A Polícia Federal identificou R$ 3,8 milhões em repasses relacionados a Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central, no inquérito que apura a relação de servidores da autoridade monetária com Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master até a liquidação da instituição. Segundo os investigadores, os pagamentos eram recorrentes e teriam como referência R$ 500 mil por mês, com ao menos um registro que chegou a R$ 760 mil.
Os documentos também descrevem vantagens atribuídas a Vorcaro em favor de outro servidor de carreira do BC, Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização e posteriormente chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária. Entre os episódios analisados estão uma viagem aos Estados Unidos, serviços de acesso prioritário aos parques da Disney e da Universal e uma operação imobiliária considerada atípica pelos investigadores.
As informações integram documentos do caso Master cujo sigilo foi retirado em 10 de setembro pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. O levantamento permitiu conhecer detalhes de uma frente específica da investigação: a suspeita de que integrantes da estrutura responsável justamente pela fiscalização dos bancos teriam mantido uma relação paralela com o controlador de uma instituição supervisionada.
A acusação é da Polícia Federal e ainda não representa conclusão judicial de culpa. Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza negam ter favorecido Vorcaro ou fornecido informações sigilosas de forma irregular.
Repasses relacionados a Belline somam R$ 3,8 milhões
A investigação atribui a Belline uma relação financeira que ultrapassava contatos institucionais com o controlador do Master. Comprovantes reunidos no processo registram R$ 3,8 milhões em transferências relacionadas ao ex-chefe da Supervisão Bancária.
A cifra equivale a 7,6 pagamentos de R$ 500 mil, valor apontado pelos investigadores como referência para os repasses recorrentes. Em um dos registros analisados, entretanto, o montante chegou a R$ 760 mil. A diferença de R$ 260 mil representa um acréscimo de 52% sobre o valor mensal mencionado com maior frequência no inquérito.
A PF investiga se os pagamentos tinham como contrapartida a atuação de Belline em assuntos de interesse do conglomerado. Parte dos recursos teria circulado por meio de uma estrutura apresentada formalmente como vinculada a um projeto de capacitação financeira de jovens.
Para os investigadores, mensagens recuperadas durante a apuração levantam dúvidas sobre a finalidade efetiva desse arranjo. A defesa de Belline sustenta que não houve pagamento por favorecimento e afirma que a atuação do servidor dentro do Banco Central ocorreu dentro das atribuições funcionais.
Os documentos também registram uma viagem de Belline e da mulher a Paris. Segundo a investigação, Vorcaro participou da organização de aspectos da estadia, mantendo contato com prestadores de serviços no exterior para tratar de restaurantes, recepção e logística.
A PF considera esses episódios parte do conjunto de indícios usado para examinar a natureza da relação entre o banqueiro e o servidor, e não fatos isolados.
Relação teria começado ao menos em 2023
O material investigativo situa contatos entre Vorcaro e Belline pelo menos desde outubro de 2023. Considerado esse marco e a liquidação do Master em novembro de 2025, a relação examinada pela PF se estende por aproximadamente dois anos.
A relevância dessa cronologia está no papel institucional exercido pelo servidor. O Departamento de Supervisão Bancária integra a estrutura responsável por acompanhar as instituições financeiras e identificar riscos, irregularidades e problemas prudenciais.
A PF afirma ter encontrado mensagens que indicariam orientação técnica a Vorcaro, discussão de estratégias e revisão de documentos que seriam posteriormente apresentados ao próprio Banco Central.
Em comunicações analisadas pelos investigadores, servidores também teriam compartilhado informações internas sobre o andamento de assuntos relacionados ao Master. A corporação apura se parte desse conteúdo possuía caráter sensível ou sigiloso.
Um dos pontos centrais do inquérito é determinar onde terminava a interlocução regular entre supervisor e instituição supervisionada e onde começaria eventual prestação de auxílio privado incompatível com as funções públicas desempenhadas pelos servidores.
Paulo Sérgio teve longa passagem pela cúpula da fiscalização
Paulo Sérgio Neves de Souza tem trajetória de décadas na área de supervisão do Banco Central. Servidor da instituição desde 1998, passou por diferentes cargos no Departamento de Supervisão Bancária e assumiu a chefia do Desup em 2015.
Em 2017, foi nomeado diretor de Fiscalização do Banco Central, uma das posições mais relevantes da estrutura responsável pelo acompanhamento do sistema financeiro. Em período posterior, voltou a atuar no Departamento de Supervisão Bancária e ocupava a posição de chefe-adjunto quando ocorreram episódios relacionados ao Master analisados pela investigação.
Essa trajetória amplia a relevância institucional da apuração. A PF não examina apenas contatos ocasionais entre um banqueiro e funcionários públicos, mas a relação do controlador de uma instituição financeira com servidores que acumularam experiência e posições de comando justamente na área responsável pela fiscalização bancária.
A investigação afirma que Paulo Sérgio teria prestado orientação informal a Vorcaro em assuntos do Master. Mensagens recuperadas do celular do ex-banqueiro mostram discussões sobre operações da instituição e interlocução com outras áreas do Banco Central.
Viagem à Disney tem versões divergentes
Uma das frentes da investigação envolvendo Paulo Sérgio trata de uma viagem familiar aos Estados Unidos. A PF reuniu informações segundo as quais Vorcaro teria solicitado a contratação de serviços de guias VIP nos parques da Disney e da Universal, em Orlando.
O serviço teria custado US$ 38 mil.
A defesa de Paulo Sérgio apresenta uma versão diferente para a operação. Segundo seus advogados, o servidor pagou integralmente passagens, hospedagem, ingressos, compra de moeda estrangeira e despesas realizadas com cartões durante a viagem.
A defesa afirma ainda que Vorcaro teria oferecido uma vaga remanescente em um pacote de acesso prioritário aos parques. Paulo Sérgio sustenta ter pago US$ 8 mil em espécie nos Estados Unidos a uma pessoa indicada pelo banqueiro.
Os dois valores deixam uma diferença de US$ 30 mil entre o montante de US$ 38 mil identificado na contratação examinada pela investigação e os US$ 8 mil que a defesa afirma terem sido desembolsados pelo servidor. Essa diferença corresponde a cerca de 79% do valor total do serviço mencionado no inquérito.
A existência dessa diferença, isoladamente, não demonstra quem efetivamente arcou com o restante da despesa. A defesa afirma que Paulo Sérgio desconhecia eventual pagamento de US$ 38 mil feito por Vorcaro ao prestador de serviços e que não participou nem autorizou uma transação nesse valor.
A PF também investiga uma negociação envolvendo um imóvel rural relacionado ao servidor, considerada atípica pelos investigadores.
Mensagens ampliam investigação sobre influência dentro do BC
A análise das comunicações encontradas no celular de Vorcaro levou a investigação além da identificação dos pagamentos e benefícios.
Segundo a PF, Belline e Paulo Sérgio teriam participado de discussões sobre documentos, estratégias e providências relacionadas aos interesses do Master. Os investigadores também identificaram reuniões privadas, incluindo encontros realizados fora das dependências oficiais.
A hipótese policial é que os dois teriam ultrapassado os limites de uma interlocução institucional regular entre supervisores e uma instituição financeira.
As defesas rejeitam essa interpretação. Os advogados de Belline afirmam que ele atuou institucionalmente no caso Master e destacam sua participação em providências internas que posteriormente ajudaram a levar suspeitas envolvendo a instituição às autoridades.
No caso de Paulo Sérgio, a defesa também nega vazamento de informações e afirma possuir documentação capaz de comprovar a origem dos recursos utilizados nas despesas pessoais questionadas.
A investigação deverá estabelecer se as comunicações e vantagens identificadas constituíram efetivamente corrupção, violação de sigilo ou outras infrações ou se os episódios possuem explicações compatíveis com as versões apresentadas pelos investigados.
Master foi liquidado após crise de liquidez e graves violações
O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em 18 de novembro de 2025. A autoridade monetária fundamentou a medida na grave crise de liquidez do conglomerado, no comprometimento de sua situação econômico-financeira e em graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.
Naquele momento, o próprio BC informou que o conglomerado representava 0,57% dos ativos e 0,55% das captações totais do sistema financeiro. Embora a participação fosse inferior a 1% nesses dois indicadores, o caso desencadeou investigações de grande alcance sobre operações financeiras, fiscalização bancária e relações mantidas por Vorcaro com agentes públicos.
A liquidação também tornou indisponíveis bens de controladores e ex-administradores, incluindo Daniel Vorcaro.
A Operação Compliance Zero passou por sucessivas fases e abriu diferentes linhas de investigação. Uma delas se concentra exatamente na possibilidade de obtenção indevida de informações sigilosas e de interferência em investigações.
Em julho deste ano, a PF informou oficialmente que uma das fases da operação também apurava possíveis práticas destinadas a intimidar jornalistas, monitorar pessoas ligadas a autoridades públicas, obter informações protegidas e interferir em investigações criminais.
Apuração passa a discutir integridade da supervisão bancária
A revelação dos pagamentos amplia o alcance institucional do caso porque transfere parte da investigação para dentro da estrutura encarregada de fiscalizar as instituições financeiras.
A supervisão bancária depende do acesso antecipado a informações patrimoniais, operações suspeitas, processos administrativos, avaliações prudenciais e decisões ainda em preparação. Uma eventual utilização desse conhecimento para beneficiar uma instituição supervisionada produziria uma assimetria incompatível com a função regulatória.
É justamente essa hipótese que a Polícia Federal busca demonstrar ou afastar com a análise das mensagens, transferências financeiras, viagens, documentos e reuniões.
A retirada do sigilo também permite que as defesas contestem publicamente a interpretação dos investigadores e apresentem documentos destinados a demonstrar a origem das despesas e a natureza das relações mantidas com Vorcaro.
O próximo estágio será a avaliação jurídica desse conjunto probatório. Até que haja denúncia recebida e eventual julgamento, as conclusões da Polícia Federal permanecem no campo investigativo.
O episódio, porém, acrescenta uma dimensão distinta ao caso Master: além das operações financeiras que antecederam a liquidação do banco, as autoridades agora precisam esclarecer se o controlador conseguiu construir canais privados de influência dentro da própria estrutura encarregada de fiscalizá-lo.
Fontes:
Banco Central do Brasil – ato e comunicado sobre a liquidação extrajudicial do Banco Master e dados sobre a participação do conglomerado no Sistema Financeiro Nacional
Banco Central do Brasil – registros institucionais e histórico funcional de Paulo Sérgio Neves de Souza na Diretoria de Fiscalização e no Departamento de Supervisão Bancária
Polícia Federal – comunicados oficiais das fases da Operação Compliance Zero sobre obtenção indevida de informações sigilosas e interferência em investigações










