A abertura de aproximadamente 120 pontos-base nos spreads desde março sinaliza uma mudança relevante na precificação de risco do setor. No mercado de crédito, o spread funciona como prêmio adicional pago ao investidor em relação a um ativo livre de risco, e sua ampliação costuma estar associada a maior incerteza sobre fluxo de caixa, margens ou ciclo de negócios.
No caso das empresas de proteínas, o movimento é interpretado como resposta a um conjunto de fatores simultâneos, que envolvem tanto a dinâmica de oferta de gado no Brasil quanto o cenário internacional de produção de carne.
O Itaú BBA avalia que a reprecificação levou os CRAs de Minerva (BEEF3), BRF e MBRF Global Foods Company (MBRF3) a níveis de yield considerados elevados dentro do universo de emissores do agronegócio, em linha com a percepção de risco mais cautelosa do mercado.
Ciclo do gado pressiona margens e afeta estrutura de custos
Um dos principais vetores por trás da alta das taxas é a mudança no ciclo pecuário no Brasil. Após um período de expansão do rebanho, o país entrou em uma fase de oferta mais restrita de animais para abate, o que tende a pressionar o custo da matéria-prima dos frigoríficos.
Esse movimento reduz a disponibilidade de gado e eleva o preço de aquisição, comprimindo margens operacionais ao longo da cadeia de proteína bovina. O efeito é amplificado por um cenário semelhante nos Estados Unidos, onde o rebanho bovino ainda se encontra próximo de mínimas históricas do ciclo, com expectativa de recuperação apenas a partir de 2028.
A combinação desses fatores gera um ambiente de menor previsibilidade de custos para as companhias do setor, o que se reflete diretamente na precificação dos instrumentos de dívida emitidos no mercado local.
Resultados recentes mostram pressão sobre margens e EBITDA
Os efeitos do ciclo mais apertado de oferta já aparecem nos resultados operacionais das principais companhias do setor no primeiro trimestre de 2026.
A JBS (BDR: JBS32) registrou EBITDA com queda aproximada de 30% na comparação anual, apesar de receita recorde de US$ 21,6 bilhões. A margem recuou de 7,8% para 5,2%, evidenciando compressão significativa de rentabilidade.
A MBRF Global Foods Company (MBRF3) reportou EBITDA ajustado de R$ 3,1 bilhões, queda de 3,2% na base anual, com margem de 7,8%. Já a Minerva (BEEF3) apresentou desempenho operacional positivo, com alta de 16,2% no EBITDA, totalizando R$ 1,118 bilhão, embora também tenha registrado recuo de margens para 8,3%.
O conjunto dos resultados reforça a leitura de que, apesar de desempenhos pontuais distintos entre companhias, o setor como um todo enfrenta pressão estrutural sobre custos e rentabilidade.
China e União Europeia adicionam pressão comercial ao setor
Além do ciclo pecuário, fatores externos ampliam a percepção de risco para exportadores brasileiros de proteína.
A política comercial da China introduziu uma cota de importação de carne bovina equivalente a 65% do volume exportado pelo Brasil em 2025. Até março, cerca de 43% dessa cota já havia sido utilizada, o que levanta a possibilidade de esgotamento ainda no terceiro trimestre, segundo estimativas do Itaú BBA.
Esse risco é relevante porque a China é um dos principais destinos da carne bovina brasileira, e qualquer restrição adicional pode afetar diretamente o equilíbrio de oferta e demanda no mercado doméstico.
Na União Europeia, outro fator de atenção envolve exigências regulatórias relacionadas ao uso de antimicrobianos na produção animal. O bloco europeu estabeleceu prazo até setembro de 2026 para que o Brasil comprove conformidade com as regras, sob risco de possíveis restrições adicionais às exportações.
Liquidez sólida atenua risco financeiro imediato das companhias
Apesar do ambiente mais desafiador, o Itaú BBA destaca que as empresas do setor analisadas mantêm posições de liquidez consideradas sólidas e estruturas de dívida bem distribuídas ao longo do tempo.
Esse perfil reduz o risco de pressão financeira imediata, mesmo em um cenário de compressão de margens e volatilidade operacional. A gestão de vencimentos e o acesso ao mercado de capitais seguem como fatores de mitigação relevantes para Minerva (BEEF3), BRF e MBRF Global Foods Company (MBRF3).
Ainda assim, a reprecificação dos CRAs indica que o mercado passou a incorporar um cenário de maior seletividade no crédito do agronegócio, especialmente em setores mais expostos a ciclos biológicos e choques de oferta.
Custos mais baixos no frango contrastam com pressão na carne bovina
Dentro do setor de proteínas, o segmento de aves apresenta dinâmica mais favorável em comparação à carne bovina. A queda de cerca de 15% no preço do milho e de aproximadamente 10% no farelo de soja ao longo de 2025 contribuiu para aliviar custos de produção.
Além disso, a demanda externa por frango permaneceu robusta, com o Brasil alcançando exportação recorde de 4,8 milhões de toneladas em 2025. Esse desempenho ajuda a sustentar margens no segmento avícola, criando um contraste relevante dentro do próprio setor de proteínas.
A divergência entre ciclos de diferentes proteínas reforça a heterogeneidade do setor e explica parte da dispersão observada nos spreads dos instrumentos de crédito associados às companhias.
Reprecificação de crédito reforça cautela no mercado de proteínas
A abertura dos spreads e a consequente elevação das taxas dos CRAs de MBRF Global Foods Company (MBRF3), Minerva (BEEF3) e BRF refletem um ambiente de maior cautela no mercado de crédito ligado ao agronegócio.
O movimento combina fatores cíclicos, como a restrição de oferta de gado, com elementos estruturais e comerciais, incluindo restrições de importação e exigências regulatórias internacionais. No conjunto, esses vetores aumentam a volatilidade das projeções de margem e fluxo de caixa das companhias.
O comportamento recente dos títulos indica que o mercado passou a precificar de forma mais conservadora o risco do setor, em um momento em que o ciclo global de proteínas segue marcado por desequilíbrios entre oferta e demanda.









