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Carla Zambelli pode ser extraditada? Itália julga novo pedido do Brasil por perseguição armada

Ex-deputada foi condenada pelo STF a 5 anos e 3 meses; audiência ocorre após a Itália rejeitar sua entrega no caso da invasão do CNJ.

por Júlia Campos
01/07/2026 às 12h11
em Política
Carla Zambelli Pode Ser Extraditada? Itália Julga Novo Pedido Do Brasil Por Perseguição Armada - Gazeta Mercantil

A Justiça italiana iniciou nesta quarta-feira, 1º de julho de 2026, em Roma, a análise de um novo pedido de extradição de Carla Zambelli (PL-SP) para o Brasil. Desta vez, o processo está relacionado à condenação definitiva da ex-deputada pelo episódio em que perseguiu um homem com uma arma de fogo nas ruas de São Paulo, na véspera do segundo turno das eleições presidenciais de 2022.

Zambelli não compareceu à audiência. Ela responde ao procedimento em liberdade desde maio, quando a Corte Suprema de Cassação da Itália rejeitou sua extradição em outro processo, relacionado à invasão dos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

No caso da perseguição armada, o Supremo Tribunal Federal condenou Zambelli a 5 anos e 3 meses de prisão pelos crimes de porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal com emprego de arma.

O novo julgamento é considerado decisivo porque pode determinar se a ex-parlamentar será entregue ao Brasil para cumprir essa condenação, apesar de ter obtido uma decisão favorável da Justiça italiana no processo anterior.

A análise ocorre depois de o ministro Gilmar Mendes, relator da ação no STF, encaminhar às autoridades italianas garantias sobre o cumprimento da pena, as condições da prisão e o acesso de Zambelli à defesa, à família e à representação diplomática da Itália.

Caso envolve perseguição com arma na véspera da eleição

O episódio ocorreu em 29 de outubro de 2022, um dia antes do segundo turno da eleição presidencial disputada por Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro.

Após uma discussão política no bairro dos Jardins, em São Paulo, Zambelli sacou uma arma e perseguiu o jornalista Luan Araújo pelas ruas da região. Imagens gravadas no local mostraram a então deputada correndo com a pistola na mão.

Araújo entrou em uma lanchonete para tentar se proteger. Zambelli e pessoas que a acompanhavam também entraram no estabelecimento.

A Procuradoria-Geral da República denunciou a parlamentar pelos crimes de porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal com emprego de arma.

Durante o julgamento, a defesa sustentou que Zambelli havia reagido a uma agressão e agido em legítima defesa. A maioria dos ministros do Supremo, no entanto, concluiu que a conduta da parlamentar não estava amparada por essa justificativa.

O STF formou maioria de nove votos a dois pela condenação por porte ilegal de arma. No crime de constrangimento ilegal, o placar foi de dez votos a um.

Além da pena de prisão, a condenação incluiu a perda do porte de arma e o pagamento de indenização por danos morais coletivos.

Condenação chegou ao fim no STF

A condenação pelo episódio da arma tornou-se definitiva depois que o Supremo rejeitou os recursos apresentados pela defesa.

Com o trânsito em julgado, não existem mais recursos ordinários dentro do processo brasileiro capazes de modificar a condenação.

Esse aspecto é importante para o pedido de extradição porque o Brasil não busca o retorno de Zambelli apenas para que ela responda a uma investigação ou aguarde julgamento. A solicitação tem como objetivo permitir o início do cumprimento de uma pena criminal definitiva.

A defesa continua afirmando que a ex-parlamentar é vítima de perseguição política e questiona a validade das decisões tomadas pelo Supremo.

A Justiça italiana deverá avaliar se a condenação e o procedimento brasileiro atendem aos requisitos previstos no tratado de extradição entre Brasil e Itália e nas normas de proteção aos direitos fundamentais.

Gilmar Mendes envia garantias à Itália

O ministro Gilmar Mendes encaminhou à Advocacia-Geral da União um documento com as garantias solicitadas pelas autoridades italianas para a eventual entrega de Zambelli.

Segundo as informações remetidas a Roma, a pena será cumprida na Penitenciária Feminina do Distrito Federal, caso a extradição seja autorizada.

O Brasil também garantiu que Zambelli terá:

  • acesso regular aos advogados;
  • contato e visitas de familiares;
  • atendimento médico;
  • assistência da representação diplomática italiana;
  • acompanhamento das condições de cumprimento da pena;
  • prestação de informações às autoridades italianas pelos canais oficiais.

Gilmar Mendes afirmou que o processo tramitou regularmente no STF e que não foram identificados vícios ou nulidades capazes de impedir a extradição.

O ministro destacou ainda que o julgamento foi realizado pelo Plenário do Supremo, composto pelos 11 integrantes da Corte, e que a condenação ocorreu por ampla maioria.

As garantias enviadas pelo governo brasileiro buscam responder a dúvidas que costumam ser analisadas pela Justiça italiana em processos de extradição, como condições prisionais, acesso à defesa e respeito à integridade física da pessoa extraditada.

Novo pedido é diferente do caso da invasão do CNJ

O processo analisado nesta quarta-feira não é o mesmo que levou Zambelli à prisão na Itália em julho de 2025.

Naquele caso, a ex-deputada havia sido condenada pelo STF a dez anos de prisão por invasão de dispositivo informático e falsidade ideológica.

Segundo a acusação aceita pelo Supremo, Zambelli participou da invasão dos sistemas do CNJ executada pelo hacker Walter Delgatti Neto.

Entre os documentos falsos inseridos no sistema estava um mandado de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes.

O STF concluiu que a operação tinha como objetivo desacreditar o Poder Judiciário e criar a falsa impressão de que Moraes havia determinado a própria prisão.

Depois da condenação, Zambelli deixou o Brasil e seguiu para a Itália, onde também possui cidadania.

Ela foi localizada e detida em Roma após a inclusão de seu nome na lista de procurados internacionais da Interpol.

Justiça italiana rejeitou primeira extradição

Em março de 2026, a Corte de Apelação de Roma autorizou a extradição de Zambelli no caso da invasão do CNJ.

A defesa recorreu à Corte Suprema de Cassação, última instância da Justiça italiana para esse tipo de processo.

Em maio, a Corte de Cassação reverteu a decisão anterior, rejeitou a entrega ao Brasil e determinou que Zambelli fosse colocada em liberdade.

O tribunal italiano levantou dúvidas sobre a imparcialidade objetiva do julgamento brasileiro.

Um dos pontos analisados foi o fato de Alexandre de Moraes ter participado do processo como integrante do colegiado do STF e, ao mesmo tempo, ter sido considerado uma das pessoas atingidas pela inserção do falso mandado de prisão.

A decisão italiana não anulou a condenação brasileira. Ela apenas impediu que aquela sentença específica fosse usada, naquele processo, como fundamento para a extradição.

A condenação de dez anos continua válida no Brasil.

Julgamento da arma tem relatoria e circunstâncias diferentes

O governo brasileiro argumenta que o processo da perseguição armada possui características diferentes do caso do CNJ.

A ação foi relatada por Gilmar Mendes e julgada pelo Plenário do Supremo. Alexandre de Moraes participou da votação, mas não era vítima, alvo ou parte diretamente envolvida nos crimes analisados.

A vítima do constrangimento foi Luan Araújo, perseguido por Zambelli durante o episódio em São Paulo.

O Brasil sustenta que não existe, nesse segundo processo, o mesmo conflito levantado pela Justiça italiana para rejeitar a primeira extradição.

A defesa poderá argumentar que permanecem questionamentos mais amplos sobre o julgamento no STF, o contexto político e as condições para o cumprimento da pena no Brasil.

A decisão italiana dependerá da avaliação concreta dos documentos enviados pelas autoridades brasileiras e dos argumentos apresentados pelos advogados de Zambelli.

Cidadania italiana não impede automaticamente a entrega

Carla Zambelli possui cidadania brasileira e italiana.

A dupla nacionalidade não impede automaticamente a extradição porque Brasil e Itália possuem tratado bilateral que permite a entrega de cidadãos em determinadas circunstâncias.

A Justiça italiana deverá verificar se os fatos que levaram à condenação também correspondem a crimes previstos na legislação local.

Esse requisito é conhecido como dupla incriminação: a conduta precisa ser considerada criminosa nos dois países, ainda que os nomes jurídicos e as penas não sejam idênticos.

Os magistrados também analisam se o pedido tem motivação exclusivamente política, se o processo respeitou o direito de defesa e se existem riscos de tratamento incompatível com os compromissos internacionais assumidos pela Itália.

A simples alegação de perseguição política não é suficiente para impedir uma extradição. A defesa precisa apresentar elementos capazes de demonstrar que o pedido possui finalidade política ou que houve violação grave de garantias fundamentais.

Zambelli responde ao processo em liberdade

Zambelli permaneceu detida na penitenciária feminina de Rebibbia, em Roma, de julho de 2025 até maio de 2026.

A libertação foi determinada depois que a Corte de Cassação rejeitou a primeira extradição.

A ex-deputada deixou o presídio, mas continuou na Itália enquanto o segundo pedido brasileiro permanecia pendente.

Não há informação de que a audiência desta quarta-feira tenha sido acompanhada por uma nova ordem de prisão.

A ausência de Zambelli na sessão não significa, por si só, descumprimento de uma determinação judicial. A participação pessoal depende das regras processuais italianas e das decisões adotadas no caso.

A defesa permanece responsável por representá-la perante a Corte.

Ex-deputada perdeu o mandato após condenação

Zambelli deixou o Brasil ainda como deputada federal, mas perdeu o mandato depois que o STF determinou a vacância do cargo.

A decisão estava vinculada à condenação no processo da invasão do CNJ e à impossibilidade de conciliar o cumprimento da pena em regime fechado com o exercício parlamentar.

A Câmara dos Deputados chegou a rejeitar inicialmente a perda do mandato, mas o Supremo anulou a deliberação e determinou a posse do suplente.

Com isso, Zambelli passou a ser tratada formalmente como ex-deputada.

As duas condenações aplicadas pelo STF somam mais de 15 anos de prisão: dez anos no caso do CNJ e 5 anos e 3 meses pela perseguição armada.

A negativa de extradição no primeiro caso não elimina a possibilidade de entrega com base na segunda condenação.

Decisão pode definir retorno de Zambelli ao Brasil

A Corte italiana poderá autorizar a extradição, rejeitar o pedido ou solicitar documentos e garantias adicionais antes de chegar a uma conclusão definitiva.

Caso a entrega seja autorizada judicialmente, o procedimento ainda poderá depender de etapas administrativas e diplomáticas previstas no tratado bilateral.

Se o pedido for rejeitado, Zambelli continuará em liberdade na Itália, salvo eventual existência de outra decisão judicial ou medida cautelar.

A análise do novo processo é acompanhada com atenção pelo governo brasileiro porque representa a segunda tentativa de obter o retorno da ex-parlamentar.

Para a defesa, o resultado poderá consolidar a permanência de Zambelli na Itália e reforçar os argumentos usados para contestar as condenações brasileiras no exterior.

Até que a Corte italiana divulgue oficialmente sua decisão, o fato confirmado é que o novo pedido de extradição está sob julgamento e se limita à condenação relacionada à perseguição armada ocorrida em 2022.

Fontes e documentos

  • STF condena Carla Zambelli por porte ilegal de arma e constrangimento ilegal — Supremo Tribunal Federal — julgamento da ação penal referente ao episódio de 29 de outubro de 2022 — https://noticias.stf.jus.br/
  • Brasil envia novas garantias à Itália para extradição de Carla Zambelli — ANSA — 24 de junho de 2026 — https://www.ansa.it/amp/sito/notizie/mondo/americalatina/2026/06/24/estradizione-zambelli-il-brasile-invia-nuove-garanzie-allitalia_321cd776-76d4-47e9-ad87-fe516515f891.html
  • Corte de Apelação de Roma autoriza primeira extradição de Zambelli — ANSA — 26 de março de 2026 — https://www.ansa.it/sito/notizie/cronaca/2026/03/26/corte-appello-roma-ok-allestradizione-di-carla-zambelli-in-brasile_f5afa962-fe30-4049-a587-7356555e387c.html
  • Carla Zambelli deixa prisão após rejeição da primeira extradição — ANSA — 23 de maio de 2026 — https://www.ansa.it/sito/notizie/cronaca/2026/05/23/carla-zambelli-esce-dal-carcere-in-italia-ora-ho-una-missione_1d28e076-da74-4fc8-9c83-3b4256c5447a.html
  • STF confirma perda imediata do mandato de Carla Zambelli — Supremo Tribunal Federal — 12 de dezembro de 2025 — https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/stf-confirma-perda-imediata-do-mandato-de-carla-zambelli/

Como apuramos

Esta reportagem foi elaborada a partir das decisões e informações públicas do Supremo Tribunal Federal, das garantias encaminhadas pelo Brasil às autoridades italianas e dos registros divulgados pela imprensa italiana sobre os dois processos de extradição. As condenações referentes à invasão do CNJ e à perseguição armada foram tratadas separadamente para evitar a associação indevida entre os fundamentos jurídicos de cada pedido.

Tags: Carla ZambelliCorte de Cassaçãoextradição de Carla ZambelliGilmar MendesItáliaJustiça italianaLuan Araújoperseguição armadaPolíticaSupremo Tribunal Federal

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