Três dias depois de deixar formalmente o comando do PL Mulher, em meio a uma guerra interna declarada com o senador Flávio Bolsonaro (PL‑RJ) e com a direção nacional da legenda, Michelle Bolsonaro (PL) deu mostras públicas nesta sexta‑feira (3) que não pretende se afastar da cena política nem se submeter passivamente à estratégia montada pelo grupo do enteado. Em publicação feita em seu perfil no Instagram, a ex‑primeira‑dama elogiou a
Política Nacional de Educação Bilíngue de Surdos (PNEBS), lançada na mesma manhã pelo Ministério da Educação do governo Luiz Inácio Lula da Silva, classificando‑a como “sonho realizado” para a comunidade atendida. A mensagem, embora não cite nominalmente o presidente da República nem faça menção direta aos conflitos partidários, funciona como uma declaração de autonomia política e chega no momento em que a própria cúpula do PL tenta, ao mesmo tempo, esvaziar seu poder institucional e preservar seu capital eleitoral como peça central da comunicação partidária nas eleições de 2026.
A publicação foi feita nos Stories da rede social, com registro do evento realizado no auditório do MEC, em Brasília. “Parabenizo a nossa amada comunidade surda pelo lançamento da Política Nacional de Educação Bilíngue de Surdos”, escreveu Michelle Bolsonaro. Em seguida, completou: “É um sonho realizado. Seguimos
trabalhando por um Brasil mais acessível e com oportunidades para todos”. O tom distinto do discurso costumeiro de oposição radical ao governo atual, somado ao momento de desgaste interno, foi lido nos bastidores como uma mensagem cifrada tanto para o enteado quanto para o presidente nacional do partido, Valdemar da Costa Neto: mesmo fora de uma estrutura executiva, ela mantém voz própria, capacidade de pauta e não aceita ser reduzida a coadjuvante na sucessão bolsonarista.
Política do MEC responde a demanda histórica da comunidade surda
A iniciativa lançada oficialmente nesta sexta‑feira pelo Ministério da Educação estrutura regras e diretrizes para assegurar oferta qualificada, acesso, permanência e êxito escolar a estudantes surdos ou com deficiência auditiva, com reconhecimento da Língua Brasileira de Sinais, Libras, como língua de direito e de instrução fundamental. Em nota oficial, a pasta explica que a PNEBS atende a uma reivindicação antiga tanto das organizações da comunidade surda quanto das próprias redes públicas de ensino, ao organizar políticas voltadas aos direitos educacionais e linguísticos desse público, em alinhamento com a legislação vigente.
Os números apresentados pelo ministério, contudo, revelam a dimensão dos desafios ainda existentes. Dados do próprio MEC indicam que atualmente apenas 12% das redes de ensino do país dispõem de materiais pedagógicos adequados e estruturados em Libras. Os recursos de acessibilidade aplicados às avaliações, no formato VídeoLibras, alcançam somente 1,31% do corpo discente atendido. Embora cerca de 51% das escolas mantenham Salas de Recursos Multifuncionais, ainda há carência generalizada de apoio bilíngue especializado dentro das salas de aula regulares. Na ponta da formação docente, somente 2.501 professores em todo o país concluíram formação continuada específica em educação bilíngue de surdos — número que reflete, segundo a pasta, a reduzida oferta de cursos superiores de pedagogia bilíngue nas instituições de ensino brasileiras.
Ao reconhecer publicamente o mérito da medida, Michelle Bolsonaro toca em uma pauta com apelo transversal, distante da polarização costumeira, e ao mesmo tempo demonstra que pode dialogar com temas que não passam exclusivamente pela agenda da cúpula atual do PL. Trata‑se, para articuladores ouvidos pela reportagem, de uma demonstração de força discreta mas inequívoca: mesmo isolada da estrutura executiva do partido, ela continua capaz de produzir mensagens que ressoam para além da base conservadora tradicional.
Partido esvaziou estrutura feminina, mas preserva sua imagem como ativo eleitoral
A contradição central da crise atual no PL salta aos olhos justamente nesse ponto. Nos últimos dias, conforme já revelado pela reportagem, Costa Neto em acordo com Flávio Bolsonaro decidiu extinguir a presidência nacional do PL Mulher logo após a saída de Michelle Bolsonaro, numa manobra calculada para impedir que a vice‑presidente da estrutura, deputada federal Priscila Costa (PL‑CE), assumisse o cargo por direito estatutário. Priscila, aliada histórica da ex‑primeira‑dama, é pré‑candidata ao Senado pelo Ceará com seu apoio, mas enfrenta resistência frontal do senador, que defende outro nome para a mesma vaga. Ao eliminar o cargo, a cúpula eliminou também a principal estrutura de poder autônomo que Michelle mantinha dentro da máquina partidária.
Ainda assim, a direção nacional decidiu manter em circulação peças de propaganda partidária já gravadas com a participação e a imagem da ex‑primeira‑dama, inclusive em apoio a pré‑candidatos em Estados como Distrito Federal, Rondônia e Acre. Internamente, discute‑se ainda como seguir produzindo materiais de comunicação com ela, mesmo após sua saída formal do comando da ala feminina. Até o fechamento desta edição, não houve autorização pública e explícita de Michelle Bolsonaro para que esses conteúdos continuassem sendo veiculados depois do rompimento prático com a engrenagem montada para alavancar a pré‑candidatura de Flávio à Presidência da República.
A situação foi sintetizada de maneira quase literal em uma publicação feita por integrantes da própria ala feminina do partido em rede social: uma foto com lideranças ao lado de uma figura de papelão em tamanho real de Michelle Bolsonaro, com legenda que afirmava haver ali “uma líder de verdade”. A imagem, que circulou horas depois da confirmação da extinção do cargo nacional que ela ocupava, acabou virando metáfora da operação em curso: fora da direção efetiva, privada de poder decisório, mas mantida como símbolo visual e eleitoral à disposição da legenda.
Manobra expõe desigualdade de poder e desgaste interno
Para analistas e para lideranças de dentro da própria legenda que se manifestaram publicamente, como o ex‑secretário de Comunicação da Presidência e ex‑advogado de Jair Bolsonaro Fabio Wajngarten, a sequência de decisões revela com clareza a correlação de forças dentro do campo bolsonarista. Wajngarten classificou a extinção do comando nacional do PL Mulher como um golpe interno e escreveu que a medida é “prova que a bandeira — mulheres — não é relevante para o partido”, colocando interesses de grupo e a disputa por poder interno acima da própria estratégia eleitoral.
O racha, contudo, não ficou restrito às estruturas da ala feminina nem às relações pessoais entre madrasta e enteado. Ao deixar o cargo, Michelle Bolsonaro deixou também aberta uma disputa pela fidelidade das direções estaduais e por parte do eleitorado que ela ajudou a aproximar do partido, especialmente mulheres conservadoras e eleitoras evangélicas. A cúpula, por sua vez, aposta que, sem instância nacional própria, essas lideranças regionais acabarão se alinhando diretamente à presidência nacional e, por consequência, à campanha de Flávio.
O que se vê na prática, contudo, é uma equação difícil de resolver: a mesma cúpula que acatou a decisão de esvaziar sua estrutura e barrar sua sucessora sabe também que a imagem de Michelle Bolsonaro continua sendo um dos ativos de comunicação mais potentes da legenda, com capacidade de chegar a camadas do eleitorado com as quais o senador tem dificuldade histórica. Usá‑la sem lhe dar contrapartida de poder ou voz, contudo, alimenta justamente a narrativa de desrespeito que ela própria já fez circular em círculos próximos.
Crise atinge Flávio no público que sua campanha mais precisa conquistar
O desgaste provocado pela crise pública atinge Flávio Bolsonaro exatamente no ponto em que sua estratégia eleitoral mais necessita de avanço: o voto feminino. Pesquisas recentes, como levantamento do Instituto Atlas Intel que aponta rejeição de 60% do eleitorado ao senador, mostram que sua performance entre mulheres é sistematicamente inferior à registrada entre homens, e que a imagem da ex‑primeira‑dama funcionava até aqui como um importante amortecedor contra essa resistência.
Nos bastidores, a campanha do senador já discute inclusive a possibilidade de escolher uma mulher para compor a chapa como vice‑presidente, na tentativa de conter o estrago provocado pela exposição da briga familiar. A manobra, contudo, esbarra no fato de que a principal liderança feminina com projeção nacional dentro do próprio partido deixou o comando de sua estrutura principal depois de deixar claro que se sentiu desrespeitada pelo próprio enteado e por seus aliados mais próximos. Substituí‑la por uma figura nova, sem a mesma trajetória e o mesmo vínculo com a base, é tarefa considerada de alto risco por estrategistas ouvidos pela reportagem.
A própria tentativa de manter Michelle Bolsonaro como rosto da propaganda, mesmo após desautorizá‑la institucionalmente, é sintomática dessa dificuldade. A cúpula do PL calcula que sua imagem continua valendo votos, especialmente entre mulheres e evangélicos, mas não está disposta a permitir que ela exerça poder real que possa ameaçar a linha de sucessão desenhada em torno de Flávio. O resultado é uma equação instável, na qual cada peça veiculada com sua imagem depois da crise pode ser lida tanto como demonstração de unidade quanto como confirmação de que ela é tratada como peça de marketing e não como liderança com peso decisório.
Calendário eleitoral avança e pressiona acordos internos
Toda a disputa se passa com o calendário eleitoral já em contagem regressiva. Conforme calendário oficial do Tribunal Superior Eleitoral, a propaganda eleitoral gratuita terá início em 16 de agosto, com transmissão em rádio e televisão programada para o período de 28 de agosto a 1º de outubro, já na reta final do primeiro turno. Antes disso, até o final de julho e início de agosto, os partidos realizarão suas convenções nacionais e estaduais para definição de candidaturas e registro formal de chapas. A propaganda partidária regular do primeiro semestre já foi encerrada em 30 de junho, o que significa que cada novo material veiculado agora ganha peso ainda maior na formação da opinião do eleitorado.
Nesse cenário, a posição de Michelle Bolsonaro permanece objeto de especulação e de disputa interna. Até recentemente, seu nome era cotado como candidato ao Senado Federal pelo Distrito Federal, mas a própria candidatura passou a ser tratada como incerta depois da eclosão da crise pública com o enteado. Costa Neto tem feito movimentos públicos e privados no sentido de mantê‑la dentro do tabuleiro eleitoral, ao mesmo tempo em que endossa as manobras que reduzem seu raio de ação dentro da estrutura partidária.
Para a ala próxima à ex‑primeira‑dama, a mensagem desta sexta‑feira funciona também como aviso: ela não deixará a vida política simplesmente porque a cúpula do partido decidiu restringir seu espaço institucional. Ao contrário, demonstra capacidade de escolher suas próprias pautas, de dialogar com temas que extrapolam a polarização diária e de manter voz própria — ainda que isso signifique, em determinados momentos, reconhecer mérito em iniciativas do governo federal atual.
Contradição permanece e alimenta desgaste diante do eleitorado
A situação atual do PL resume‑se numa contradição que se torna mais visível a cada novo episódio: afastou‑se de sua principal liderança feminina o poder de
decisão e de comando, barrou a ascensão de sua principal aliada interna, extinguiu a estrutura que ela presidia e, ainda assim, espera continuar colhendo os frutos eleitorais da imagem que ela construiu ao longo de anos. Para parte do eleitorado independente e mesmo para parte da própria base conservadora, essa equação é vista com desconfiança e alimenta a percepção de que as mulheres na legenda são tratadas como figuração e não como protagonistas com poder de fato.
A decisão de Michelle Bolsonaro de elogiar publicamente uma política do governo Lula, ainda que sem mencioná‑lo nominalmente, ganha sentido completo dentro desse quadro. É uma forma de dizer que não está refém da linha dura imposta pela campanha de Flávio Bolsonaro, que pode transitar por outras agendas e que, se for preciso, pode também abrir novas frentes de disputa política dentro e fora do partido.
Até o fechamento desta edição, a direção nacional do PL não havia se manifestado oficialmente sobre a publicação da ex‑primeira‑dama nem apresentado qualquer definição pública sobre até quando e em quais condições continuará veiculando peças com sua imagem. A assessoria do senador Flávio Bolsonaro também não se pronunciou sobre o novo episódio. O que se sabe, por enquanto, é que a guerra interna que começou por disputa de poder interno e de candidaturas no Ceará já ganhou contornos nacionais, e cada movimento público de um lado ou do outro ganha peso direto na corrida eleitoral de 2026.