Uma planilha apreendida pela Polícia Federal durante a 5ª fase da Operação Unha e Carne, realizada nesta quinta-feira, traz a menção a um repasse de R$ 3,2 milhões ao ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro, do PL. O valor estaria registrado como doação feita durante uma das campanhas eleitorais de Castro ao governo estadual. O documento foi encontrado na residência de Adilson Oliveira Filho, conhecido como Adilsinho, investigado por ligações com o jogo do bicho e com o comércio ilegal de cigarros.
A operação tem como objetivo aprofundar a apuração sobre a atuação da nova cúpula do jogo do bicho no estado e suas supostas relações
com agentes dos poderes Executivo e Legislativo. Cláudio Castro não foi alvo de mandados de busca, apreensão ou prisão nesta etapa, mas o conteúdo da planilha será analisado pela corporação para verificar a origem, a finalidade e a regularidade dos valores registrados.
Detalhes da operação e dos alvos
A fase desta quinta-feira contou com o cumprimento de mandados de prisão e busca e apreensão em endereços localizados na capital fluminense. Entre os alvos, está o empresário e pré-candidato a deputado federal Márcio Poncio, do Solidariedade, preso em um hotel na Barra da Tijuca. Ele é pai da deputada estadual Sarah Poncio, também filiada ao partido e que concorre à reeleição.
Além disso, foram cumpridos mandados contra o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar, e contra o próprio Adilsinho — ambos já se encontravam detidos em outras fases da investigação. A ação foi desencadeada após o material contábil e as listas de repasses terem sido localizadas durante buscas anteriores, ampliando o escopo das apurações.
Segundo a Polícia Federal, a documentação apreendida traz registros que indicariam a movimentação de valores em supostas doações e contribuições a agentes públicos e candidatos ao longo de diferentes campanhas. A planilha que cita Cláudio Castro é um dos pontos que passam a ser analisados
com detalhe para confirmar se os valores correspondem a operações declaradas, se foram feitos dentro dos limites legais e qual a origem dos recursos.
Registro de repasses e questionamentos legais
Na planilha, o valor de R$ 3,2 milhões aparece associado ao nome de Cláudio Castro, com a indicação de que teria sido destinado à campanha eleitoral para o governo do estado. Conforme a legislação eleitoral, doações de campanha devem ser registradas com identificação da origem, do valor e da destinação, além de obedecerem a tetos estabelecidos pela Justiça Eleitoral.
Qualquer repasse não declarado ou
com origem incompatível com a atividade econômica do doador pode configurar crime eleitoral, lavagem de dinheiro ou corrupção, dependendo da forma como foi realizado. A Polícia Federal deve cruzar as informações da planilha com as prestações de contas apresentadas ao Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro para verificar a existência ou não desses valores.
Até o momento, a defesa de Cláudio Castro não se manifestou oficialmente sobre o conteúdo do documento. A reportagem tenta contato com seus representantes legais para obter esclarecimentos sobre o registro encontrado.
Contexto da investigação Unha e Carne
A Operação Unha e Carne foi iniciada com o objetivo de desmantelar a estrutura de poder do jogo do bicho no Rio de Janeiro e identificar possíveis redes de influência sobre autoridades públicas. Ao longo das fases anteriores, foram levantadas provas sobre a suposta arrecadação de recursos provenientes de atividades ilícitas e sua utilização para financiar campanhas, obter benefícios fiscais ou garantir proteção
política.
Adilsinho, que consta como responsável pela lista apreendida, é apontado pelas investigações como uma das principais lideranças do setor no estado e também como integrante de esquemas de contrabando e comércio irregular de cigarros. Sua prisão ocorreu em etapa anterior, e as buscas realizadas em seus bens e endereços continuam a revelar registros financeiros que ampliam o alcance das apurações.
Impacto político e institucional no estado
A menção ao nome do ex-governador Cláudio Castro em um documento apreendido em investigação contra organizações consideradas ilegais traz repercussão direta no cenário político do Rio de Janeiro. Castro deixou o cargo no início deste ano e já se prepara para disputar novo mandato ou assumir funções de liderança em âmbito estadual e nacional, dentro do partido de oposição.
Mesmo sem ser alvo imediato da ação, a ligação do seu nome com valores que podem estar ligados a atividades ilícitas deve ser analisada com rigor pelos órgãos de controle. Se comprovada a irregularidade, o caso pode gerar consequências jurídicas, além de reflexos sobre a credibilidade da sua atuação política.
Para o Legislativo estadual, a investigação também ganha relevância com o envolvimento de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa. As apurações buscam verificar se houve concessão de benefícios ou favorecimentos a grupos econômicos e organizações criminosas em troca de apoio financeiro ou político.
Regras e limites das doações eleitorais
O caso reacende o debate sobre a fiscalização das doações de campanha no Brasil. A legislação vigente proíbe doações de pessoas jurídicas ou de atividades com origem ilícita, e estabelece que qualquer valor deve ser declarado e comprovado. A Justiça Eleitoral e o Ministério Público Eleitoral têm competência
para analisar essas operações e aplicar penalidades, que vão desde a multa até a cassação de mandatos e a inelegibilidade.
No caso de valores registrados em documentos que não constam nas prestações de contas, a investigação pode aprofundar-se para identificar se houve ocultação de receitas ou uso de recursos para fins diferentes dos declarados. A Polícia Federal deve também avaliar se há provas de que os valores teriam sido oferecidos em troca de atos de ofício, o que caracterizaria corrupção.
Etapas seguintes da apuração
Com o material apreendido nesta quinta-feira, a Polícia Federal deve encaminhar cópias da documentação ao Ministério Público Federal e ao Ministério Público Eleitoral, que acompanham o caso. As autoridades terão acesso aos registros para solicitar dados bancários, conferir declarações de renda e verificar a compatibilidade entre a origem dos recursos e a atividade
econômica de quem os repassou.
Enquanto a investigação segue, os envolvidos mantêm o direito à ampla defesa. A Polícia Federal reforça que as informações contidas na planilha são parte do material coletado e ainda estão em fase de análise, não configurando, por si só, provas definitivas de qualquer irregularidade.
A continuidade da apuração deve definir o alcance das relações entre as organizações investigadas e agentes públicos, além de trazer maiores detalhes sobre a dinâmica de financiamento de campanhas e a influência de grupos econômicos no cenário político fluminense.