecer não equivale a declaração de inocência

A manifestação da PGR pode ser politicamente explorada como um elemento favorável à defesa de Lulinha, mas seu alcance jurídico precisa ser descrito com precisão. O órgão não declarou que todas as suspeitas foram falsas e não estabeleceu uma absolvição, até porque o caso continua em fase de inquérito e não existe ação penal julgada sobre esses fatos.

O que a Procuradoria afirma é mais específico: a representação policial não demonstrou a conclusão de negócio entre o Careca do INSS e o poder público, e os fatos relativos às articulações no Ministério da Saúde não apresentam, até o momento, conexão que justifique sua manutenção conjunta com a Operação Sem Desconto.

Há outra consequência relevante. A PGR sustenta que o inquérito deve deixar o Supremo Tribunal Federal porque não haveria, nesse núcleo específico, indícios mínimos de participação de autoridade com prerrogativa de foro capazes de justificar a competência da Corte. O pedido é para que os fatos sigam sendo apurados pela Justiça Federal de primeira instância.

A decisão, contudo, cabe a André Mendonça. O ministro pode concordar com a Procuradoria e remeter o caso, ou entender que existem razões jurídicas para que a investigação permaneça no STF.

Lulinha é alvo de mais de um inquérito

A discussão sobre competência também não significa que todas as investigações relacionadas ao filho do presidente tenham o mesmo destino. Segundo informações tornadas públicas sobre os autos, existem três inquéritos envolvendo Lulinha, sendo dois sob relatoria de André Mendonça e outro distribuído ao ministro Flávio Dino. Os objetos não são idênticos.

Uma das apurações está concentrada justamente nas suspeitas envolvendo Roberta Luchsinger, o Careca do INSS e possíveis negócios relacionados à cannabis medicinal. Outra frente analisa eventual tráfico de influência em outras relações empresariais. Há ainda investigação relacionada a vazamentos de informações sigilosas, na qual a posição jurídica de Lulinha pode inclusive variar conforme os fatos examinados.

Isso torna incorreto tratar a manifestação da PGR sobre um dos casos como se significasse o encerramento de todas as apurações envolvendo o empresário.

Ausência de contrato muda dimensão do caso

A nova posição da Procuradoria produz, ainda assim, uma mudança significativa na leitura pública das revelações feitas nos últimos dias. Mensagens atribuídas a Roberta descrevem proximidade com Lulinha, Fernando Bittar e pessoas situadas dentro ou próximas do governo. A PF também passou a analisar se havia uma “comunhão de interesses econômicos” entre integrantes desse grupo, hipótese rejeitada pela defesa de Lulinha.

Esses elementos justificam perguntas e diligências, mas a manifestação da PGR estabelece um limite factual importante: até agora não foi demonstrado que o lobby investigado produziu o contrato pretendido com o governo federal.

Isso significa que qualquer reportagem ou acusação política que apresente como fato consumado a existência de um contrato do Careca do INSS com a gestão Lula, nessa frente investigada, ultrapassa aquilo que a própria Procuradoria considera comprovado atualmente.

Também não há base, a partir desse parecer, para afirmar que o dinheiro desviado dos aposentados foi necessariamente utilizado em um contrato público intermediado por Lulinha. A PGR sustenta justamente que a conexão entre as fraudes previdenciárias e a negociação relacionada ao Ministério da Saúde não está demonstrada.

Investigação agora entra em uma fase mais delimitada

O parecer deixa uma situação mais precisa do que a apresentada inicialmente pelas revelações do caso. Existem pagamentos de Antônio Carlos Camilo Antunes a Roberta Luchsinger reconhecidos dentro da investigação. Existem mensagens, contatos e documentos que levaram a PF a investigar possível tráfico de influência. Existe uma minuta relacionada a uma tentativa de negócio de canabidiol. Existem interlocuções com pessoas que ocupavam ou haviam ocupado posições relevantes no governo.

Mas existe também um fato agora destacado pela Procuradoria: o negócio que daria resultado concreto a essas articulações não foi fechado.

A partir daqui, a questão investigativa tende a se tornar mais específica. Será necessário demonstrar se as próprias tratativas, pagamentos e relações existentes configuraram algum ilícito independentemente do fracasso do contrato. Também será preciso identificar quem efetivamente participou das negociações, quem tinha conhecimento delas, qual era a finalidade das transferências financeiras e se houve atuação de agentes públicos em benefício do grupo.

A manifestação da PGR não responde a todas essas perguntas. Na realidade, ela redefine onde e de que maneira elas devem ser feitas.

Para Lulinha, o documento representa um argumento relevante de defesa porque afasta, no entendimento da Procuradoria, duas conclusões particularmente graves: a de que já estaria comprovado um contrato obtido pelo Careca do INSS com o governo e a de que essa frente teria conexão demonstrada com o esquema dos descontos previdenciários.

Para a Polícia Federal, porém, ainda resta a investigação sobre aquilo que aconteceu antes do contrato que nunca existiu.

E será justamente nessa diferença — entre tentar influenciar uma decisão pública e efetivamente conseguir o negócio pretendido — que as próximas etapas do caso deverão se concentrar.

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