Taxas dos DIs recuam com forte fluxo estrangeiro e alívio geopolítico: Análise do fechamento da curva de juros
O mercado de renda fixa brasileiro vivenciou nesta quinta-feira mais uma sessão de ajuste positivo, consolidando uma tendência de fechamento da curva de juros futuros. As taxas dos DIs (Depósitos Interfinanceiros) encerraram o dia com quedas expressivas, registrando recuos de até 10 pontos-base em vértices estratégicos. Este movimento reflete uma conjunção favorável de fatores: a entrada maciça de capital estrangeiro no Brasil, buscando ativos descontados, e o arrefecimento das tensões geopolíticas no Hemisfério Norte, protagonizadas pelos Estados Unidos.
A dinâmica das taxas dos DIs funciona como um termômetro preciso da percepção de risco-país e das expectativas de política monetária. O que se observou no pregão foi um descolamento parcial da volatilidade dos Treasuries (títulos do Tesouro americano), permitindo que os ativos locais performassem com robustez. O fluxo cambial positivo, que derrubou o dólar para baixo de R$ 5,30, atuou como um catalisador decisivo para o alívio nos prêmios de risco embutidos nas taxas dos DIs.
O Fluxo Estrangeiro e a Rotação de Ativos
O comportamento das taxas dos DIs nesta semana não pode ser dissociado do que ocorre na B3. A bolsa de valores brasileira rompeu barreiras históricas, oscilando acima dos 177 mil pontos, impulsionada por uma “rotação global de portfólio. Investidores internacionais, ao rebalancearem suas carteiras, identificaram no Brasil uma oportunidade de value investing (investimento em valor), migrando recursos de mercados saturados para emergentes com fundamentos relativamente sólidos e juros reais atrativos.
Analistas de mercado, como Matheus Spiess, da Empiricus Research, apontam para a continuidade desse sentimento. A busca por mercados que ficaram para trás nos últimos anos coloca o Brasil no radar. Quando o investidor estrangeiro traz dólares para comprar ações ou títulos públicos, ele pressiona a cotação da moeda americana para baixo. Um câmbio mais apreciado reduz as pressões inflacionárias importadas (tradables), permitindo que o mercado futuro precifique taxas dos DIs mais baixas, antecipando um cenário de inflação mais benigno ou menos necessidade de juros estratosféricos.
Essa correlação entre câmbio e juros é direta. Com o dólar perdendo força frente ao real, a curva de juros perde inclinação. O recuo das taxas dos DIs nos vencimentos longos, como janeiro de 2035, que caiu 8 pontos-base para 13,63%, sinaliza que o mercado exige um prêmio menor para carregar dívida brasileira de longo prazo.
O Fator Geopolítico: Alívio na Groenlândia
Outro vetor que contribuiu para a descompressão das taxas dos DIs veio do exterior. As tensões envolvendo os Estados Unidos e a Groenlândia, que haviam adicionado volatilidade aos mercados globais no início da semana, arrefeceram. O presidente Donald Trump descartou o uso de força militar e recuou na ameaça de imposição de tarifas a países europeus, optando por um acordo diplomático via Otan.
Para o mercado de juros, a estabilidade geopolítica é fundamental. Incertezas globais tendem a fortalecer o dólar e elevar os rendimentos dos Treasuries, o que contamina as taxas dos DIs em países emergentes. Com o desanuviar do horizonte diplomático, o apetite ao risco (risk-on) retornou. Embora os Treasuries tenham oscilado sem direção única ao longo do dia, o ambiente externo deixou de ser um fator de pressão altista para a curva local, permitindo que os fatores domésticos positivos — fluxo e câmbio — prevalecessem na formação das taxas dos DIs.
Dados Fiscais e a Arrecadação Recorde
No front doméstico, os dados fiscais divulgados pela Receita Federal trouxeram um misto de alívio e cautela para a análise das taxas dos DIs. A arrecadação federal somou R$ 2,887 trilhões em 2025, um crescimento real de 3,65% sobre o ano anterior, marcando o melhor resultado da série histórica iniciada em 1995.
Sob a ótica da solvência, uma arrecadação robusta é positiva, pois melhora a capacidade de pagamento da dívida pública, o que teoricamente deveria reduzir as taxas dos DIs longos (risco fiscal). No entanto, o mercado observa com lupa a qualidade desse ajuste. Se o aumento da arrecadação for acompanhado por um aumento proporcional de gastos, a percepção de risco fiscal permanece.
O analista Matheus Spiess ponderou que, apesar do fluxo positivo ajustar o câmbio e melhorar a curva, a incerteza fiscal e as dúvidas sobre o ciclo da Selic impedem um recuo ainda maior das taxas dos DIs. O mercado financeiro é pragmático: recorde de arrecadação é bom, mas a âncora fiscal precisa demonstrar sustentabilidade de longo prazo para que os juros estruturais caiam de forma consistente.
Expectativas para o Copom e a Selic
A precificação das taxas dos DIs curtos reflete as apostas para os próximos passos do Comitê de Política Monetária (Copom). O consenso de mercado aponta para a manutenção da Selic em 15% na reunião do fim deste mês. A grande incógnita reside na reunião de março.
Dados do mercado de opções de Copom da B3 mostram uma divisão nas expectativas. Há 36,00% de probabilidade de um corte de 25 pontos-base em março, contra 31,50% de chance de um corte mais agressivo de 50 pontos-base e 25,30% de probabilidade de manutenção. Essa dispersão de cenários gera volatilidade nas taxas dos DIs de vencimento mais curto (2026 e 2027).
Se o Banco Central sinalizar um afrouxamento monetário, as taxas dos DIs curtos tendem a cair mais rapidamente. Contudo, a autoridade monetária deve manter a cautela, observando a desancoragem das expectativas de inflação. O comportamento do câmbio nos próximos dias será crucial. Se o dólar se mantiver abaixo de R$ 5,30, abre-se uma janela de oportunidade para o BC ser mais leniente, o que validaria o fechamento da curva e a queda das taxas dos DIs.
Análise Técnica dos Vencimentos
Ao final da sessão, a estrutura a termo da taxa de juros (ETTJ) apresentou um movimento de “bull flattening” (achatamento com queda das taxas), onde as taxas longas caíram, mas o movimento foi generalizado.
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Janeiro de 2027: A taxa recuou de 13,749% para 13,69%, uma queda de quase 6 pontos-base. Este vencimento captura a política monetária de médio prazo.
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Janeiro de 2028: Um dos destaques do dia, com as taxas dos DIs caindo de 13,105% para 13,01%, baixa de quase 10 pontos-base. Esse ponto da curva é sensível tanto à política monetária quanto ao risco fiscal.
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Janeiro de 2035: No trecho longo, a taxa cedeu de 13,713% para 13,63%. A queda de 8 pontos-base aqui reflete a melhora na percepção de risco-país e o fluxo estrangeiro.
A inversão ou inclinação da curva entre os vértices de 2028 e 2035 continua sendo monitorada. Atualmente, a curva apresenta trechos de inversão (taxas curtas maiores que as longas), o que é típico de cenários com política monetária restritiva (Selic em 15%). O fechamento das taxas dos DIs longos sugere que o mercado começa a ver uma luz no fim do túnel para a normalização da economia.
O comportamento das taxas dos DIs nesta quinta-feira reforça a tese de que os ativos brasileiros estão descontados e atraentes para o capital internacional. O “kit Brasil” — bolsa em alta, dólar em queda e juros futuros cedendo — operou em sintonia perfeita. No entanto, a sustentabilidade desse movimento depende de fatores locais e externos.
Externamente, a manutenção da estabilidade nos rendimentos dos Treasuries (com o título de 10 anos estável em 4,251%) é condição necessária para que o fluxo para emergentes continue. Internamente, a questão fiscal permanece como o fiel da balança. O mercado celebrou a arrecadação, mas aguarda sinais de controle de despesas.
Para os próximos dias, os investidores devem monitorar se o fluxo estrangeiro na B3 se mantém constante. Se a entrada de dólares persistir, haverá espaço técnico para novos recuos nas taxas dos DIs, antecipando um ciclo de corte de juros mais benigno do que o precificado atualmente. Por ora, a fotografia é positiva: o prêmio de risco diminuiu e a curva de juros brasileira respira aliviada, oferecendo oportunidades tanto na renda fixa quanto na variável.






