Capital One compra Brex por US$ 5,15 bi: O fim de uma era para os unicórnios brasileiros no Vale do Silício
O mercado global de tecnologia e finanças foi sacudido na tarde desta quinta-feira com a confirmação de um dos movimentos de M&A (Fusões e Aquisições) mais aguardados dos últimos anos. Em um acordo definitivo que reconfigura o cenário das fintechs B2B, a gigante bancária norte-americana Capital One compra Brex, a startup de cartões corporativos fundada pelos brasileiros Henrique Dubugras e Pedro Franceschi, em uma transação avaliada em US$ 5,15 bilhões.
A operação, que envolve o pagamento em uma combinação de dinheiro e ações, marca um ponto de inflexão na trajetória daquela que foi considerada, por muito tempo, a “joia da coroa” do empreendedorismo brasileiro no exterior. No entanto, o valor da venda — embora bilionário — reflete o duro ajuste de realidade imposto pelo cenário macroeconômico atual, selando a saída dos fundadores por menos da metade da avaliação máxima alcançada pela companhia em 2021.
Os detalhes da operação: Capital One compra Brex
A notícia de que a Capital One compra Brex não é apenas uma transação financeira; é um movimento estratégico de sobrevivência e expansão. A Brex, fundada em 2017 com a premissa de revolucionar o crédito corporativo para startups, encontrou na Capital One um porto seguro em meio a um mercado de capital de risco (Venture Capital) cada vez mais escasso e exigente.
Segundo o comunicado oficial, a transação deve ser concluída em meados de 2026, sujeita às aprovações regulatórias habituais, incluindo o crivo de órgãos antitruste nos Estados Unidos. A aquisição incorpora ao portfólio da Capital One uma plataforma de software com inteligência artificial nativa, que integra gestão de despesas, cartões corporativos e pagamentos em tempo real.
Richard D. Fairbank, fundador e CEO da Capital One, destacou que a aquisição acelera a jornada da instituição no mercado de pagamentos empresariais. Para o banco, que possui um valor de mercado de aproximadamente US$ 150 bilhões e quase US$ 700 bilhões em ativos, absorver a tecnologia ágil da Brex é uma maneira de rejuvenescer sua base tecnológica sem precisar desenvolver soluções do zero.
O ajuste de Valuation: De US$ 12,3 bi para US$ 5,15 bi
Para os analistas de mercado, o ponto mais nevrálgico da manchete “Capital One compra Brex” está nos números. Em outubro de 2021, durante o auge da liquidez global impulsionada pelos juros baixos da pandemia, a Brex levantou US$ 300 milhões em uma rodada que a avaliou em impressionantes US$ 12,3 bilhões.
A venda agora, por US$ 5,15 bilhões, representa um desconto de aproximadamente 58% em relação ao pico de avaliação. Esse fenômeno, conhecido no mercado como down exit (saída por valor inferior à última rodada privada), ilustra o “inverno das startups” que congelou avaliações infladas. Investidores de peso que entraram nas últimas rodadas, como Tiger Global e Greenoaks Capital, provavelmente verão retornos menores do que o projetado inicialmente.
Ainda assim, o fato de que a Capital One compra Brex por mais de cinco bilhões de dólares confirma a robustez do negócio construído por Dubugras e Franceschi. Diferente de muitos unicórnios que viraram pó ou entraram em recuperação judicial, a Brex construiu uma carteira de 30 mil clientes corporativos e uma tecnologia proprietária valiosa, garantindo uma saída honrosa e bilionária para seus acionistas e fundadores.
O futuro dos fundadores brasileiros
A confirmação de que a Capital One compra Brex traz também definições sobre o papel dos jovens fundadores que se tornaram símbolos de sucesso no Vale do Silício.
Pedro Franceschi, cofundador, seguirá como CEO da operação da Brex, que passará a atuar como uma subsidiária dentro da estrutura da Capital One. Em nota, Franceschi afirmou: “Começamos a Brex como criadores de categoria, unindo serviços financeiros e software em uma plataforma nativa em IA. Agora, vamos turbinar nosso próximo capítulo em parceria com o time do Capital One. A permanência de Franceschi sugere que o acordo envolve cláusulas de earn-out, onde parte do pagamento ou bônus futuros dependem do desempenho da empresa sob a nova gestão.
Já Henrique Dubugras, que já havia se afastado da operação diária anteriormente, permanece apenas como acionista e membro do conselho até a finalização do negócio. A trajetória da dupla, que começou no Brasil com a Pagar.me (vendida para a Stone), consolida-se agora com uma das maiores vendas de tecnologia lideradas por brasileiros na história.
Por que a Capital One compra Brex agora?
A estratégia por trás do movimento em que a Capital One compra Brex é clara: domínio do mercado B2B e Inteligência Artificial.
A Capital One é uma gigante do varejo e cartões de crédito, mas o setor de pagamentos corporativos e gestão de despesas (Spend Management) é dominado por players modernos como a Ramp e a própria Brex, além de incumbentes como a American Express.
Ao adquirir a Brex, a Capital One compra instantaneamente:
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Tecnologia de Ponta: A plataforma da Brex é reconhecida pela facilidade de uso e integração contábil.
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Inteligência Artificial: A Brex pivotou recentemente para ser uma empresa “AI-first”, usando IA para automatizar a conciliação de despesas e evitar fraudes, um ativo valioso para um banco tradicional.
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Carteira de Clientes Premium: A base da Brex é composta majoritariamente por startups de alto crescimento e empresas de tecnologia, um perfil de cliente que os bancos tradicionais têm dificuldade de atrair e reter.
Impacto no ecossistema de Fintechs
A notícia de que a Capital One compra Brex envia ondas de choque para o mercado. Ela sinaliza que a janela de IPOs (Oferta Pública Inicial de Ações) continua fechada ou pouco atraente para empresas de tecnologia que ainda queimam caixa ou que não conseguem sustentar valuations de 2021 no mercado público.
Para o ecossistema brasileiro e global, a mensagem é mista. Por um lado, celebra-se o sucesso dos fundadores e a liquidez do evento. Por outro, o valuation comprimido serve de alerta para fundadores e VCs: a era do dinheiro grátis acabou, e a consolidação via M&A por grandes bancos é o caminho mais provável para muitas fintechs que cresceram demais para serem ignoradas, mas não o suficiente para serem independentes na bolsa.
A estrutura financeira do acordo
A transação em que a Capital One compra Brex foi meticulosamente desenhada. O pagamento em “dinheiro e ações” permite que os investidores da Brex participem do upside (potencial de valorização) das ações da Capital One, ao mesmo tempo que garantem uma liquidez imediata.
A BofA Securities (Bank of America) atuou como assessora financeira exclusiva da Capital One, enquanto a Brex foi assessorada pela Centerview Partners. No campo jurídico, escritórios de elite como Wachtell, Lipton, Rosen & Katz deram suporte à operação, garantindo que as complexidades regulatórias fossem endereçadas.
O cenário competitivo pós-aquisição
Com a confirmação de que a Capital One compra Brex, a concorrência no setor de cartões corporativos deve se acirrar. A Ramp, principal concorrente direta da Brex, permanece independente e recentemente levantou capital com um valuation superior. A American Express e o JP Morgan Chase também devem acelerar seus investimentos em tecnologia para não perderem espaço para a nova força combinada de Capital One e Brex.
A integração, prevista para ser concluída em 2026, será o grande teste. Históricos de aquisições de fintechs ágeis por bancões tradicionais nem sempre são positivos. O choque cultural entre a agilidade do Vale do Silício e a burocracia bancária regulada é um risco real. No entanto, a decisão de manter Franceschi como CEO indica que a Capital One está ciente desse risco e tentará preservar a cultura de inovação da adquirida.
Expansão Internacional
Outro ponto relevante no contexto em que a Capital One compra Brex é a pegada global. A Brex anunciou recentemente a obtenção de licença para operar na Europa, via Holanda, e planos para o Reino Unido. Como a Capital One já possui operações no Reino Unido e Canadá, a sinergia para uma expansão global da plataforma de gestão de despesas é imediata, permitindo que a solução escale para mercados onde a Capital One já possui licenças bancárias robustas.
Conclusão: Um marco na história dos negócios
O anúncio de que a Capital One compra Brex encerra um ciclo de hype e inicia um ciclo de maturidade. Henrique Dubugras e Pedro Franceschi provaram, mais uma vez, sua capacidade de criar valor bilionário a partir do zero. Embora o valor final de US$ 5,15 bilhões seja agridoce para quem vislumbrou uma empresa de US$ 12 bilhões, ele consolida a Brex como um dos cases mais bem-sucedidos da tecnologia financeira mundial.
Agora, sob o guarda-chuva de uma das maiores instituições financeiras dos Estados Unidos, a tecnologia nascida das mentes brasileiras terá o capital e a escala necessários para desafiar os maiores players globais de pagamentos. Para o mercado, fica a lição: em tempos de juros altos, caixa é rei, e a consolidação é inevitável.
A Gazeta Mercantil seguirá acompanhando os desdobramentos regulatórios e a conclusão deste negócio que redefine as fronteiras entre bancos tradicionais e fintechs.









